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Beagá, 01 de agosto de 2005 d.C.
 
“Vai levar o Troféu Abacaxi” - e nem é o Atômico...
Por Menina Enciclopédia
 

Resolvi assistir a esses programas de calouros, pois já faz algum tempo que eu estou tentando entender porque as pessoas querem tanto ser famosas, principalmente cantando: as músicas são ruins, 90% da população compra cds piratas, os shows são aqueles de rodeio. Qual é a alegria de se viver disso? Ou de se assistir a isso?

O Programa Raul Gil, que eu conheço desde que me entendo por gente (e já existia antes, no mesmo formato, com poucas “modernizações” hoje em dia) é bastante famoso, sendo o único que sobrou de um tempo em que existiam calouros do Silvio Santos, do Bolinha e do Barros de Alencar (nossa, agora vocês vão me achar uma velha caquética! “velhinha enciclopédia”).

Depois de ganhar, anos e anos a fio, no quesito “Carolina” (“o tempo passou e só Carolina não viu”) em todas as premiações dos piores da TV, o programa conseguiu, há uns três anos, se tornar “cult” e ter os melhores calouros, coisa séria, todo mundo querendo ver Raul Gil (oh, salve Raul!). Enfim, conseguiu destaque na mídia e ares de programa bom. Agora, já voltou ao estado anterior: calouros bons, outros nem tanto, cantando as mesmas músicas de sempre, pessoas torcendo pra uns e outros, mas nada que supere o sucesso de uns anos atrás.

Esse “revival” de calouros que Raul Gil promoveu com o sucesso especialmente do cantor Robson fez com que essa onda se espalhasse de novo pela TV. Tanto Gilberto Barros como Ratinho começaram a trazer calouros em seus programas. A Globo, como resposta, pegou uma idéia de reality show americana, o American Idol, e transformou-a no tupiniquim Fama, com cantores que ficam confinados dentro de uma espécie de conservatório se aprimorando para ver quem será o vencedor do programa. A atração se parece mais com um “Big Brother” musical - agora eles também têm um preparador físico. Uma coisa que o difere de Raul Gil (além do formato) é que as músicas são escolhidas pelos produtores, no “Tapeçaria É...?? Chic!” os calouros escolhem o que vão cantar.

Falando em repertório, os cantores escolhem cantar as babas de sempre: as mulheres cantam Whitney Houston, Celine Dion, a-música-insuportável-da-moça-que-tem-câncer-na-novela-do-Vale-a-Pena-Perder-Tempo-de-Novo, Mariah Carrey; os homens preferem fingir saber italiano e cantam as pérolas do Eros Ramazzotti, ou qualquer outro considerado o Daniel da terra da pizza, além de músicas do próprio Daniel e algo que Kenny G. cantaria se não preferisse ficar só no sax (o que já é insuportável). Isso não quer dizer que todo mundo canta em inglês, muitos fingem na maior cara de pau, e acabam ouvindo puxão de orelha dos jurados.

Para quem tem que cantar o que o produtor manda, dá-lhe temas das novelas globais e modismos - essa semana foi “Anos 80”, nem um pouco em voga, né? Assim, o Fama acaba sendo muito mais forçado que outros programas, e as pessoas no público com cartazes torcendo para os concorrentes (como se realmente houvesse uma comoção nacional em volta do programa - o que a Globo queria muito que acontecesse, como no original americano) não convencem a ninguém.

Apesar de formatos diferentes, a coisa é a mesma. A disputa por um lugar ao sol numa gravadora, ter um cd, sair fazendo shows, participando de programas de tv e rádio para ganhar uns trocados. Se você vence na Globo, não aparece em outros canais, mas tem todos os programas da emissora para participar exaustivamente. Se você participa do programa da Record, pode se apresentar em outras emissoras também, menos a Globo. São escolhas, mas cheguei à conclusão de que as pessoas têm uma ilusão na vida, a de serem famosas. Entretanto, poucos conseguem manter a fama por algum tempo. Ou alguém aí é capaz de dizer onde está a primeira vencedora do Fama, a Wanessa Jackson - algum parentesco com o Michael? E por onde andarão os cantores que gravaram cds no programa do Raul Gil? Um deles eu sei: o cantor Russo, que cantava rock no Raul, faz show na Churrascaria do Sérgio Reis, na Zona Leste de São Paulo, não sei se em outras filiais, e assim se leva a vida...

Talvez esses programas “ajudem” que “cantores da noite” consigam um emprego melhor, mas quase nenhum deles conseguiu uma carreira sólida, com certa visibilidade na mídia - nem os cantores de “respaldo” conseguem isso hoje. Nem sempre os artistas realmente talentosos vão conseguir se manter nesse turbilhão da fama, como acontece com tanto cantor que já está aí, com cd gravado e sem chance de aparecer. A TV manda, e a ordem é a “reciclagem”: o novo faz as mesmas coisas que o velho, só que com nova roupagem.

Partindo pra um outro extremo (e que se pode dizer até que seja um programa de calouros disfarçado), temos o Covernation de Marcos Mion, na MTV. O show é assim: duas bandas cover disputam a vitória, o prêmio Emerson Nogueira (pra quem não sabe, é um cantor que só grava “cover lights” de músicas famosas). As bandas, na maioria das vezes, são péssimas, o inglês (que seria o idioma oficial das bandas originais) não existe, só o famoso “embromation”. O som que chega até nós é péssimo, não sei se por culpa dos participantes serem tão ruins ou da acústica e aparelhagem da MTV. Ou as duas coisas, quem sabe.

As gincanas promovidas na disputa vão desde cantar no mesmo compasso que a banda original (enquanto passam o clipe num telão) a deixar que groupies ensandecidas “peguem” os membros (ops!, participantes! rss) de cada banda (a banda com mais groupies-ficantes ganha). O programa é divertido, porque não foi feito pra ser levado a sério, mas é muita cara de pau uma banda ir a um programa de tv para tentar “se mostrar” e só cantar no embromation, em todas as letras, ou mal saber ler as cifras/tablaturas das músicas (quando isso é solicitado). O amadorismo aqui é ainda maior, mas pra quê ser sério se tanta gente faz sucesso por aí, vendendo muitos cds e também só enganando?

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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