Estou de volta com uma análise dos programas
humorísticos. Se você perdeu a
primeira parte, eu
falei dos jurássicos A Praça é Nossa e
Zorra Total.
Terminei falando sobre o porquê dos jovens humoristas não
darem uma revigorada no humor. Agora, falarei sobre o quê de
novo e algumas poucas vezes arrojado apareceu na televisão
tupiniquim.
Começo pela TV Pirata,
a menina dos olhos de todo saudosista dos anos 80. Com um humor ácido e inconseqüente, vários
de seus personagens e muitas de suas cenas são lembrados
até hoje como clássicos da TV Brasileira. E não é para
menos, era um humor novo brotando depois da Era Militar no país,
nada era perdoado, todos eram culpados e viraram temas para o programa.
Era realmente uma televisão pirata que invadia a transmissão
daquele marasmo costumeiro (bem advertia a abertura): novelas,
programas femininos, filmes, comerciais, programas rurais, seriados
americanos, todos tinham sua “versão pirata” porém
escrachada e muito divertida. Durou muito pouco, pelo estrondoso
sucesso que teve. Alguns atores saíram e outros se incorporaram à trupe
- dizem que houve um desgaste muito grande devido aos egos inflamados
do elenco. No final, o programa tinha perdido muito de sua graça
inicial de humor inteligente e sem papas na língua.
No caso do Casseta & Planeta Urgente!, alguns dos humoristas
eram redatores da TV Pirata e já tinham também
participado como redatores e humoristas no Dóris para
Maiores (programa
apresentado por Dóris Giesse - era um misto de jornalismo
e humor - isso faz muito tempo, foi um programa da Globo que durou
pouco, um ano, e depois se transformou no C&P), além
do quê a revista dos caras já era famosa nas bancas.
Como redatores do TV Pirata, eles já haviam renovado o
humor e aqui continuaram a fazer muita gente rir com inteligência
e sem deixar nenhuma personalidade passar em branco. O programa
era uma vez por mês, o que dava mais fôlego às
piadas, mas a partir do momento que se tornou semanal, o nível
foi caindo.
Ainda conseguiam fazer rir, mas quando inventaram
a história
do “Diga Não ao Pum no Elevador”, pararam de
ser engraçados e se tornaram chatos a ponto de fazer um
programa de Natal especial só falando dessa campanha, constrangedor
e sem a menor graça. O Tabajara Futebol Clube é outro
exemplo de quadro que já passou da hora de ser eliminado
do programa, o humor vendeu seu passe e foi pra Itália faz
tempo...
Os produtos do Grupo Tabajara ainda são sinônimo
de riso (algumas vezes), mas o concorrente, do Grupo Capivara,
Seu Creysson, passou de comoção nacional (no auge,
encheram a Praça da República em São Paulo
para o comício do astro-personagem) à chatice máxima.
Hoje, Seu Creysson se tornou um personagem forçado, os erros
que pareciam naturais começaram a ser absurdos porque ele
não consegue falar uma só palavra correta. O que
era simples e engraçado tornou-se simplesmente falso.
Os novos quadros com desenhos animados, parodiando As Meninas
Superpoderosas, Simpsons e Bob Esponja,
pareciam uma boa idéia, mas não fazem rir e, além
disso, não aparecem nos créditos do programa quem
são os desenhistas e a equipe por trás desses desenhos.
Desde quando os Cassetas são desenhistas?
A safra mais jovem aparece com um grupo não tão
jovem assim na linha do humor: Pânico,
que já faz
sucesso há anos, talvez há uma década, na
Rádio Jovem Pan 2 (ou FM) de São Paulo. O programa
deles na Rede TV! exibe alguns momentos do programa da rádio,
faz gozações e paródias de outros programas
de televisão e até das legendas que os programas “policiais” e “vespertinos” tanto
adoram. Quando brincam com os astros nas badalações
- os dois “repórteres” (Repórter Vesgo
e o outro vestido de Clodovil ou Sílvio Santos) já foram
convidados por Gugu Liberato para se mudarem para o Domingo
Legal, que agora também faz um quadro parecido em
seu programa. São grandes sarristas, o escracho domina o
programa, e fazem um humor ora divertido ora de mau gosto - como
o quadro “A Morte”, inspirado, sem dúvida nenhuma,
em Jackass.
A rádio Jovem Pan 2 foi uma das pioneiras no humor no rádio
em São Paulo, assim como a Bandeirantes e a USP FM - pra
quem não sabe, os Sobrinhos do Ataíde começaram
nesta última, quando Marco Bianchi era aluno da ECA, no
programa Rádio Matraca, que por sinal existe
até hoje.
E, falando nisso, Bianchi e seu amigo de longa data, bem antes
dos Sobrinhos..., Paulo Bonfá, fazem o Rock
Gol de Domingo. Divertidos e inteligentes, eles se
destacam entre as mesas redondas dos outros canais no mesmo horário,
que mais parecem um bando de desocupados num boteco bebendo, falando
e brigando por causa de futebol. Os dois, e seus convidados, unem
informação esportiva e humor na dose certa.
A trupe de Petrópolis do Hermes & Renato é o
que há de mais ácido e escrachado. Gozadores natos,
usam e abusam de palavrões, escatologia e do grotesco para
fazer rir e o resultado final não é ruim, o programa
acaba sendo um grande divertimento se você não for
um conservador de carteirinha. Paródias a programas como
os de João Kleber, TV Fama, Bozo são levados ao máximo
do absurdo - ou àquilo que você sempre pensou que
deveria ser feito nos programas originais, mas pensava que ninguém
tivesse coragem de chegar a isso na TV... Bem, eles chegaram.
O humor é nitidamente inspirado nos bons
e velhos Os
Trapalhões e sutilmente na equipe inglesa de Monty
Python. Você não
consegue ver a relação? Então, lembre-se de
uma cena de H&R em que eles encenam um apedrejamento
e depois assista ao filme A Vida de Brian dos britânicos,
há uma cena parecida. Além dessa, uns dois anos atrás
num programa de verão, os cinco cariocas alternavam piadas
e clipes, e um desses clipes foi exatamente uma cena musical de
Monty Python.
Alguém foi sábio na MTV ou foi idéia do próprio
grupo de humoristas: não exibir muitos episódios
do programa por ano, isso o torna menos cansativo e deixa que a
fonte de criatividade do grupo não se esvaia fácil
como aconteceu com o Casseta & Planeta, por exemplo.
A Globo também tentou a fórmula das “sitcons” (comédias
de situação), mas isso já é outra história,
para uma outra coluna...
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