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Beagá, 15 de março de 2004 d.C.
 
Made in Brazil 2
Por Menina Enciclopédia
 

Vou retomar hoje o assunto da penúltima semana: as novelas. Estou dando um panorama de como elas são repetitivas e não parecem encontrar uma "evolução natural".

Agora vamos para "il primo piatto": Celebridades. Tá difícil engolir a Malu Mader de mocinha indefesa da história. Será que é porque ela tá velha pro papel? Pode ser... Ver uma atriz interpretar depois de tantos anos o mesmo papel de moça ingênua e apaixonada não dá! Os diálogos da personagem dela com a amiga, uma muambeira (só em novela que socialite tem amizade com muambeira pobre...) são o fim da picada: "ah, será que ele me ama? Ah, estou tão feliz! estou ansiosa para revê-lo! Conto os minutos!"

Se a personagem fosse de uma adolescente eu até acreditava, não que uma mulher não possa se apaixonar e falar essas coisas, mas está soando muuuuito falso! Malu não está com gás para a personagem ou o autor/diretor estão forçando a barra!

Mais uma cópia: Gilberto Braga está relembrando um pouco de Vale Tudo, a personagem Laura e seu comparsa parecem muito com a Maria de Fátima e o César (personagens de Glória Pires e Carlos Alberto Ricelli, respectivamente). São os mais sacanas, sem escrúpulos, dão golpe em todo mundo, e tudo aquilo que vocês já sabem...

E a história vai se prendendo aos jogos de intriga desses dois com um destaque para os famosos que apareceram na trama e aquela velha pitada dos velhos folhetins, Alexandre Dumas nunca foi tão repetido...

A abertura é a pior! Chata demais! Parece abertura de seriado dos anos 70 - algo como As Panteras ou Dallas - é muito brega aquelas letras "amor", "intriga", "vingança" etc, muito bobo! E mostrando imagens dos atores principais, muito cafona! A música é do fundo do baú - como toda a trilha da novela, apesar de haver releituras interessantes - mas a abertura não consegue alegrar nem quem ganhou na mega sena... entediante!

O que sempre acaba realmente dando pontinhos a mais no ibope de uma novela é o famigerado "núcleo pobre": os personagens engraçados (ou que se acham engraçados) e as tramas menores se revezam por lá. O autor parece que quis ironizar com o próprio telespectador com essa questão de todo mundo querer ser uma estrela, ser famoso, e colocou nesse cenário personagens bem típicos, os das suburbanas que querem, a qualquer custo, conquistar a mídia; e o quanto o povo se importa com as revistas de fofocas e o que fazem e "pensam" seus ídolos. Mas o público que assiste parece não ter percebido isso - ficou diluído esse tema, mas só não vê quem não quer! - as pobretonas que querem ser "modelo e atriz" viraram o destaque da trama - um reflexo do coletivo? Talvez. Andy Warhol nunca poderia imaginar que sua "previsão" fosse tão ansiada por tantos...

Há algum tempo, entrou no ar a nova minissérie da Globo, Um Só Coração e lá vem mais clichê! Ana Paula Arósio não se cansa de fazer o papel da mocinha que sofre por seu amado durante toda a trama? Sempre terá amores impossíveis e "de época"? Assim como Maria Fernanda Candido, que sempre fará o mesmo papel de musa dos homens, moderna e panfletária?? Não parece que elas andam treinando muito a arte de interpretar (se é que elas sabem o que é isso...), pois só se repetem.

Assim como "o favorito de 10 entre 10 adolescentes", Erik Marmo, que desempenha com maestria seu papel, diz seu texto com muita emoção, numa atuação brilhante: "Yolanda vírgula eu te amo ponto final". Decorou o texto direitinho!

A história deveria contar um pouco da História da cidade de São Paulo: a "indústria cafeeira", os imigrantes, os anarquistas, a elite paulistana e seus artistas ilustres reforçados pela "Semana de Arte Moderna de 22", mas o que se vê é mais uma historinha de amores impossíveis, tiranos, mocinho-herói e mocinhas sonhadoras.

A trama é tão "senso comum" quanto dizer que o Brasil é pentacampeão, que o Seu Madruga morreu ou que a irmã do Lino não vai deixar o Charlie Brown chutar a bola. O final todo mundo já sabe sem precisar assistir.

Como disse na primeira parte: "só pra inglês ver", mas nem isso... é pra brasileiro, que não tá fazendo nada melhor, assistir.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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