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Beagá, 06 de junho de 2005 d.C.
 
Almodóvar + Sílvio de Abreu = Falabella?
Por Menina Enciclopédia
 

As novelas do horário das dezenove horas na Globo já foram consideradas “clássicas”, inovadoras (como Que Rei Sou Eu?), as mais engraçadas e divertidas. Ultimamente, elas têm sido as mais chatas e insossas. Miguel Falabella tentou trazer de volta esse ar pastelão ao horário com A Lua me Disse.

O ator/autor fez uma senhora mistureba: Almodóvar, Silvio de Abreu, novela mexicana, folhetim, tudo para alavancar a audiência no horário, que anda em baixa graças às tramas anteriores e à programação das outras emissoras – que, como a gente sabe, não é lá grandes coisas, mas dá audiência ver gente morta ensangüentada pelo chão.

Trajes dos personagens espalhafatosos, muitas mulheres de meia idade numa mesma casa e uma mãe doente que quer comer os pratos mais fortes da culinária mundial: a primeira impressão que dá é que esse cenário é inspirado em Almodóvar, suas atrizes preferidas, as roupas “cheguei”, o jeitão “pobre que quer ser chique, mas não tem noção”, as brigas escandalosas, tudo lembra alguns filmes do diretor espanhol.

Os nomes das personagens são feios e estranhos, coisas que só Falabella faz pra você... A atriz que comanda essa casa das mulheres enlouquecidas é Arlete Salles, Ademilde (olha o nome!), dona do “Frango com Tudo Dentro”, uma loja no melhor estilo Casas Bahia. A casa e a vizinhança garantem algumas risadas para quem gosta de um humor fácil, rápido e meio de novela mexicana - fazem um drama tão grande por coisas tão bobas que dá vontade de rir! Acaba me lembrando um pouco os tempos “áureos” dos anos 80 com as novelas de Sílvio de Abreu: escândalos e personagens da pá virada que fazem de tudo para se dar bem.

A trama central da história é aquela velha que todo mundo conhece: mocinha ingênua que perdeu a mãe milionária é objeto de cobiça de pessoas inescrupulosas que querem tirar proveito da sua riqueza.

Duas coisas que chamam a atenção na história:

1) Discriminação racial: as personagens Jurema e Anastácia são empregadas, negras, mas não aceitam seus nomes de batismo e querem ser chamadas de Whitney e Latoya. Não aceitam bem sua afro-ascendência e querem ser muito chiques, “pagando pau” para as americanas, mostrando o quanto as pessoas são influenciadas sempre pelo que é de fora, que é visto como bom. Falabella soube até deixá-las com um ar engraçado para não arranjar briga com movimentos negros. De outro modo, isso daria pano pra manga – se já não estiver dando problema, e eu estou por fora disso. Também chama a atenção o jeito como as personagens ricas tratam as negras que são suas empregadas, como se fosse suas escravas e com frases e expressões racistas. Acredito que o autor só quis mostrar que isso infelizmente ainda é muito comum, um hábito que permanece apenas mascarado pela sociedade.

2) O famoso alpinismo social a qualquer custo: as mães que fazem de tudo para que seu filho engravide ou a filha seja engravidada por pessoas da classe A, uma coisa que se tornou comum nos últimos tempos - filhos para “remediar” a vida de pobre que ninguém quer. Algumas pessoas me disseram que acharam chocante a cena que a mãe ensina a filha a furar com agulha uma camisinha ainda na embalagem, acham que a novela está “ensinando” outras pessoas a fazer igual... Não sei, acho que quem quer dar o golpe já tem seus próprios truques.

Há também alguns personagens que guardam segredos a serem descobertos e que dão um suspense bobo à história, além de cenas com toques engraçados, tudo para tentar abocanhar a audiência do horário. E no mais, a novela tem uma trama básica: as mocinhas pobres esforçadas contra as ricas malvadas.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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