Beagá, Domingo, 14 de outubro de 2001 d.C.

O Planeta dos Mutantes

Por Katchiannya Cunha
E-mail: katchiannya@abacaxiatomico.com.br

A Mythos está para lançar no mercado (ou pelo menos está prometendo lançar) a maxi-série Earth X (Terra X), que narra um possível futuro do Universo Marvel. Universos alternativos e futuros possíveis ou linhas temporais diversas não são nenhuma novidade para os fãs de quadrinhos, especialmente os de super-heróis.

A Marvel se tornou uma especialista nesse tipo de narrativa. Os X-Men, por exemplo, já tiveram em sua formação membros que vieram de realidades alteradas ou de futuros prováveis como Bishop, Rachel Summers, a segunda Fênix e seu irmão Nathan, mais conhecido como Cable, isso sem falar na contraparte extradimensional de Cable, Nate Grey, o X-Man. A família Summers é um caso a parte, já que praticamente toda sua trajetória está intimamente ligada com um vai e vem temporal. Outros exemplos são a uma das melhores sagas já escritas nas x-revistas, A Era de Apocalipse, na qual Legião, filho do Professor Xavier, volta no tempo com o intuito de matar Magneto, mas acaba matando o pai por engano. Com isso, surge uma linha temporal alternativa e instável controlada pelo tirano Apocalipse. É claro que no fim tudo volta ao normal. Aliás, tal linha temporal deu origem recentemente a uma série chamada Exiles, com a personagem Blink, da era citada, e um grupo de outros heróis que pulam de dimensão para dimensão como os personagens do seriado Sliders. Além disso, temos a antiga série Mutant X, com as aventuras de Alex Summers em uma Terra paralela, e toda a linha de revistas do selo Marvel Comics 2, cuja única revista sobrevivente vem a ser a Spider-Girl que narra a história de May Parker, filha de Peter. Sem falar nas séries 2099, nas já clássicas What if (O que aconteceria se), nas excelentes revistas da linha Ultimate e na minissérie Ruínas, lançada aqui também pela Mythos.

Mas então o que faz Terra X tão diferente de todos esses outros exemplos acima? Bem, tudo e ao mesmo tempo nada. Tudo, porque a Marvel tentou dar à série um ar mais "adulto" e trágico, que a maioria das publicações supracitadas não têm (o que não quer dizer que a série é melhor ou pior que estas outras); nada, porque apesar desse ar pretensamente mais sério ela é apenas mais uma história sobre um futuro possível.

Escrita por Jim Krueger, foi lançada nos Estados Unidos no ano passado e, ao contrário do que muita gente pensa, não foi pintada por Alex Ross. Ross é conhecido aqui por seus excelentes trabalhos como ilustrador das séries Marvels, O Reino do Amanhã, Uncle Sam e dos especiais de aniversários dos heróis Batman, Super-Homem, Capitão Marvel e futuramente da Mulher-Maravilha. Alex Ross não desenhou a série, "apenas" elaborou o designer das personagens e pintou belamente as capas - unidas, elas formam uma espécie de pôster (que deve ser perdido na versão nacional, pois aqui as versões geralmente contém mais de uma edição americana). O desenhista é John Paul Lion, que faz um trabalho competente: em sua ânsia de ser "alternativo" e "adulto", por vezes sua arte é relativamente confusa e "suja", mas no geral o resultado é satisfatório.

Também não esperem um novo O Reino do Amanhã versão Marvel, embora a estrutura seja extremamente semelhante. Em O Reino do Amanhã, que conta um possível futuro dos heróis da DC Comics, temos um mundo lotado de superseres descontrolados, prestes a entrar em colapso - em Terra X também. Entretanto, nesta última todas as pessoas da Terra têm superpoderes, não há mais nenhum humano inocente que possa estar perdido e desamparado no meio de uma guerra entre esses superseres. Aparentemente, uma invenção de Reed Richards, o Sr. Fantástico, foi a responsável por essa Terra lotada de mutantes (daí o X da Terra).

Em O Reino do Amanhã temos o pastor Norman Mc Cay, descrente da vida e do futuro da humanidade, sendo guiado através dos acontecimentos pelo Espectro, num processo que resultará não apenas na recuperação da fé e da humanidade de Mc Cay assim como também numa nova possibilidade para todos os humanos comuns e superseres. Enquanto isso, em Terra X temos X-51, um robô que sempre quis alcançar o sentido da humanidade, sendo "guiado" por um Vigia cego que observa e narra o que acontece para ele. A participação de X-51 é fundamental na conclusão da série.

Mas as semelhanças param aí. Enquanto em O Reino do Amanhã a narrativa é centrada principalmente nos três grandes heróis da editora (Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha) além de Mc Cay e Espectro, o que permite um aprofundamento das personagens e de suas motivações tornando-os até mesmo mais próximos dos leitores, Terra X passa por quase todas as personagens da Marvel, embora algumas sejam mais destacadas em algumas edições.

Algumas versões são bastante interessantes, outras deixam a desejar. Durante a história vemos um Peter Parker gordo e aposentado, remoído por suas culpas passadas; sua filha May, associada com o simbionte Venom, entretanto não dominada pelo "lado negro" da criatura; temos novas versões dos X-Men, oriundos de um circo; um novo Demolidor, que não pode morrer; um desiludido Capitão América; um Tony Stark que, para não perder a humanidade, se isolou do resto do mundo; versões robôs dos Vingadores; um Wolverine gordo e bêbado, e por aí vai...

Um dos vilões da série é o jovem Caveira Vermelha, um garotinho cujo nascimento provocou a morte de todos os telepatas da Terra e que usa uma roupa que lembra bastante o uniforme do Justiceiro. Mas nada, nada mesmo é o que parece - especialmente no que se diz respeito aos Inumanos (que têm um papel mais que crucial na história) e a Galactus.

Embora o autor tenha um profundo conhecimento sobre a história da editora e suas explicações sobre o como e o porquê dos eventos seja interessante, bem construída (exceto a relativa a Galactus) e tenha como base exatamente este passado, a narrativa em si não é tão boa assim. Em alguns momentos ela chega a ser confusa e chata, talvez por esta tentativa de ser "séria", e em momento algum, nem mesmo no clímax, chega realmente a empolgar. Vale mais pela curiosidade de ver como seu personagem preferido está nesse futuro alternativo do que por qualquer outra coisa. Apesar disso, a série parece ter se saído bem nos Estados Unidos, uma vez que deu origem a uma espécie de "continuação" chamada Universe X.

A seguir, uma lista de sites relacionados à série - a maioria são resenhas.

http://www.realidadalternativa.com/comics/reviews/earthx/2001-3-21-12-17.shtml
RA : Comics : Reviews : Earth X

http://www.steamboatcomics.com/reviews.html
Storyteller Comics - Reviews Earth X

http://www.geocities.com/intoliquidsky/site/books/earthx.html
Into Liquid Sky - Book Reviews

http://www.popculturemadness.com/Titles/EarthX.htm
Universe X - Earth X

http://www.universohq.com/quadrinhos/novidades_mythos.cfm
Quadrinhos Universo HQ

 

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