Aquela
história de “roupa suja se lava em casa” parece
que tem seus dias contados, o bom agora é lavar a roupa suja
na tv e não faltam programas com essa temática nas
emissoras brasileiras. Tudo isso pode ter começado nos primórdios
do SBT com o primeiro grande programa sensacionalista em audiência,
O Povo na TV, mas a fórmula atual é cópia
do “show” norte-americano de Oprah Winfrey. Márcia
Goldschmidt foi a primeira a importar para a nossa TV o estilo da
estadunidense, copiaram-na até o cenário e a platéia.
Márcia fez sucesso com esse molde no SBT
e levou-o para a Bandeirantes. Sempre tentando “auxiliar as
famílias em desajuste”, conversando, ouvindo as partes
e deixando que a platéia desse conselhos aos angustiados
que lá estavam. Muita briga, bate-boca, palavrão,
ofensas mútuas, risos de escárnio, tudo muito delicado,
simpático e alegre.
A nova
nessa linha é Regina Volpato (quem?) no SBT (sempre eles,
né?), com seus Casos de Família. Mesmo cenário,
mesmo molde, mesmo esquema da dona Oprah e da dona Márcia.
Ela, sempre como uma psicóloga de revista feminina: usa teorias
rasas, é gentil e acolhedora para que as pessoas se abram
e contem seus dramas, suas revoltas, ao público.
Não podemos nos esquecer de Wagner Montes,
o eterno jurado do Silvio Santos, que também apresentou um
programa nesse estilo na Record (parece-me que ainda é exibido
na filial carioca da emissora), esse é o exemplo da delicadeza
em pessoa, um gentleman!
Ratinho também é marca registrada
nesse tipo de programa. O quadro do DNA é a melhor demonstração
de “eu quero é que meus vizinhos me reconheçam
amanhã na feira!”. Não importa como você
apareça, o importante é estar no SBT!
As
pessoas que vão até esses programas geralmente são
pessoas pobres, sem muita instrução e que se sujeitam
a esse tipo de coisa por dinheiro (a Folha, certa vez,
descobriu que o pessoal que ia ao Ratinho era contratado) ou por
exibicionismo mesmo: quinze minutos de fama, “fale mal, mas
fale de mim!”, “tenho muita coisa pra contar pro pessoal
do pagode no domingo”, “minhas vizinhas vão morrer
de inveja”, “eu ganhei um autógrafo do Marquito!”
etc.
Esses casos podem até parecer reais para
quem assiste, mas e os “testes de fidelidade” e as “investigações”
promovidas por João Kleber e Sérgio Mallandro? Ah,
esses não dá para imaginar como as pessoas caem nisso
e acreditam...
Ano passado, Márcia Goldschmidt fazia um
programa na Bandeirantes em que misturava lavação
de roupa suja aos flagrantes que esses dois outros “apresentadores”
armam. Um rapaz que estudava inglês comigo chegou um dia todo
feliz na aula porque havia ganhado “R$50 na moleza”:
fingiu que era filho de uma mulher rica e que tinha um caso com
a empregada no programa da Márcia. Ele gravou o programa
e mostrou para a mãe verdadeira, que também se divertiu
com a situação. A balada dele estava garantida com
aquela graninha extra. Claro, ele tinha o perfil que precisavam
para fazer o papel, era um estudante de cursinho, classe média,
passaria por um garoto “classe A” fácil.
Certa vez, uma vizinha minha participou do programa
do Sérgio Mallandro, juntamente com a filha. Elas já
haviam “tentado a fama” anteriormente como figurantes
numa novela do SBT. E, um belo dia, eu dou de cara com as duas na
TV: a mãe conversava com Sérgio Mallandro, que mostrava
a filha nos bastidores do programa aceitando a cantada de uma mulher.
A mãe fingia estar impressionada com o que via e se preocupava
com a filha - eu, como as conhecia, percebi na hora que era tudo
uma armação.
E mesmo
sem conhecer as pessoas que vão ao Tarde Quente,
de João Kleber, percebe-se o quanto tudo é falso.
A enrolação do apresentador para contar a “verdade”
é um jeito de prender seu expectador: o drama que ele faz
para que algumas pessoas mais influenciáveis acreditem no
grande e rico empresário que colocou um detetive na cola
da filha para descobrir onde ela estava indo, enquanto matava aulas
na faculdade - e o tal empresário aceita compartilhar essa
história com o povão, convenhamos... Ou mesmo as irmãs
gêmeas (uma boa e uma má, como evidenciam as legendas,
tipo a Ruth e a Rachel!) que brigam pelo mesmo homem. Ou ainda a
filha que colocou um detetive para investigar a mãe por pensar
que ela pudesse ser na verdade uma traficante de drogas.
As brigas armadas no palco são de uma canastrice
nata, não convencem nem o meu cachorro. As caras e bocas
são totalmente frias e/ou exageradas, não dá
para imaginar que aquilo seja verdade. Mas quem acompanha religiosamente
o programa de João Kleber acredita piamente que se trata
de um caso real. Telespectadores chocados com as situações
dizem: “coitado do pai daquela menina! Ele dá uma mesada
de R$5 mil reais para ela e é assim que ela agradece!!??”.
E é assim que esse povo que participa dos
programas agradece: “esse dinheirinho do programa veio na
hora certa! Obrigado produção, por ter me escolhido!
E ainda fiquei famoso lá na vila!”.

Quer
assistir à Oprah? Tente ver numa reprise de Um Maluco no
Pedaço (Fresh Prince of Bel-Air) - com Will Smith,
na Warner ou no SBT (se ainda reprisam por lá). Há
um episódio em que Will resolve falar sobre sua família
no programa dessa apresentadora.
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