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Beagá, 03 de abril de 2006 d.C.
 
Samba do Crioulo Doido
Por Menina Enciclopédia
 

Na minha última coluna (e isso faz tempo...) falei sobre a novela Bang Bang. A novela estava bem no começo, não dava pra prever muita coisa, e eu ainda não tinha a menor idéia do quanto eu sofreria na frente da TV.

O começo da novela foi até interessante: já mencionei a primeira cena em animação, a abertura feita em Lego e os ilustres homenageados pelos nomes de alguns personagens - sem falar das inúmeras referências à cultura pop. Infelizmente, Mário Prata perdeu a mão para escrever novela - a primeira dele foi Estúpido Cupido, de 1977, um sucesso de audiência que ele nunca mais conseguiu repetir.

Em princípio, o humor era até interessante, sutil e com personagens que eram divertidos já em seus conceitos. O melhor exemplo é o do Zorro ser cabeleireiro e ter mudado seu nome para Zorroh por causa da numerologia - ou seria talvez para lembrar a famosa rede de salões de beleza Soho?

Infelizmente, com a baixa audiência a Globo fez o inevitável: chamou um outro autor da casa para dar uma “ajeitada” na trama e o que aconteceu foi que a coisa ficou muito, mas muito pior. Isso porque chamaram justamente o Carlos Lombardi, o pior dos escritores de novelas. Nas histórias dele, sempre é assim: atores sem camisa andam pra lá e pra cá sem um motivo aparente e encontram milhões de inimigos por essas andanças sem sentido. Como se não bastasse, o elenco começa a falar como se todos estivessem estressados: falam correndo e estão sempre querendo resolver tudo “pra ontem”. E ainda aparecem trocentos personagens novos, que trazem novos imbróglios para a trama e os personagens que já existiam somem, não sabemos o que acontece com eles e a trama principal não existe mais.

Tudo vira então uma enrolação dos diabos, um samba do crioulo doido, onde até Dom Pedro II aparece para visitar a cidadezinha perdida no Oeste americano. Sem falar na irmã de Ben Silver, que é mostrada na animação da primeira cena da novela como uma moça enquanto ele é uma criança; mas, na fase atual, sustentam o contrário: que a irmã do personagem era criança quando aqueles eventos aconteceram.

Não sei se a intenção de Mário Prata foi reviver os tempos dos westerns, se ele quis tentar fazer sucesso com uma “novela de época diferente”, como fez Cassiano Gabus Mendes em Que Rei Sou Eu?. Acredito que um pouco da “migração” da audiência para novelas como as da Record se deve ao fato de os telespectadores atuais terem muito menos paciência para entender tramas que tenham ingredientes diferentes e preferirem o arroz com feijão (o que é bem a cara da trama da novela da Record, Prova de Amor). Fico pensando: Que Rei Sou Eu? faria hoje o sucesso que fez em 1989? Será que uma trama que metaforizava a situação política do Brasil, em plena primeira eleição presidencial em mais de 20 anos, transportada para uma corte em 1786 num reino inventado da Europa, chamado “Avillan”, conquistaria o público hoje, mais de quinze anos depois?

Acredito que não. O telespectador médio de TV está cada vez menos exigente e mais preguiçoso. Isso não quer dizer que Bang Bang seria uma obra-prima da dramaturgia, mas sim que ela precisaria ter tido um pouco mais de crédito do telespectador, que habitualmente só acha legal ver o maniqueísmo irritante das novelas mexicanas e dos banhos de lágrimas de Manoel Carlos. Agora é tarde, Carlos Lombardi já deixou sua “marca” na novela. Só resta soltar a descarga.

Onde saber sobre novelas? www.teledramaturgia.com.br.

 
Menina Enciclopédia é correspondente do ABACAXI ATÔMICO em São Paulo. E-mail: meninaenciclopedia@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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