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Beagá, 05 de julho de 2004 d.C.
 
A Grande Irmã
Por Menina Enciclopédia
 

Todo mundo sabe o quanto a Rede Globo é influente, nem preciso repetir o poder que ela tem nas mãos. Mas ultimamente as coisas andam me surpreendendo.

A Globo realiza aquelas "ações cidadãs" para ajudar pessoas de baixa renda de bairros pobres, depois faz propaganda com uma moça que se percebe que não tem nenhuma instrução, bem jovem e com filhos, e ela diz "ai, eu queria que tivesse isso todo dia". O "isso" quer dizer: esporte, lazer, ambulatórios médicos, lugares para se tirar documentos etc. A tal ação cidadã! O que tentam nos mostrar? "Se o governo não faz, a gente faz!" Não é à toa que se pode ter colocado e tirado um presidente, com esse poder até eu...

Depois aparecem escritores e artistas falando da importância da leitura e quanto ela contribui para a formação das pessoas, tudo com o apoio da "Fundação Roberto Marinho". Tudo muito bonito, como os "Amigos da Escola", mas tudo muito forçado a dar certo, "tem que dar certo" - pra maioria que me lê, nem devem lembrar dessa frase que retumbava em nossos ouvidos infantis nos idos 1986 quando o presidente era o José Sarney e o Plano Cruzado tinha que dar certo... Parece imposto que essas iniciativas dêem certo, porém a prática nem sempre é como a teoria, como já se sabe de longa data.

Para as pessoas que assistem TV e essa é sua única fonte de informação, o que elas vêem lhes parece muito bom, um sonho, uma nova esperança: "Brasil: o país do futuro!".

O que a maioria dessa população não sabe é como a Globo chegou a esse patamar, sendo uma "TV amiga" da Ditadura Militar: nenhuma nota sobre a campanha das "Diretas Já", nenhuma informação que poderia desagradar aos generais-presidentes, nenhum tipo de resistência, apenas obediência canina.

E depois, como na matéria do Jornal Nacional de 27 de maio - "(...)Com resultado da parceria entre o Museu da República, a UNE, a Petrobrás, a Fundação Roberto Marinho e a TV Globo, e com o apoio do Ministério da Cultura, será criado um banco de dados sobre a história dos estudantes do Brasil." - tentam nos convencer de que eles sempre apoiaram as uniões estudantis e as manifestações democráticas, passando uma borracha no passado.

Já viram a nova novela das 21h? A protagonista chega ao Rio de Janeiro, vinda do Nordeste, em pleno ano de 68, AI-5 (não sabe o que é isso? Vai estudar!), num Rio cheio de batalhas nas ruas. E ainda ver Marília Gabriela fazer o papel de uma jornalista, dona de jornal que defende seus empregados para não entrega-los aos policiais. Comovente!

O período era conturbado? Era! Poderiam fechar a TV? Poderiam! Mas por que não havia esse senso de cidadania na época, mesmo que disfarçada?

Se você nunca viu, assista ao documentário feito pela BBC, que contém depoimentos, por exemplo, de Chico Buarque e Leonel Brizola, sobre o nosso cidadão Kane (Muito Além do Cidadão Kane, deve ser fácil achar no Kazaa ou no e-Mule). E saiba porque William Bonner quase chorou ao falar do patrão que havia morrido.

A "teletela" continua a enganar, como enganava os personagens de 1984, de George Orwell - meu livro favorito, diga-se de passagem. Então, tentemos resistir a ela da melhor forma possível: lendo nas entrelinhas e não nos esquecendo das notícias do dia anterior.

Outra coisa: citei que, no documentário da BBC, o Leonel Brizola era um dos que depunha contra a Globo, e não é que com a morte dele a emissora do Plim-Plim fez a maior propaganda do homem? Olha a borracha apagando o passado aí, gente!

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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