Você já foi a um programa
de TV? Sabe como funciona o famoso programa de auditório?
Pois é, eu já fui a um! Sim, sim! Eu fui a um programa
naquelas excursões de escola. O programa, não existe
mais, era da extinta Rede Manchete, mas dá pra ter uma idéia
do que é o tal do “por trás das câmeras”.
Claro que você já viu isso nesses programas
que mostram os bastidores, mas não pela ótica do povão
que vai lá assistir...
Como funciona: muitos programas passam, principalmente
para as escolas, os telefones para contato. Assim, você pode
levar uma boa turma e encher o auditório. Os ônibus
ficam a cargo da escola, mas as empresas, na grande maioria das
vezes, são indicações do próprio canal
de TV. Claro, você paga por isso.
Ao chegar até o local da gravação,
você encontra mais um monte de outras turmas de pessoas de
diferentes lugares que também vieram fazer a mesma coisa.
Fica-se um bom tempo do lado de fora, sem cadeiras, em pé
e em fila, esperando até liberarem a entrada.
Lá dentro (o estúdio é pequeno,
na TV sempre parece maior) todo mundo chega e corre para sentar
nos primeiros lugares da platéia. Você pode até
dar uma de esperto e ocupar um desses lugares à frente no
auditório, só que alguém da produção
irá até lá e o avisará que não
pode sentar ali: se você for gordo/a, feio/a (aos olhos deles!),
velho/a você terá que ir sentar lá trás,
porque ninguém liga a TV para ver gente normal, só
gente “bonita”.
Muitas vezes, não adianta ser jovem e bonita:
uma agência de modelos geralmente é contratada para
colocar seu cast na primeira fila e você terá que sair
dali. As pessoas ficam indignadas, afinal elas é que realmente
foram prestigiar o programa! Mas não tem jeito: primeira
fila, nem pensar!! São todos modelos contratados, sempre
sorrindo muito para a câmera. Ou você já viu
senhoras idosas, pessoas gordas, na primeira fila do Faustão
ou do Gugu? Só se forem parentes das estrelas que estarão
lá no dia, ou para algo específico: cantar, fazer
alguma apresentação ou para algo sensacionalista,
como sempre... No Ratinho, você nem sempre vê esse esquema,
porque o perfil do programa é este: quanto mais tosco mais
legal é.
Depois de acomodados (todos sentados lá atrás),
chega uma pessoa da produção que se apresenta (assistente
de palco ou algo assim) e fala o que você deve ou não
fazer: “grite muito e aplauda muito quando os artistas se
apresentarem. Não vale agarrar artistas, senão você
não poderá ver o resto da gravação -
só se for pedido para o público invadir o palco ou
o artista vier abraçar a platéia. Procure ser o mais
natural possível quando a câmera o focalizar”
(se ela conseguir fazer isso com você lá no fundo...).
Aí está armado o circo. Depois de
muito esperar (depois de uma hora do lado de fora, você espera
mais uma lá dentro), começa a gravação:
apagam-se as luzes, começam a tocar uma música muito
alta e o(a) assistente de palco pede para todo mundo gritar o mais
alto possível, bater palmas, dançar, mostrar animação,
quanto mais barulho melhor.
Finalmente, chega o apresentador, que saúda
(como todo mundo sempre vê na TV), olha para o auditório
e agradece, mas seu foco sempre será a câmera, dificilmente
você o verá conversando com o auditório; ele
sempre estará voltado para falar com o pessoal do outro lado
da tela. Justo, já que se trata de um programa de TV, mas
você da platéia acaba por se sentir um nada. O espetáculo
não é pra você, os cantores e outros artistas
que aparecem fazem o mesmo. E você, mesmo assim, tem que “retribuir”
com gritos de “lindo”, muitas palmas assim que entram
no palco, tudo pedido pela produção.
Então você se senta na cadeira e fica
vendo de longe a conversa, algo como se estivesse vendo a gravação
de um filme ou coisa assim, da qual o auditório não
participa, só de alguns momentos quando a câmera lhe
focaliza.
O intervalo: há um intervalo mesmo em gravações
para outros dias. Eles marcam um tempo, a produção
fica acertando som e outras coisas técnicas entre os intervalos;
enquanto isso, o apresentador sai do palco e vai pro camarim e você
fica lá, sem água, sem nem uma bolachinha, não
oferecem nada! Dizem que no programa do Silvio Santos davam/dão
um lanchinho, isso eu já não sei... Acho que davam
quando o programa dele era o domingo todo. Hoje, tudo é gravado
e são poucos programas, pode ser que nem façam mais
essa caridade...
A questão é: enquanto você fica
lá sentado, esperando as gravações recomeçarem,
de saco cheio de tudo (eu fiquei sim!), os queridinhos ficam no
camarim com tudo do bom e do melhor. E o(a) assistente de palco
vem até a platéia e pergunta: “quem quer um
autógrafo do fulano?” E como todo mundo quer desesperadamente,
ele(a) vira então e diz: “peguem um pedaço de
papel e coloquem seu nome, depois eu volto com os autógrafos”.
É, é assim mesmo: a pessoa leva um monte de papel
com o nome da galera previamente escrito e volta distribuindo o
rabisco do fulano.
Cada artista que canta é saudado por muita
gritaria, o pessoal da produção fica balançando
as mãos pro alto para ser mais forte, quanto mais o pessoal
grita mais eles dizem “é isso aí!”. Pode
ser uma droga o que o cara lá estiver cantando, mas o telespectador
vai achar que o auditório realmente ama aquela coisa...
E o pôster? Já viram aqueles pôsteres
que as pessoas levantam, vários iguais? São todos
distribuídos previamente e com a indicação
de só levantá-los quando o fulano que está
com a cara ali no papel for chamado ao palco.
Ao final das apresentações, o animador
se despede, entra para o camarim e a gente continua fingindo alegria
enquanto tocam a música final e apagam novamente as luzes.
O diretor grita “corta”, as luzes do estúdio
se acendem, agradecem por você ter ido e vão-se todos
embora para os ônibus, com fome, procurando uma lanchonete
ou abrindo o lanche que alguns mais espertos tiveram a boa idéia
de levar, todos sabendo perfeitamente o quanto é fake
um programa de TV.
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