Infelizmente, não muda nunca:
a TV sempre ganha audiência às custas da desgraça,
da humildade, da ingenuidade e da bobeira dos outros. Domingo é
o dia preferido para se ver isso em doses cavalares em todos os
canais: SBT, Globo, Record, Rede TV! e Bandeirantes são as
que se revezam nessa arte, ou seja, praticamente todos os canais
abertos (tirando a Gazeta e a TV Cultura - nos quesitos VHF e cidade
de São Paulo).
Seu almoço (ou depois dele) pode ser regado a muitas lágrimas,
quem sabe até você nem consiga terminar de comer se
colocar na Record e assistir ao programa do Netinho. O seu “Dia
de Princesa” é só uma maneira de mostrar pessoas
que praticamente não têm nada (muito menos instrução)
e que sonham com um futuro melhor (quase sempre, ser estrela de
TV, no caso das tais “princesas”).
Meninas pobres, que mal sabem conversar, muitas vezes precisando
de um bom tratamento dentário, são levadas a shoppings,
cabeleireiros e se transformam em princesas do povo. Afinal, a maioria
que assiste se espelha nestas garotas, se imaginando um dia estar
lá, ganhando presentes para ela e para a família,
ganham cursos de computação e outras coisas. Prêmios
dados por empresas de boa-fé, caridosas, amigas, e que em
nenhum momento estão pensando em fazer um merchandisezinho
em cima dessas garotas, muito menos que a audiência vai estar
segunda-feira lá, no seu escritório, falando que viram
o programa. Não, de jeito nenhum! Ninguém ganha qualquer
coisa pela propaganda... Imagina!
“Um programa do povo”, poderia dizer Netinho com sua
bondade tão grande - sua esposa pode confirmar isso. Ele
só quer mostrar o lado duro da periferia, onde viveu, e dar
um “ânimo” a esse pessoal, essa “gente humilde,
que vontade de chorar”!
Um pouco depois, na Band, temos o programa de Márcia Goldschmidt,
Jogo da Vida, que resolveu fazer uma “transformação
em massa”. Sim! Reuniram, num único programa, as várias
mulheres que fizeram aquele “antes e depois do banho de loja
de bom gosto” (que tudo quanto é programa adora fazer).
Daí, as moças e senhoras contaram como as suas vidas
mudaram depois que deixaram de tingir o cabelo com a cor horrível
que usavam antes e de usar roupas no número exato de seus
manequins - não dois a menos, como antes, para que suas vestimentas
não se parecessem mais com sacos amarrados nas cinturas.
Tudo com um fundo musical alegre, vitorioso, por agora serem lindas
e conseguirem ter mais segurança, mais autoconfiança
- claro, desde que usem sempre a marca de maquiagem e de tintura
que ganharam no referido banho de loja.
Dali a pouco começa o Gugu e lá a desgraça
da semana sempre será a bola da vez. O ex-entrevistador do
PCC irá conversar com a pessoa que foi o personagem principal
do fato da semana e distribuirá presentes no mesmo estilo
de Netinho, que copiou do loiro do SBT, claro. E então o
expectador poderá assistir ao quadro mais fascista (será
que posso usar essa palavra?) da TV, “De Volta para a Minha
Terra”: um dos membros de uma família nordestina que
vive em São Paulo envia uma carta ao programa pedindo para
voltar à sua terra de origem. O programa mostra como a pessoa
vive aqui (sempre em péssimas condições) e
a produção banca a volta da pessoa e da sua família,
se esta estiver junto. E assim que os mantimentos que a produção
doar a essas pessoas acabarem, então todos voltarão
a viver no mesmo miserê de antes.
Claro que a grande massa que dá audiência a esse quadro
acredita que, a partir de então, o ex-retirante viverá
como num conto de fadas - é um outro dia de princesa. Todas
as portas serão abertas a essa pessoa e à sua família...
A emoção toma conta do público, que obviamente
acredita que tudo foi feito por bela e simples caridade.
Então você muda de canal para o Faustão, na
Globo, e se pergunta: que pobre ele vai levar lá? O Gugu
já levou! Fausto Silva então surpreende e mostra outra
história em seu programa, ou, como neste domingo, os “Big
Brothers” e mostra o quanto eles são pessoas humildes,
que lutaram muito na vida, que, se ganharam o prêmio, foi
por méritos próprios e os elogia milhões de
vezes. Mostra depoimentos de familiares para ficar claro o quanto
aquela pessoa é batalhadora, como sofreu para chegar lá...
Bem, deixa a audiência acreditar que todo mundo é bom,
sempre todo mundo é bom na TV.
Se não tem “Big Brother” nem caso que a produção
consiga antes do Gugu, ele se beneficia do cast da Globo. Leva algum
“ator” ou “atriz” de Malhação
ou o novo destaque da novela das nove para contar tudo isso: sofredor,
humilde, lutou muito para chegar lá. Muitas vezes é
o seguinte: a mãe de fulana da Malhação
chorava para conseguir uma bolsa de estudos para a filhinha poder
fazer um bom colégio particular e a menina tinha que ir de
carro para a escola para os coleguinhas não a discriminarem.
Ou o ator que veio estudar teatro no Rio ou em São Paulo,
bem longe da família (que mandava o dinheiro para tudo) e
sentiu muita saudade nesse período, mas compensou, porque
agora é ator da novelinha mais querida!
Ainda tem a Rede TV!, não é? Pois é, a Rede
TV! ganha com a babação de marmanjos pelo traseiro
de Sabrina Sato, que só tem isso para mostrar (sinceramente,
torci muito para o jacaré ter pego aquela buzanfa, se bem
que depois provavelmente poderiam refazer a bunda dela com silicone).
Ou seja, nada diferente do que Gugu sempre fez em seu programa,
mulheres de biquíni para chamar a audiência e encher
lingüiça, enquanto o quadro das estrelas não
vai ao ar: Repórter Vesgo e Sílvio entrando de bicão
em alguma festa e sacaneando os convidados, famosos e “celebridades
fogos de artifício” (as que se desmancham logo).
Ainda no quesito humilhação, embora dessa vez a atração
não tenha sido exibida no domingo: o programa de Tom Cavalcante
na Record da última sexta mostrou um concurso de homens feios.
A humilhação total de homens realmente feios, mas
pobres, humildes, que devem ter se rebaixado por uma ninharia para
fazer esse papel de bobo - como brincar num parque aquático
como se fossem “Garota do Fantástico”. Percebia-se
que eram apenas pessoas muito simples e que só queriam um
minuto de fama também.
É, que vontade de chorar...
(*) Música de Chico Buarque, Garoto e Vinícius de
Moraes, 1969. |