Beagá, Domingo, 10 de março de 2002 d.C.

Frank Miller strikes again ou: O Retorno do retorno do Morcego

Por Katchiannya Cunha
E-mail: katchiannya@abacaxiatomico.com.br

Meados e fins da década de 80: Estados Unidos. Os quadrinhos americanos passam por uma nova e significativa revolução. HQs adultas ganham força, mostrando que são mais do que um "escapismo fantasioso" para crianças e adolescentes (de acordo com seus críticos mais ferrenhos), podendo conter obras críticas, inteligentes e profundas, cujas narrativas iam além de pancadarias nonsense entre heróis e vilões em colantes berrantes (os colantes e a pancadaria podiam até estar presentes, mas eram características secundárias da história).

As mudanças foram extremamente significativas, como por exemplo o surgimento de uma linha exclusiva de quadrinhos adultos em uma das maiores editoras americanas, a DC Comics, ou a própria incorporação de elementos das HQs adultas nos quadrinhos mais comerciais e convencionais. Provou também que os leitores de quadrinhos não são os idiotas que muita gente supunha que fossem.

Muito dessa revolução se deve a três escritores: Alan Moore, com seu Monstro do Pântano e, principalmente, Watchmen, uma das melhores obras de quadrinhos do século passado, tendo sido inclusive capa da Time; Neil Gaiman, com seu Sandman, que realmente inaugurou a linha Vertigo da DC; e Frank Miller e seu Batman - Cavaleiro das Trevas.

Lançado em 1986, Cavaleiro das Trevas é uma obra significativa não apenas pela qualidade e teor de seu texto, mas também por estar relacionada com um dos mais importantes personagens da DC. Embora as obras de Gaiman e Moore não fiquem nada a dever em relação a de Miller, tanto Monstro do Pântano quanto Sandman (sendo esse último um novo personagem com o nome de um, ou melhor, vários já existentes) eram sobre personagens secundários da DC, enquanto Watchmen tinha como protagonistas heróis criados exclusivamente para a série, mesmo que baseados em personagens também secundários de editora. Já Cavaleiro... era sobre O Batman, um dos três "deuses" da DC. Depois disso, não dava mais para negar que havia algo novo e vibrante no ar.

Batman - Cavaleiro das Trevas foi escrito e desenhado por Frank Miller, que já havia feito anteriormente um trabalho excepcional com o Demolidor da Marvel, e também é conhecido por obras como Elektra Assassina, Batman Ano Um, A Queda de Murdock, e mais recentemente Os 300 de Esparta e Sin City. A arte-final foi feita por Klaus Janson (Thor); já as cores foram de responsabilidade de Lynn Varley, mulher de Miller, que desde de então mantém uma parceria constante com o marido.

Passada em um futuro alternativo, trazendo antigos personagens e apresentando outros novos, como a carismática Robin/Carrie Kelley, Batman - Cavaleiro das Trevas se mostrou como uma intrigante e por vezes brutal reinterpretação do Homem Morcego e de suas motivações. Tal caracterização foi tão marcante que influenciou todas as outras composições da personagem na década seguinte, seja nos quadrinhos, cinema ou tv. Mas parece que para Miller todo esse sucesso e reconhecimento não foram suficientes. Algo mais precisava ser contado...

E isso nos leva a Dark Knght Strikes Again ou Batman - Cavaleiro das Trevas 2. Quinze anos depois, Miller retoma a história do ponto em que parou a minissérie original, depois que Batman finge sua morte e monta um pequeno exército de "batboys". Batman - Cavaleiro das Trevas 2 é uma minissérie de três partes, cada revista com 80 páginas. Foi lançada em dezembro do ano passado nos Estados Unidos e ainda não foi encerrada. Aqui no Brasil acabou de sair nas bancas.

Na nova série, três anos se passaram. Robin se tornou a comandante de campo do Batman e mudou seu codinome para Catgirl/Moça Gato. Os heróis ainda continuam sendo mal-vistos pelo governo. A situação toda é de um fascismo velado. Batman resolve virar o jogo, resgatando e/ou recrutando os heróis mais rebeldes para junto de si. E, surpresa das surpresas: quem está por trás de tudo é ninguém mais que Lex Luthor, que mantém sob seu poder muitos dos maiores heróis da Terra, como o Super-Homem, a Mulher Maravilha e o Capitão Marvel, mediante ameaças.

Como toda continuação de uma grande obra, Batman - Cavaleiro das Trevas 2 não consegue se igualar ao original. A história parece ser muito boa mas é claro, é preciso esperar o fim da série para qualquer afirmação mais definitiva. Entretanto, alguns pontos já podem ser levantados...

Se por um lado é interessante descobrir as respostas das questões deixadas em aberto na série original, por outro algumas das respostas, em princípio, tiram um pouco do impacto da antecessora. Por exemplo: com a descoberta de Luthor como o responsável pelos males do mundo, enfraquece a posição do Super-Homem como contraponto do Batman. Se na primeira história o Super era o representante das instituições da sociedade e da manutenção do status quo, acreditando que o bem do povo realmente reside nas mãos de seus governantes e que não convém criticar e refletir, mas acatar, Batman representava um espírito livre e inquisidor. Questionava os problemas sociais, demandava mudanças e assumia a própria responsabilidade nessas mudanças, mesmo que às vezes de forma meio radical e violenta. Já agora, o Super é um pobre coitado manipulado por Lex, que mantém sua família kriptoniana sob custódia. É tão correto quanto o Batman, só que não teve escolha para agir como age. Por isso, o embate entre eles no primeiro número da série nova não é tão impactante quanto no original, pois não existe realmente um conflito de idéias.

A estrutura da narrativa ainda mantém certo padrão da primeira série, com os acontecimentos protagonizados pelos heróis sendo entrecortados por comentários de jornais. Uma mostra de como a mídia está tão explicitamente presente nas nossas vidas, e de como pouco nos damos conta disso.

Talvez uma das melhores sacadas de Miller para a primeira edição seja mostrar o Batman a conta-gotas, só em sombras, aparições parciais ou apenas seus diálogos, e deixar para realmente introduzi-lo, com força total, quase no fim do número, no ápice da edição. Aí sim, ele surge, inteiro, quase como um gigante, e não há como o leitor não soltar uma exclamação ao vê-lo.

Entretanto, nem tudo são flores. Embora o estilo de Miller no desenho seja perfeito para a história, ele já esteve melhor. Alguns quadros parecem meio estranhos, assim como alguns personagens. Citando um exemplo, o Super-Homem ora parece continuar realmente jovem, ora parece ter mais rugas que uma ameixa seca, suas expressões são confusas. Além disso, uma pergunta me perseguia enquanto lia a história: onde diabos tinham ido parar todos os cenários?

Mas o pior de tudo são as cores. Berrantes, esquisitíssimas, por vezes mal colocadas sobre os desenhos.Tudo bem que é a primeira vez que Lynn Varley está usando computador para pintar, mas não há desculpa para "aquilo". Ela parece até uma criança feliz com o presente novo, querendo mexer e descobrir tudo que ele faz ("ah, acho que se colocar um efeito aqui vai ficar legal"), e ainda acreditando piamente que está fazendo arte de vanguarda. Pode parecer exagero, mas quem já viu seus trabalhos anteriores sabe que ela pode fazer melhor.

Um dado interessante (e que deve deixar muito leitor novato boiando) é que, aparentemente, Batman Cavaleiro das Trevas 2 segue uma cronologia pré-Crise nas Infinitas Terras (uma série que se propôs a reorganizar a confusa cronologia da DC, lançada em 1988). Com isso, temos Barry Allen como o Flash, a Cidade Engarrafada de Kandor é ainda um pedacinho perdido de Kripton e a (ex) Supergirl é Kara Jor-El, prima kriptoniana de Clark, e não a junção do protoplasma extradimensional Mae com a humana Linda Danvers. Isso sem falar de alguma outra surpresinha que Miller deve estar guardando.

Caso Batman - Cavaleiro das Trevas 2 depois de tudo se mostrar totalmente decepcionante (e eu espero que não), pelo menos ele servirá para uma coisa: despertar o interesse da nova geração de leitores para um dos maiores clássicos da história das HQs: o Cavaleiro das Trevas original.

Dicas de Sites:

www.herois.com.br
Site da Editora Abril Jovem, responsável pela publicação de Batman - Cavaleiro das Trevas 2 no Brasil.

www.dccomics.com
Site da editora americana, responsável pela série.

 

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