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Beagá, 27 de setembro de 2004 d.C.
 
O Povo na TV
Por Menina Enciclopédia
 

Aquela história de “roupa suja se lava em casa” parece que tem seus dias contados, o bom agora é lavar a roupa suja na tv e não faltam programas com essa temática nas emissoras brasileiras. Tudo isso pode ter começado nos primórdios do SBT com o primeiro grande programa sensacionalista em audiência, O Povo na TV, mas a fórmula atual é cópia do “show” norte-americano de Oprah Winfrey. Márcia Goldschmidt foi a primeira a importar para a nossa TV o estilo da estadunidense, copiaram-na até o cenário e a platéia.

Márcia fez sucesso com esse molde no SBT e levou-o para a Bandeirantes. Sempre tentando “auxiliar as famílias em desajuste”, conversando, ouvindo as partes e deixando que a platéia desse conselhos aos angustiados que lá estavam. Muita briga, bate-boca, palavrão, ofensas mútuas, risos de escárnio, tudo muito delicado, simpático e alegre.

A nova nessa linha é Regina Volpato (quem?) no SBT (sempre eles, né?), com seus Casos de Família. Mesmo cenário, mesmo molde, mesmo esquema da dona Oprah e da dona Márcia. Ela, sempre como uma psicóloga de revista feminina: usa teorias rasas, é gentil e acolhedora para que as pessoas se abram e contem seus dramas, suas revoltas, ao público.

Não podemos nos esquecer de Wagner Montes, o eterno jurado do Silvio Santos, que também apresentou um programa nesse estilo na Record (parece-me que ainda é exibido na filial carioca da emissora), esse é o exemplo da delicadeza em pessoa, um gentleman!

Ratinho também é marca registrada nesse tipo de programa. O quadro do DNA é a melhor demonstração de “eu quero é que meus vizinhos me reconheçam amanhã na feira!”. Não importa como você apareça, o importante é estar no SBT!

As pessoas que vão até esses programas geralmente são pessoas pobres, sem muita instrução e que se sujeitam a esse tipo de coisa por dinheiro (a Folha, certa vez, descobriu que o pessoal que ia ao Ratinho era contratado) ou por exibicionismo mesmo: quinze minutos de fama, “fale mal, mas fale de mim!”, “tenho muita coisa pra contar pro pessoal do pagode no domingo”, “minhas vizinhas vão morrer de inveja”, “eu ganhei um autógrafo do Marquito!” etc.

Esses casos podem até parecer reais para quem assiste, mas e os “testes de fidelidade” e as “investigações” promovidas por João Kleber e Sérgio Mallandro? Ah, esses não dá para imaginar como as pessoas caem nisso e acreditam...

Ano passado, Márcia Goldschmidt fazia um programa na Bandeirantes em que misturava lavação de roupa suja aos flagrantes que esses dois outros “apresentadores” armam. Um rapaz que estudava inglês comigo chegou um dia todo feliz na aula porque havia ganhado “R$50 na moleza”: fingiu que era filho de uma mulher rica e que tinha um caso com a empregada no programa da Márcia. Ele gravou o programa e mostrou para a mãe verdadeira, que também se divertiu com a situação. A balada dele estava garantida com aquela graninha extra. Claro, ele tinha o perfil que precisavam para fazer o papel, era um estudante de cursinho, classe média, passaria por um garoto “classe A” fácil.

Certa vez, uma vizinha minha participou do programa do Sérgio Mallandro, juntamente com a filha. Elas já haviam “tentado a fama” anteriormente como figurantes numa novela do SBT. E, um belo dia, eu dou de cara com as duas na TV: a mãe conversava com Sérgio Mallandro, que mostrava a filha nos bastidores do programa aceitando a cantada de uma mulher. A mãe fingia estar impressionada com o que via e se preocupava com a filha - eu, como as conhecia, percebi na hora que era tudo uma armação.

E mesmo sem conhecer as pessoas que vão ao Tarde Quente, de João Kleber, percebe-se o quanto tudo é falso. A enrolação do apresentador para contar a “verdade” é um jeito de prender seu expectador: o drama que ele faz para que algumas pessoas mais influenciáveis acreditem no grande e rico empresário que colocou um detetive na cola da filha para descobrir onde ela estava indo, enquanto matava aulas na faculdade - e o tal empresário aceita compartilhar essa história com o povão, convenhamos... Ou mesmo as irmãs gêmeas (uma boa e uma má, como evidenciam as legendas, tipo a Ruth e a Rachel!) que brigam pelo mesmo homem. Ou ainda a filha que colocou um detetive para investigar a mãe por pensar que ela pudesse ser na verdade uma traficante de drogas.

As brigas armadas no palco são de uma canastrice nata, não convencem nem o meu cachorro. As caras e bocas são totalmente frias e/ou exageradas, não dá para imaginar que aquilo seja verdade. Mas quem acompanha religiosamente o programa de João Kleber acredita piamente que se trata de um caso real. Telespectadores chocados com as situações dizem: “coitado do pai daquela menina! Ele dá uma mesada de R$5 mil reais para ela e é assim que ela agradece!!??”.

E é assim que esse povo que participa dos programas agradece: “esse dinheirinho do programa veio na hora certa! Obrigado produção, por ter me escolhido! E ainda fiquei famoso lá na vila!”.

Quer assistir à Oprah? Tente ver numa reprise de Um Maluco no Pedaço (Fresh Prince of Bel-Air) - com Will Smith, na Warner ou no SBT (se ainda reprisam por lá). Há um episódio em que Will resolve falar sobre sua família no programa dessa apresentadora.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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