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Beagá, 02 de maio de 2005 d.C.
 

Entre Anjos e Demônios

Por Katchiannya Cunha

 

Anos 80
Um inglês demente trabalhando para a DC Comics consegue transformar uma revista de segunda linha em um indiscutível sucesso a ponto de lançar bases para a linha de quadrinhos adultos da editora.

1985
Esse mesmo inglês cria um personagem secundário para essa revista. Tal personagem, apesar de seu jeito cínico e sacana, cai nas graças do público e ser torna ícone da linha de quadrinhos adultos da DC, a ponto da revista estrelada por essa personagem ser publicada até hoje.

2005
A tal personagem acaba se transformando em filme. E apesar de não respeitar literalmente as características básicas da versão original, acaba gerando um bom filme, a ponto de o estúdio decidir investir em uma continuação.

Não é muito difícil adivinhar de quem estou falando, não é? Afinal, nosso digníssimo personagem foi alvo das mais diversas publicações especializadas em quadrinhos e cinema nos último meses - até aqui, no ABACAXI ATÔMICO.

Trata-se, é claro, de John Constantine, um dos mais carismáticos personagens do selo Vertigo. Constantine foi criado em 1985 por Alan Moore, o nosso demente e genial escritor inglês, como personagem coadjuvante de uma história do Monstro do Pântano.

Moore tinha assumido o título alguns anos antes, transformando a revista em um cult quase imediato. Foi graças ao trabalho dele na série e, principalmente, com Watchmen (uma das melhores obras de quadrinhos do século passado), associado aos trabalhos de Neil Gaiman (Sandman) e Frank Miller (Batman - Cavaleiro das Trevas) que a DC Comics firmou as bases para a inauguração da sua linha de quadrinhos adultos, a Vertigo.

Na história original do Monstro do Pântano, o cientista Alec Holland era vítima de um acidente de laboratório. Com a explosão, ele é arremessado nas águas de um pântano próximo. Sua pesquisa era relacionada com um derivado vegetal e, supostamente por causa dessa explosão, o tal derivado reagiu com o corpo do cientista, transformando-o em uma criatura híbrida humana - vegetal. Posteriormente, Alec descobriu que seu acidente (que também ocasionou a morte de sua esposa) foi um ato criminoso e decidiu partir para a vingança.

Bem, isso era o que os leitores acreditaram durante anos. Até que Alan Moore virou tudo de pernas para o ar, revelando que o Monstro do Pântano na realidade era um elemental que entrou em contato com as partes moribundas de Alec Holland, absorvendo suas memórias. Transformou-o em um ser místico de quase infinitos poderes. O Monstro viveu as mais diversas aventuras, entrando em contato com personagens clássicas da DC, como Batman e Superman, e até mesmo viajando ao espaço... E é claro, conhecendo o nosso estimado John Constantine, o alvo deste presente artigo.

Constantine surgiu pela primeira vez no arco de histórias conhecido como American Gothic, na qual ele servia como uma espécie de guia do Monstro em uma viagem a várias cidades do interior norte-americano. Era uma homenagem de Alan Moore aos clássicos do horror americano, passando por vampiros e casas assombradas ao estilo de Amytiville.

Com seu jeito canalha, o inglês conquistou o público na hora. E passou a aparecer outras vezes na série, tendo papel de destaque no arco de história que ocorreu paralelamente ao evento Crises nas Infinitas Terras (uma série que se propôs a reorganizar a confusa cronologia da DC, lançada em 1988). Enquanto os super-heróis tentavam salvar o universo, John e um grupo de magos tentavam conter as conseqüências do caos deflagrado pela crise no plano místico e o Monstro, junto a outros personagens, como o demônio Etrigan, agia no plano infernal.

Com a efetivação da linha Vertigo, era uma questão de lógica que Constantine ganhasse uma revista própria. Eis que surgiu então o título Hellblazer. Mas isso não quer dizer que o nosso “herói” tenha ficado restrito apenas a sua revista. Continuou a fazer aparições esporádicas no título do Monstro do Pântano, além de ter feito participações antológicas no primeiro arco de Sandman, Prelúdios e Noturnos, na minissérie Livros da Magia, como um dos membros da “brigada dos encapotados”, um grupo de místicos responsáveis por introduzir o jovem bruxo Tim Hunter ao mundo da magia, só para citar os exemplos mais famosos.

John é uma mistura de roqueiro, mago e detetive sobrenatural (por falta de um termo melhor para descrevê-lo). Com seus cabelos loiros, um cigarro sempre aceso na boca e seu inseparável sobretudo, Constantine, inspirado fisicamente no roqueiro inglês Sting, nasceu na Inglaterra e é descendente de uma linhagem de Constantines sempre envolvidos com a magia e com a tragédia. Sua antepassada mais famosa é Lady Johanna Constantine, que teve um papel importante na série Sandman.

Como a própria “maldição” dos Constantines já indicava, o nascimento de John foi marcado pela desgraça. Sua mãe e seu irmão gêmeo morreram durante o parto e ele foi criado pela irmã mais velha Cheryl e pelo pai, Thomas, um homem amargurado, que não conseguia arrumar emprego por ter perdido um braço em um acidente de trabalho.

Assim John, conhecido quando adulto por seu infalível charme com as mulheres, era, surpreendentemente, uma criança tímida e franzina. Por estar sempre sozinho e isolado, acabou descobrindo a magia.

Nos idos dos anos 70, ele já se auto-intitulava um mago. Esse período da vida de John foi mostrado no especial Love Street, que saiu no Brasil pela extinta editora Brainstore, e também em algumas edições de Hellblazer. Ele montou para si uma turma de aprendizes. Também fez parte do movimento punk em Londres e chegou até mesmo a ter uma banda chamada "Membrana Mucosa".

Em 1978, John e sua equipe de seguidores viajaram para a cidade de New Castle para investigar um caso de suspeita de magia negra em um lugar chamado Clube Casanova. Essa história seria uma das mais importantes para entender a trajetória da personagem, já que suas implicações repercutem até hoje nas histórias de Constantine.

No local suspeito, ele e seus companheiros encontraram no porão várias pessoas horrivelmente mutiladas. A filha do dono do lugar, Astra, dançava ouvindo as gravações dos gritos dos desmembrados e inconscientemente acabou por tomar parte daqueles rituais satânicos. John achou que poderia tomar conta da situação, mas as coisas saíram terrivelmente do controle. Um portal para o inferno foi aberto. Ele e seu grupo foram atacados. A pobre Astra foi levada para o mundo inferior, e John, ao tentar salva-la, vislumbrou o Inferno por alguns segundos, o que fez com que ele enlouquecesse e ficasse em um hospício por dois anos. Durante muito tempo, John se culpou pelo destino de Astra.

Mas ao invés de fazer com que John voltasse às costas para o mundo da magia, essa experiência só fez reforçar sua necessidade de compreender melhor o mundo sobrenatural. Ele passou anos vagando pelo mundo para expandir seus conhecimentos místicos, entrando em contato com outros personagens da DC relacionados com o fantástico, como o mago Zatarra e sua filha Zatanna - essa, talvez a mais famosa (ex) namorada da ampla galeria de mulheres conquistadas por John, sendo que ela fez até parte da Liga da Justiça -, os demais membros da Brigada dos Encapotados, Doutor Oculto, Vingador Fantasma e Mister Io, sem falar do já citado Monstro do Pântano.

Durante suas idas e vindas quase morreu, mas foi salvo graças ao sangue de um demônio chamado Nergal, que ele descobriu depois ser o responsável pela ida de Astra para as Terras Infernais.

Constantine também acabou sendo escolhido por Alec Holland como pai substituto de sua filha Tefé Holland. Isso porque, sendo um elemental, o Monstro do Pântano não poderia engravidar diretamente a sua esposa, Abigail. Sendo assim, ele precisou passar a sua consciência para o corpo de John e desse modo gerar a criança. Portanto, Tefé, a filha do Monstro e de Abigail, tem tanto os poderes elementais herdados do seu pai, Alec Holland, como parte do sangue demoníaco de John, concedido por Nergal.

Mas o que sempre chamou a atenção de John Constantine e conquistou uma legião de fãs em todo o mundo foi seu jeito cínico e irônico de lidar com as piores situações. John nunca foi um santo. Ele está além do bem e do mal. Sabe que existe uma luta ferrenha entre o Céu e o Inferno, mas não toma oficialmente um partido. Ele anda na corda bamba entre as Luzes e as Trevas, evitando cair em um dos lados.

E mesmo não sendo o maior mago da terra ou algo do tipo, é temido e respeitado pelos vários círculos míticos. Apenas porque ele é John Constantine, o homem que, para não morrer de câncer de pulmão, vendeu a alma para três demônios diferentes, pois, sendo assim, se ele morresse sua alma seria o pivô de uma disputa capaz de destruir o Inferno.

Com exceção das histórias escritas por Alan Moore, talvez as melhores estreladas pelo loirão sejam aquelas escritas por Garth Ennis e desenhadas por Steve Dillon. Quem conhece Ennis de sua outra famosa série para a Vertigo, Preacher, sabe do que ele é capaz. Ennis é desbocado e inconseqüente, não se importa em pintar as tropas celestiais de um modo não muito santo, e não tem pudores em tratar de temas mais polêmicos como sexo, violência e drogas. Ou seja, uma personagem como John Constantine era um prato cheio para ele, e um presente fantástico para os leitores que pegaram essa fase da vida da personagem.

E, é claro, não poderíamos deixar de falar da versão cinematográfica do “herói”. No filme, Constantine foi transformado de um inglês loiro e cínico em um americano moreno e cínico. A escolha de Keanu Reeves para o papel acabou gerando um protesto quase unânime entre os fãs, que preferiam ver alguém mais condizente vivendo a personagem no cinema. E, apesar de não ser um Constantine perfeito, Reeves até que se esforça bastante.A trama do filme também tenta trazer elementos que consagraram a série: a batalha entre o Céu e o Inferno. Nele, a detetive Angela (Rachel Weiz) investiga o suposto suicídio da irmã gêmea, o que a leva a entrar em contato com John Constantine, um homem capaz de ver anjos e demônios entre os humanos e, por ter quase enlouquecido graças a esse “dom”, tentou o suicídio na adolescência, condenando a sua alma imortal à danação eterna. A morte da irmã de Angela parecer ser um fato crucial para o desequilíbrio da balança entre o Céu e o Inferno.

Constantine não é um filme ruim, muito pelo contrário, funciona bem e diverte. Mas, para quem está acostumado com a personagem nos quadrinhos, pode deixar a desejar em alguns momentos. O filme poderia ser muito melhor do que ficou, pois transformou o Constantine de um cretino filho da mãe cínico e egoísta que sacaneia o Capeta por diversão (e que todos nós, fãs de HQs, aprendemos a amar exatamente por isso) em um Cruzado moderno em busca de redenção. Quem sabe na continuação eles dão uma melhorada?

Mas se você viu o filme e não conhecia a personagem, recomendo que você leia as HQs para se deliciar com o charme desse inglês sacana.

Se você já conhece o Constantine e viu o filme, não bufe de raiva. Pense que o resultado ficou legal, o Keanu Reeves se saiu bem, o filme não é nenhum Demolidor nem um Batman e Robin, ou seja, consegue ter um mínimo de respeito e consideração pela personagem. Volte para a casa, desenterre as suas Hellblazer do armário e leia. Pensa não no que poderia ter sido, mas no que ele (o personagem) é, mesmo que apenas nas HQs.

Dicas de Sites

http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2488
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2494

http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2489

www.universohq.com/Quadrinhos/2003/n01092003_05.cfm
www.universohq.com/quadrinhos/2004/n19102004_07.cfm
www.fabricadequadrinhos.virgula.com.br/
indexo.php?...&id=2124
www.45graus.com.br/entrevista.asp?id=98

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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