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Beagá, 21 de abril de 2003 d.C.
 
Por Indiegesto
 

Caramba, o Lúcio Ribeiro quebrou minhas pernas. Eu queria complementar o texto do Henry em que ele respondia os e-mails de dois leitores (Rafael e Anderson), contando minha relação com o rock dos anos 80 (principalmente o nacional) e tudo mais. Faça o seguinte, leia sua coluna na parte em que ele fala sobre sua vitrola e seus primos. E ai, já leu? Beleza, vamos continuar.

Minha história é contrária à do Lúcio Ribeiro. Enquanto ele tinha primos que o entupiam de metal e acabou encontrando seu "caminho" no rock inglês, eu era entupido pelo rock inglês e pelo rock nacional derivado do mesmo (leia-se Legião etc.) e encontrei minha salvação no metal e adjacências.

Graças a um vizinho, tive acesso à discografia do Black Sabbath, Queen, Ramones, Deep Purple, Metallica (na época, era em vinil pirata cuja capa era branca e era vendido na galeria) e demais clássicos, que me renderam um bocado de coletâneas em fitas Basf que eu levava para cima e para baixo (algumas das quais guardo até hoje). O skate me fez descobrir Suicidal Tendencies, Dead Kennedys, DRI e amigos metaleiros da escola me apresentaram a podreiras como Benediction, Samael etc. Os anos foram passando e procurei absorver ao máximo o que rolava em minha volta. Com o grunge, pude presenciar in loco o nascimento e a morte de um "movimento", já que, até então, eu só estava pegando o bonde andando em relação a tudo o que escutava.

Por isso, acho que o rock brasileiro dos anos 80 teve muito mais significado para os meus irmãos mais velhos, nunca tive o hábito de "curtir fossa" com determinada banda/música e sempre tive trilha sonora para me levantar nessas horas. Vai ver que esse é o motivo da única banda que eu realmente gostava daquela época ser o Camisa de Vênus, afinal o escracho e palavreado sujo de Marcelo Nova sempre foram um antídoto às letras quilométricas de um Renato Russo - o que para um pré-adolescente era o paraíso, já que eu ainda não tinha problemas de relacionamento, pagar contas e tudo mais. O fã pode até ficar bravo, mas tudo o que eu falei no texto da Legião foi confirmado pelo próprio Renato Russo na reprise de sua entrevista na MTV, semanas atrás.

Reconheço a importância daquela época, a dificuldade de bandas em um país recém saído de uma ditadura etc. Mas agora, bola pra frente. Provavelmente, a falta de objetivo dessa geração pós-redemocratização (a qual me incluo) seja responsável pelo rock sem cérebro que a gente escuta atualmente por aqui, já que mesmo com todas as facilidades que temos há uma falta de idéias absurda. De qualquer modo, sou otimista em relação ao rock brasileiro, pois existem bandas legais pipocando no underground.

Ligando o "esta é sua vida" acima com o fenômeno samba-rock descrito pelo El Jako, lembrei que já ouvia esse rótulo nos idos de minha 7ª, 8ª série, onde colegas que estavam montando um grupo de samba explicavam para o "roqueiro" (no caso, eu) as diferenças do "samba-samba", para o "samba-rock", que consistia na "pegada" e "levada" do cavaquinho e/ou violão, que no caso do samba-rock seria bem mais simples, "quadrada" e "dura", pegada essa introduzida pelo então Jorge Ben.

Mas o fenômeno samba-rock é curioso, já que aqui em São Paulo popularizou-se junto com os bailes black em casas para a playboyzada. Se por um lado é bom, já que os DJs das principais noites black daqui são gente "do movimento" das antigas (o que prova que a legitimidade do negócio não está sendo roubada), por outro fica aquele negócio "para gringo ver", uma negritude que é linda dentro dessas casas, mas que será temida lá fora pelas mesmas meninas saradas de academia que se derretem pelos caras lá dentro. Fica uma impressão de inclusão social somente no sentido "coluna social" do negócio (o que se aplica para alguns rappers badalados).

É parecido com a febre do forró universitário que tomou a cidade tempos atrás. Onde "gente bonita" se sente mais brasileira dançando e se divertindo com música nordestina, mas longe dos "baianos" (termo similar ao "paraíba" usado no RJ). Ah, nada como o cinismo de nossa classe média alta...

Sem esquecer de responder o leitor Anderson sobre sua descrença com a música: acho que você está entendendo errado nossa proposta, pois caso não gostássemos de nada, não existiria a sessão "Corra Atrás!" em que indicamos CDs para a galera, isso sem contar que todo abacaxeiro acaba dando uma dica sobre o que anda ouvindo, lendo etc. Quanto à música ser relegada a marketing, acho que a era dos seresteiros e trovadores talvez seja a única época cujo marketing e picaretagens de indústria não existiam, afinal eles não tinham material para vender.

Dizem que até os Beatles explodiram devido à picaretagem. Segundo boatos, se o Brian Epstein não tivesse comprado 10.000 cópias de Love Me Do para faze-los figurarem no top 20 inglês, a banda provavelmente não passaria daquilo. A sorte da humanidade é que a banda possuía três gênios e um cara lá que tocava bateria, senão...

Não encano tanto com marketing, o problema mesmo é quando O ARTISTA "compra" seu próprio marketing acreditando em tudo aquilo que é dito. É aí que a gente entra, para colocar uns pingos nos is.

Putz... será que dá tempo para umas notícias? Lá vão:

Música nova do Sepultura na área. Pode baixar a música "Mind War" agora. Demorou.

Música do Mars Volta (minha banda "nova" preferida deste ano) você pode baixar aqui. Para quem não sabe, o Mars Volta conta com o vocalista e o guitarrista do At The Drive In.

"Show me how to live" será o novo single do Audioslave. TEM QUE SER "WHAT YOU ARE", CARÁCOLES!!!!

Quer ver o clipe novo do Marylin Manson? Então clique aqui.

Sabe quem voltou? The Presidents of United States of America. Como se já não bastasse um para atazanar a gente.

Aprendiz é o nome do novo disco do Guilherme Arantes. Não gostei do nome já que, para fazer músicas irritantes, ele é profissional.

Eu aqui pensando que esse CD novo do Renato Russo era o máximo que poderiam chegar em termos de picaretagem, eis que me lançam Tributo a Ayrton Senna.

Última semana da promoção do filme 24 Hour Party People. Leva uma fita que conta a história do nascimento do britpop quem responder à pergunta que não quer calar: o que você faria se conseguisse R$ 1.424.374 para gravar um disco com o Carlinhos Brown?

 
Indiegesto é correspondente do ABACAXI ATÔMICO na terra da Dona Marta. E-mail: indiegesto@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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