Resolvi assistir a esses programas
de calouros, pois já faz algum tempo que eu estou tentando
entender porque as pessoas querem tanto ser famosas, principalmente
cantando: as músicas são ruins, 90% da população
compra cds piratas, os shows são aqueles de rodeio. Qual
é a alegria de se viver disso? Ou de se assistir a isso?
O Programa Raul Gil, que eu conheço desde que me
entendo por gente (e já existia antes, no mesmo formato,
com poucas “modernizações” hoje em dia)
é bastante famoso, sendo o único que sobrou de um
tempo em que existiam calouros do Silvio Santos, do Bolinha e do
Barros de Alencar (nossa, agora vocês vão me achar
uma velha caquética! “velhinha enciclopédia”).
Depois de ganhar, anos e anos a fio, no quesito “Carolina”
(“o tempo passou e só Carolina não viu”)
em todas as premiações dos piores da TV, o programa
conseguiu, há uns três anos, se tornar “cult”
e ter os melhores calouros, coisa séria, todo mundo querendo
ver Raul Gil (oh, salve Raul!). Enfim, conseguiu destaque na mídia
e ares de programa bom. Agora, já voltou ao estado anterior:
calouros bons, outros nem tanto, cantando as mesmas músicas
de sempre, pessoas torcendo pra uns e outros, mas nada que supere
o sucesso de uns anos atrás.
Esse “revival” de calouros que Raul Gil promoveu com
o sucesso especialmente do cantor Robson fez com que essa onda se
espalhasse de novo pela TV. Tanto Gilberto Barros como Ratinho começaram
a trazer calouros em seus programas. A Globo, como resposta, pegou
uma idéia de reality show americana, o American Idol,
e transformou-a no tupiniquim Fama, com cantores que ficam
confinados dentro de uma espécie de conservatório
se aprimorando para ver quem será o vencedor do programa.
A atração se parece mais com um “Big Brother”
musical - agora eles também têm um preparador físico.
Uma coisa que o difere de Raul Gil (além do formato) é
que as músicas são escolhidas pelos produtores, no
“Tapeçaria É...?? Chic!” os calouros escolhem
o que vão cantar.
Falando em repertório, os cantores escolhem cantar as babas
de sempre: as mulheres cantam Whitney Houston, Celine Dion, a-música-insuportável-da-moça-que-tem-câncer-na-novela-do-Vale-a-Pena-Perder-Tempo-de-Novo,
Mariah Carrey; os homens preferem fingir saber italiano e cantam
as pérolas do Eros Ramazzotti, ou qualquer outro considerado
o Daniel da terra da pizza, além de músicas do próprio
Daniel e algo que Kenny G. cantaria se não preferisse ficar
só no sax (o que já é insuportável).
Isso não quer dizer que todo mundo canta em inglês,
muitos fingem na maior cara de pau, e acabam ouvindo puxão
de orelha dos jurados.
Para quem tem que cantar o que o produtor manda, dá-lhe
temas das novelas globais e modismos - essa semana foi “Anos
80”, nem um pouco em voga, né? Assim, o Fama
acaba sendo muito mais forçado que outros programas, e as
pessoas no público com cartazes torcendo para os concorrentes
(como se realmente houvesse uma comoção nacional em
volta do programa - o que a Globo queria muito que acontecesse,
como no original americano) não convencem a ninguém.
Apesar de formatos diferentes, a coisa é a mesma. A disputa
por um lugar ao sol numa gravadora, ter um cd, sair fazendo shows,
participando de programas de tv e rádio para ganhar uns trocados.
Se você vence na Globo, não aparece em outros canais,
mas tem todos os programas da emissora para participar exaustivamente.
Se você participa do programa da Record, pode se apresentar
em outras emissoras também, menos a Globo. São escolhas,
mas cheguei à conclusão de que as pessoas têm
uma ilusão na vida, a de serem famosas. Entretanto, poucos
conseguem manter a fama por algum tempo. Ou alguém aí
é capaz de dizer onde está a primeira vencedora do
Fama, a Wanessa Jackson - algum parentesco com o Michael? E por
onde andarão os cantores que gravaram cds no programa do
Raul Gil? Um deles eu sei: o cantor Russo, que cantava rock no Raul,
faz show na Churrascaria do Sérgio Reis, na Zona Leste de
São Paulo, não sei se em outras filiais, e assim se
leva a vida...
Talvez esses programas “ajudem” que “cantores
da noite” consigam um emprego melhor, mas quase nenhum deles
conseguiu uma carreira sólida, com certa visibilidade na
mídia - nem os cantores de “respaldo” conseguem
isso hoje. Nem sempre os artistas realmente talentosos vão
conseguir se manter nesse turbilhão da fama, como acontece
com tanto cantor que já está aí, com cd gravado
e sem chance de aparecer. A TV manda, e a ordem é a “reciclagem”:
o novo faz as mesmas coisas que o velho, só que com nova
roupagem.
Partindo pra um outro extremo (e que se pode dizer até que
seja um programa de calouros disfarçado), temos o Covernation
de Marcos Mion, na MTV. O show é assim: duas bandas cover
disputam a vitória, o prêmio Emerson Nogueira (pra
quem não sabe, é um cantor que só grava “cover
lights” de músicas famosas). As bandas, na maioria
das vezes, são péssimas, o inglês (que seria
o idioma oficial das bandas originais) não existe, só
o famoso “embromation”. O som que chega até nós
é péssimo, não sei se por culpa dos participantes
serem tão ruins ou da acústica e aparelhagem da MTV.
Ou as duas coisas, quem sabe.
As gincanas promovidas na disputa vão desde cantar no mesmo
compasso que a banda original (enquanto passam o clipe num telão)
a deixar que groupies ensandecidas “peguem” os membros
(ops!, participantes! rss) de cada banda (a banda com mais groupies-ficantes
ganha). O programa é divertido, porque não foi feito
pra ser levado a sério, mas é muita cara de pau uma
banda ir a um programa de tv para tentar “se mostrar”
e só cantar no embromation, em todas as letras, ou mal saber
ler as cifras/tablaturas das músicas (quando isso é
solicitado). O amadorismo aqui é ainda maior, mas pra quê
ser sério se tanta gente faz sucesso por aí, vendendo
muitos cds e também só enganando?
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