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Beagá, 14 de fevereiro de 2005 d.C.
 
Os melhores discos de 2004 que ninguém ouviu
Por John Gracinha
 

Paranóia Oeste
Música Para Crianças

O Indiegesto já deve ter bombado eles bastante aqui, mas eu reforço: todo o hype será pouco. Se fosse pra tentar explicar, seria um Fantômas de antes do Mike Patton resolver que o que liga agora são sons ambientes com uns toques de Sepultura do Roots e algo de Melvins e Nomeansno... É complicado descrever essa banda e fácil de achar ela foda. Quem puder trocar a namorada pra ir num show dos caras, faça isso. Sem pestanejar.

Sunn 0)))
White 2

Essa é uma daquelas bandas que você pode mencionar numa roda de amigos inteirados em música pra fazer cara de conteúdo e todo mundo vai achar que você é um cara que manja pra caralho de som. Isto é, a menos que alguém na mesa já tenha escutado a banda. Aí, vai rolar um debate fodido sobre como o som dos caras não é nada, nem mesmo música, e as coisas podem esquentar. Na verdade, o conceito do Sunn é simples: os caras gravam um monte de feedback de guitarra e baixo e tocam uns riffs de vez em quando pra dar a impressão de que algo está acontecendo. É isso. Parece insosso, mas experimente ouvir essa bagaça com fones de ouvido, ou num aparelho de som realmente bom. É meio meditativo-isolacionista, ou talvez seja a resposta praqueles que curtem o som puro dos instrumentos... Ou alguma outra viagem de ácido ruim dessas. O Sunn é uma banda tributo ao Earth, na verdade uma banda que eu particularmente acho um saco por ser muito primária. Aliás, Earth também é uma boa citar numa roda, porque tem uns detalhes bacanas: você sabia que o guitarrista do Earth, Dylan Carlson, foi quem vendeu a arma que estourou os miolos do Kurt Cobain? E que o Kurt Cobain cantou num compacto do Earth que é a única coisa que presta deles chamada Extra-Capsular Extraction? Pois então.

Corrupted
Se Hace por los Suenos Asesinos

Doom!!!!!! O Corrupted é uma versão mais lenta do Melvins sem o mesmo senso de humor. Nesse cd deles, a primeira música é uma balada de 17 minutos que tem uns cinco riffs e é cantada em japonês (!). Odeio desperdiçar o adjetivo desse jeito, mas é realmente muito bonito. É como se fosse na seqüência final da versão do Akira Kurosawa pro Shakespeare (Ran), em que o bobo lá aparece lamentando o azar do rei, que tomou no c* pois a família inteira botou no rabo do cara. Se essa parte tivesse uma trilha sonora (confesso que não me lembro se tem), ela deveria soar como essa música do Corrupted. Depois desse começo melancólico, há outras duas músicas, que são a meio-tempo e quase rápido (pros padrões dessa banda, bem entendido). A banda é do Japão (terra de pessoas com distúrbios por excelência) e as letras das músicas são em espanhol. Sabe-se lá porquê, já que os putos não dão entrevista. Esse disco é uma das coisas mais agonizantes que tem pra se ouvir, altamente recomendado pra quem curte o lento do lento.

Lair of the Minotaur
Carnage

Celtic Frost com Slayer! Esse cd não traz nada de original, mas pelo jeito com que os caras fizeram, ficou foda. É um thrash como o das antigas, mas com uma produção limpa e sem parecer que a bateria foi gravada dentro de um banheiro. E o vocal, que lembra parte Tom Araya e parte Tom Warrior, se for realmente um vocalista e não uma armação encharcada de efeitos, é convincente. As músicas são um arregaço do car****, e isso é uma definição e tanto. Em suma, é um negócio que você já ouviu, mas é tão bem-estruturado que não soa datado. O LotM é um projeto de gente de bandas como Pelican e 7000 Dying Rats, e acabou tendo o mesmo efeito de soar melhor que as bandas oficiais dos caras que o Down do Phil Anselmo tem de soar melhor que o Pantera (ou o Superjoint Ritual ou o que quer que ele esteja envolvido hoje em dia pra tentar faturar em cima).

The Hidden Hand
Mother Teacher Destroyer

Tem o vocal do St. Vitus nessa banda (Wino). O cara não é meu favorito, mas é o de muita gente. O THH é essencialmente doom das antigas, mas não é só isso que rola aqui. Tem uns lances psicodélicos no meio, mas sem descambar pras firulas de um Yes ou algo do gênero. Não tem muito que dizer desse disco, que não parece ter sido lançado em 2004. Ele soa como se tivesse sido feito lá atrás... O clima é das antigas, e o legal dele é justamente isso.

Goatsnake
Trampled Under Hoof

Se o Hidden Hand é um doom das antigas, o Goatsnake é o stoner de agora. Bem entendido, o stoner de agora se o Josh Homme desencanasse de tentar fazer uns lances mais acessíveis com o Queens of the Stone Age e a franquia Desert Sessions e voltasse a fazer um lance stoner mais honesto. As músicas deste EP do Goatsnake (três sons próprios e dois covers, do Saint Vitus e Black Oak Arkansas) têm a mesma velocidade de “Thumb”, do Kyuss, só que sem aquela produção suja. A velocidade e a morbidez de alguns riffs é culpa do (sempre eles) Sabbath. Aposto que o Tony Iommi ligaria pros caras puto e pediria os riffs de volta se alguém mostrasse isso pra ele. Se o mundo fosse justo, o guitarrista do Goatsnake (que também toca no Sunn) tomaria o lugar do Josh Homme. Como não é, a tendência é o Goatsnake passar batido.

Sofa King Killer
Midnight Magic

O melhor cd de stoner do ano!!!! Eu insisto nesse lance de stoner, mas é porque tem saído uns bagulhos realmente foda do estilo. Esse mesmo é um dos melhores discos que eu escutei em anos. É stoner, não tem vocal afetado, as guitarras têm um punch absurdo, os riffs são inspirados por Sabbath e Mississipi e as letras são bem sacadas, como a de “No Other Path to Pursue” (“If only God had made a fourty-eight hour day, I’d probably sit around and do nothing anyway/But if I had you I’d be just fine”). Essa banda não só não pode ser ignorada como merecia ganhar o coração dos indies que se metem a ser stoners e curtem bandas como And You Will Know us By the Trail of the Dead e Nebula. Não que esses dois grupos sejam ruins ou algo do tipo, mas praticamente inexiste competição com o SKK. E vou mandar o Luciorribeirismo sem nenhum pudor pra cravar que foi o disco do ano de 2004 no departamento stoner. E mantenho.

Cardigans
“A Good Horse”

Eu realmente gosto de Cardigans e achei o último cd dos caras, Long Gone Before Daylight, um saco, mas este som é muito supimpa. Soa como se o AC/DC tocasse algo da Shania Twain... Pode parecer insosso, mas funciona. Se este cd fosse um single ou EP e tivesse essa música e versões acústicas, ao vivo ou remixes de “Erase/Rewind” e “My Favorite Game”, ia ser um dos únicos casos em que o clichêzão “menos é mais” não ia parecer jogado.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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