Ficamos um bom tempo de férias
e vou comentar o que aconteceu na TV durante esse tempo.
Primeiro, eu queria falar sobre aquela prova do
Ensino Médio
em que o tema de redação foi a liberdade de expressão
e os abusos dos meios de comunicação, um grande paradoxo.
Como a maioria dos alunos falou sobre TV e um dos textos era exatamente
sobre os programas “jornalísticos” policiais,
isso, claro, se encaixa aqui na coluna.
O que mais dá pra se perceber é que os adolescentes
- ou a maioria deles que fizeram essa prova - não tinham
uma visão
própria do assunto e nunca foram questionados sobre esses
abusos das emissoras de tv (um grave problema do ensino nacional:
jovens crescem sem o mínimo de visão reflexiva sobre
o mundo que os cerca, mas a prova estava difícil, o enunciado
da redação
foi mal elaborado).
Lembro de ter visto uma vez, num desses programas
policiais da tarde, uma mulher sendo acusada de maltratar o sogro
(um senhor
já idoso),
as câmeras fixavam os enquadramentos na mulher (sem que ela
tivesse dado permissão pra isso) e o repórter a apresentava
ao telespectador como o pior ser da face da Terra. Enquanto isso,
eu pensava “ele não pode fazer isso ou eu estou louca?”.
A polícia a colocou no camburão e eu pensei “cadê o
mandato de busca? Onde estão as provas contra a mulher?”.
Nada disso foi mostrado ou mesmo a imagem dessa senhora foi protegida.
As emissoras sabem que isso é crime - precisam de autorização
da pessoa para veicular sua imagem e, além do mais, “todo
cidadão é considerado inocente até que se
prove o contrário” - mas as pessoas que são
expostas nesses programas não sabem dos seus direitos, são
pessoas sem ou quase nenhuma instrução e as emissoras
ganham tanto dinheiro e ibope que nem precisam se preocupar se
tiverem que pagar por um processo, não sairá caro
pelo tanto que ganham com a desgraça alheia.
O que se precisaria seria de um boicote a essas
emissoras de TV e seus anunciantes, aí sim a coisa poderia ser mais justa
para todos. Há Ongs
que promovem movimentos desse tipo como a TVER e uma campanha que
há dois anos está instalada dentro da Comissão
de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (em Brasília), “Quem
financia a baixaria é contra a cidadania”, da qual
vários diretores de emissoras de TV se dizem contra e acreditam
ser um meio de voltar a censura no Brasil (leiam a matéria
da Carta Capital de 03 de novembro de 2004). Ou seria
sim uma maneira de alertar o cidadão quanto aos seus direitos
e buscar uma TV de qualidade que talvez não dê tanto
dinheiro a esses senhores?
E o que a maioria dos jovens pensa sobre isso:
acham um absurdo o que a tv faz, mostrar a violência de uma forma sensacionalista
e blábláblá -
bem opinião de quem assiste o Ratinho: “onde já se
viu! Como pode acontecer isso! E o governo não faz nada!”.
Eles acham
que é só desligar a TV ou mudar de canal; vomitam
o texto da Veja sobre a criação do órgão
de fiscalização do Audiovisual e disparam a opinião
da revista, não a deles; ou falam somente sobre os programas
televisivos de baixo nível. Mas o pior mesmo é ver
que alguns desses jovens defendem esses programas porque acreditam
que eles
informam e mostram a dura realidade das pessoas...
Outras coisas no mesmo horário: a Globo
estreou duas novelas, a das 19h, Começar de Novo,
que não conseguiu
segurar a audiência da anterior (A Cor do Pecado),
e agora tenta mudar a trama e colocar novos personagens para ver
se a história
engrena. Ainda colocou Carolina Ferraz para criar um conflito,
num triângulo amoroso com os personagens principais;
mas ela sempre tem uma atuação tão ruim que
eu duvido que a audiência aumente só para ouvir as
suas risadas sem graça ou sua canastrice.
A
novela das 18 h, Como uma Onda no Mar, é a
estratégia da emissora do plim plim para “combater” os
programas “jornalísticos policiais” do horário.
Tentando pegar carona na audiência de Malhação com
atores jovens e crianças, um pessoal bonito que atua
como a Carolina Ferraz, mas é bonito e sarado e isso prende
audiência de adolescentes que buscam um modelo ideal de aparência.
E ainda trouxeram um português lindo para acabar com o estereótipo
de que eles são bigodudos e usam uma caneta atrás
da orelha; e assim continuar o intercâmbio que a Globo anda
fazendo entre artistas lusitanos e brasileiros.
Falando
em audiência de novelas, a toda poderosa anda amargando
segundo lugar no horário da tarde com a reprise de Deus
nos Acuda, o primeiro lugar é da mulher maravilha
sem costelas, mais conhecida como Thalia e sua Maria do
Bairro, no SBT (claro!!). Realmente, se você assistir
vai se divertir muito! Nunca ri tanto de uma novela tão
tosca que deve ter mais de dez anos e já foi reprisada à exaustão:
uma mulher histérica (a vilã da trama) prende uma
menina tetraplégica dentro de um quarto com uma tarântula
e mata a própria mãe só com um empurrão
(e nem foi na escada da novela da Senhora do Destino).
Essa cena foi a mais engraçada que vi: a mãe da vilã diz “eu
sou sua mãe, você é minha filha!” e a
megera diz: “CALA BOCA! CALA BOCA! VOCÊ NÃO É MINHA
MÃE” e empurra a velha, que cai com a cabeça
em cima de um porta-retratos e da boca da senhora escorre sangue.
Não contive o riso! Como alguém que bate a cabeça
num porta-retratos pode ter a boca escorrendo sangue - não,
não era um sangue jorrando como se uma artéria/veia
(de qual dos dois jorra mais? Não lembro!) tivesse sido
cortada, era só um sanguinho do tipo murro no rosto mesmo...
Hilário! É claro que dá audiência, faz
rir muito mais que a Claudia Raia na novela da Globo! É a
coisa mais tosca e divertida que se pode ver no horário...
Não! Não é! Tem ainda o Clodovil... Mas sobre
ele e o Pânico eu falo na semana que vem... “To
Be Continued”...
Observação para o Sr. Sukrilius: a música
da Rosana é “O Amor e o Poder”, era da novela Mandala. O
autor, Dias Gomes, quis usar a tragédia grega “Édipo,
Rei” como pano de fundo da história - novela, às
vezes, tenta fingir que é cultura, como a das 19h que teve
como primeira influência o livro O Conde de Monte
Cristo, de Alexandre Dumas pai (pai porque seu filho homônimo
escreveu A Dama das Camélias -
aliás, toda prostituta de novela de época é inspirada
nessa última). |