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Beagá, 17 de janeiro de 2005 d.C.
 
Por Indiegesto
 

Eu não vou fazer lista de melhores do ano. Os discos que irei comentar são simplesmente os discos que mais escutei em 2004, e que não são necessariamente os melhores. Tem até disco ruim na parada. Eu tenho um grave problema para fazer listas de melhores, pois nunca me lembro do que foi lançado. E o problema fica pior ainda já que em 2004 pintou banda ruim pra cacete e fica quase impossível achar algo “na média” digno de nota. Falar de um disco ruim como “melhor do ano” só por ser “menos pior” do que os demais lançados não é muito a minha praia. Mas pensando bem, vai acabar sendo isto.

Discos gringos:

Eu realmente não tive paciência de correr atrás de novidades nesse ano que passou, cheguei a ficar meses sem escutar nada que tivesse sido lançado após 97, foi deprê.

Amen
Death Before Musick

Essa banda é algo inacreditável. Eles são ruins, posers, não trazem nada de novo mas.... EU GOSTO! Death Before Musick talvez tenha sido o disco que mais escutei em 2004 e em tudo quanto era ocasião: enquanto estava feliz e eufórico, enquanto estava puto, enquanto estava “corta pulso”. A histeria e intensidade das músicas contidas nesse disco (além de alguns refrãos ganchudos) foram meu combustível durante meses e meses.

Head Automatica
Tokio Decadence

Projeto do produtor Dan the Automator (Gorillaz) com o vocalista Daryl Palumbo (Glassjaw). É bom avisar que o Glassjaw é uma banda mediana com alguns bons momentos com um vocalista que é de uma afetação que joga pela janela o que pode ser bem legal. O disco me surpreendeu duplamente: primeiro, por ser um disco de pop safado com referências de dub e reggae (chega a lembrar os bons momentos do Sublime) e faixas deliciosamente dançantes e grudentas, que parecem saídas de filmes vagabundos dos anos 70, além de alguns rocks e baladas bem legais. Segundo, por ver que Daryl Palumbo é um vocalista versátil e passa longe da afetação irritante de sua banda principal, além de trazer umas letras sarcásticas e bem humoradas (o que é inimaginável no Glassjaw).

John Frusciante
Shadows Collide With People

Fiquei com os dois pés atrás com esse disco ao ver o cara do Detonautas falar que escutou e aproveitou bastante coisa dele nas músicas de sua banda, além de ter chorado ao escutar uma música no carro. Ouvi isso no dia que adquiri o CD e fiquei pensando em devolve-lo pra loja sem ao menos escutá-lo. Mas pô, John Frusciante é o meu herói, não dá pra ele dar mancada, e lá fui eu escutar o CD. Que discão! O cara está muito seguro como cantor (e cantando muito) e com canções maravilhosas de uma simplicidade que dá raiva. Uma sequência de “Carvel”, “In Relief” e “Song to Sing When I’m Lonely” é de dar nó na garganta. Meu disco preferido do ano. O único defeito são algumas introduções gigantescas de teclado, mas nada que afete o disco no resultado geral.

Beastie Boys
To the 5 Boroughs

Uma versão revisitada de Paul’s Boutique. Beastie Boys em versão old school “datado” na medida certa.

The Icarus Line
Penance Soiree

Segundo disco dessa banda californiana. Se Mono (CD de estréia lançado em 2000) era mais calcado num punk rock garageiro regado à cocaína em doses Tony Montânicas, Penance Soiree é pura ressaca. Mas uma ressaca barulhenta com decibéis e mais decibéis de microfonia. Adorei os timbres dos instrumentos, periga você sentir cheiro de válvula escutando esse CD.

Discos nacionais:

Paranóia Oeste
Música para Crianças

O Paranóia Oeste é figurinha carimbada neste espaço e é minha banda underground favorita. Finalmente, a banda conseguiu captar a intensidade de seus shows com um som nítido. Esse EP tem 5 músicas e é extremamente viciante, com letras misturando inglês, português, espanhol, tupi guarani (!) às vezes numa mesma frase (!!), passando longe, muito longe, de soar “cabeça”. É mais ou menos se o Alex de Laranja Mecânica fosse fã de Sepultura, Melvins e Mr Bungle e resolvesse montar uma banda, ao invés de sair estourando todo mundo pela rua, escrevendo suas letras naquele dialeto nadsat.

Hutt
Sessão Descarrego

Depois de uma demo arrasadora, o Hutt lança seu primeiro full lenght e se supera. Se o mundo fosse um lugar legal a ponto de fãs de metal extremo não ligarem porque o cara da banda usa bermuda, o Hutt seria a maior banda desse nicho no Brasil. Velocidade impressionante, riffs de guitarra precisos (não tem baixo) e letras carregadas de sarcasmo, humor negro e com referências a filmes B. Tem até colaboração do El Jako (!!!).

Black Alien
Babylon by Gus

O único disco de rap nacional que me deu vontade de comprar em 2004. Não me impressionou nas primeiras audições, mas o disco me cativou aos poucos. Na primeira impressão, senti falta do estilo “leve e acrobático, como dos Trapalhões” de Black Alien que eu estava acostumado, parecia que ele estava se contendo, com uma levada bem simples, beirando o old school. Mas algumas pérolas como “Primeiro de Dezembro”, “Umaextrapunkumextrafunk” e “Segunda Vinda” me saltaram aos olhos logo de cara. Disco muito bem timbrado, produção impecável.

Ludovic
Servil

A primeira vez que escutei esse disco senti certo mal estar. Gostei bastante do instrumental, era rock n’ roll bem feito como há muito não escutava uma banda brasileira tocar com um “quê” de pós punk. Mas, e aquelas letras? Eu me sentia constrangido pelo cara. Como pode alguém se expor tanto desse jeito? E a questão principal: será que esse cara não está me enganando? Fui conferir ao vivo para ver qual é que é. O show foi mediano devido a problemas técnicos, relevei. A entrega que os fãs têm para com a banda me chamou a atenção. Fui em outro show para ver qual é que é, e finalmente me rendi. O Ludovic só foi “fazer sentido” para mim após ve-los ao vivo. Virou minha banda em português favorita, e vi que o cara não estava me enganando.

Não dá para deixar de comentar que o Ludovic e o Paranóia Oeste fazem os shows mais empolgantes e intensos por esses lados. É muito difícil ver bandas que beiram o descontrole (e não raro perdem totalmente o controle) em seus shows, transpiram sinceridade e dão a impressão que vão derrubar o palco (quando não derrubam). Os shows dessas bandas são por aí, te deixam num estado de tensão e estupefação. Não é assim que o rock tem que ser?

Quem deu mancada em 2004 (bandas que eu esperava demais e me decepcionaram):

Helmet
Size Matters

Page Hamilton é um dos meus heróis, mas deu uma falha terrível. Size Matters deveria ser a volta do Helmet e provou ser um arremedo de banda. O baterista Jon Tempesta é ótimo mas simplesmente não serve para a banda, ele mostrou que John Stainer sim, é indispensável. Além do mais, boa parte do que fez o Helmet ser tão único como os “vocais de Ozzy Osbourne” e os berros toscos do Page Hamilton não está lá. Nos melhores momentos, a banda soa como o Silverchair quando imitava o Helmet. E isso não é nada bom.

Dillinger Escape Plan
Miss Machine

Irony is a Dead Scene (que contava com Mike Patton nos vocais) era legal, mas representava um certo retrocesso musical para essa banda. Este disco soa como se uma banda cover do Dillinger da época desse EP resolvesse compor músicas próprias. As músicas mais bobas com refrões chiclete até enganam, só que estou falando de um disco do Dillinger Escape Plan, puerra!!! O que quer dizer música extrema e técnica sem ser masturbatória.

Obviamente, não vou listar os piores CDs nacionais, pois o Troféu ABACAXI ATÔMICO está aí pra isso. Semana que vem vou tentar lembrar os melhores e piores shows que fui em 2004. Também vou tentar escrever e entregar o texto a tempo.

 
Indiegesto é correspondente do ABACAXI ATÔMICO na terra da Dona Marta. E-mail: indiegesto@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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