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Beagá, 31 de janeiro de 2005 d.C.
 
Chegando na hora da xepa (e tentando salvar algo)
Por John Gracinha
 

O site que está com o pé na cova resolveu me dar espaço!!! Como presente de grego e oportunidade de escrever de graça a gente não recusa, vamos ver se consigo produzir algo de relevante.

Pra começo de conversa, vamos estabelecer uma coisa: 2004 foi o ano do quê? Não foi o ano do rock retrô, uma vez que a maioria das bandas hypadas que já haviam bombado em 2003 não fizeram tanto estardalhaço no ano passado (até porque é raro um segundo disco de uma banda provocar o mesmo rebuliço). Talvez a resposta pra essa pergunta esteja na grana gasta pelas majors na publicidade das revistonas metidas a gringas (com a Zero definhando, existe alguma outra além da Dynamite que dá ibope pra essas bandas indies?). O grau de interesse e destaque de uma revista sobre determinada banda está diretamente ligado ao valor acertado com o departamento comercial pela gravadora.

Mas por que eu estou elaborando tanto sobre esse assunto se eu sequer conheço ou escutei a vasta maioria das bandas indies? Só esse ano eu fui escutar o tal The Hives - achei chochão, por sinal. Eita banda sem pegada da porra! Acho que o último hype que eu curti foi o Guitar Wolf...e ainda assim, escutei os caras bem tarde e achei mongo o lance de a gravação ser porca de propósito pra soar lo-fi e ganhar pontos de cena com os reais roqueiros cervejeiros.

Um lance que seria fodido se bombasse por aqui é o stoner. Apesar do esforço e do destaque que alguns sites como o Planeta Stoner dão, não notei muito auê em cima do estilo por aqui ainda. Talvez eu não esteja prestando atenção. Em tempo: ouvi uns trechos sortidos do tributo argentino ao Kyuss, Listen Without Distraction e ele parece ser um tributo típico (leia-se: uma merda). Pra que é que existem tributos, afinal?

Mas voltando ao lance do stoner ser popular, era a cara. Aí, o Kid Vinil poderia assediar a Trama pra os caras lançarem toda a discografia de um Boris ou um Pentagram, por exemplo. Quem sabe até - sim, eu vou exagerar agora - rolasse de lançar os catálogos do Melvins ou do Kyuss. Quem sabe até os caras poderiam lançar tudo isso de uma vez e não avisar ninguém, pra encalhar tudo nas prateleiras de seis reais da Neto Discos! Seria bom demais, seria como um sonho. E, como um sonho, não vai se concretizar.

O fenômeno stoner pode ser entendido da seguinte maneira: são roqueiros cervejeiros maconheiros que ouviram Black Sabbath demais e resolveram fazer um som inspirado nessas coisas, Sabbath, álcool/maconha ou o tóxico da sua preferência e, principalmente, groove. Quem imaginaria que dois caras que mais parecem irmãos do Olívio Dutra como o Tony Iommi e o Geezer Butler teriam tanto suingue? O batera e o vocal sempre foram meia boca (na minha humilde percepção), mas o Sabbath sempre importou mais pelo instrumental mesmo. O Tony Iommi pode ter desaprendido a fazer música lá pelo começo da década de 80, mas quase tudo que ele fez antes disso, que não é pouco, é fodão. O problema do Sabbath é o mesmo mal que assolou a maioria das bandas de 70, que foi parar de usar drogas desenfreadamente e resolver fazer coisas mais maduras. Aí fodeu tudo.

Aproveitando o gancho do Sabbath: custei a acreditar, mas existe uma banda que soa como o Trouble com o vocal do Ozzy. Trouble com o vocal idêntico ao do Ozzy. Eu não só juro como provo que essa banda existe: chama-se Hellfueled, tem cd lançado no Brasil pela Hellion (um selo eminentemente de bandas de metal verdadeiro) que o site da Americanas vende. Em tempo, eu paguei cerca de 7 paus nesse cd numa das promoções do site. Quem estiver coçando muito, pague os 22 paus mais o frete lá, mas talvez seja prudente esperar. O lance é legal, mas é meio farofão (como o Trouble era). O vocal imita os mesmos trejeitos do Ozzy, por sinal (“aww-right”, “Oh yeah”), é mais descarado que tudo. Quem não ligar muito pra originalidade, talvez curta. Quem quiser se aventurar, tem uma faixa pra download aqui.

Tem uma outra banda que copia os vocais do Ozzy chamada Witchfinder General, mas os dois cd’s deles só existem lá fora por enquanto - o que significa que, a menos que você seja o El Jako, vai preferir gastar seu dinheiro suado com outras coisas menos exorbitantes. Adianto que o segundo cd dos caras, Death Penalty, é um pé nas bolas, porque eles tentaram copiar o Sabbath acoplando os lances de NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal) da época e ficou uma desgraça. Já o primeiro, Friends of Hell, é bacaninha.

As letras do WG são feias pra caralho, por sinal, como a de “Music” (“When I was a young boy/Rock became my life/Sixteen I married it/Then it was my wife”, e o resto pode ser conferido aqui), mas quem liga pra letras são dois tipos de pessoas: os fãs do Renato Russo e os do Marcelo Camelo. Um real stoner se preocuparia mais em saber se a cerveja no congelador já está boa. Em tempo, o Cathedral, no álbum Carnival bizarre, tem uma música com o nome de “Witchfinder General”. Imagino que seja homenagem, já que alguns discos do Cathedral dessa época têm pouco de doom e muito de stoner rock...mas agora eles voltaram a fazer doom, pelo que eu ouvi do último disco.

E na próxima semana, volto com a lista dos melhores discos do ano passado que ninguém ouviu.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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