Na minha última coluna (e isso
faz tempo...) falei sobre a novela Bang Bang. A novela
estava bem no começo, não dava pra prever muita coisa,
e eu ainda não tinha a menor idéia do quanto eu sofreria
na frente da TV.
O começo da novela foi até interessante: já
mencionei a primeira cena em animação, a abertura
feita em Lego e os ilustres homenageados pelos nomes de alguns personagens
- sem falar das inúmeras referências à cultura
pop. Infelizmente, Mário Prata perdeu a mão para escrever
novela - a primeira dele foi Estúpido Cupido, de
1977, um sucesso de audiência que ele nunca mais conseguiu
repetir.
Em princípio, o humor era até interessante, sutil
e com personagens que eram divertidos já em seus conceitos.
O melhor exemplo é o do Zorro ser cabeleireiro e ter mudado
seu nome para Zorroh por causa da numerologia - ou seria talvez
para lembrar a famosa rede de salões de beleza Soho?
Infelizmente, com a baixa audiência a Globo fez o inevitável:
chamou um outro autor da casa para dar uma “ajeitada”
na trama e o que aconteceu foi que a coisa ficou muito, mas muito
pior. Isso porque chamaram justamente o Carlos Lombardi, o pior
dos escritores de novelas. Nas histórias dele, sempre é
assim: atores sem camisa andam pra lá e pra cá sem
um motivo aparente e encontram milhões de inimigos por essas
andanças sem sentido. Como se não bastasse, o elenco
começa a falar como se todos estivessem estressados: falam
correndo e estão sempre querendo resolver tudo “pra
ontem”. E ainda aparecem trocentos personagens novos, que
trazem novos imbróglios para a trama e os personagens que
já existiam somem, não sabemos o que acontece com
eles e a trama principal não existe mais.
Tudo vira então uma enrolação dos diabos,
um samba do crioulo doido, onde até Dom Pedro II aparece
para visitar a cidadezinha perdida no Oeste americano. Sem falar
na irmã de Ben Silver, que é mostrada na animação
da primeira cena da novela como uma moça enquanto ele é
uma criança; mas, na fase atual, sustentam o contrário:
que a irmã do personagem era criança quando aqueles
eventos aconteceram.
Não sei se a intenção de Mário Prata
foi reviver os tempos dos westerns, se ele quis tentar fazer sucesso
com uma “novela de época diferente”, como fez
Cassiano Gabus Mendes em Que Rei Sou Eu?. Acredito que
um pouco da “migração” da audiência
para novelas como as da Record se deve ao fato de os telespectadores
atuais terem muito menos paciência para entender tramas que
tenham ingredientes diferentes e preferirem o arroz com feijão
(o que é bem a cara da trama da novela da Record, Prova
de Amor). Fico pensando: Que Rei Sou Eu? faria hoje
o sucesso que fez em 1989? Será que uma trama que metaforizava
a situação política do Brasil, em plena primeira
eleição presidencial em mais de 20 anos, transportada
para uma corte em 1786 num reino inventado da Europa, chamado “Avillan”,
conquistaria o público hoje, mais de quinze anos depois?
Acredito que não. O telespectador médio de TV está
cada vez menos exigente e mais preguiçoso. Isso não
quer dizer que Bang Bang seria uma obra-prima da dramaturgia,
mas sim que ela precisaria ter tido um pouco mais de crédito
do telespectador, que habitualmente só acha legal ver o maniqueísmo
irritante das novelas mexicanas e dos banhos de lágrimas
de Manoel Carlos. Agora é tarde, Carlos Lombardi já
deixou sua “marca” na novela. Só resta soltar
a descarga.

Onde saber sobre novelas? www.teledramaturgia.com.br.
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