Beagá, Domingo, 24 de junho de 2001 d.C.

Empire contra-ataca

Por Katchiannya Cunha
E-mail: katchiannya@abacaxiatomico.com.br

Reúna em um mesmo lugar alguns dos melhores artistas da indústria dos quadrinhos, deixando que eles criem as séries que sempre sonharam, escrevendo e desenhando o que quiserem e como quiserem. Essa era a proposta do selo Gorilla Comics da editora Image.

Formada por um excelente time de artistas, a Gorilla contava com Kurt Busiek (Marvels, Thunderbolts e Vingadores) e Stuart Immonen (Super-Homem) com ShockRockets, Mark Waid (Flash, Capitão América e O Reino do Amanhã) e Barry Kitson com Empire, George Perez (Crise nas Infinitas Terras - e para quem acha que é preciso dizer mais alguma coisa - Vingadores), Karl Kesel e Tom Grummett com Section Zero, e Todd deZago e Mike Wieringo (ambos dos títulos do Homem-Aranha) com Tellos.

Mas dentre todos esses títulos o que mais se destacava, sem sombra de dívidas, era Empire. Não apenas pela arte de Barry Kitson, que é muito boa, nem apenas pelo texto de Mark Waid, competente como sempre, mas principalmente pela proposta dos criadores.

Imagine um mundo sem nenhum herói, onde aqueles que ao menos pensarem em ser heróis são mortos cruel e friamente, um mundo dominado pelo medo e corrupção, onde ninguém é e nem pode ser inocente. Esse é o mundo de Empire. Mais desolador e sinistro, impossível.

A revista conta a história de Golgoth, que durante dez anos conquistou e dominou o mundo inteiro, destruindo ou subjugando governos e nação à sua vontade, criando um grande império ditatorial com 6 bilhões de súditos, de fazer inveja a Napoleão e Hitler (muitos dos métodos de Golgoth não são tão diferentes dos do líder nazista).

Aparentemente, Golgoth era um herói que resolve conquistar o mundo para "salvá-lo", mas alguma coisa aconteceu no meio do caminho e Golgoth se transformou em um tirânico sanguinário, que levou uma das máximas de Maquiavel, "Melhor ser temido que ser amado", a extremos jamais imaginados - é inclusive capaz de matar o melhor amigo para o bem do Império. A única pessoa que Golgoth realmente parece amar é sua filha adolescente, que vive o estereótipo de princesinha presa em uma torre de cristal: não lhe é permitido nenhum conhecimento sobre o reino de crueldade em que seu pai transformou o mundo. Para ela, o pai é realmente um herói, um rei benevolente e salvador da humanidade.

Golgoth se vê cercado por um grupo de Ministros responsáveis por manter o status quo do Império, cada um responsável pelo controle das mais diversas facetas da manutenção do poder, desde assassinatos dos inimigos do Estado, passando por tortura de insubordinados e guerras, até manipulação geral das notícias mundiais, de modo que elas sempre fiquem a favor de Golgoth.

Entretanto, nem em seus supostos braços direitos Golgoth pode confiar: são todos corruptos e cruéis, e parecem ter prazer nisso. Na primeira demonstração de fraqueza do Imperador, nenhum deles hesitaria em aplicar um golpe. Golgoth é um homem completamente só, cercado por potenciais traidores, ameaçado por rebeldes terroristas, com uma filha que ama apenas uma ilusão; mas nada disso parece ser importante para ele. Tudo que importa é dominar o mundo com mão de ferro (ou não, pois de Mark Waid pode-se esperar tudo).

O visual de Golgoth parece uma versão futurista da armadura do Dr. Destino, arquiinimigo do Quarteto Fantástico. O próprio jeito de ser de Golgoth remete-nos novamente a Destino, embora ele seja muito mais maquiavélico do que Victor Von Doom já almejou ser. O que diferencia Empire das demais revistas é que realmente não existe um herói ou até mesmo um anti-herói simpático com quem podemos nos identificar e torcer. E embora isso não exista (ou talvez justamente por isso) a história não deixa de ser fascinante.

É incrível como se pode perceber na série a banalização do mal, no sentido em que quando ser ruim se tornou o convencional, o normal e o indispensável para sobreviver: não existe outra escolha a não ser assim. São poucos os que se questionam se a dor que infligem no outro é certa ou errada, ela é apenas a norma.

A idéia inicial da série, segundo o próprio Waid, surgiu com a primeira série regular que ele escreveu, Impact's THE COMET. A idéia de Waid era pegar o herói dessa série e escrever novas histórias com ele se tornando um vilão. Ao invés disso, ele transferiu essas características para Golgoth e criou Empire.

Porém, com a falência do selo Gorilla Comics, o destino de Empire ainda é incerto. A série provavelmente passará a ser publicada pelo selo Homage, da Wildstorm, de Jim Lee. E, embora Mark Waid tenha assinado um contrato de exclusividade com a CrossGen Comics, assim como George Pérez também fez, ele parece continuar querendo publicar Empire.

Dicas de Sites:

http://www.apenation.com
Ape Nation: Home of Gorilla Comics - site oficial do selo Gorilla Comics; contém resenhas, dados sobre criadores e personagens não apenas de Empire, mas de outros títulos como Crimson Plague, de George Pérez, Section Zero, de Karl Kesel e Tom Grummett, ShockRockets, de Kurt Busiek, Stuart Immonen e Wade von Grawbadger.

http://www.sequentialtart.com/archive/may00/art_0500_11.shtml
Sequential Tart - site muito bacana, com artigos bastante interessantes sobre a Gorilla Comics e quadrinhos em geral, além de entrevistas e otras cositas mas.

http://www.zealot.com/features/archives/markwaid.php3
Zealot.com

http://www.fandomshop.com/comics/interviews/waid090100.html

http://www.herorealm.com/Interviews/MarkWaid.htm
Hero Realm - Mark Waid Interview

http://www.comicbookgalaxy.com/interviews/waid.html
Comic Book Galaxy: Mark Waid Interview

http://www.comicfanmag.com/print_mwaid_interv.html
ComicFan - Interview with Mark Waid

Todos os sites acima contém entrevistas com Mark Waid, o criador e roteirista de Empire, sendo que a maioria deles possui outros artigos sobre quadrinhos e algumas outras entrevistas bem legais.

 

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