Como disse que iria falar das sitcons
brasileiras, depois de duas colunas falando sobre os programas de
humor, aqui está a resenha.
Recebi e-mails parabenizando os dois textos “Humor?”
e, num deles, a leitora Sandra Masterling denomina as sitcons de
“triste-coms”, o que não deixa de ser verdade.
Comecemos dos primórdios: a primeira sitcom
(comédia de situação) de destaque deve ter
sido Família Trapo, protagonizada por Ronald Golias,
na TV Record, nos anos 60. Tudo era feito ao vivo, no palco, numa
mescla de tv com teatro, o público assistia à exibição
tanto de casa como no teatro da Record. Golias vivia o Bronco, um
cara que vivia às custas do cunhado e não fazia nada
o dia todo, só arrumava confusões - peguem algum programa
“baú de recordações” da Record
ou festa de aniversário deles que sempre reprisam (principalmente
o episódio com o Pelé).
Durante anos, outras séries foram criadas
imitando o estilo Família Trapo. A única
que conseguiu se igualar em repercussão foi Sai de Baixo,
da Globo, que rendeu uma excelente audiência nos seus primeiros
anos. Mas e depois, o que aconteceu com a série?
A impressão é que os egos se inflaram
e os atores passaram a tentar aparecer mais que os outros, já
que cada um tinha sua característica e graça: a emprega
desbocada vivida por Cláudia Gimenez; o rico falido Caco
Antibes, de Miguel Falabella, a burra gostosa feita por Marisa Orth
ou o porteiro cara de pau vivido por Tom Cavalcante. Eles davam
um show à parte, viraram manias nacionais, até que
o choque entre egos e a popularidade (aqui eu quero dizer fazer
o programa baixar o nível para alcançar a todos) fizeram
a série desandar e perder sua graça. Claro que, no
decorrer de seis temporadas no ar, a série foi se desgastando
até ser excluída da programação.
No quesito séries em estúdio, a Globo
há algum tempo tenta consolidar a fórmula na sua grade
de programação. A Grande Família que
vemos hoje é um remake da série homônima apresentada
pela emissora do Plim-plim na década de 70. A série
fez muito sucesso na época e assim eles devem ter pensado:
por quê não voltar com ela?
A espinha dorsal da série é a mesma:
pai, mãe, avô, filho, filha e cunhado. Alguns dos primeiros
episódios foram realmente remakes dos episódios dos
anos 70. Depois, a série ganhou novos personagens e passou
a contar com histórias novas. O cotidiano da família
é engraçado, cheio de confusões, mas muitas
vezes algumas situações e cenas já são
bem manjadas e conhecidas de outros programas ou até de filmes
de Hollywood - por exemplo, o episódio em que Beiçola,
o vizinho e dono do bar, se faz passar por sua mãe: isso
é Psicose de Hitchcock ou eu viajei?
Assim como o que ocorre em A Diarista,
que tem situações cômicas vividas pela protagonista,
mas não convence dada a “originalidade” do texto.
Por exemplo: Marineide vai trabalhar na casa de uma família
japonesa e frita os peixes ou comete uma outra gafe que tem diretamente
a ver com a cultura oriental - fórmula gasta para se fazer
rir, riso fácil e rápido para piadas velhas.
Ainda temos na Globo Sob Nova Direção,
que também não tem nada de novo ao mostrar duas balzaquianas
que têm um boteco e querem arrumar um marido (um pra cada
uma), mesmo que uma tenha que passar por cima da outra pra isso.
E como já havia dito no outro texto
sobre humor: Heloisa Perissè... ninguém merece!!!
Tivemos também Os Normais (virou
filme e eu nem perdi meu tempo assistindo), que também se
tornou mania nacional, aclamado como “cool” por toda
a imprensa. Apesar dos primeiros episódios serem até
engraçados, acabou caindo na vulgaridade total: só
falavam e se referiam a sexo a todo momento, pareciam duas crianças
que aprenderam a falar “cocô” e achavam divertido
ficar repetindo, “porque todo mundo acha feio e mamãe
não gosta”!, e isso encheu... Tornou-se bobo e redundante
toda hora você ouvir eles discutirem sobre “pissirica”
(ou seja lá como se escreveria isso) e quem comeu quem repetidas
vezes. O humor azedou, desandou e os personagens se tornaram mais
bobos do que já eram: Vanir, a idiota, e Ruy, o bobo que
pensa que é esperto.
Dessas sitcons, a melhor, na minha opinião,
era Sexo Frágil. A idéia de quatro homens
se passarem por mulher e saber como é estar do outro lado
era bem divertida. A guerra dos sexos vista de um jeito engraçado,
leve e com boas idéias no humor - até que enfim uma
luz! Fora as grandes interpretações dos quatro atores.
Mas na verdade, o que salvou Sexo Frágil (e faltou
às outras séries) foi, simplesmente, o roteiro! Todas
essas sitcons têm a limitação de a história
girar em torno apenas de um problema - aquela velha fórmula
narrativa: uma história que vai bem, aparece um problema
a ser resolvido, soluciona-se o tal problema e fim.
Perde-se o gás rapidamente quando o script
só gira em torno de um personagem, contando uma única
história durante o programa inteiro. Cai-se na mesmice. E
Sexo Frágil não contava uma única
história, daí seu mérito. Cada personagem tinha
sua ação a desenvolver, seu problema a solucionar
e depois contava para os outros no bar.
E esse problema de roteiro não acontecia
somente com as sitcons nacionais. Podemos ver isso também
com as americanas. Veja I Love Lucy (primórdios
das sitcons) e compare com Seinfeld (melhor exemplo, impossível):
as sitcons seguiam esse esquema narrativo até que foram evoluindo
e criando mais situações dentro da trama, cada personagem
tendo seu próprio problema a resolver, e isso dá mais
dinamismo a cada episódio.
Vejam esta
matéria sobre o roteiro de Seinfeld. O script
da série virou até tese nos Estados Unidos. Lembro-me
de ter lido na Folha, na época do final da série,
que seria até tema de uma disciplina numa Faculdade de Cinema
lá na casa do Tio Sam. Todas as histórias de cada
personagem acabam se unindo de alguma forma - coisa que só
Jerry Seinfeld e seu parceiro de roteirização, Larry
David, poderiam ter pensado.
Voltando à sitcom nacional, o que falta é
evolução no roteiro. Já deram passos para isso
em Sexo Frágil, quem sabe outras séries ganham
também mais dinamismo.
Quanto a séries como Meu Cunhado,
no SBT, nem preciso dizer que Ronald Golias faz novamente o Bronco
num texto pobre e em episódios gravados há anos e
guardados sob o pó dos arquivos da emissora pelo dono do
Baú. E Os Aspones, na Globo, é a coisa mais
sem graça que já vi na minha vida! Parece até
filme do Chevy Chase com Dan Aykroyd e John Candy - quer tortura
maior que os três juntos? Bem, o John Candy morreu... Então,
menos um... Até os atores estão péssimos, nem
eles devem ver graça na série. Parecem se arrastar
pra interpretar personagens tão débeis de carisma.
Tem gente que achou genial, porque conhece Brasília,
e já me disseram que as repartições públicas
federais e os ministérios são aquilo ali mesmo. Mas,
e o humor? Eu não vi. Se lá é realmente do
jeito que é retratado pela série, é bem deprimente!
E eu e vocês vamos rir de quê? Ainda mais sabendo que
é o nosso dinheiro que paga os salários daquele povo... |