As novelas do horário das dezenove
horas na Globo já foram consideradas “clássicas”,
inovadoras (como Que Rei Sou Eu?), as mais engraçadas
e divertidas. Ultimamente, elas têm sido as mais chatas e
insossas. Miguel Falabella tentou trazer de volta esse ar pastelão
ao horário com A Lua me Disse.
O ator/autor fez uma senhora mistureba: Almodóvar, Silvio
de Abreu, novela mexicana, folhetim, tudo para alavancar a audiência
no horário, que anda em baixa graças às tramas
anteriores e à programação das outras emissoras
– que, como a gente sabe, não é lá grandes
coisas, mas dá audiência ver gente morta ensangüentada
pelo chão.
Trajes dos personagens espalhafatosos, muitas mulheres de meia
idade numa mesma casa e uma mãe doente que quer comer os
pratos mais fortes da culinária mundial: a primeira impressão
que dá é que esse cenário é inspirado
em Almodóvar, suas atrizes preferidas, as roupas “cheguei”,
o jeitão “pobre que quer ser chique, mas não
tem noção”, as brigas escandalosas, tudo lembra
alguns filmes do diretor espanhol.
Os nomes das personagens são feios e estranhos, coisas que
só Falabella faz pra você... A atriz que comanda essa
casa das mulheres enlouquecidas é Arlete Salles, Ademilde
(olha o nome!), dona do “Frango com Tudo Dentro”, uma
loja no melhor estilo Casas Bahia. A casa e a vizinhança
garantem algumas risadas para quem gosta de um humor fácil,
rápido e meio de novela mexicana - fazem um drama tão
grande por coisas tão bobas que dá vontade de rir!
Acaba me lembrando um pouco os tempos “áureos”
dos anos 80 com as novelas de Sílvio de Abreu: escândalos
e personagens da pá virada que fazem de tudo para se dar
bem.
A trama central da história é aquela velha que todo
mundo conhece: mocinha ingênua que perdeu a mãe milionária
é objeto de cobiça de pessoas inescrupulosas que querem
tirar proveito da sua riqueza.
Duas coisas que chamam a atenção na história:
1) Discriminação racial: as personagens Jurema e
Anastácia são empregadas, negras, mas não aceitam
seus nomes de batismo e querem ser chamadas de Whitney e Latoya.
Não aceitam bem sua afro-ascendência e querem ser muito
chiques, “pagando pau” para as americanas, mostrando
o quanto as pessoas são influenciadas sempre pelo que é
de fora, que é visto como bom. Falabella soube até
deixá-las com um ar engraçado para não arranjar
briga com movimentos negros. De outro modo, isso daria pano pra
manga – se já não estiver dando problema, e
eu estou por fora disso. Também chama a atenção
o jeito como as personagens ricas tratam as negras que são
suas empregadas, como se fosse suas escravas e com frases e expressões
racistas. Acredito que o autor só quis mostrar que isso infelizmente
ainda é muito comum, um hábito que permanece apenas
mascarado pela sociedade.
2) O famoso alpinismo social a qualquer custo: as mães que
fazem de tudo para que seu filho engravide ou a filha seja engravidada
por pessoas da classe A, uma coisa que se tornou comum nos últimos
tempos - filhos para “remediar” a vida de pobre que
ninguém quer. Algumas pessoas me disseram que acharam chocante
a cena que a mãe ensina a filha a furar com agulha uma camisinha
ainda na embalagem, acham que a novela está “ensinando”
outras pessoas a fazer igual... Não sei, acho que quem quer
dar o golpe já tem seus próprios truques.
Há também alguns personagens que guardam segredos
a serem descobertos e que dão um suspense bobo à história,
além de cenas com toques engraçados, tudo para tentar
abocanhar a audiência do horário. E no mais, a novela
tem uma trama básica: as mocinhas pobres esforçadas
contra as ricas malvadas.
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