Todo
mundo sabe o quanto a Rede Globo é influente, nem preciso
repetir o poder que ela tem nas mãos. Mas ultimamente as
coisas andam me surpreendendo.
A Globo realiza aquelas "ações
cidadãs" para ajudar pessoas de baixa renda de bairros
pobres, depois faz propaganda com uma moça que se percebe
que não tem nenhuma instrução, bem jovem e
com filhos, e ela diz "ai, eu queria que tivesse isso todo
dia". O "isso" quer dizer: esporte, lazer, ambulatórios
médicos, lugares para se tirar documentos etc. A tal ação
cidadã! O que tentam nos mostrar? "Se o governo não
faz, a gente faz!" Não é à toa que se
pode ter colocado e tirado um presidente, com esse poder até
eu...
Depois aparecem escritores e artistas falando da
importância da leitura e quanto ela contribui para a formação
das pessoas, tudo com o apoio da "Fundação Roberto
Marinho". Tudo muito bonito, como os "Amigos da Escola",
mas tudo muito forçado a dar certo, "tem que dar certo"
- pra maioria que me lê, nem devem lembrar dessa frase que
retumbava em nossos ouvidos infantis nos idos 1986 quando o presidente
era o José Sarney e o Plano Cruzado tinha que dar certo...
Parece imposto que essas iniciativas dêem certo, porém
a prática nem sempre é como a teoria, como já
se sabe de longa data.
Para as pessoas que assistem TV e essa é
sua única fonte de informação, o que elas vêem
lhes parece muito bom, um sonho, uma nova esperança: "Brasil:
o país do futuro!".
O que a maioria dessa população não
sabe é como a Globo chegou a esse patamar, sendo uma "TV
amiga" da Ditadura Militar: nenhuma nota sobre a campanha das
"Diretas Já", nenhuma informação
que poderia desagradar aos generais-presidentes, nenhum tipo de
resistência, apenas obediência canina.
E depois, como na matéria
do Jornal Nacional de 27 de maio - "(...)Com resultado
da parceria entre o Museu da República, a UNE, a Petrobrás,
a Fundação Roberto Marinho e a TV Globo, e com o apoio
do Ministério da Cultura, será criado um banco de
dados sobre a história dos estudantes do Brasil." -
tentam nos convencer de que eles sempre apoiaram as uniões
estudantis e as manifestações democráticas,
passando uma borracha no passado.
Já viram a nova novela das 21h? A protagonista
chega ao Rio de Janeiro, vinda do Nordeste, em pleno ano de 68,
AI-5 (não sabe o que é isso? Vai estudar!), num Rio
cheio de batalhas nas ruas. E ainda ver Marília Gabriela
fazer o papel de uma jornalista, dona de jornal que defende seus
empregados para não entrega-los aos policiais. Comovente!
O período era conturbado? Era! Poderiam fechar
a TV? Poderiam! Mas por que não havia esse senso de cidadania
na época, mesmo que disfarçada?
Se você nunca viu, assista ao documentário
feito pela BBC, que contém depoimentos, por exemplo, de Chico
Buarque e Leonel Brizola, sobre o nosso cidadão Kane (Muito
Além do Cidadão Kane, deve ser fácil achar
no Kazaa ou no e-Mule). E saiba porque William Bonner quase chorou
ao falar do patrão que havia morrido.
A "teletela" continua a enganar, como
enganava os personagens de 1984, de George Orwell - meu
livro favorito, diga-se de passagem. Então, tentemos resistir
a ela da melhor forma possível: lendo nas entrelinhas e não
nos esquecendo das notícias do dia anterior.

Outra coisa: citei que, no documentário da
BBC, o Leonel Brizola era um dos que depunha contra a Globo, e não
é que com a morte dele a emissora do Plim-Plim fez a maior
propaganda do homem? Olha a borracha apagando o passado aí,
gente!
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