Finalmente, depois de muitos anos,
a Rede Globo resolveu fazer algo que valesse a pena ser assistido:
Hoje é Dia de Maria foi um bom começo de
ano na TV.
A minissérie foi um espetáculo para
os olhos: muitas cores, muita vida, belas interpretações,
bela direção, roteiro e produção de
arte impecáveis. Parece que a emissora resolveu dar uma chance
aos telespectadores que têm cérebro e mostrar (também
aos que não têm) que a TV pode ser mais do que bundas
e conversinha mole.
A história gira em torno da pequena Maria,
garota de algum lugar longínquo do interior do Brasil - e
a mesmo tempo próximo do nosso imaginário cultural
-, que procurava chegar às “franjas do mar”,
buscava algo que ela mesma não sabia o que era, talvez apenas
um desejo de conhecer o mundo, o que havia fora de seu quintal.
A atriz que fazia a personagem na fase infantil
(Carolina Oliveira) deu um banho de interpretação.
Ver alguém tão jovem atuando com tanta maestria é
de fazer a gente se emocionar com a alegria e a tristeza da personagem,
ou manter um sorriso no rosto ao ouvir seu sotaque tão bem
falado, tão natural. E imaginar que não é toda
hora que se vê alguém com talento atuando na TV.
Quanto aos outros atores, não é preciso
falar muito: foram escolhidos a dedo. Interpretações
afinadas e inspiradas de Stenio Garcia, Osmar Prado (que não
cansa de nos surpreender), a própria “Fernandona”
ou até Rodrigo Santoro, que já mostrou que não
é só um rostinho bonito, e Letícia Sabatella,
que esteve bem fazendo Maria na fase adulta. Ainda assim, a Maria
criança roubou a cena. Outros artistas com papéis
menores no programa não podem ser desmerecidos, papéis
pequenos mas com grandes atuações, principalmente
os que viveram as “outras formas do tinhoso”...
Eu destacaria Daniel Oliveira, que pôde finalmente
mostrar seu talento na TV. Seu personagem Quirino, um saltimbanco
apaixonado por Maria (adulta), deu um show: cantou, dançou,
expôs a sua veia circense e comprovou que este ator pode ir
longe! - não sei se na TV, que sempre sufoca grandes atores
com papéis medíocres, mas nos palcos e na telona ele
pode/poderá mostrar até mais do que mostrou nesta
minissérie.
Pode ser que tudo isso também tenha um dedo
do diretor Luis Fernando Carvalho, que todo mundo sabe o quanto
já inovou na TV, trazendo uma linguagem mais cinematográfica
à telinha. Além de seu esmero (ou perfeccionismo)
em relação às atuações, ele costuma
“tirar leite de pedra” ou quase isso... Quem não
se lembra da atuação de Leonardo Vieira como um jovem
coronel do cacau em Renascer? A cena que a esposa do personagem
morre no parto e ele não se conforma é uma das cenas
mais emocionantes que já assisti na televisão.
Além de Luis Fernando, é preciso destacar
o roteirista Luis Alberto de Abreu, que já recebeu prêmios
no cinema pelos roteiros de Kenoma e Narradores de
Javé. Sem esquecer o autor do texto original do qual
foi inspirada a minissérie, Carlos Alberto Soffredini, dramaturgo
(de TV, rádio e cinema) que se destacou por criar seus textos
a partir de pesquisas de outras obras já conhecidas - as
quais ele nunca escondeu serem sua fonte.
Em Hoje... temos como principais fontes
os autores Câmara Cascudo e Silvio Romero, que reuniram em
livros histórias populares do Brasil. Além disso,
Soffredini (morto em 2001) trabalhava com outros temas, entre os
quais festas populares (Festa do Divino), lendas do folclore, contos
de fada, autos, músicas de cantores da “Era do Rádio”
ou mesmo de nossa MPB, cantigas de roda etc.
Ainda gostaria de destacar uma cena: a que o personagem
de Osmar Prado morre e a Morte (também interpretada por ele)
vem buscá-lo, me pareceu uma referência ao filme O
Sétimo Selo, de Ingmar Bergman.
Sobre a parte técnica do programa, a inovação
foi grande, pois o cenário onde foi gravada a série
era em 360º, ou seja, totalmente redondo. Isso deu mais movimento
à história. Todo o cenário foi pintado a mão
e com efeitos que vocês podem saber mais detalhes clicando
aqui
- procurem por “bastidores” e leiam sobre “Domo”
e “Luz de Pintura” e saberão todo o trabalho
artístico que foi realizado.
Ainda quero falar das caracterizações
e figurinos muitos bem detalhados, como dos dois caras que andavam
com uma moto maluca e pareciam dois bonecos de plástico,
ou mesmo o uso de marionetes do grupo de teatro de bonecos Giramundo.
Tudo delicado e bem elaborado, como não se vê na TV
a todo momento - já sei, eu estou repetindo isso toda hora...
Mas é verdade.
Minha impressão foi que, por estar completando
40 anos agora em 2005, a Globo resolveu dar um presente aos telespectadores,
por anos de fidelidade canina, e a ela mesma, mostrando que já
teve fases melhores e que, quando quer, pode fazer programas bem
feitos, sem precisar ficar aí nessa coisa de trancar gente
numa casa e ver o que eles fazem para conseguir o prêmio final.
Realmente, nem todo dia na TV é dia de Maria...
|