Beagá, Domingo, 02 de fevereiro de 2003 d.C.

O Triste Herói

Por Katchiannya Cunha
E-mail: katchiannya@abacaxiatomico.com.br

Está nas bancas há algum tempo mais uma série da consagrada dupla Loeb e Sale: Homem-Aranha Azul (minissérie em três partes). Homem-Aranha Azul é a segunda parte de uma "trilogia" sobre os primórdios de alguns heróis da Marvel. A primeira foi a já lançada minissérie Demolidor Amarelo, a terceira investida é a ainda inédita Hulk Cinza.

Jeff Loeb e Tim Sale parecem ter se especializado em mostrar os heróis mais famosos dos quadrinhos no começo de suas carreiras, quando eram quase amadores - mesmo que esse não seja o enfoque principal da história em alguns casos, como em Batman Longo Dia das Bruxas, na sua continuação Dark Victory e nas já citadas séries da Marvel, quando é exatamente sobre isso que eles queriam tratar, como na minissérie sobre o Homem de Aço intitulada As Quatro Estações.

Suas histórias têm um certo ar de saudosismo, seja na estrutura dos roteiros, sejam nos cenários e vestuários, que acabam por nos remeter ao passado, enquanto paradoxalmente sempre acrescentam um novo elemento. O mesmo pode ser visto em Homem Aranha Azul, que retrata um dos melhores períodos da história do Aracnídeo, quando ele estava na faculdade morando com Harry Osbourne, apaixonando-se por Gwen Stacy, mas ainda assim sentindo-se um pouco atraído pela bela e audaciosa Mary Jane.

Foi exatamente nessa época (durante a década de 70) que a áurea de herói trágico e ao mesmo tempo humano do Aranha se consolidou. Se na sua origem a morte do Tio Ben e a culpa indireta de Peter no ocorrido já nos forneciam uma carga dramática poderosa, nas histórias da década de 70 (desenhadas magistralmente, em sua maioria, por John Romita Sr.) a trajetória do herói ganha um status de tragédia quase grega.

Peter se apaixona por Gwen e se torna amigo de Harry, que por sua vez namora Mary Jane, que tem uma queda por Peter. Mas não se resume apenas a isso: Harry, o melhor amigo de Peter, é na verdade filho do Duende Verde/Norman Osbourne, arquiinimigo do herói. Como se isso ainda não fosse o suficiente, as histórias dessa época ainda lidavam com temas polêmicos como discriminação racial, política e drogas, tornando-se um marco não apenas na trajetória de Peter Parker, mas na história das HQ's, podendo ser conferidas na recém lançada Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha. A importância desse período ainda pode ser notada na grande influência que essas histórias tiveram na elaboração do roteiro do filme do Aranha.

Como eu já havia dito, a história toda pode ser classificada como uma tragédia, pois Gwen morre nas mãos do Duende, talvez por culpa de Peter, e Harry assume o legado do pai, passando a odiar seu ex-melhor amigo. Muita água rolou depois disso: Peter casou-se com Mary Jane, Harry também morreu... Mas isso não vem ao caso, voltemos à série. Nela, temos o Peter de agora relembrando seu passado, uma época em que era feliz e não tinha noção da tormenta que o aguardava. Um Peter nostálgico, blue (triste), como nos lembra o título. Ele narra à sua amada Gwen seu passado em comum, ao qual não podem mais voltar, numa mistura de diário e "carta" de despedida.

Se levássemos em conta a minissérie isoladamente, ela seria uma excelente história sobre um excelente herói. Entretanto, depois de começarmos a ler, ficamos com a ligeira impressão de que já vimos aquilo em algum lugar. E realmente vimos: na minissérie Demolidor Amarelo. Nela, Matt Murdock também se volta para o passado e para a sua amada e falecida Karen Page. Só que Matt escreve uma carta para desabafar, enquanto Peter utiliza um gravador. Se não fosse o triângulo amoroso Gwen-Peter-MJ, poderíamos pensar que não passa da mesma história com outros personagens.

Por que tantas similaridades entre as minisséries? Falta de criatividade? Ou será que foi intencional? É difícil dizer... Talvez seja realmente intencional essa semelhança nas histórias. Como muitos leitores já devem ter percebido, Matt e Peter têm muito em comum: a importância das figuras paternas em suas vidas (Ben Parker e Jack Murdock), a tragédia em suas vidas amorosas (as mortes de Gwen e Karen), seus romances com badgirls (Elektra e Gata Negra), alguns inimigos em comum (o Rei do Crime, por exemplo, arquiinimigo do Demolidor, surgiu nas histórias do Aranha), entre outros detalhes... Mas dizer que o Demolidor é uma versão mais cult do Aranha ou que o Aranha é uma versão mais comercial do Demolidor é esvaziar ambas as personagens. Afinal de contas, tanto Demolidor e Aranha possuem características próprias, fortes e marcantes - se fosse assim, Peter não estaria usando um gravador, mas escreveria também :o). Talvez o ideal não seja negar essas semelhanças, mas explora-las. Loeb e Sale estão fazendo isso, assim como Kevin Smith fez (soberbamente, diga-se de passagem) em sua série sobre o Homem sem Medo. É fácil pensar em Murdock quase como um irmão mais velho e mais maduro de Peter, que já se fixou na vida adulta, enquanto Peter ainda começa a dar seus primeiros passos nesse sentindo.

Pensando assim, Homem Aranha Azul e Demolidor Amarelo são séries que se complementam, mesmo que não seja obrigatório ler uma para entender a outra.

Agradecimentos à Banca Nona Arte - UFMG Campus Pampulha - próxima da entrada da Av. Antônio Carlos. Telefone: 9652-4091.

Dicas de Sites:

Omelete
http://www.omelete.com.br/panini/ha_azul1.asp

Quadrinhos Universo HQ
http://www.universohq.com/quadrinhos/review_homem_aranha_azul01.cfm

Devir | Marvel
http://www.devir.pt/marvel/proximas_atraccoes_index.html

Herói - Mangá & HQ
http://www.heroi.com.br/quadrinhos/index.asp

A Arca - A Arte em Ser do Contra
http://www.a-arca.com/

RocketComics
http://www.rocketcomics.cjb.net/

Cosmo HQ
http://hq.cosmo.com.br/

 

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