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Beagá, 20 de dezembro de 2004 d.C.
 
O que rolou e rola na TV
Por Menina Enciclopédia
 

Ficamos um bom tempo de férias e vou comentar o que aconteceu na TV durante esse tempo.

Primeiro, eu queria falar sobre aquela prova do Ensino Médio em que o tema de redação foi a liberdade de expressão e os abusos dos meios de comunicação, um grande paradoxo. Como a maioria dos alunos falou sobre TV e um dos textos era exatamente sobre os programas “jornalísticos” policiais, isso, claro, se encaixa aqui na coluna.

O que mais dá pra se perceber é que os adolescentes - ou a maioria deles que fizeram essa prova - não tinham uma visão própria do assunto e nunca foram questionados sobre esses abusos das emissoras de tv (um grave problema do ensino nacional: jovens crescem sem o mínimo de visão reflexiva sobre o mundo que os cerca, mas a prova estava difícil, o enunciado da redação foi mal elaborado).

Lembro de ter visto uma vez, num desses programas policiais da tarde, uma mulher sendo acusada de maltratar o sogro (um senhor já idoso), as câmeras fixavam os enquadramentos na mulher (sem que ela tivesse dado permissão pra isso) e o repórter a apresentava ao telespectador como o pior ser da face da Terra. Enquanto isso, eu pensava “ele não pode fazer isso ou eu estou louca?”. A polícia a colocou no camburão e eu pensei “cadê o mandato de busca? Onde estão as provas contra a mulher?”. Nada disso foi mostrado ou mesmo a imagem dessa senhora foi protegida. As emissoras sabem que isso é crime - precisam de autorização da pessoa para veicular sua imagem e, além do mais, “todo cidadão é considerado inocente até que se prove o contrário” - mas as pessoas que são expostas nesses programas não sabem dos seus direitos, são pessoas sem ou quase nenhuma instrução e as emissoras ganham tanto dinheiro e ibope que nem precisam se preocupar se tiverem que pagar por um processo, não sairá caro pelo tanto que ganham com a desgraça alheia.

O que se precisaria seria de um boicote a essas emissoras de TV e seus anunciantes, aí sim a coisa poderia ser mais justa para todos. Há Ongs que promovem movimentos desse tipo como a TVER e uma campanha que há dois anos está instalada dentro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (em Brasília), “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”, da qual vários diretores de emissoras de TV se dizem contra e acreditam ser um meio de voltar a censura no Brasil (leiam a matéria da Carta Capital de 03 de novembro de 2004). Ou seria sim uma maneira de alertar o cidadão quanto aos seus direitos e buscar uma TV de qualidade que talvez não dê tanto dinheiro a esses senhores?

E o que a maioria dos jovens pensa sobre isso: acham um absurdo o que a tv faz, mostrar a violência de uma forma sensacionalista e blábláblá - bem opinião de quem assiste o Ratinho: “onde já se viu! Como pode acontecer isso! E o governo não faz nada!”. Eles acham que é só desligar a TV ou mudar de canal; vomitam o texto da Veja sobre a criação do órgão de fiscalização do Audiovisual e disparam a opinião da revista, não a deles; ou falam somente sobre os programas televisivos de baixo nível. Mas o pior mesmo é ver que alguns desses jovens defendem esses programas porque acreditam que eles informam e mostram a dura realidade das pessoas...

Outras coisas no mesmo horário: a Globo estreou duas novelas, a das 19h, Começar de Novo, que não conseguiu segurar a audiência da anterior (A Cor do Pecado), e agora tenta mudar a trama e colocar novos personagens para ver se a história engrena. Ainda colocou Carolina Ferraz para criar um conflito, num triângulo amoroso com os personagens principais; mas ela sempre tem uma atuação tão ruim que eu duvido que a audiência aumente só para ouvir as suas risadas sem graça ou sua canastrice.

A novela das 18 h, Como uma Onda no Mar, é a estratégia da emissora do plim plim para “combater” os programas “jornalísticos policiais” do horário. Tentando pegar carona na audiência de Malhação com atores jovens e crianças, um pessoal bonito que atua como a Carolina Ferraz, mas é bonito e sarado e isso prende audiência de adolescentes que buscam um modelo ideal de aparência. E ainda trouxeram um português lindo para acabar com o estereótipo de que eles são bigodudos e usam uma caneta atrás da orelha; e assim continuar o intercâmbio que a Globo anda fazendo entre artistas lusitanos e brasileiros.

Falando em audiência de novelas, a toda poderosa anda amargando segundo lugar no horário da tarde com a reprise de Deus nos Acuda, o primeiro lugar é da mulher maravilha sem costelas, mais conhecida como Thalia e sua Maria do Bairro, no SBT (claro!!). Realmente, se você assistir vai se divertir muito! Nunca ri tanto de uma novela tão tosca que deve ter mais de dez anos e já foi reprisada à exaustão: uma mulher histérica (a vilã da trama) prende uma menina tetraplégica dentro de um quarto com uma tarântula e mata a própria mãe só com um empurrão (e nem foi na escada da novela da Senhora do Destino). Essa cena foi a mais engraçada que vi: a mãe da vilã diz “eu sou sua mãe, você é minha filha!” e a megera diz: “CALA BOCA! CALA BOCA! VOCÊ NÃO É MINHA MÃE” e empurra a velha, que cai com a cabeça em cima de um porta-retratos e da boca da senhora escorre sangue. Não contive o riso! Como alguém que bate a cabeça num porta-retratos pode ter a boca escorrendo sangue - não, não era um sangue jorrando como se uma artéria/veia (de qual dos dois jorra mais? Não lembro!) tivesse sido cortada, era só um sanguinho do tipo murro no rosto mesmo... Hilário! É claro que dá audiência, faz rir muito mais que a Claudia Raia na novela da Globo! É a coisa mais tosca e divertida que se pode ver no horário... Não! Não é! Tem ainda o Clodovil... Mas sobre ele e o Pânico eu falo na semana que vem... “To Be Continued”...

Observação para o Sr. Sukrilius: a música da Rosana é “O Amor e o Poder”, era da novela Mandala. O autor, Dias Gomes, quis usar a tragédia grega “Édipo, Rei” como pano de fundo da história - novela, às vezes, tenta fingir que é cultura, como a das 19h que teve como primeira influência o livro O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas pai (pai porque seu filho homônimo escreveu A Dama das Camélias - aliás, toda prostituta de novela de época é inspirada nessa última).

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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