Beagá, Domingo, 29 de outubro de 2000 d.C.

Kingdom Comics
Dicas alternativas de quadrinhos alternativos

"Made in Japan"

Por Katchiannya Cunha

Todo mundo no Brasil sabe da existência dos quadrinhos japoneses, quase todo mundo sabe que eles são conhecidos como mangá, mas, ironicamente, pouca gente (descontando colecionadores, fanáticos e afins) realmente leu uma história em quadrinhos japonesa. A verdade é que muito poucos mangás foram publicados aqui no Brasil, e a grande maioria dos brasileiros conhece-os através de seus filhotes televisivos: os animes - o que é uma pena. Não que a presença dos animes seja ruim, muito pelo contrário, a animação japonesa, no geral, é fantástica, mas, na sua maioria, os animes são versões reduzidas e um pouco alteradas das histórias originais. Além disso, vale mesmo a pena conhecer o trabalho de alguns artistas japoneses.

Diferente dos quadrinhos americanos a que estamos acostumados, os mangás são grossos como livros, com centenas de páginas, e são lidos da direita para a esquerda. A maioria das histórias é impressa em preto e branco e, geralmente, várias séries de autores diferentes são publicadas em uma mesma revista. Os traços dos quadrinhos japoneses, em sua maioria, são bastante estilizados e simplificados, a narrativa é quase cinematográfica (como se fosse algo visto quadro a quadro).

Nos chamados mangás de história longa, alguns com milhares de páginas, os artistas japoneses buscam estender sua narrativa por muitos capítulos de modo a explorar as nuances psicológicas das personagens e tornar a história mais interessante e detalhada.

No Japão, a grande maioria da população lê quadrinhos, de modo que eles são divididos pela idade e pelo sexo do leitor. Por exemplo, a revista Shonen Jump, responsável pela publicação de algumas séries conhecidas no Brasil por seus animes, como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball ou Yu Yu Hakushô, é uma revista voltada para o público adolescente masculino. Já a Nakayoshi, da editora Kodansha (uma das maiores editoras do Japão, responsável pela publicação de, entre outros, Sailor Moon), busca atender ao público feminino da mesma faixa etária.

Osamu TesukaO responsável por tornar os quadrinhos japoneses o que são hoje se chama Osamu Tesuka. Foi ele quem definiu os elementos fundamentais do mangá: o desenho estilizado, a narrativa cinematográfica, e é claro, os famosos olhos grandes. Além disso, Tesuka foi um dos mais produtivos artistas nipônicos: auxiliado por vários assistentes, ele produzia cerca de 300 páginas de quadrinhos por mês para várias revistas, chegando a produzir 150 mil páginas durante toda sua carreira, além de criar mais de 500 obras.

Alguns de seus personagens são conhecidos aqui no Brasil pelo pessoal “das antigas”, como Tetsuwan Atom, Jungle Tatei e Ribon no Kishi, mais conhecidos como Astro Boy, Kimba, o Leão Branco e A Princesa e o Cavaleiro, criados nos anos 50, e transformados em desenho na década de 60, além de outros, como o divertido Dom Drácula - alguém aí se lembra dele no Clube da Criança, da extinta Manchete? Não é à toa que Tezuka é conhecido pelos seus conterrâneos como “Manga no Kamisama”, ou “o deus do mangá”.

Mas, com certeza, o mangá mais famoso no Brasil é Akira, de Katsuhiro Otomo. Otomo possui um estilo não tão estilizado como o da maioria dos artistas do Japão, sendo até acusado por alguns de ser um pouco “ocidentalizado”. Mas isso pouco importa, a questão principal é que Akira é um grande mangá, com uma ótima arte e uma excelente história. Publicado originalmente em 1982, na revista Young Magazine, da Kodansha, foi uma das primeiras HQs japonesas a fazer sucesso no mercado norte-americano. Sem falar que deu origem a um dos melhores longas da animação japonesa de todos os tempos, em 1992.

No Japão, é praticamente “obrigatório” que um mangá de sucesso se transforme em videogames, animes, novelizações, filmes de longa metragem e brinquedos. Ás vezes (ultimamente muito freqüentemente), o inverso acontece: um videogame ou um jogo se transformar em mangá e/ou anime (ou um mangá ser criado para promover um jogo), algumas vezes com uma excelente qualidade (como, por exemplo, Zillion), outras nem tanto.

Como normalmente uma série de sucesso é reiimpressa, não existe, no Japão, um mercado para números atrasados ou antigos, como aqui ou nos Estados Unidos, de modo que as convenções de quadrinhos que ocorrem por lá são muito mais para vender fanzines (dojinshi) que para qualquer outra coisa. Os fanzines japoneses primam por sua excelente qualidade e acabamento e tratam tanto de paródias e paráfrases de séries conhecidas quanto de temas idealizados por seu autor.

Nos últimos anos, alguns artistas americanos se mostraram bastante influenciados seja pelo estilo de desenho, seja pelo estilo narrativo dos japoneses. Dentre eles, podemos citar Joe Madureira, conhecido aqui por desenhar os X-Men, cuja revista BattleChasers lembra bastante, e intencionalmente, mangás de fantasia no estilo de Rayearth e Fushigi Yuugi; ou Humberto Ramos, de Um Mundo sem Adultos, publicada pela Abril (Melhores do Mundo # 30), e da excelente Crimson, a história de um (contrariado) vampiro adolescente; ou ainda Frank Miller, que dispensa apresentações, fã confesso de Lobo Solitário, principalmente com seu Ronin e com Big Guy and Rusty The Boy Robot.

Embora tratando de temas extremamente variados, sejam aventuras espaciais ou temas mitológicos de outras culturas, ou ainda de esportes os mais variados, a narrativa do mangá está profundamente ligada aos costumes, valores e cultura japonesa, e é uma boa forma de começar a conhecer uma cultura bem diferente da nossa.

Mangás lançados no Brasil - Para procurar em sebos:

Lobo Solitário: publicado pela Cedibra em 89 (9 edições) e depois pela Nova Sampa em 92 (12 edições), de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Foi publicada no Japão na década de 70, e conta a história de Ito Ogami, o executor oficial do Shogun, acusado injustamente de traição, passa a vagar pelo Japão ao lado de seu filho, Daigoro. Um excelente mangá, que trata com fidelidade o painel do Japão Feudal e seus rígidos códigos de honra.

Mai, a Garota Psíquica: conta as aventuras de uma garota com poderes paranormais. Minissérie em oito partes, publicada pela Abril em 1992. Criado por Kazuya Kodo e Ryoishi Ikegami.

Crying Freemam: publicado pela Nova Sampa, em 92 (apenas quatro edições), de Kazuo Koike. Conta a história de um homem, Yo, transformado em assassino contra a vontade por uma misteriosa seita chinesa chamada “Os Filhos do Dragão”, e que chora após matar suas vítimas. Sua amada, Emu O`Hara, é uma jovem canadense, a quem ele fora incumbido de matar. Foi transformado em filme, estrelado por Mark Dacascos (do seriado O Corvo).

Para procurar em lojas especializadas e bancas:

Akira: de Katsuhiro Otomo, publicado originalmente pela Globo, a partir de 89, vem sendo republicado em edições encadernadas. Conta a história dos amigos Kaneda e Tetsuo, em um futuro pós-apocalíptico, cuja figura enigmática de Akira é o ponto chave da narrativa. Leia ou, pelo menos, veja o filme.

Gen, Pés Descalços: história quase autobiográfica de Keiji Nakazawa sobre o bombardeio de Hiroshima e seus sobreviventes. Saiu aqui pela Conrad, em edições encadernadas.

Ranma ½ : da desenhista Rumiko Takahashi, sai pela Editora Animangá, bimestralmente. É uma das minhas HQs preferidas. Ranma Saotome, após treinar com seu pai na área das Mil Nascentes Malditas, na China, e cair em uma delas, se transforma em mulher toda vez que molhado com água fria, e em homem, quando molhado com água quente. Isso sem contar outras diversas personagens que também foram a essas nascentes e se transformam em seres beeem mais inusitados. Divertidíssimo.

Além disso, existem diversas publicações nacionais que tratam sobre mangá e tem histórias criadas por autores e desenhistas brasileiros, como Tsunami ou Mangá X. Sem falar das versões mangá do Homem-Aranha e dos X-Men, lançadas pela Mythos. Para quem lê inglês, existe ainda a possibilidade de encomendar as versões americanas de alguns mangás, publicadas por algumas editoras, como a Dark Horse, Antartic Press ou a Viz.

Sugestões de Sites:

www.abrademi.com
Site da Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações - Abrademi. Contém fotos, galerias, informações sobre eventos, concursos, etc.

www.fortunecity.com/lavendar/trousers/498
Projeto ZW 8266: trata sobre anime e mangá no Brasil, além de ter galerias de imagens, fanzines e bate-papo.

www.aol.com.br/crono/anime-br/
Anime-BR: lista de discussão sobre animes e mangás.

http://aniparadise.simplenet.com/apc/
Anime Power Clube do Brasil - APC: fã-clube virtual de anime e mangá.

www.geocities.com/Tokyo/Ginza/7950/
WildLook Mangázine: contém reportagens, fan fictions, lista de lojas especializadas em anime e mangá, etc.

www.animebr.cjb.net/
Site brasileiro que explica as diferenças entre animes e mangás, além de ter informações sobre séries famosas, comentários sobre revistas, horários em que podem ser vistos no país, links, etc.

www.terravista.pt/Bilene/4460/
Outra lista de discussão brasileira sobre anime e mangá.

http://orbita.starmedia.com/~fanzinetupiniquim
Fanzine Tupiniquim: além de matérias sobre animes e mangás, inclui quadrinhos de criações próprias, com fichas de personagens. Agradecemos a permissão para utilizar algumas figuras nessa matéria.

www.geocities.com/Tokyo/Brigde/1158
Site com traduções de mangás e de letras de música de animes.

www.ex.org/
Site com entrevistas, matérias e resenhas sobre diversos animes e mangás.

www.geocities.com/Tokyo/6427/start.htm
Site com guias de episódios e sinopses, fan fiction, entre outras coisas.

www.geocities.com/Tokyo/8069/
Guia para os iniciantes na artes dos mangás, com informações sobre mangás famosos e nem tanto.

www.mit.edu:8001/people/rei/Anime.html
Site especializado em animes e mangás.

www.jai2.com
Site de Frederick L. Schodt, autor americano de Manga! Manga! The World of Japanese Comics e Dreamland Japan – “guias oficiais” para quem quer conhecer a origem e a história das HQs japonesas. Contêm informações sobre o Japão, mangás, tecnologia, história e literatura.

www.tokyokid.com/chibipop/
Chibi-Pop Manga: revista virtual bimestral sobre o tema.

www.eigomanga.com/
Site sobre mangás e revistas em quadrinhos online independentes.

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