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Beagá, 24 de março de 2003 d.C.
 
Por Indiegesto
 

Salve, abacaxinautas. Sentiram saudades? Não? Entendo. Vamos colocar nossa conversa fiada em dia. Tem pra todo mundo:

Zack de La Rocha finalmente deu sinal de vida. Acesse www.zackdelarocha.com e baixe o MP3 de "March of Death", feita em parceria com o DJ Shadow. É ducarái, tipo um Rage Against The Machine eletrônico.

Ouviram a música nova dos Beastie Boys? Está lá no site oficial deles. Achei que parece sobra do Hello Nasty.

Vi o clipe da banda Squadra, conterrânea dos meus companheiros abacaxeiros. Achei bem ruim. Um abacaxinauta nos mandou um email ano passado pedindo que a gente investigasse uma história cabeluda envolvendo a contratação deles e tal, mas nem é para tanto. Só acho que se eles fossem independentes e andassem com as pessoas certas, aposto que achariam a banda legal, comparariam a vocalista com alguma riot girl gringa e chamariam a banda de "indie fofinha" e demais adjetivos.

Tudo o que eu sempre quis dizer nesse espaço, mas não tive competência, foi dito pelo baixista da banda dipnoi nesta entrevista. Copiei e colei na caruda mesmo. Imprimam, coloquem na parede do quarto e leiam diariamente antes de saírem de casa: "Acho que o underground é muito mais parecido com o mainstream do que a molecada gostaria de acreditar. A música é a última consideração envolvida em qualquer coisa. Uma banda que não tenha escrito sequer uma música é capaz de, na base do lobby, dos amigos certos ou do interesse monetário, conseguir shows e matérias em revistas e sites. O que está gravado num disco é muito menos importante do que todos os fatores que eu citei anteriormente. Criatividade é uma exceção, quase uma aberração, e a curiosidade do público por coisas novas é microscópica. Pra usar um termo idiota (na falta de um mais adequado), hype é 99 por cento do que conta. Pode ser em cima de um artista bom ou ruim, isso é o de menos. Como diz um amigo meu, as pessoas vão acreditar que você é o que você (ou alguém mais influente) disser que é. É uma mistura de nepotismo com cinismo bastante deprimente, e me deixa com dó de quem vive a ilusão do 'underground' ser um antídoto à grande mídia, quando na verdade é um meio onde a imagem vem antes, da mesma forma. É a mesma coisa, só que mais perversa, já que é disfarçada de algo autêntico. Todo mundo sabe que os Backstreet Boys são armação, mas pouca gente sabe de coisas parecidas no meio do rock independente, que estão lá. Não é pra dizer que todo mundo está mentindo o tempo todo, ou que ninguém goste de verdade do que faz e das bandas que divulga, e acho que se aplica mais aos nomes grandes do que aos zines e casas de show pequenos. Mas ainda assim, comparando com a percepção ingênua que o pessoal tem, a diferença é grande, e talvez por isso eu esteja pegando um pouco pesado."

Assisti uma apresentação dos Titãs no Chacrinha em um flashback do programa Ensaio Geral, do Multishow. Não dá para não dar risada ao ver os hoje sérios, sisudos e geniais Arnaldo Antunes e Nando Reis fazendo umas coreografias ri-dí-cu-las. No entanto, aquela palhaçada toda parecia mais natural do que eles parecem hoje. Percebe-se que o rock brasileiro dificilmente será levado a sério, pois sempre foi vendido nesse esquema circense, com os músicos fingindo que estão tocando e fazendo traquinagens. Não que na Europa e EUA não existam(iam) dublagens e presepadas, mas em muitos "programas de auditório" de lá as bandas tocam ao vivo, como tem que ser. O único programa que tratava o músico como músico, não como macaco de circo (Musikaos), subiu no telhado. Dá para ser feliz assim?

Li um panfleto anti-guerra que é demais, saca só um trecho: "Quebrar McDonalds não é a solução. Vamos atingir os EUA aonde eles são mais sensíveis, no bolso. NÃO COMPRE CARROS GM E FORD OU CHRYSLER. OPTE POR CARROS RENAUT OU VOLKSWAGEN POIS SÃO MARCAS FRANCESAS E ALEMÃS, PAÍSES QUE SE OPÕEM À GUERRA...". Genial.

Acho que o Arnaldo Antunes leu esse panfleto, já que o cara fez um jingle para um carro da Renault. Não prestei muita atenção na letra, mas estou certo que o cara fala "goiabada" na música. Vejo que os caras vão vender carros à beça por aqui.

A Abril Music subiu no telhado. Bancar a volta do Ritchie e do Kiko Zambianchi realmente não foi uma boa estratégia. Marcos Maynard, presidente da extinta gravadora, disse à Folha de São Paulo que a "pirataria é o câncer". Bem, espinafrar somente o Maynard é bobagem, mas essa competência com que TODA a indústria tem lidado com a pirataria é como tratar câncer com porangaba.

Cacete, vi o Jota Quest tocando Roberto Carlos de terno e gravata numa atitude totalmente "rock n' roll". Desse jeito, a Bizarre acaba contratando os caras.

Vi o Interpol tocando ao vivo no Saturday Night Live. Sem graça...

Alguém por favor me diga se existe banda mais chata, horrenda, irritante, escrota, nojenta, mala e mela-cueca do que o Dashboard Confessional. Conseguiram desbancar o Creed, o que eu achava até então impossível.

Alguém me explique a utilidade daquele cara de dreadlock do Tihuana. Aliás, o vocalista do Tihuana, que queria ser sósia do Fred Durst, agora quer ser sósia do vocal do Linkin Park. Personalidade é isso aí.

Repararam como o Chorão, do Charlie Brown Jr., se descreve em suas músicas como se ele fosse o Deus do Amor, que sabe tratar as mulheres de maneira única, etc? Será que ele não tem noção que a mulherada só dá para ele porque ele canta no Charlie Brown Jr.? Santa ingenuidade.

Falando em ingenuidade, é engraçado como tem um monte de banda aqui em São Paulo adotando um visual retrô, dizendo querer "recuperar a ingenuidade da jovem guarda" em suas músicas. Vejam bem, ingenuidade não é coisa que se recupera, é a mesma coisa que querer fazer operação para "recuperar a virgindade": perdeu, já era. Agora, vir com esse papinho se fazendo de "cool" é tão babaca e mongo quanto o Caetano Veloso dizer que vai gravar Nirvana para parecer moderno.

Assisti ao clipe dos Aliados 13. O vocalista, que fica dando cambalhota, faz ginástica olímpica - ele aparece no clipe fazendo vários exercícios e tal. Se o Charlie Brown Jr. ficou com a marca registrada de ser a "banda do skate", com o Chorão repetindo "skate na veia dos irmão" à torto e a direito, suspeito que o Aliados 13 quer ter a imagem da "banda dos ginastas". Só não sei se o cara gritar "ginástica olímpica na veia dos irmão" vá surtir algum efeito. Talvez para a família Hipólito, quem sabe.

Ler Arnaldo Jabor demais dá nisso. Alguém viu o discurso antiguerra do Marcos Mion, semana passada? Cômico. Resumindo, ele disse que o fim da civilização é certo após a guerra. Até o anão chorou.

Concordo com o Henry a respeito do oba-oba em cima do Bukowski. E acrescento: é muito engraçado como o pessoal que diz amar o Lester Bangs parece esquecer disso quando um ídolo indie aporta por aqui, tamanho o afã de lamber o saco e depois sair espalhando por aí (seja via blog, seja por matérias).

Vi um trecho de um show do Audioslave na CNN e caramba, o negócio tá muito bom. Só que o Chris Cornell está com uma presença de palco tão empolgante quanto um vaso. Mas quando o cara abre a boca... sai de baixo.

Foi só aparecer uma pá de banda chupinhando a sonoridade pós punk, que a galera "dazantiga" resolveu voltar para pegar sua fatia do bolo. O Liquid Liquid voltou para uma tour. Pensando bem, nada mais justo.

Estão sabendo que o Carlinhos Brown e o João Donato conseguiram do Ministério da Cultura a liberação para a captação de UM MILHÃO, QUATROCENTOS E VINTE E QUATRO MIL, TREZENTOS E SETENTA E QUATRO REAIS para gravar um disco? No final da era FHC, o valor liberado era de R$ 808.478,60, mas foi autorizado o aumento em janeiro. Nosso ministro da cultura tropicalista diz não conhecer esse caso de boiada ao tribalista . Sugiro que a direção do ABACAXI ATÔMICO convide Carlinhos Brown para ser nosso colaborador na Bahia. Quem sabe assim a gente não consegue mais uns trocados? Sua coluna poderia se chamar "Dendê-plutônico".

Uma coisa besta que sempre aparece quando falam do (alto) custo de algum disco é: "Bleach, do Nirvana, custou $600,00". O disco que revolucionou a década e bla-bla-bla foi o Nevermind, não o Bleach. Mudem o disco (literalmente), por favor.

Finalmente assisti ao 24 Hour Party People, filme que retrata a cena de Manchester. Mesmo não sendo o maior fã do mundo das bandas daquele período, o filme me agradou muito. É bem engraçado e não cai naquele esquema de idolatria estúpida como The Doors.

O que Carlinhos Brown e Manchester têm em comum? Nada. Só vão fazer parte da promoção que eu vou lançar aqui, para a gente começar o ano com o pé direito. Valendo uma fita de vídeo com o filme 24 Hour Party People, respondam: o que você faria se conseguisse um patrocínio de R$ 1.424.374 para gravar um disco junto com o Carlinhos Brown? A melhor resposta leva a fita, capriche. Não esqueça de colocar seu endereço completo no email.

Quer ler um texto interessante sobre a tal máfia do dendê? Então clique aqui. Já vou avisando que o texto é bastante parcial, mas dá para ter uma idéia. Não deu para falar todo o papo atrasado, semana que vem eu conto sobre os shows que fui, os que não fui (a maioria), sobre a programação nova da MTV, Beira Mar, Eminem, novidades do mundim da música e mais as besteiras usuais. Inté.

 
Indiegesto é correspondente do ABACAXI ATÔMICO na terra da Dona Marta. E-mail: indiegesto@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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