Anos 80
Um inglês demente trabalhando para a DC Comics consegue transformar
uma revista de segunda linha em um indiscutível sucesso a
ponto de lançar bases para a linha de quadrinhos adultos
da editora.
1985
Esse mesmo inglês cria um personagem secundário para
essa revista. Tal personagem, apesar de seu jeito cínico
e sacana, cai nas graças do público e ser torna ícone
da linha de quadrinhos adultos da DC, a ponto da revista estrelada
por essa personagem ser publicada até hoje.
2005
A tal personagem acaba se transformando em filme. E apesar de não
respeitar literalmente as características básicas
da versão original, acaba gerando um bom filme, a ponto de
o estúdio decidir investir em uma continuação.
Não é muito difícil adivinhar de quem estou
falando, não é? Afinal, nosso digníssimo personagem
foi alvo das mais diversas publicações especializadas
em quadrinhos e cinema nos último meses - até aqui,
no ABACAXI ATÔMICO.
Trata-se,
é claro, de John Constantine, um dos mais carismáticos
personagens do selo Vertigo. Constantine foi criado em 1985 por
Alan Moore, o nosso demente e genial escritor inglês, como
personagem coadjuvante de uma história do Monstro do Pântano.
Moore tinha assumido o título alguns anos antes, transformando
a revista em um cult quase imediato. Foi graças ao trabalho
dele na série e, principalmente, com Watchmen (uma
das melhores obras de quadrinhos do século passado), associado
aos trabalhos de Neil Gaiman (Sandman) e Frank Miller (Batman
- Cavaleiro das Trevas) que a DC Comics firmou as bases para
a inauguração da sua linha de quadrinhos adultos,
a Vertigo.
Na história original do Monstro do Pântano,
o cientista Alec Holland era vítima de um acidente de laboratório.
Com a explosão, ele é arremessado nas águas
de um pântano próximo. Sua pesquisa era relacionada
com um derivado vegetal e, supostamente por causa dessa explosão,
o tal derivado reagiu com o corpo do cientista, transformando-o
em uma criatura híbrida humana - vegetal. Posteriormente,
Alec descobriu que seu acidente (que também ocasionou a morte
de sua esposa) foi um ato criminoso e decidiu partir para a vingança.
Bem, isso era o que os leitores acreditaram durante anos. Até
que Alan Moore virou tudo de pernas para o ar, revelando que o Monstro
do Pântano na realidade era um elemental que entrou em contato
com as partes moribundas de Alec Holland, absorvendo suas memórias.
Transformou-o em um ser místico de quase infinitos poderes.
O Monstro viveu as mais diversas aventuras, entrando em contato
com personagens clássicas da DC, como Batman e Superman,
e até mesmo viajando ao espaço... E é claro,
conhecendo o nosso estimado John Constantine, o alvo deste presente
artigo.
Constantine
surgiu pela primeira vez no arco de histórias conhecido como
American Gothic, na qual ele servia como uma espécie
de guia do Monstro em uma viagem a várias cidades do interior
norte-americano. Era uma homenagem de Alan Moore aos clássicos
do horror americano, passando por vampiros e casas assombradas ao
estilo de Amytiville.
Com seu jeito canalha, o inglês conquistou o público
na hora. E passou a aparecer outras vezes na série, tendo
papel de destaque no arco de história que ocorreu paralelamente
ao evento Crises nas Infinitas Terras (uma série
que se propôs a reorganizar a confusa cronologia da DC, lançada
em 1988). Enquanto os super-heróis tentavam salvar o universo,
John e um grupo de magos tentavam conter as conseqüências
do caos deflagrado pela crise no plano místico e o Monstro,
junto a outros personagens, como o demônio Etrigan, agia no
plano infernal.
Com a efetivação da linha Vertigo, era uma questão
de lógica que Constantine ganhasse uma revista própria.
Eis que surgiu então o título Hellblazer.
Mas isso não quer dizer que o nosso “herói”
tenha ficado restrito apenas a sua revista. Continuou a fazer aparições
esporádicas no título do Monstro do Pântano,
além de ter feito participações antológicas
no primeiro arco de Sandman, Prelúdios
e Noturnos, na minissérie Livros da Magia,
como um dos membros da “brigada dos encapotados”, um
grupo de místicos responsáveis por introduzir o jovem
bruxo Tim Hunter ao mundo da magia, só para citar os exemplos
mais famosos.
John é uma mistura de roqueiro, mago e detetive sobrenatural
(por falta de um termo melhor para descrevê-lo). Com seus
cabelos loiros, um cigarro sempre aceso na boca e seu inseparável
sobretudo, Constantine, inspirado fisicamente no roqueiro inglês
Sting, nasceu na Inglaterra e é descendente de uma linhagem
de Constantines sempre envolvidos com a magia e com a tragédia.
Sua antepassada mais famosa é Lady Johanna Constantine, que
teve um papel importante na série Sandman.
Como a própria “maldição” dos
Constantines já indicava, o nascimento de John foi marcado
pela desgraça. Sua mãe e seu irmão gêmeo
morreram durante o parto e ele foi criado pela irmã mais
velha Cheryl e pelo pai, Thomas, um homem amargurado, que não
conseguia arrumar emprego por ter perdido um braço em um
acidente de trabalho.
Assim
John, conhecido quando adulto por seu infalível charme com
as mulheres, era, surpreendentemente, uma criança tímida
e franzina. Por estar sempre sozinho e isolado, acabou descobrindo
a magia.
Nos idos dos anos 70, ele já se auto-intitulava um mago.
Esse período da vida de John foi mostrado no especial Love
Street, que saiu no Brasil pela extinta editora Brainstore,
e também em algumas edições de Hellblazer.
Ele montou para si uma turma de aprendizes. Também fez parte
do movimento punk em Londres e chegou até mesmo a ter uma
banda chamada "Membrana Mucosa".
Em 1978, John e sua equipe de seguidores viajaram para a cidade
de New Castle para investigar um caso de suspeita de magia negra
em um lugar chamado Clube Casanova. Essa história seria uma
das mais importantes para entender a trajetória da personagem,
já que suas implicações repercutem até
hoje nas histórias de Constantine.
No local suspeito, ele e seus companheiros encontraram no porão
várias pessoas horrivelmente mutiladas. A filha do dono do
lugar, Astra, dançava ouvindo as gravações
dos gritos dos desmembrados e inconscientemente acabou por tomar
parte daqueles rituais satânicos. John achou que poderia tomar
conta da situação, mas as coisas saíram terrivelmente
do controle. Um portal para o inferno foi aberto. Ele e seu grupo
foram atacados. A pobre Astra foi levada para o mundo inferior,
e John, ao tentar salva-la, vislumbrou o Inferno por alguns segundos,
o que fez com que ele enlouquecesse e ficasse em um hospício
por dois anos. Durante muito tempo, John se culpou pelo destino
de Astra.
Mas
ao invés de fazer com que John voltasse às costas
para o mundo da magia, essa experiência só fez reforçar
sua necessidade de compreender melhor o mundo sobrenatural. Ele
passou anos vagando pelo mundo para expandir seus conhecimentos
místicos, entrando em contato com outros personagens da DC
relacionados com o fantástico, como o mago Zatarra e sua
filha Zatanna - essa, talvez a mais famosa (ex) namorada da ampla
galeria de mulheres conquistadas por John, sendo que ela fez até
parte da Liga da Justiça -, os demais membros da Brigada
dos Encapotados, Doutor Oculto, Vingador Fantasma e Mister
Io, sem falar do já citado Monstro do Pântano.
Durante suas idas e vindas quase morreu, mas foi salvo graças
ao sangue de um demônio chamado Nergal, que ele descobriu
depois ser o responsável pela ida de Astra para as Terras
Infernais.
Constantine também acabou sendo escolhido por Alec Holland
como pai substituto de sua filha Tefé Holland. Isso porque,
sendo um elemental, o Monstro do Pântano não poderia
engravidar diretamente a sua esposa, Abigail. Sendo assim, ele precisou
passar a sua consciência para o corpo de John e desse modo
gerar a criança. Portanto, Tefé, a filha do Monstro
e de Abigail, tem tanto os poderes elementais herdados do seu pai,
Alec Holland, como parte do sangue demoníaco de John, concedido
por Nergal.
Mas
o que sempre chamou a atenção de John Constantine
e conquistou uma legião de fãs em todo o mundo foi
seu jeito cínico e irônico de lidar com as piores situações.
John nunca foi um santo. Ele está além do bem e do
mal. Sabe que existe uma luta ferrenha entre o Céu e o Inferno,
mas não toma oficialmente um partido. Ele anda na corda bamba
entre as Luzes e as Trevas, evitando cair em um dos lados.
E mesmo não sendo o maior mago da terra ou algo do tipo,
é temido e respeitado pelos vários círculos
míticos. Apenas porque ele é John Constantine, o homem
que, para não morrer de câncer de pulmão, vendeu
a alma para três demônios diferentes, pois, sendo assim,
se ele morresse sua alma seria o pivô de uma disputa capaz
de destruir o Inferno.
Com exceção das histórias escritas por Alan
Moore, talvez as melhores estreladas pelo loirão sejam aquelas
escritas por Garth Ennis e desenhadas por Steve Dillon. Quem conhece
Ennis de sua outra famosa série para a Vertigo, Preacher,
sabe do que ele é capaz. Ennis é desbocado e inconseqüente,
não se importa em pintar as tropas celestiais de um modo
não muito santo, e não tem pudores em tratar de temas
mais polêmicos como sexo, violência e drogas. Ou seja,
uma personagem como John Constantine era um prato cheio para ele,
e um presente fantástico para os leitores que pegaram essa
fase da vida da personagem.
E, é claro, não poderíamos deixar de falar
da versão cinematográfica do “herói”.
No filme, Constantine foi transformado de um inglês loiro
e cínico em um americano moreno e cínico. A escolha
de Keanu Reeves para o papel acabou gerando um protesto quase unânime
entre os fãs, que preferiam ver alguém mais condizente
vivendo a personagem no cinema. E, apesar de não ser um Constantine
perfeito, Reeves até que se esforça bastante.A trama
do filme também tenta trazer elementos que consagraram a
série: a batalha entre o Céu e o Inferno. Nele, a
detetive Angela (Rachel Weiz) investiga o suposto suicídio
da irmã gêmea, o que a leva a entrar em contato com
John Constantine, um homem capaz de ver anjos e demônios entre
os humanos e, por ter quase enlouquecido graças a esse “dom”,
tentou o suicídio na adolescência, condenando a sua
alma imortal à danação eterna. A morte da irmã
de Angela parecer ser um fato crucial para o desequilíbrio
da balança entre o Céu e o Inferno.
Constantine
não é um filme ruim, muito pelo contrário,
funciona bem e diverte. Mas, para quem está acostumado com
a personagem nos quadrinhos, pode deixar a desejar em alguns momentos.
O filme poderia ser muito melhor do que ficou, pois transformou
o Constantine de um cretino filho da mãe cínico e
egoísta que sacaneia o Capeta por diversão (e que
todos nós, fãs de HQs, aprendemos a amar exatamente
por isso) em um Cruzado moderno em busca de redenção.
Quem sabe na continuação eles dão uma melhorada?
Mas se você viu o filme e não conhecia a personagem,
recomendo que você leia as HQs para se deliciar com o charme
desse inglês sacana.
Se você já conhece o Constantine e viu o filme, não
bufe de raiva. Pense que o resultado ficou legal, o Keanu Reeves
se saiu bem, o filme não é nenhum Demolidor nem
um Batman e Robin, ou seja, consegue ter um mínimo
de respeito e consideração pela personagem. Volte
para a casa, desenterre as suas Hellblazer do armário
e leia. Pensa não no que poderia ter sido, mas no que ele
(o personagem) é, mesmo que apenas nas HQs.
Dicas de Sites
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2488
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2494
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2489
www.universohq.com/Quadrinhos/2003/n01092003_05.cfm
www.universohq.com/quadrinhos/2004/n19102004_07.cfm
www.fabricadequadrinhos.virgula.com.br/
indexo.php?...&id=2124
www.45graus.com.br/entrevista.asp?id=98

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos
chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar
uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br. |