O que um ex-preso político romeno,
contrário ao domínio do ditador soviético Josef
Stálin em seu país, com problemas na coluna em decorrência
de dez anos de trabalhos forçados numa mina de carvão
da gelada Sibéria viria fazer no Brasil tropical no final
da década de 50? Simplesmente o mais inusitado: não
só montar o jornal que viria a ser o mais querido do Brasil,
mas também iniciar a própria história do jornalismo
popular brasileiro - o qual, conforme nosso futebol, não
há igual em nenhum outro canto do mundo. Assim começa
a narrativa do livro-reportagem Nada mais que a verdade.
Em
1959, Jean Mellé, que antes do domínio stalinista
comandou a redação do principal jornal da Romênia,
desembarca em São Paulo com um propósito muito claro.
O de montar um periódico cujo discurso seja severamente contrário
ao que mais odiara a vida toda: o comunismo. Para isso, nada melhor
do que bater na porta da burguesia paulista, temerosa do namoro
entre o presidente João Goulart com representatividades de
esquerda - o que mais tarde causaria sua queda e o período
mais nefasto da história brasileira, graças à
ditadura militar.
Entretanto, a intenção de Mellé não
sai exatamente como o planejado. Ao invés de um jornal encorpado,
com uma postura crítica, mas intelectual, voltado para as
camadas mais altas da sociedade, surge um veículo de linguagem
acessível, para as classes baixas. Fruto da visão
de seu patrocinador, o então deputado federal Herbert Levy,
de tradicional família quatrocentona paulista. O motivo era
óbvio: combater a influência do Última Hora,
jornal criado por um dos maiores jornalistas brasileiros de todos
os tempos, Samuel Wainer - curiosamente também suspeito de
ter nascido na Romênia -, com o apoio do governo Vargas, cuja
linha editorial era mais alinhada à esquerda e tendenciosa
ao governo Goulart. Era o povão quem Levy queria doutrinar.
Sorte que com o tempo o perfil editorial do NP (como era
conhecido por seus leitores) mudou. No lugar do mero combate à
esquerda, o jornal ganha alma própria. Deixa de ser o agente
doutrinador para tomar uma posição muito mais honrada:
a de parceiro do povo. Era no NP que os pobres depositavam
suas esperanças de ver os problemas do bairro resolvidos,
de aprender a lidar com seu dinheirinho em mais uma troca de moeda,
de ler as notícias de seus ídolos, seja um jogador
de futebol, um cantor ou um astro de novela.
Nesse quesito, vale uma ressalva. Nada mais que a verdade
não retrata apenas a evolução do jornal em
si e das dezenas de crises econômicas (desvalorização
da moeda, inflação, arrochos salariais) e sociais
(assassinatos, tráfico de drogas, acidentes de trânsito)
pelas quais o país passa nos 32 anos de existência
do NP (1963-2001). É também um excelente
panorama da cultura pop brasileira, dos artistas cujas imagens realmente
estão ligadas à massa, sem qualquer discurso político.
Pelas páginas do NP não passaram Chicos
Buarques, Gilbertos Gils, Caetanos Velosos, Geraldos Vandrés
ou quaisquer outros artistas de posição política.
Para esses, as rotativas dos ditos jornalões, mesmo muitas
vezes em situações de risco, já estavam preparadas
- até mesmo para os textos censurados, com as famosas receitas
de bolo. As tintas do NP foram guardadas para os verdadeiros
fenômenos de massa da cultura brasileira: jovem guarda, sertanejo,
pagode, axé music e as ditas músicas bregas (alvo
da próxima coluna na análise do livro Eu não
sou cachorro não). Sem nos esquecer, é claro,
do artista talvez mais identificado com o NP, o grande
cineasta José Mojica Marins, vulgo Zé do Caixão.
Lógico que à parte esse trabalho de identificação
com o gosto popular, havia muitas lendas e mentiras. Em nenhum outro
jornal se contou mais lorotas do que no NP. Disso ninguém
duvida. Pelos próprios títulos das reportagens se
tem idéia do tamanho das galhofas: Roberto Carlos deu
dois tiros nos agressores (25/04/1966), Bela moça
deu a luz um macaco (05/07/1977), Nasceu o diabo em São
Paulo (11/05/1975) e por aí vai.

O interessante, nesse caso, é que o que seria motivo de
falta de ética em outros jornais, no NP vira um
atrativo para o leitor. Mesmo que, fruto da ingenuidade do povo
humilde, muitos pensassem que todas essas histórias bizarras
fossem mesmo realidade, os relatos acabavam se tornando verdadeiros
folhetins. Não histórias do jornalismo diário,
como as que se lê por aí, do sujeito que matou outro
e foi preso e, dias depois, nada mais se sabe do acontecido. Não.
No NP o relato ganhava um verdadeiro enredo, com caráter
muito próximo das novelas - na realidade, mais para o roteiro
de um filme trash.
E é justamente tal postura que atrai um público maior
de leitores ao NP ao longo dos anos. No começo da
década de 80, conforme relata o livro, não só
as classes C e D lêem o jornal. O público jovem classe
média - do qual aliás faz parte o quarteto de autores
de Nada mais que a verdade - também passa a se interessar
pelas notícias. Não pela informação
em si, pois, por serem mais instruídos, tinham plena convicção
de se tratar da mais pura marmelada. Mas por mera diversão.
Nenhum outro jornal do Brasil cumpriu um dos papéis os quais
o NP melhor sabia exercitar, o de divertir.
Senão, vejamos. Qual outro jornal teria coragem de estampar
em suas capas títulos tão criativos como esses: Papai
Noel assassinado no pacotão do governo (22/11/1986,
sobre o congelamento de preços do governo Sarney), Lula
e Brizola: briga de foice pelo 2.° lugar (17/11/1989, sobre
a primeira eleição para presidente após a ditadura
militar), É o penta que partiu (12/07/1998, sobre
a derrota do Brasil na final da Copa para a França) e, na
opinião desse que vos escreve, o mais espirituoso, Quem
tem Kuait tem medo (14/01/1991, sobre a Guerra do Golfo).
Por essas que confesso que, ao final do livro, dei muitas risadas.
Mas também fiquei com um imenso sentimento de frustração:
jamais poderei trabalhar na redação do jornal mais
bacana e engraçado que já chegou às bancas
desse país. Afinal, de notícias sérias, que
tanto nos entristecem, o mundo já está cheio. Nem
só de escândalos políticos e números
da violência se fazem boas informações. Patelas
graúdas de enredos pitorescos, temperados com pitadas caprichadas
de humor, cozidos no forno do estilo popular de se escrever também
são ingredientes afrodisíacos para um bom jornalismo.
O NP (seus ex-funcionários, e, principalmente, seu
público) que o diga.
Serviço
Nada
mais que a verdade - a extraordinária história do
jornal Notícias Populares
Autores: Celso de Campos Jr, Denis Moreira,
Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima.
Editora: Carrenho Editorial.
Preço médio: R$ 32,00.
Mais informações, acesse o site
da editora.
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