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| Beagá,
Domingo, 14 de julho de 2002 d.C. |
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A ruína de um Império: o fim da Abril Jovem Por
Katchiannya Cunha A guerra finalmente acabou. E o resultado não foi exatamente o que esperávamos... A Abril não vai mais publicar revistas em quadrinhos.
Depois de mais de vinte anos publicando quadrinhos de super-heróis, a Abril entregou os pontos... Sei que estou sendo repetitiva, mas a notícia é por demais chocante e difícil de acreditar. Muitos de nós crescemos lendo HQs de heróis com o selo da Abril estampado nas capas, mesmo que por um tempo a Globo tenha tentado entrar na competição. Não tivemos a oportunidade de ler qualquer coisa publicada pela Ebal ou pela RGE. Quadrinhos de heróis, pelo menos os comerciais, eram os da Abril e ponto. Por isso a notícia é tão impactante e, porque não dizer, histórica. Quando, meses atrás, tivemos o anúncio de que a Marvel deixaria de ser publicada pela Abril e passaria a ser de responsabilidade da Panini (mais detalhes no artigo Guerra de Editoras), enquanto alguns leitores ficaram apreensivos (ironicamente) em relação à Panini, outros leitores comemoraram o fim da parceria Abril-Marvel, pois com o fim do monopólio de quadrinhos de super-heróis, ambas as editoras seriam obrigadas a se empenhar e a melhorar seus produtos, tanto em termos de qualidade quanto de respeito ao leitor. A Abril prometia atacar com todas as suas armas e, aparentemente, os leitores seriam os verdadeiros vencedores dessa batalha. O que nenhum de nós tinha percebido é que a Abril não era mais tão poderosa assim, e que o império estava prestes a ruir. Quanto à Panini, acabou mostrando ao mercado do que era capaz, colocando nas bancas produtos de extrema qualidade gráfica e mais baratos que os da concorrente. Todos ainda estão se perguntando o porquê do fim da Abril. As hipóteses e explicações são inúmeras: crise no mercado brasileiro de quadrinhos? O boom dos mangás? O surgimento de pequenas editoras, como a Mythos, a Opera Graphica, a Pandora e a Brainstore? A Panini? A revolta dos leitores contra a volta dos formatinhos? Em relação à crise do mercado, talvez sua contribuição para o fim da editora não seja tão forte, pois embora publicar HQ no Brasil seja uma arte para poucos, a situação do mercado já esteve muito pior. Quanto a todas as outras hipóteses levantadas... bem, com certeza cada uma delas pode ter, em parte, contribuído para a situação chegar aonde chegou. Mas o que pouca gente percebe é que a própria Abril também é culpada pelo seu fim. Não se pode negar que durante todos esses anos a editora fez, muitas vezes, um grande trabalho com quadrinhos, trouxe séries e minisséries de sucesso, algumas delas revolucionárias, introduziu as graphic novels no mercado nacional, foi uma das pioneiras na publicação de mangás com Mai, a Garota Sensitiva e A Lenda de Kamui. Mas por ser o monopólio que era, a Abril acabou por se acomodar num lugar de suposta onipotência, se sentia inatingível. Quantos e quantos leitores reclamavam até recentemente de séries que eram interrompidas sem nenhuma explicação dentro de uma publicação para depois serem retomadas com dezenas de edições americanas entre esse fim e o retorno, deixando o leitor sempre com aquela sensação de quem pegou o bonde andando - e a editora nem para ter o mínimo de consideração de pelo menos colocar um mini-resumo para situar o leitor na história. E esse era o menor dos pecados da Abril... Um dos piores pecados
(falta de respeito em relação ao público mesmo) era a manipulação descarada
das obras originais. Nós comprávamos uma revista crentes de que líamos
exatamente o que os americanos liam; entretanto, a editora, na maior cara
dura, mudava os diálogos e até a arte!!! Uma coisa é você, por exemplo,
mudar um trecho que cita uma série de TV que nunca chegou ao Brasil, trocando-a
por outra mais conhecida por aqui, como ocorreu em uma história do Aranha
em que Peter e MJ falam sobre Arquivo X E se os leitores reclamavam desse tipo de coisa, a desculpa e a resposta para a picaretagem eram que deveríamos entender que o mercado brasileiro é muito diferente do americano (não é mentira, aconteceu comigo!!!). Outro ponto incompreensível era a maneira como selecionavam-se as histórias a serem publicadas. Quem acompanha as publicações do mercado americano fica sem entender como séries excelentes, algumas premiadas e aclamadas pela crítica, como por exemplo Starman ou Nightwing (Asa Noturna), ambas da DC Comics, eram preteridas em favor das péssimas histórias do Azrael ou de uma fase decadente pela qual a Mulher-Gato vinha passando até recentemente. A explicação era sempre a mesma supracitada. Essas pequenas atitudes por parte da editora (que começaram a se intensificar nos últimos tempos) certamente contribuíram para o afastamento de alguns leitores. Afinal, mais que um produto financeiramente acessível (o que não deixa de ser importantíssimo), todo leitor quer um pouco de respeito e, principalmente, de qualidade - e, para ser sincera, mais qualidade de conteúdo que gráfica.
Aí veio a Panini, a volta dos formatinhos num mercado em que praticamente 90% do que é publicado sai em formato americano ou em magazine, e o resto entrou mesmo para a história: a falência da Abril. O pior de tudo é que quem pagou o pato foi mesmo o leitor, pois apesar de todas as mancadas a Abril sempre nos deu a certeza de ter uma história do Batman ou do Super-Homem ou de tantos outros heróis todo mês nas bancas. E agora, o que será da DC no Brasil? Embora a Opera Graphica e a Mythos publiquem alguns especiais de seus heróis mais populares e até mesmo séries contínuas de outros personagens, e a Brainstore se ocupe de algumas publicações da linha Vertigo, nada ainda está oficialmente definido sobre o futuro da DC por estas bandas.
Mais detalhes, é só acessar: www.omelete.com.br ou www.heroi.com.br ou qualquer outro site especializado em quadrinhos. |
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