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Beagá, 10 de outubro de 2005 d.C.
 
Dia de Shiva
Por Menina Enciclopédia
 

Um dos poucos programas da MTV que podem ser assistidos sem cara feia é o Quebra Cazé. Estou falando no quesito “programa sem música”. Com música, só o Sobe o Som.

O jeito questionador e a rapidez no gatilho para apontar sua metralhadora giratória para as hipocrisias humanas sempre foram as características marcantes de Carlos José Peccini, ou Cazé Peçanha. Ele não tem papas na língua e diz o que pensa, muito bem argumentado em seu programa (tudo bem, eu sou fã dele, não nego).

O Quebra Cazé é uma mistura do que ele sempre fez de melhor no extinto Teleguiado. Para quem não lembra, o Teleguiado era só um programa para que a audiência da MTV pudesse pedir seus clipes ao vivo e, enquanto esperava que o vídeo fosse ao ar, Cazé batia um papo com os telespectadores e daí se mostrava a “pessoa pensante” que existia por trás de um mero VJ.

O programa ganhou uma pauta sobre acontecimentos do dia e até dias específicos, como a quinta-feira, o “Dia Mito da Caverna”, inspirada na teoria do filósofo grego Platão, e a sexta-feira como o “Dia de Shiva”, deusa hindu da destruição, ou do renascimento, algo como “renascer das cinzas algo de bom”, uma espécie de fênix. Cazé sempre pegava algo que de ruim havia acontecido (como os vários casos de corrupção na política) e o “destruía” na sexta-feira.

Cada edição de Quebra Cazé tem um tema específico que ele debaterá nos rápidos 30 minutos de duração - tempo total, com comerciais - do programa. Há enquetes/dinâmicas nas ruas, faculdades, baladas, onde for mais interessante falar sobre o tema escolhido: como o Dia da Pátria, em pleno desfile de 7 de Setembro, Cazé perguntando aos jovens que lá estavam se eles acreditavam no governo ou em bruxas. Ou o programa sobre a mentira, onde o apresentador “abriu” uma CPI com alunos de uma faculdade de São Paulo sobre como eles mentem para pais, mães, professores e namoradas(os).

Um dos programas mais interessantes (de número 13) contou com a participação do diretor de cinema Dennison Ramalho - que fez o curta de terror Amor só de Mãe no melhor estilo “Zé do Caixão”. Tendo Cazé como ator principal, os dois criaram um novo gênero cinematográfico, o “Political Horror”, com o título “A Maldição da Mala”, tendo o empresário do mensalão Marcos Valério como personagem principal do “filme”.

Cazé conversa com o público na rua ou por telefone, no quadro “Telemarketing”. O apresentador demonstra uma aguçada maneira de derrubar argumentos de botequim e desfazer mentiras cristalizadas que a maioria das pessoas compra por aí como verdade absoluta. Pra citar exemplos, num programa ele conversou por telefone com um cara muito mal educado que disse não estar nem aí para a política e para o Brasil e que ele “não é americano para ser patriota” - típica mania do Zé povinho de se safar de qualquer envolvimento com a política. Ou a senhora evangélica que o trata mal no telefone porque tem que ir para a igreja “lovar meu Deus” (como ela disse) e Cazé rebate: “e seu Deus gosta que você maltrate as pessoas no telefone, então?”

As boas sacadas de Cazé, aliadas a um bom trabalho de pauta, fazem do programa um dos mais interessantes não só da MTV como da TV aberta, porque nada fica no lugar depois dele. Cazé realmente quebra tudo: faz seu dia de Shiva uma vez por semana.

Jack Bauer vence de novo: o ator Tatá Guarnieri, que dubla o personagem principal de 24 Horas, ganhou da justiça ação contra a Fox, fato inédito em 50 anos de dublagem no Brasil.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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