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Beagá, 01 de agosto de 2005 d.C.
 
Um jornalismo não tão sério
Por Obdulio Rimet
 

O que um ex-preso político romeno, contrário ao domínio do ditador soviético Josef Stálin em seu país, com problemas na coluna em decorrência de dez anos de trabalhos forçados numa mina de carvão da gelada Sibéria viria fazer no Brasil tropical no final da década de 50? Simplesmente o mais inusitado: não só montar o jornal que viria a ser o mais querido do Brasil, mas também iniciar a própria história do jornalismo popular brasileiro - o qual, conforme nosso futebol, não há igual em nenhum outro canto do mundo. Assim começa a narrativa do livro-reportagem Nada mais que a verdade.

Em 1959, Jean Mellé, que antes do domínio stalinista comandou a redação do principal jornal da Romênia, desembarca em São Paulo com um propósito muito claro. O de montar um periódico cujo discurso seja severamente contrário ao que mais odiara a vida toda: o comunismo. Para isso, nada melhor do que bater na porta da burguesia paulista, temerosa do namoro entre o presidente João Goulart com representatividades de esquerda - o que mais tarde causaria sua queda e o período mais nefasto da história brasileira, graças à ditadura militar.

Entretanto, a intenção de Mellé não sai exatamente como o planejado. Ao invés de um jornal encorpado, com uma postura crítica, mas intelectual, voltado para as camadas mais altas da sociedade, surge um veículo de linguagem acessível, para as classes baixas. Fruto da visão de seu patrocinador, o então deputado federal Herbert Levy, de tradicional família quatrocentona paulista. O motivo era óbvio: combater a influência do Última Hora, jornal criado por um dos maiores jornalistas brasileiros de todos os tempos, Samuel Wainer - curiosamente também suspeito de ter nascido na Romênia -, com o apoio do governo Vargas, cuja linha editorial era mais alinhada à esquerda e tendenciosa ao governo Goulart. Era o povão quem Levy queria doutrinar.

Sorte que com o tempo o perfil editorial do NP (como era conhecido por seus leitores) mudou. No lugar do mero combate à esquerda, o jornal ganha alma própria. Deixa de ser o agente doutrinador para tomar uma posição muito mais honrada: a de parceiro do povo. Era no NP que os pobres depositavam suas esperanças de ver os problemas do bairro resolvidos, de aprender a lidar com seu dinheirinho em mais uma troca de moeda, de ler as notícias de seus ídolos, seja um jogador de futebol, um cantor ou um astro de novela.

Nesse quesito, vale uma ressalva. Nada mais que a verdade não retrata apenas a evolução do jornal em si e das dezenas de crises econômicas (desvalorização da moeda, inflação, arrochos salariais) e sociais (assassinatos, tráfico de drogas, acidentes de trânsito) pelas quais o país passa nos 32 anos de existência do NP (1963-2001). É também um excelente panorama da cultura pop brasileira, dos artistas cujas imagens realmente estão ligadas à massa, sem qualquer discurso político.

Pelas páginas do NP não passaram Chicos Buarques, Gilbertos Gils, Caetanos Velosos, Geraldos Vandrés ou quaisquer outros artistas de posição política. Para esses, as rotativas dos ditos jornalões, mesmo muitas vezes em situações de risco, já estavam preparadas - até mesmo para os textos censurados, com as famosas receitas de bolo. As tintas do NP foram guardadas para os verdadeiros fenômenos de massa da cultura brasileira: jovem guarda, sertanejo, pagode, axé music e as ditas músicas bregas (alvo da próxima coluna na análise do livro Eu não sou cachorro não). Sem nos esquecer, é claro, do artista talvez mais identificado com o NP, o grande cineasta José Mojica Marins, vulgo Zé do Caixão.

Lógico que à parte esse trabalho de identificação com o gosto popular, havia muitas lendas e mentiras. Em nenhum outro jornal se contou mais lorotas do que no NP. Disso ninguém duvida. Pelos próprios títulos das reportagens se tem idéia do tamanho das galhofas: Roberto Carlos deu dois tiros nos agressores (25/04/1966), Bela moça deu a luz um macaco (05/07/1977), Nasceu o diabo em São Paulo (11/05/1975) e por aí vai.

O interessante, nesse caso, é que o que seria motivo de falta de ética em outros jornais, no NP vira um atrativo para o leitor. Mesmo que, fruto da ingenuidade do povo humilde, muitos pensassem que todas essas histórias bizarras fossem mesmo realidade, os relatos acabavam se tornando verdadeiros folhetins. Não histórias do jornalismo diário, como as que se lê por aí, do sujeito que matou outro e foi preso e, dias depois, nada mais se sabe do acontecido. Não. No NP o relato ganhava um verdadeiro enredo, com caráter muito próximo das novelas - na realidade, mais para o roteiro de um filme trash.

E é justamente tal postura que atrai um público maior de leitores ao NP ao longo dos anos. No começo da década de 80, conforme relata o livro, não só as classes C e D lêem o jornal. O público jovem classe média - do qual aliás faz parte o quarteto de autores de Nada mais que a verdade - também passa a se interessar pelas notícias. Não pela informação em si, pois, por serem mais instruídos, tinham plena convicção de se tratar da mais pura marmelada. Mas por mera diversão. Nenhum outro jornal do Brasil cumpriu um dos papéis os quais o NP melhor sabia exercitar, o de divertir.

Senão, vejamos. Qual outro jornal teria coragem de estampar em suas capas títulos tão criativos como esses: Papai Noel assassinado no pacotão do governo (22/11/1986, sobre o congelamento de preços do governo Sarney), Lula e Brizola: briga de foice pelo 2.° lugar (17/11/1989, sobre a primeira eleição para presidente após a ditadura militar), É o penta que partiu (12/07/1998, sobre a derrota do Brasil na final da Copa para a França) e, na opinião desse que vos escreve, o mais espirituoso, Quem tem Kuait tem medo (14/01/1991, sobre a Guerra do Golfo).

Por essas que confesso que, ao final do livro, dei muitas risadas. Mas também fiquei com um imenso sentimento de frustração: jamais poderei trabalhar na redação do jornal mais bacana e engraçado que já chegou às bancas desse país. Afinal, de notícias sérias, que tanto nos entristecem, o mundo já está cheio. Nem só de escândalos políticos e números da violência se fazem boas informações. Patelas graúdas de enredos pitorescos, temperados com pitadas caprichadas de humor, cozidos no forno do estilo popular de se escrever também são ingredientes afrodisíacos para um bom jornalismo. O NP (seus ex-funcionários, e, principalmente, seu público) que o diga.

Serviço

Nada mais que a verdade - a extraordinária história do jornal Notícias Populares
Autores: Celso de Campos Jr, Denis Moreira, Giancarlo Lepiani e Maik Rene Lima.
Editora: Carrenho Editorial.
Preço médio: R$ 32,00.
Mais informações, acesse o site da editora.

 
Obdulio Rimet é a identidade secreta do jornalista Marcão Xavier, correspondente do ABACAXI ATÔMICO em Curitiba. E-mail: obdulio@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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