| Recentemente,
estreou nos cinemas o filme da Mulher Gato, estrelado por Halle
Berry. Nele, Patience Phillips (Halle Berry, foto ao lado)
é uma artista plástica frustrada que trabalha como
designer em uma companhia de cosméticos. Certo dia, descobre
que o novo produto a ser lançado pela empresa provoca, com
o uso contínuo, a deformação do rosto de suas
usuárias. Assim, ela é assassinada por seus patrões.
Patience morre e é ressuscitada por vários gatos,
meio que num ritual felino. Poderes semelhantes aos de um gato lhe
são transmitidos por uma felina especial, mensageira da deusa
dos gatos Bast. Bem, a partir daí, Patience se torna a Mulher
Gato, que não é necessariamente uma heroína.
E tenta desvendar o mistério envolvendo sua morte.
O
que posso dizer sobre o filme: é uma bomba completa!!! Nunca
vi tantos equívocos num único lugar. Desde roteiro,
passando por figurino, direção, edição,
atuações, trilha sonora. A história é
mal escrita, cheia de furos e explicações completamente
sem sentido. Todo o climão do filme parece daqueles seriados
de ação B, algo ao estilo de SOS Malibu (também
conhecido como Baywatch), ou, pior, algo como She Spies
ou As Espiãs (que passa na AXN e no SBT). Captaram
o naipe do filme?
Pois
eu captei e me revoltei!!! Sendo assim, decidi que era hora de alguém
(no caso eu) tomar uma atitude e tentar recuperar a imagem da Mulher
Gato depois deste fiasco.
E é
isso que pretendo com este artigo. Tentar recuperar a imagem daquela
que é uma das mais interessantes antagonistas do Batman -
pois vilã não é exatamente um termo que se
aplica a ela.

Quem
é a Mulher Gato, afinal?
A
personagem surgiu em 1940, na revista Batman # 1 (curiosamente,
o Coringa também apareceu nessa edição), com
o nome original "The Cat", e não usava nenhum uniforme
especial. Desde as primeiras histórias, The Cat já
era uma ladra e Batman sempre demonstrou uma certa complacência
em relação à felina: após recuperar
os frutos do roubo de The Cat, Batman simplesmente deixa a mocinha
escapar. Seria amor bandido à primeira vista?
Durante
um bom tempo, Bob Kane (criador do Batman e de grande parte das
personagens da série, juntamente com Bill Finger) tentou
encontrar o visual (usando a própria namorada como modelo)
e o nome ideais para a personagem. Depois de algumas aparições
como The Cat, ela se transformou em Selina Kyle, uma dona de lojas
de animais que simplesmente decidiu se tornar ladra e mudou o nome
para Mulher Gato (Catwoman). Vestida com um esvoaçante vestido
de seda e portando um chicote, ela se tornou uma das personagens
mais sexies da história dos quadrinhos.
A
maioria de seus crimes era relacionada com gatos e Selina nunca
foi nada mais que uma ladra. Não era necessariamente uma
personagem "má", mas sim uma aventureira que sentia
um prazer especial em burlar a lei e trazer dor de cabeça
para o Morcegão.
Desde
o início também ficou subentendida uma certa tensão
sexual e um atrativo romântico entre a Mulher Gato e o Batman.
Talvez, na cabeça dos criadores da personagem, nada melhor
para pegar um rato voador do que um gato, ou melhor, uma gata.
Com
a onda de moralização que varreu os quadrinhos durante
os anos 50, a personagem acabou ficando um pouco para escanteio,
até que, graças à batmania deflagrada pela
série de TV estrelada por Adam West (Batman) e Burt Ward
(Robin), a Mulher Gato voltou ao auge.

Na
série, ela era vivida primeiramente pela atriz Julie Newmar
(foto acima). Na imaginação da maioria dos
fãs, nunca houve nem haverá uma Mulher Gato como Newmar.
Sexy e divertida, a versão da Mulher Gato vivida por Newmar
não tinha a dualidade moral da personagem dos quadrinhos.
Ela era uma vilã, mas ainda assim sedutora e carismática.
Um femme fatale vestida em látex e com orelhas de
gato. Nem o Batman poderia resistir ao seu charme. Coitadinha da
Hale Berry perto de Julie. O sucesso da personagem foi tanto que,
nos quadrinhos, a Mulher Gato passou a ser retratada fisicamente
de forma semelhante à personagem da série.
O
sucesso do seriado do Batman foi tamanho que decidiram fazer um
longa metragem com as personagens. Como a série, o longa
era nada mais nada menos que uma sátira exagerada ao universo
dos Comics. No filme, um grupo de vilões, formado pelo Coringa
(Cesar Romero), Charada (Frank Gorshin), Pingüim (Burgess Meredith)
e Mulher Gato, decide atacar os líderes mundiais, cabendo
à dupla dinâmica impedir esse vil intento. Na época,
Julie Newmar não estava disponível, pois estava filmando
O Ouro de MacKenna (famoso pela cena em que ela aparece
"nua"), e foi substituída quase à altura
por Lee Meriwether (foto à direita), uma ex-Miss
América.
Na
terceira temporada da série, saiu Julie Newmar e entrou a
cantora Eartha Kitt (foto abaixo) em seu lugar. A explicação
oficial foi a de que Julie Newmar estava com a agenda cheia no período.
No entanto, segundo as más línguas, tudo não
passou de uma manobra para não deslocar as atenções
do público para a Batgirl como possível interesse
romântico do Batman. Isso porque a Mulher Gato de Eartha Kitt
é muito mais cômica e exagerada que a protagonizada
por Newmar.

Pouco
tempo depois, também foi lançado um desenho animado
estrelado por Batman e Robin. Nele, o uniforme da Mulher Gato, apesar
de verde, era inspirado no do seriado. Ela era uma vilã propriamente
dita, cercada de capangas e dirigia um Gatomóvel e um Gatocóptero
- todos com enormes orelhas de gato. Sem comentários.
Nos
quadrinhos, a personagem continuou sua vidinha básica de
ladra charmosa... Com algumas ressalvas. Na década de 70,
no universo conhecido como Terra 2 (uma cópia da Terra oficial
da DC, no qual os heróis eram todos mais velhos), Selina
Kyle abandonou o mundo do crime e se casou com Bruce Wayne. Os dois
tiveram uma filha, Helena Wayne. Selina foi morta por um de seus
ex-parceiros de crime, o que levou Helena a se tornar a heroína
Caçadora. Tal história foi aproveitada anos depois
na série de TV Birds
of Prey (SBT e Warner), estrelada pelas personagens Caçadora
(Helena Kyle), Oráculo (Bárbara Gordon) e Canário
Negro (Dinah). Infelizmente, o seriado foi cancelado logo na primeira
temporada.
Mas
eis que chegamos ao ano de 1985 e ocorre na DC Comics um mega evento
chamado Crise nas Infinitas Terras. Para quem não
sabe, esta saga escrita por Marv Wolfman e desenhada por George
Perez teve como função arrumar o balaio de gatos que
se tornou a cronologia da DC com suas centenas de Terras paralelas.
As Terras foram fundidas numa só, e muitos personagens morreram
ou foram alterados.
A maioria
das personagens clássicas da DC passou por reformulações
em suas origens, apesar de seus aspectos essenciais terem sido mantidos.
Foi assim com o Superman de John Byrne, a Mulher Maravilha de George
Perez e o Batman de Frank Miller.
Miller,
que já havia escrito o aclamado Batman Cavaleiro das
Trevas, escreve Batman Ano Um em parceira com David
Mazzucchelli (desenhos, antigo parceiro de Miller em Demolidor)
e Richard Lewis (cores). Batman Ano Um, como o próprio
nome diz, narra os infortúnios do Cavaleiro das Trevas no
seu primeiro ano de combate ao crime. Selina então é
retratada como uma sexy prostituta que decide abandonar o ofício
para se tornar a ladra mascarada Mulher Gato.
Logo
em seguida foi lançado um especial intitulado Mulher
Gato, que reconta a origem da personagem. Inicialmente, Frank
Miller escreveria o especial, mas após um desentendimento
do autor com a editora, Mulher Gato passou para as mãos
de Mindy Newell.
Newell
aproveita toda a caracterização criada por Miller
em Batman Ano Um e elabora uma história paralela
estrelada por Selina Kyle, aqui uma prostituta de rua violentamente
abusada por seu cafetão. Após passar um tempo internada
em um hospital, um policial a encaminha para o herói aposentado
Pantera Negra. Ele ensina Selina a lutar e a se defender. Depois
disso, ela decide abandonar a vida nas ruas, tornando-se a ladra
conhecida como Mulher Gato.
Certos
aspectos dessa versão da heroína foram aproveitados
por Jeph Loeb nas suas séries O Longo Dia das Bruxas
e Vitória Sombria que, se observadas com atenção,
podem ser consideradas quase como continuações de
Batman Ano Um.
Nos
anos que se seguiram, o passado duvidoso de Selina Kyle como prostituta
foi deixado um pouco de lado, praticamente esquecido. Até
tentaram recontar sua origem após o evento Zero Hora
(quase uma continuação da Crise), praticamente
excluindo os eventos referentes à vida de Selina como prostituta.
Em
1992, Tim Burton dirige Batman - O Retorno, segundo filme
da franquia do Cavaleiro das Trevas no cinema. Aqui, Selina (vivida
por Michelle Pfeiffer, ao lado na foto) era secretária
de Max Schreck (Christopher Walken). Após descobrir uma de
suas falcatruas, ela foi assassinada por ele. Misteriosamente, é
revivida por vários gatos, tornando-se a sexy vilã
Mulher Gato. Aliada ao Pingüim (Danny DeVito), coloca em ação
um plano para prejudicar Gotham City e Schreck, tendo o intento
de se vingar do seu ex-chefe. Como nos quadrinhos, existe uma forte
atração entre a Mulher Gato e o Batman (Michael Keaton),
assim como entre seus alter-egos Selina Kyle e Bruce Wayne. A atuação
de Michelle Pfeiffer é marcante e torna a Mulher Gato tão
sexy, dual e carismática quanto à versão protagonizada
por Newmar na série de TV. Ou talvez muito mais. Ela é
certamente uma das poucas coisas que se salvam neste filme, do qual
particularmente não gosto.
A versão
Mulher Gato de Pfeiffer impressionou tanto que a personagem foi
retratada loira no excelente desenho Batman The Animated Series
(de Paul Dini e Bruce Timm), tal como a atriz, ao invés de
morena, como nos quadrinhos. Somente depois de algumas temporadas
é que a Mulher Gato passou a ter seu cabelo moreno clássico
de volta. No desenho, a identidade de Selina como Mulher Gato é
de conhecimento público e ela inclusive não é
tão "vilã" como em suas outras versões,
sendo até retratada como uma ativista de Direitos dos Animais.
Na versão animada, ela era dublada por Adrienne Barbeau.
Enquanto
isso, nos quadrinhos, a Mulher Gato começou a ganhar mais
espaço dentro do universo do Morcego e passou a protagonizar
sua própria revista. Escrita por Jo Duffy e desenhada por
Jim Balent, a versão da Mulher Gato mostrada nessa série
era muito mais aventuresca e bem humorada que a sombria versão
recriada por Miller.
Recentemente,
a série foi reformulada. Muitas das pontas soltas deixadas
para trás, inclusive o passado de Selina Kyle como prostituta,
foram retomadas e novamente explicadas. O uniforme da personagem
mudou outra vez e a história enfatiza mais numa espécie
de guerrilha urbana.
Loeb
aproveitou bem essa "nova" Mulher Gato na sua mega saga
Silêncio, publicada no Brasil pela Panini e desenhada
por Jim Lee. Nela, Loeb tentou estreitar os laços entre a
Mulher Gato e o Homem Morcego, tornando o romance entre os dois
ainda mais explícito.
A verdadeira
Mulher Gato sempre fascinou seus fãs não apenas por
seu jeito sexy e um pouco selvagem, mas pela sua força, carisma
e dualidade moral. Enfim, uma personagem intrigante e sedutora,
muito diferente da pateta desmiolada representada por Halle Berry.
Por
isso, recomendo a todos: PREFIRAM A ORIGINAL!!!

Dicas
de Sites
www.super-highway.net/users/altoot
www.dccomics.com/features/catsite/catwoman.html
www.super-highway.net/users/altoot/catwmn02.html
www.rolandit.com/comics/comics.asp?SID=86
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn01.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn02.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn03.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn04.html

Além
de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado
O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida,
fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.
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