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Beagá, 24 de maio de 2004 d.C.
 
“Vamos sorrir e cantar...”
Por Menina Enciclopédia
 

Você já foi a um programa de TV? Sabe como funciona o famoso programa de auditório? Pois é, eu já fui a um! Sim, sim! Eu fui a um programa naquelas excursões de escola. O programa, não existe mais, era da extinta Rede Manchete, mas dá pra ter uma idéia do que é o tal do “por trás das câmeras”.

Claro que você já viu isso nesses programas que mostram os bastidores, mas não pela ótica do povão que vai lá assistir...

Como funciona: muitos programas passam, principalmente para as escolas, os telefones para contato. Assim, você pode levar uma boa turma e encher o auditório. Os ônibus ficam a cargo da escola, mas as empresas, na grande maioria das vezes, são indicações do próprio canal de TV. Claro, você paga por isso.

Ao chegar até o local da gravação, você encontra mais um monte de outras turmas de pessoas de diferentes lugares que também vieram fazer a mesma coisa. Fica-se um bom tempo do lado de fora, sem cadeiras, em pé e em fila, esperando até liberarem a entrada.

Lá dentro (o estúdio é pequeno, na TV sempre parece maior) todo mundo chega e corre para sentar nos primeiros lugares da platéia. Você pode até dar uma de esperto e ocupar um desses lugares à frente no auditório, só que alguém da produção irá até lá e o avisará que não pode sentar ali: se você for gordo/a, feio/a (aos olhos deles!), velho/a você terá que ir sentar lá trás, porque ninguém liga a TV para ver gente normal, só gente “bonita”.

Muitas vezes, não adianta ser jovem e bonita: uma agência de modelos geralmente é contratada para colocar seu cast na primeira fila e você terá que sair dali. As pessoas ficam indignadas, afinal elas é que realmente foram prestigiar o programa! Mas não tem jeito: primeira fila, nem pensar!! São todos modelos contratados, sempre sorrindo muito para a câmera. Ou você já viu senhoras idosas, pessoas gordas, na primeira fila do Faustão ou do Gugu? Só se forem parentes das estrelas que estarão lá no dia, ou para algo específico: cantar, fazer alguma apresentação ou para algo sensacionalista, como sempre... No Ratinho, você nem sempre vê esse esquema, porque o perfil do programa é este: quanto mais tosco mais legal é.

Depois de acomodados (todos sentados lá atrás), chega uma pessoa da produção que se apresenta (assistente de palco ou algo assim) e fala o que você deve ou não fazer: “grite muito e aplauda muito quando os artistas se apresentarem. Não vale agarrar artistas, senão você não poderá ver o resto da gravação - só se for pedido para o público invadir o palco ou o artista vier abraçar a platéia. Procure ser o mais natural possível quando a câmera o focalizar” (se ela conseguir fazer isso com você lá no fundo...).

Aí está armado o circo. Depois de muito esperar (depois de uma hora do lado de fora, você espera mais uma lá dentro), começa a gravação: apagam-se as luzes, começam a tocar uma música muito alta e o(a) assistente de palco pede para todo mundo gritar o mais alto possível, bater palmas, dançar, mostrar animação, quanto mais barulho melhor.

Finalmente, chega o apresentador, que saúda (como todo mundo sempre vê na TV), olha para o auditório e agradece, mas seu foco sempre será a câmera, dificilmente você o verá conversando com o auditório; ele sempre estará voltado para falar com o pessoal do outro lado da tela. Justo, já que se trata de um programa de TV, mas você da platéia acaba por se sentir um nada. O espetáculo não é pra você, os cantores e outros artistas que aparecem fazem o mesmo. E você, mesmo assim, tem que “retribuir” com gritos de “lindo”, muitas palmas assim que entram no palco, tudo pedido pela produção.

Então você se senta na cadeira e fica vendo de longe a conversa, algo como se estivesse vendo a gravação de um filme ou coisa assim, da qual o auditório não participa, só de alguns momentos quando a câmera lhe focaliza.

O intervalo: há um intervalo mesmo em gravações para outros dias. Eles marcam um tempo, a produção fica acertando som e outras coisas técnicas entre os intervalos; enquanto isso, o apresentador sai do palco e vai pro camarim e você fica lá, sem água, sem nem uma bolachinha, não oferecem nada! Dizem que no programa do Silvio Santos davam/dão um lanchinho, isso eu já não sei... Acho que davam quando o programa dele era o domingo todo. Hoje, tudo é gravado e são poucos programas, pode ser que nem façam mais essa caridade...

A questão é: enquanto você fica lá sentado, esperando as gravações recomeçarem, de saco cheio de tudo (eu fiquei sim!), os queridinhos ficam no camarim com tudo do bom e do melhor. E o(a) assistente de palco vem até a platéia e pergunta: “quem quer um autógrafo do fulano?” E como todo mundo quer desesperadamente, ele(a) vira então e diz: “peguem um pedaço de papel e coloquem seu nome, depois eu volto com os autógrafos”. É, é assim mesmo: a pessoa leva um monte de papel com o nome da galera previamente escrito e volta distribuindo o rabisco do fulano.

Cada artista que canta é saudado por muita gritaria, o pessoal da produção fica balançando as mãos pro alto para ser mais forte, quanto mais o pessoal grita mais eles dizem “é isso aí!”. Pode ser uma droga o que o cara lá estiver cantando, mas o telespectador vai achar que o auditório realmente ama aquela coisa...

E o pôster? Já viram aqueles pôsteres que as pessoas levantam, vários iguais? São todos distribuídos previamente e com a indicação de só levantá-los quando o fulano que está com a cara ali no papel for chamado ao palco.

Ao final das apresentações, o animador se despede, entra para o camarim e a gente continua fingindo alegria enquanto tocam a música final e apagam novamente as luzes. O diretor grita “corta”, as luzes do estúdio se acendem, agradecem por você ter ido e vão-se todos embora para os ônibus, com fome, procurando uma lanchonete ou abrindo o lanche que alguns mais espertos tiveram a boa idéia de levar, todos sabendo perfeitamente o quanto é fake um programa de TV.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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