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Beagá, 09 de maio de 2005 d.C.
 
Guia básico do colunismo rasteiro
Por John Gracinha
 

Dessa vez, foi por falta de tempo, juro. Não rolou de pensar em nada muito legal pra escrever aqui, então, resolvi bolar uma espécie de guia pra quem, como eu, quiser se meter nesse lance de coluna e dar pitaco em praticamente qualquer bosta. Parece fácil, e é.

É meio que uma espécie de “10 Mandamentos do Colunismo Não-Mala”. Confesso que é também uma tentativa de deixar alguém incomodado e, até parece, ver se rola melhora nas coisas que eu leio ou vou ler por aí.

Basicamente, são issos:

1) Ego zero
Parece besta, mas a maioria dos chamados colunistas “alternativos”, leia-se de música ou alguma outra coisa, tende a se achar o último oásis do Atacama. Na minha humilde visão, a real é que todo mundo se torna um saco com o tempo, e que tudo que uma pessoa faz bem, outras duas dúzias fazem tão bem quanto ou melhor. Nesse sentido, um negócio que previne o desgaste é evitar dar às suas opiniões um ar de sentido de axioma. Se você não consegue ser humilde, pelo menos finja que é e evite focar o texto apenas na sua visão do mundo, senão soa arrogante. Pensando bem, esse conselho vale tanto pra aspirantes a colunista quanto a letristas de rap.

2) Use a crítica
O hypado de hoje é aquele que vai ter meia dúzia de detratores acusando-o de arrombamento amanhã. O ideal é estar sempre aberto ao que todo mundo tem a dizer, por mais que soe como a maior bobagem do mundo. Até porque, se soar como asneira, você já perdeu seu tempo mesmo, tente incorporar/assimilar aquilo como maneira de evoluir. Não tenho visto gente que recebe críticas com acidez durar muito sem sofrer ataques ao longo do percurso.

3) Fé no bagulho
Se você acredita naquilo que escreve, não deve haver muito problema em bancar as suas opiniões. Pode parecer que bate de frente com o primeiro mandamento, mas se você for pensar que tudo que você vai escrever pode ser contestado, aí é que não sai porra alguma mesmo. Até agora, ficou assim: escreva a bagaça na humildade, mas com convicção e tente aprender algo com eventuais críticas. Soa como palestra motivacional de processados por difamação, mas aplicado em um texto prático fica menos piegas.

4) Argumente
Não acho que seja preciso elaborar muito a esse respeito. Para qualquer coisa que se fala/escreve sobriamente (bêbado não vale), é preciso sustentar o argumento com fatos, ou coisas parecidas que corroborem o que você fala. Do contrário, você é um cara que tem muitos palpites e atira balões de ensaio pra tudo quanto é lado, mas não crava porra alguma. Pensando bem, talvez você arrume até um emprego em algum jornalão por conta disso.

5) Contextualize
Esse meio que funciona como complemento do item anterior. Não presuma que o leitor sabe do que você está falando, é sempre legal colocar o maior número de links e opções possível pro cara ir atrás daquilo. Até por uma questão de agregar valor ao bagulho: se o que você recomenda é tão interessante, o cara vai querer conferir com os próprios olhos qual é o lance. Não se trata de presumir que o leitor é burro, mas sim de trabalhar com a hipótese de que nem todo mundo sabe das mesmas coisas que você.

6) Varie
Se por um lado tem gente que adora e até espera que um colunista fale sobre determinado acontecimento, eu acho meio chato um colunista que só escreve sobre um assunto e não foge do tema. Sei lá, aí é a minha opinião. Não digo que todos devam ser como o Cajabis, que escreve ensaios sobre Esporte, Internacional e Cinema, mas puxar coisas de outras áreas pro seu espaço, como uma metáfora futebolística num texto sobre música ou uma analogia com determinada situação para explicar outra totalmente diferente, é sempre legal pra quebrar um pouco o modelo.

7) Surrupie
Tem gente que tem impedimentos em citar idéias alheias pra argumentar alguma coisa. Acho uma preocupação monga. Se a política admite que um grupo de pessoas pense de maneira semelhante – do contrário, não existiriam os partidos -, por que é que os colunistas não podem ir com o que alguém fala? O que eu noto que rola e que acho feio é quando alguém se apropria do conceito de outro sem dar crédito ao pai da idéia. Aí é roça, e queima bastante o filme se for descoberto. Portanto, não tenha vergonha de citar quem quer que seja – a menos que ele seja o Mainardi ou o Jabor -, mas dê sempre o crédito devido, se possível com um link pro texto original ou a data e veículo da publicação.

8) Evite ataques pessoais
Isso soa como discurso de mãe. Transformar o espaço em lugar pra desancamento de desafetos é no mínimo imaturo. Há quem faça disso uma profissão, e até aí pau no c* dessa gente, mas esse tipo de fórmula se esgota no longo prazo. Uma das brigas mais feias que eu já vi foi quando o Jânio de Freitas escreveu algo sobre um coquetel do Lula com convidados seletos, ou algo do tipo, e o Kennedy Alencar não só vestiu a carapuça como espinafrou o Jânio na coluna dele (K.A.), dizendo que o cara se achava no direito de apontar o dedo, e tudo mais. Esse tipo de coisa até dá ibope, mas se se pára pra pensar, é mais o mesmo tipo de curiosidade mórbida que se tem ao assistir o paredão do Big Brother ou quando se estica o pescoço pra ver uma vítima de acidente de carro.

9) Mande o lugar-comum à PQP
Não significa que você precisa ter a visão mais idiossincrática do mundo sobre tudo, mas tente apontar algo que ninguém ainda se ligou e você acha relevante sobre determinado assunto. Nem sempre dá, é verdade, mas com o esforço vem a prática. Você pode até não fazer isso, mas se sua coluna for um amontoado de opiniões clichê sobre um assunto X sem novidade alguma, pra que é que alguém vai querer ler ela? Você leria?

10) Feedback
Já disse isso em algum lugar, mas tenho a impressão que não chegou a ser publicado. O único termômetro que você tem para medir se está mandando bem ou mal é o chamado feedback, o contato que o seu leitor faz pra dizer se você despertou o interesse dele pra tal coisa ou se falou uma bosta sem tamanho. Esteja sempre acessível e responda tudo que vier, mas tudo mesmo (maiores detalhes, leia os três primeiros mandamentos).

Acho que ficou bem fraco este texto, mas era isso ou nada. Além disso, como eu falei, o tempo está rarefeito esses dias (não que alguém tenha algo com isso... não estou me justificando, só contextualizando).

Só pra constar, e já que eu defendi o roubo intelectual em algum lugar dessa trolha: o conceito deste guia foi chupinhado de uma coluna do Álvaro Pereira Júnior no Folhateen, e a frase onde eu digo que a idéia é melhorar um pouco o que eu leio foi adaptada de uma frase do “Manual do Estagiário de Propaganda”, do Eugênio Mohallem, que costumava ficar na página inicial do Clube de Criação de São Paulo, mas aparentemente foi tirado do ar. Vale a pena ler, o texto do cara é bem bom.

Por ora, é isso. Quem quiser reclamar, esteja à vontade.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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