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Beagá, 04 de abril de 2005 d.C.
 
Gente Humilde (*)
Por Menina Enciclopédia
 

Infelizmente, não muda nunca: a TV sempre ganha audiência às custas da desgraça, da humildade, da ingenuidade e da bobeira dos outros. Domingo é o dia preferido para se ver isso em doses cavalares em todos os canais: SBT, Globo, Record, Rede TV! e Bandeirantes são as que se revezam nessa arte, ou seja, praticamente todos os canais abertos (tirando a Gazeta e a TV Cultura - nos quesitos VHF e cidade de São Paulo).

Seu almoço (ou depois dele) pode ser regado a muitas lágrimas, quem sabe até você nem consiga terminar de comer se colocar na Record e assistir ao programa do Netinho. O seu “Dia de Princesa” é só uma maneira de mostrar pessoas que praticamente não têm nada (muito menos instrução) e que sonham com um futuro melhor (quase sempre, ser estrela de TV, no caso das tais “princesas”).

Meninas pobres, que mal sabem conversar, muitas vezes precisando de um bom tratamento dentário, são levadas a shoppings, cabeleireiros e se transformam em princesas do povo. Afinal, a maioria que assiste se espelha nestas garotas, se imaginando um dia estar lá, ganhando presentes para ela e para a família, ganham cursos de computação e outras coisas. Prêmios dados por empresas de boa-fé, caridosas, amigas, e que em nenhum momento estão pensando em fazer um merchandisezinho em cima dessas garotas, muito menos que a audiência vai estar segunda-feira lá, no seu escritório, falando que viram o programa. Não, de jeito nenhum! Ninguém ganha qualquer coisa pela propaganda... Imagina!

“Um programa do povo”, poderia dizer Netinho com sua bondade tão grande - sua esposa pode confirmar isso. Ele só quer mostrar o lado duro da periferia, onde viveu, e dar um “ânimo” a esse pessoal, essa “gente humilde, que vontade de chorar”!

Um pouco depois, na Band, temos o programa de Márcia Goldschmidt, Jogo da Vida, que resolveu fazer uma “transformação em massa”. Sim! Reuniram, num único programa, as várias mulheres que fizeram aquele “antes e depois do banho de loja de bom gosto” (que tudo quanto é programa adora fazer). Daí, as moças e senhoras contaram como as suas vidas mudaram depois que deixaram de tingir o cabelo com a cor horrível que usavam antes e de usar roupas no número exato de seus manequins - não dois a menos, como antes, para que suas vestimentas não se parecessem mais com sacos amarrados nas cinturas. Tudo com um fundo musical alegre, vitorioso, por agora serem lindas e conseguirem ter mais segurança, mais autoconfiança - claro, desde que usem sempre a marca de maquiagem e de tintura que ganharam no referido banho de loja.

Dali a pouco começa o Gugu e lá a desgraça da semana sempre será a bola da vez. O ex-entrevistador do PCC irá conversar com a pessoa que foi o personagem principal do fato da semana e distribuirá presentes no mesmo estilo de Netinho, que copiou do loiro do SBT, claro. E então o expectador poderá assistir ao quadro mais fascista (será que posso usar essa palavra?) da TV, “De Volta para a Minha Terra”: um dos membros de uma família nordestina que vive em São Paulo envia uma carta ao programa pedindo para voltar à sua terra de origem. O programa mostra como a pessoa vive aqui (sempre em péssimas condições) e a produção banca a volta da pessoa e da sua família, se esta estiver junto. E assim que os mantimentos que a produção doar a essas pessoas acabarem, então todos voltarão a viver no mesmo miserê de antes.

Claro que a grande massa que dá audiência a esse quadro acredita que, a partir de então, o ex-retirante viverá como num conto de fadas - é um outro dia de princesa. Todas as portas serão abertas a essa pessoa e à sua família... A emoção toma conta do público, que obviamente acredita que tudo foi feito por bela e simples caridade.

Então você muda de canal para o Faustão, na Globo, e se pergunta: que pobre ele vai levar lá? O Gugu já levou! Fausto Silva então surpreende e mostra outra história em seu programa, ou, como neste domingo, os “Big Brothers” e mostra o quanto eles são pessoas humildes, que lutaram muito na vida, que, se ganharam o prêmio, foi por méritos próprios e os elogia milhões de vezes. Mostra depoimentos de familiares para ficar claro o quanto aquela pessoa é batalhadora, como sofreu para chegar lá... Bem, deixa a audiência acreditar que todo mundo é bom, sempre todo mundo é bom na TV.

Se não tem “Big Brother” nem caso que a produção consiga antes do Gugu, ele se beneficia do cast da Globo. Leva algum “ator” ou “atriz” de Malhação ou o novo destaque da novela das nove para contar tudo isso: sofredor, humilde, lutou muito para chegar lá. Muitas vezes é o seguinte: a mãe de fulana da Malhação chorava para conseguir uma bolsa de estudos para a filhinha poder fazer um bom colégio particular e a menina tinha que ir de carro para a escola para os coleguinhas não a discriminarem. Ou o ator que veio estudar teatro no Rio ou em São Paulo, bem longe da família (que mandava o dinheiro para tudo) e sentiu muita saudade nesse período, mas compensou, porque agora é ator da novelinha mais querida!

Ainda tem a Rede TV!, não é? Pois é, a Rede TV! ganha com a babação de marmanjos pelo traseiro de Sabrina Sato, que só tem isso para mostrar (sinceramente, torci muito para o jacaré ter pego aquela buzanfa, se bem que depois provavelmente poderiam refazer a bunda dela com silicone). Ou seja, nada diferente do que Gugu sempre fez em seu programa, mulheres de biquíni para chamar a audiência e encher lingüiça, enquanto o quadro das estrelas não vai ao ar: Repórter Vesgo e Sílvio entrando de bicão em alguma festa e sacaneando os convidados, famosos e “celebridades fogos de artifício” (as que se desmancham logo).

Ainda no quesito humilhação, embora dessa vez a atração não tenha sido exibida no domingo: o programa de Tom Cavalcante na Record da última sexta mostrou um concurso de homens feios. A humilhação total de homens realmente feios, mas pobres, humildes, que devem ter se rebaixado por uma ninharia para fazer esse papel de bobo - como brincar num parque aquático como se fossem “Garota do Fantástico”. Percebia-se que eram apenas pessoas muito simples e que só queriam um minuto de fama também.

É, que vontade de chorar...

(*) Música de Chico Buarque, Garoto e Vinícius de Moraes, 1969.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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