Eu não vou fazer lista de melhores
do ano. Os discos que irei comentar são simplesmente os discos
que mais escutei em 2004, e que não são necessariamente
os melhores. Tem até disco ruim na parada. Eu tenho um grave
problema para fazer listas de melhores, pois nunca me lembro do
que foi lançado. E o problema fica pior ainda já que
em 2004 pintou banda ruim pra cacete e fica quase impossível
achar algo “na média” digno de nota. Falar de
um disco ruim como “melhor do ano” só por ser
“menos pior” do que os demais lançados não
é muito a minha praia. Mas pensando bem, vai acabar sendo
isto.
Discos gringos:
Eu realmente não tive paciência de
correr atrás de novidades nesse ano que passou, cheguei a
ficar meses sem escutar nada que tivesse sido lançado após
97, foi deprê.
Amen
Death Before Musick
Essa
banda é algo inacreditável. Eles são ruins,
posers, não trazem nada de novo mas.... EU GOSTO! Death
Before Musick talvez tenha sido o disco que mais escutei em
2004 e em tudo quanto era ocasião: enquanto estava feliz
e eufórico, enquanto estava puto, enquanto estava “corta
pulso”. A histeria e intensidade das músicas contidas
nesse disco (além de alguns refrãos ganchudos) foram
meu combustível durante meses e meses.
Head
Automatica
Tokio Decadence
Projeto
do produtor Dan the Automator (Gorillaz) com o vocalista Daryl Palumbo
(Glassjaw). É bom avisar que o Glassjaw é uma banda
mediana com alguns bons momentos com um vocalista que é de
uma afetação que joga pela janela o que pode ser bem
legal. O disco me surpreendeu duplamente: primeiro, por ser um disco
de pop safado com referências de dub e reggae (chega a lembrar
os bons momentos do Sublime) e faixas deliciosamente dançantes
e grudentas, que parecem saídas de filmes vagabundos dos
anos 70, além de alguns rocks e baladas bem legais. Segundo,
por ver que Daryl Palumbo é um vocalista versátil
e passa longe da afetação irritante de sua banda principal,
além de trazer umas letras sarcásticas e bem humoradas
(o que é inimaginável no Glassjaw).
John
Frusciante
Shadows Collide With People
Fiquei
com os dois pés atrás com esse disco ao ver o cara
do Detonautas falar que escutou e aproveitou bastante coisa dele
nas músicas de sua banda, além de ter chorado ao escutar
uma música no carro. Ouvi isso no dia que adquiri o CD e
fiquei pensando em devolve-lo pra loja sem ao menos escutá-lo.
Mas pô, John Frusciante é o meu herói, não
dá pra ele dar mancada, e lá fui eu escutar o CD.
Que discão! O cara está muito seguro como cantor (e
cantando muito) e com canções maravilhosas de uma
simplicidade que dá raiva. Uma sequência de “Carvel”,
“In Relief” e “Song to Sing When I’m Lonely”
é de dar nó na garganta. Meu disco preferido do ano.
O único defeito são algumas introduções
gigantescas de teclado, mas nada que afete o disco no resultado
geral.
Beastie
Boys
To the 5 Boroughs
Uma versão revisitada de Paul’s Boutique.
Beastie Boys em versão old school “datado” na
medida certa.
The
Icarus Line
Penance Soiree
Segundo disco dessa banda californiana. Se Mono
(CD de estréia lançado em 2000) era mais calcado num
punk rock garageiro regado à cocaína em doses Tony
Montânicas, Penance Soiree é pura ressaca.
Mas uma ressaca barulhenta com decibéis e mais decibéis
de microfonia. Adorei os timbres dos instrumentos, periga você
sentir cheiro de válvula escutando esse CD.
Discos nacionais:
Paranóia
Oeste
Música para Crianças
O Paranóia Oeste é figurinha carimbada neste
espaço e é minha banda underground favorita. Finalmente,
a banda conseguiu captar a intensidade de seus shows com um som
nítido. Esse EP tem 5 músicas e é extremamente
viciante, com letras misturando inglês, português, espanhol,
tupi guarani (!) às vezes numa mesma frase (!!), passando
longe, muito longe, de soar “cabeça”. É
mais ou menos se o Alex de Laranja Mecânica fosse fã
de Sepultura, Melvins e Mr Bungle e resolvesse montar uma banda,
ao invés de sair estourando todo mundo pela rua, escrevendo
suas letras naquele dialeto nadsat.
Hutt
Sessão Descarrego
Depois
de uma demo arrasadora, o Hutt lança seu primeiro full lenght
e se supera. Se o mundo fosse um lugar legal a ponto de fãs
de metal extremo não ligarem porque o cara da banda usa bermuda,
o Hutt seria a maior banda desse nicho no Brasil. Velocidade impressionante,
riffs de guitarra precisos (não tem baixo) e letras carregadas
de sarcasmo, humor negro e com referências a filmes B. Tem
até colaboração do El Jako (!!!).
Black
Alien
Babylon by Gus
O
único disco de rap nacional que me deu vontade de comprar
em 2004. Não me impressionou nas primeiras audições,
mas o disco me cativou aos poucos. Na primeira impressão,
senti falta do estilo “leve e acrobático, como dos
Trapalhões” de Black Alien que eu estava acostumado,
parecia que ele estava se contendo, com uma levada bem simples,
beirando o old school. Mas algumas pérolas como “Primeiro
de Dezembro”, “Umaextrapunkumextrafunk” e “Segunda
Vinda” me saltaram aos olhos logo de cara. Disco muito bem
timbrado, produção impecável.
Ludovic
Servil
A
primeira vez que escutei esse disco senti certo mal estar. Gostei
bastante do instrumental, era rock n’ roll bem feito como
há muito não escutava uma banda brasileira tocar com
um “quê” de pós punk. Mas, e aquelas letras?
Eu me sentia constrangido pelo cara. Como pode alguém se
expor tanto desse jeito? E a questão principal: será
que esse cara não está me enganando? Fui conferir
ao vivo para ver qual é que é. O show foi mediano
devido a problemas técnicos, relevei. A entrega que os fãs
têm para com a banda me chamou a atenção. Fui
em outro show para ver qual é que é, e finalmente
me rendi. O Ludovic só foi “fazer sentido” para
mim após ve-los ao vivo. Virou minha banda em português
favorita, e vi que o cara não estava me enganando.
Não dá para deixar de comentar que
o Ludovic e o Paranóia Oeste fazem os shows mais empolgantes
e intensos por esses lados. É muito difícil ver bandas
que beiram o descontrole (e não raro perdem totalmente o
controle) em seus shows, transpiram sinceridade e dão a impressão
que vão derrubar o palco (quando não derrubam). Os
shows dessas bandas são por aí, te deixam num estado
de tensão e estupefação. Não é
assim que o rock tem que ser?
Quem deu mancada em 2004 (bandas que eu esperava
demais e me decepcionaram):
Helmet
Size Matters
Page
Hamilton é um dos meus heróis, mas deu uma falha terrível.
Size Matters deveria ser a volta do Helmet e provou ser
um arremedo de banda. O baterista Jon Tempesta é ótimo
mas simplesmente não serve para a banda, ele mostrou que
John Stainer sim, é indispensável. Além do
mais, boa parte do que fez o Helmet ser tão único
como os “vocais de Ozzy Osbourne” e os berros toscos
do Page Hamilton não está lá. Nos melhores
momentos, a banda soa como o Silverchair quando imitava o Helmet.
E isso não é nada bom.
Dillinger
Escape Plan
Miss Machine
Irony
is a Dead Scene (que contava com Mike Patton nos vocais) era
legal, mas representava um certo retrocesso musical para essa banda.
Este disco soa como se uma banda cover do Dillinger da época
desse EP resolvesse compor músicas próprias. As músicas
mais bobas com refrões chiclete até enganam, só
que estou falando de um disco do Dillinger Escape Plan, puerra!!!
O que quer dizer música extrema e técnica sem ser
masturbatória.
Obviamente, não vou listar os piores CDs
nacionais, pois o Troféu ABACAXI ATÔMICO está
aí pra isso. Semana que vem vou tentar lembrar os melhores
e piores shows que fui em 2004. Também vou tentar escrever
e entregar o texto a tempo.
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