Beagá, Domingo, 24 de fevereiro de 2002 d.C.

A Filha do Homem-Aranha pede socorro

Por Katchiannya Cunha
E-mail: katchiannya@abacaxiatomico.com.br

A Garota-Aranha, ou Spider-Girl (que teve algumas de suas aventuras publicadas aqui no Brasil pela Abril Jovem nas últimas edições da Teia do Aranha e no recente Almanaque Marvel da Mythos), parece não ter futuro no mercado americano. A Marvel anunciou que vai cancelar a revista no número cinqüenta.

Para quem não conhece a Garota-Aranha, ela é resultado direto da confusa Saga Clone, que reinou nas revistas do Aranha alguns anos atrás. Na saga, além do retorno do clone de Peter Parker, criado pelo seu antigo vilão e ex-professor, o Chacal, descobrimos que Mary Jane está grávida. Supostamente, o bebê, chamada de May em homenagem à tia do herói, morreu no parto (dúvida que ainda permanece na cabeça dos leitores das revistas do herói). Entretanto, Tom Defalco, um dos principais roteiristas da saga, resolve trazer de volta a filha do Aranha, já crescida, e em um futuro alternativo. A primeira aparição de May Parker, a filha de Peter e MJ, ocorreu na revista na revista What if # 105 (cujas histórias são conhecidas aqui no Brasil como O que teria acontecido se?). A história foi um sucesso tão grande que a Marvel resolveu relançá-la como Spider-Girl # 0, a primeira de uma nova linha de revistas da Marvel, conhecida como Marvel Comics 2 ou MC2.

Além das revistas da Spider-Girl, primeiramente a Marvel lançou outras duas publicações: A-Next, sobre uma nova geração de Vingadores (Avengers) e J2, sobre Zane Yama, o filho do Fanático, Juggernaut. Porém, enquanto a Spider-Girl se mostrava um sucesso, nenhuma das duas outras revistas decolou e elas acabaram sendo canceladas.

A Marvel não desistiu e resolveu lançar mais outras duas novas publicações: Fantastic Five e Wild Thing. Na primeira, tínhamos as aventuras do Fantastic Five, a versão futura do Quarteto Fantástico. A segunda revista narrava as aventuras de Wild Thing ou Rina, filha do Wolverine e de Elektra. Mas novamente as coisas não deram certo e as publicações foram suspensas.

Depois de amargar o fracasso duas vezes, a Marvel desistiu de lançar outros títulos mensais através do MC2, concentrando-se nas revistas Spider-Girl e lançando uma ou outra minissérie de heróis extraídos do título, como a minissérie do DarkDevil e a do The Buzz. Entretanto, a onda da baixa de vendas acabou por alcançar as revistas da Spider-Girl. Já é a segunda vez que a revista é ameaçada de cancelamento: na primeira vez, um abaixo-assinado via internet realizado pelos fãs, além de várias cartas e e-mails, salvou a revista. Um novo abaixo-assinado está sendo organizado, caso estejam interessados em ajudar a salvar o título é só acessar o endereço www.savemayday.com.

O Caminho da Roça

Quando se pensa em quadrinhos nacionais, a primeira coisa que nos vem à cabeça ou são revistas da Turma da Mônica ou quadrinhos de humor, como os trabalhos de cartunistas já consagrados como Laerte, Angeli ou Fernando Gonsales. Entretanto, existe muito mais no mundo dos quadrinhos brasileiros do que sonha nossa vã filosofia. Um é exemplo é o álbum Saino a Percurá, de Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira, mais conhecido como Lelis.

Durante muito tempo Lelis foi ilustrador do jornal Estado de Minas. Atualmente, ele trabalha para a Folha de São Paulo, já tendo participado de vários Salões de Humor e de quadrinhos pelo Brasil, ganhando também alguns prêmios. A segunda história de Saino a Percurá, "Neo Liberal", apareceu primeiramente na 3ª Bienal de Quadrinhos, em 1997, isso só para citar um exemplo.

Com traços pouco convencionais, uma linguagem próxima da linguagem do povo e texto ritmado mesmo quando não há rimas, Saino a Percurá lembra muito as obras de literatura de cordel, especialmente a primeira história (que dá título ao álbum). Aliado a tudo isso, ainda temos nas histórias um fundo de crítica social deliciosamente sutil e ao mesmo tempo cáustica. Com todos esses elementos reunidos, não há como negar que estamos diante de uma obra-prima.

A história título é de um absurdo incrível: conta a historia de um desafortunado filho de um pato e uma galinha (?!), cujo possível destino certo seria a panela. Entretanto, contrariando essa premissa, ele acaba por surpreender a todos que o conheciam. A segunda história, a já citada "Neo Liberal", poderia também se chamar uma tragédia sertaneja ou "saindo do fogo para cair na frigideira", mostrando, de forma curta porém crítica, a ironia do destino de muitas mulheres do interior, cujas escolhas na vida (ou as escolhas que a vida faz para elas) acabam sempre por levar a um desfecho amargo.

Já a terceira história, "Mudernidades" (sem dúvida a melhor das três), é uma crítica sagaz à televisão, ou melhor: ao processo de zumbificação promovido pela TV, especialmente nos membros das camadas mais carentes da sociedade, que volta e meia vivem suas vidas mais pelo que acontece com os personagens de uma novela ou de um programa que por aquilo que ocorre em suas próprias vidas.

Saino a Percurá é um trabalho único e especial, caracterizando a vida no interior de forma genuína e sincera, embora carregada de crítica, mostrando-se uma obra verdadeiramente brasileira. Caso você se interesse em adquirir o álbum, ele pode ser encontrado na Banca 9ª Arte: Av. Antônio Carlos, 6627- Campus UFMG (Pampulha) - Portão1 - Tel.: (31) 9652-4091. Para entrar em contato com o estúdio do autor, o e-mail é estudiolelis@uol.com.br.

 

© Todos os direitos reservados
Melhor visualizado em 800x600
Recomendamos Internet Explorer 4.0 ou superior