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Assim
como o cinema, os quadrinhos são vistos pela maioria das pessoas
como uma mídia descompromissada, entretenimento puro. Mas percebe-los
somente como uma diversão é negar as potencialidades criativas e
críticas dessa forma de arte. Assim como no cinema, onde para cada
Independence Day existe um Apocalipse Now ou para
cada filme da Xuxa existe um Cidade de Deus, também nos quadrinhos
existem obras artísticas, de caráter mais experimental e mais reflexivo.
Dentre as obras em quadrinhos dessa segunda vertente, uma que realmente
merece ser relida e novamente divulgada para o grande público é
Maus, de Art Spiegelman.
Maus
é uma das mais premiadas histórias em quadrinhos do século passado,
sendo agraciada não apenas com prêmios concedidos por profissionais
do ramo, mas também por outras associações, tendo recebido inclusive
o famoso prêmio Pulitzer. Para quem não sabe, o Pulitzer
é um dos maiores prêmios jornalísticos dos Estados Unidos, mas que
também contempla outras áreas de criação, como as produções literárias
e fotográficas.
Escrita
e desenhada por Art Spiegelman, a série é dividida em dois volumes
e narra a história de Vladek e Anja (lê-se "Ania") Spiegelman, pais
do quadrinista, durante a Segunda Guerra Mundial, tudo pela perspectiva
de Vladek, que narra a história para o filho anos depois.
Vladek
e Anja eram judeus. Ela, de uma família bastante abonada; ele, nem
tanto. E, como a maioria dos judeus da época, independente de sua
classe social, viram seu mundo mudar radicalmente com o advento
do nazismo e o início da guerra.
No
primeiro volume, Spiegelman começa contando a história dos pais:
como se conheceram e se casaram, e como a vida de luxo da família
de Anja foi se deteriorando com o passar do tempo, com os direitos
e a liberdade dos judeus ficando cada vez mais restritos. Posteriormente,
a mudança da família para o gueto e as posteriores fugas e os esconderijos
para que não fossem capturados e enviados para os campos de concentração
ou mortos. No volume seguinte, Vladek e Anja foram capturados e
se encontram em Auschwitz. Toda a vida no campo é contada em detalhes,
inclusive com o mapa de uma câmara de gás.
Em
ambos os volumes, a narrativa dos acontecimentos da Segunda Guerra
é entremeada por diálogos e situações ocorridas no período em que
Art estava trabalhando no projeto, em especial de situações de interação
entre pai e filho, que muitas vezes parecem não ter nada a ver com
a "história principal", mas dizem muito da personalidade de Vladek.
Sendo
um acontecimento tão marcante na recente história da humanidade
como uma ferida que não quer fechar, milhares de produções artísticas
sobre a Segunda Guerra já foram realizadas. Mas, infelizmente, a
maioria delas retrata o conflito de forma simplista, em tons de
preto e branco. Normalmente, as vítimas são retratadas como santos
e os aliados (principalmente os americanos) como heróis sem mácula,
apenas como exemplo de máxima virtude.
Maus
se destaca, diferenciando-se da maioria dessas produções por ser
uma daquelas poucas obras que tem a coragem de mostrar toda a crueza
da guerra em fortes tons de cinza. Spiegelman consegue transmitir
toda a insanidade do período sem meias palavras, mas sem ser apelativo.
Todo o horror da guerra está lá, e nos choca e emociona, sem ser
piegas ou autocomplacente.
Vladek
é o "herói" da história, mas não é perfeito. Na realidade, é uma
pessoa no mínimo insuportável: mesquinho, racista, rancoroso e avarento,
principalmente com seus familiares - o filho Art e sua segunda esposa.
Ao mesmo tempo, é uma pessoa inventiva, criativa, inteligente e
perspicaz, que fez o possível e o impossível para sobreviver. Ele
desperta nos leitores sentimentos bastante ambíguos. O
mesmo pode-se dizer das demais personagens, mesmo as secundárias,
todas tão palpáveis e complexas como qualquer pessoa comum, tão
boas e egoístas como se pode ser numa situação extrema como a que
viviam no período.
O
que mais chama a atenção na obra é o desejo de sobreviver, seja
como for. Não é apenas um "cada um por si": existe ajuda, mas ela
tem certo preço, este por vezes bastante justificável. Ou como diz
Vladek a Art quando o filho, ainda criança, se desentendeu com alguns
amigos: "Seus amigos? Se vocês os trancar num quarto sem comida
por uma semana, aí você verá o que são amigos".
Outro
ponto de destaque de Maus é a original idéia de Spiegelman
em retratar as personagens como animais: os judeus como ratos, os
nazistas, gatos, os americanos são cães, os poloneses são porcos
e os franceses, sapos. Em parte, essa idéia parece ter vindo de
uma frase do próprio Vladek, tendo ele afirmado que talvez com sua
história seu filho poderia ficar famoso como Walt Disney - um dos
poucos cartunistas que ele conhecia, cuja uma das criações mais
famosas é, como todos sabemos, o rato Mickey. Tal caracterização
acaba por enriquecer ainda mais a obra, principalmente se levarmos
em conta o contraste do teor pesado de sua história com a presença
de animais protagonizando-a, destoando totalmente da expectativa
que possuímos quando animais humanizados são utilizados em uma narrativa.
Ao invés do mundo cor de rosa típico da Disney, a situação retratada
ali não poderia ser mais negra.
Spiegelman
já foi procurado por diversos estúdios com propostas de transformar
Maus em filme, mas o cartunista recusou todas, pois acredita
que os quadrinhos são o formato ideal para sua história. Chegou
a afirmar: "Não entendo porque em nossa cultura ninguém parece acreditar
que algo não é real até que seja transformado em filme".
De
qualquer maneira, se Maus fosse um filme com certeza o resultado
seria algo muito mais próximo de O Pianista do que de O
Resgate do Soldado Ryan ou Pearl Habour. Se por si só
Maus se coloca como uma obra forte e marcante, que nos leva
à reflexão, em tempos estranhos como esses que estamos passando,
com a guerra entre Estados Unidos e Iraque (também conhecida como
a "Guerra de Bush"), sua leitura se mostra imprescindível e essencial.
Os
dois volumes de Maus já foram publicados no Brasil pela Editora
Brasiliense. Para quem mora em BH, a Biblioteca da Escola de Belas
Artes da UFMG tem um exemplar do primeiro volume da série.

Dicas
de sites:
http://www.universohq.com/quadrinhos/maus.cfm
http://www.nao-til.com.br/nao-62/mausegen.htm
http://users.hotlink.com.br/lfl/ositio/maus.html
http://www.hangar110.com.br/literatura.htm
Matérias em português.
http://www.pjorge.com/nessus/rese0126.htm
Resenha em espanhol sobre Maus.
http://www.georgetown.edu/faculty/bassr/218/
projects/mcgowan/Maus.htm
Um interessante ensaio online sobre a relação de Art e seu Pai,
a partir de Maus e a visão do holocausto.
http://www.voyager.lerntech.com/catalog/maus/indepth
Outro ensaio online sobre Maus, com ilustrações.
http://www.3.fast.co.za/~stuartm/rave/cypunx/comix/
maus.html
Site com comentário de Umberto Eco.
http://www.bookwire.com
http://www.arts.uscs.edu/derek/Art.html
Entrevistas com Art Spiegelman.
http://www.bedfordstmartins.com/litlinks/fiction/
spiegelman.htm
Uma rápida biografia do escritor de Maus.
http://www.besscuttlergallery.com/popartist_as.html
Diversos trabalhos de Spiegelman.
http://www.lambiek.net/spiegelman.htm
http://www.iath.virginia.edu/holocaust/spiegelman.html
Um pouco sobre Spiegelman: biografias e outros dados
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