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Beagá, 13 de setembro de 2004 d.C.
 

Mulher Gato em Teto de Zinco Quente

Por Katchiannya Cunha

 

Recentemente, estreou nos cinemas o filme da Mulher Gato, estrelado por Halle Berry. Nele, Patience Phillips (Halle Berry, foto ao lado) é uma artista plástica frustrada que trabalha como designer em uma companhia de cosméticos. Certo dia, descobre que o novo produto a ser lançado pela empresa provoca, com o uso contínuo, a deformação do rosto de suas usuárias. Assim, ela é assassinada por seus patrões. Patience morre e é ressuscitada por vários gatos, meio que num ritual felino. Poderes semelhantes aos de um gato lhe são transmitidos por uma felina especial, mensageira da deusa dos gatos Bast. Bem, a partir daí, Patience se torna a Mulher Gato, que não é necessariamente uma heroína. E tenta desvendar o mistério envolvendo sua morte.

O que posso dizer sobre o filme: é uma bomba completa!!! Nunca vi tantos equívocos num único lugar. Desde roteiro, passando por figurino, direção, edição, atuações, trilha sonora. A história é mal escrita, cheia de furos e explicações completamente sem sentido. Todo o climão do filme parece daqueles seriados de ação B, algo ao estilo de SOS Malibu (também conhecido como Baywatch), ou, pior, algo como She Spies ou As Espiãs (que passa na AXN e no SBT). Captaram o naipe do filme?

Pois eu captei e me revoltei!!! Sendo assim, decidi que era hora de alguém (no caso eu) tomar uma atitude e tentar recuperar a imagem da Mulher Gato depois deste fiasco.

E é isso que pretendo com este artigo. Tentar recuperar a imagem daquela que é uma das mais interessantes antagonistas do Batman - pois vilã não é exatamente um termo que se aplica a ela.

Quem é a Mulher Gato, afinal?

A personagem surgiu em 1940, na revista Batman # 1 (curiosamente, o Coringa também apareceu nessa edição), com o nome original "The Cat", e não usava nenhum uniforme especial. Desde as primeiras histórias, The Cat já era uma ladra e Batman sempre demonstrou uma certa complacência em relação à felina: após recuperar os frutos do roubo de The Cat, Batman simplesmente deixa a mocinha escapar. Seria amor bandido à primeira vista?

Durante um bom tempo, Bob Kane (criador do Batman e de grande parte das personagens da série, juntamente com Bill Finger) tentou encontrar o visual (usando a própria namorada como modelo) e o nome ideais para a personagem. Depois de algumas aparições como The Cat, ela se transformou em Selina Kyle, uma dona de lojas de animais que simplesmente decidiu se tornar ladra e mudou o nome para Mulher Gato (Catwoman). Vestida com um esvoaçante vestido de seda e portando um chicote, ela se tornou uma das personagens mais sexies da história dos quadrinhos.

A maioria de seus crimes era relacionada com gatos e Selina nunca foi nada mais que uma ladra. Não era necessariamente uma personagem "má", mas sim uma aventureira que sentia um prazer especial em burlar a lei e trazer dor de cabeça para o Morcegão.

Desde o início também ficou subentendida uma certa tensão sexual e um atrativo romântico entre a Mulher Gato e o Batman. Talvez, na cabeça dos criadores da personagem, nada melhor para pegar um rato voador do que um gato, ou melhor, uma gata.

Com a onda de moralização que varreu os quadrinhos durante os anos 50, a personagem acabou ficando um pouco para escanteio, até que, graças à batmania deflagrada pela série de TV estrelada por Adam West (Batman) e Burt Ward (Robin), a Mulher Gato voltou ao auge.

Na série, ela era vivida primeiramente pela atriz Julie Newmar (foto acima). Na imaginação da maioria dos fãs, nunca houve nem haverá uma Mulher Gato como Newmar. Sexy e divertida, a versão da Mulher Gato vivida por Newmar não tinha a dualidade moral da personagem dos quadrinhos. Ela era uma vilã, mas ainda assim sedutora e carismática. Um femme fatale vestida em látex e com orelhas de gato. Nem o Batman poderia resistir ao seu charme. Coitadinha da Hale Berry perto de Julie. O sucesso da personagem foi tanto que, nos quadrinhos, a Mulher Gato passou a ser retratada fisicamente de forma semelhante à personagem da série.

O sucesso do seriado do Batman foi tamanho que decidiram fazer um longa metragem com as personagens. Como a série, o longa era nada mais nada menos que uma sátira exagerada ao universo dos Comics. No filme, um grupo de vilões, formado pelo Coringa (Cesar Romero), Charada (Frank Gorshin), Pingüim (Burgess Meredith) e Mulher Gato, decide atacar os líderes mundiais, cabendo à dupla dinâmica impedir esse vil intento. Na época, Julie Newmar não estava disponível, pois estava filmando O Ouro de MacKenna (famoso pela cena em que ela aparece "nua"), e foi substituída quase à altura por Lee Meriwether (foto à direita), uma ex-Miss América.

Na terceira temporada da série, saiu Julie Newmar e entrou a cantora Eartha Kitt (foto abaixo) em seu lugar. A explicação oficial foi a de que Julie Newmar estava com a agenda cheia no período. No entanto, segundo as más línguas, tudo não passou de uma manobra para não deslocar as atenções do público para a Batgirl como possível interesse romântico do Batman. Isso porque a Mulher Gato de Eartha Kitt é muito mais cômica e exagerada que a protagonizada por Newmar.

Pouco tempo depois, também foi lançado um desenho animado estrelado por Batman e Robin. Nele, o uniforme da Mulher Gato, apesar de verde, era inspirado no do seriado. Ela era uma vilã propriamente dita, cercada de capangas e dirigia um Gatomóvel e um Gatocóptero - todos com enormes orelhas de gato. Sem comentários.

Nos quadrinhos, a personagem continuou sua vidinha básica de ladra charmosa... Com algumas ressalvas. Na década de 70, no universo conhecido como Terra 2 (uma cópia da Terra oficial da DC, no qual os heróis eram todos mais velhos), Selina Kyle abandonou o mundo do crime e se casou com Bruce Wayne. Os dois tiveram uma filha, Helena Wayne. Selina foi morta por um de seus ex-parceiros de crime, o que levou Helena a se tornar a heroína Caçadora. Tal história foi aproveitada anos depois na série de TV Birds of Prey (SBT e Warner), estrelada pelas personagens Caçadora (Helena Kyle), Oráculo (Bárbara Gordon) e Canário Negro (Dinah). Infelizmente, o seriado foi cancelado logo na primeira temporada.

Mas eis que chegamos ao ano de 1985 e ocorre na DC Comics um mega evento chamado Crise nas Infinitas Terras. Para quem não sabe, esta saga escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Perez teve como função arrumar o balaio de gatos que se tornou a cronologia da DC com suas centenas de Terras paralelas. As Terras foram fundidas numa só, e muitos personagens morreram ou foram alterados.

A maioria das personagens clássicas da DC passou por reformulações em suas origens, apesar de seus aspectos essenciais terem sido mantidos. Foi assim com o Superman de John Byrne, a Mulher Maravilha de George Perez e o Batman de Frank Miller.

Miller, que já havia escrito o aclamado Batman Cavaleiro das Trevas, escreve Batman Ano Um em parceira com David Mazzucchelli (desenhos, antigo parceiro de Miller em Demolidor) e Richard Lewis (cores). Batman Ano Um, como o próprio nome diz, narra os infortúnios do Cavaleiro das Trevas no seu primeiro ano de combate ao crime. Selina então é retratada como uma sexy prostituta que decide abandonar o ofício para se tornar a ladra mascarada Mulher Gato.

Logo em seguida foi lançado um especial intitulado Mulher Gato, que reconta a origem da personagem. Inicialmente, Frank Miller escreveria o especial, mas após um desentendimento do autor com a editora, Mulher Gato passou para as mãos de Mindy Newell.

Newell aproveita toda a caracterização criada por Miller em Batman Ano Um e elabora uma história paralela estrelada por Selina Kyle, aqui uma prostituta de rua violentamente abusada por seu cafetão. Após passar um tempo internada em um hospital, um policial a encaminha para o herói aposentado Pantera Negra. Ele ensina Selina a lutar e a se defender. Depois disso, ela decide abandonar a vida nas ruas, tornando-se a ladra conhecida como Mulher Gato.

Certos aspectos dessa versão da heroína foram aproveitados por Jeph Loeb nas suas séries O Longo Dia das Bruxas e Vitória Sombria que, se observadas com atenção, podem ser consideradas quase como continuações de Batman Ano Um.

Nos anos que se seguiram, o passado duvidoso de Selina Kyle como prostituta foi deixado um pouco de lado, praticamente esquecido. Até tentaram recontar sua origem após o evento Zero Hora (quase uma continuação da Crise), praticamente excluindo os eventos referentes à vida de Selina como prostituta.

Em 1992, Tim Burton dirige Batman - O Retorno, segundo filme da franquia do Cavaleiro das Trevas no cinema. Aqui, Selina (vivida por Michelle Pfeiffer, ao lado na foto) era secretária de Max Schreck (Christopher Walken). Após descobrir uma de suas falcatruas, ela foi assassinada por ele. Misteriosamente, é revivida por vários gatos, tornando-se a sexy vilã Mulher Gato. Aliada ao Pingüim (Danny DeVito), coloca em ação um plano para prejudicar Gotham City e Schreck, tendo o intento de se vingar do seu ex-chefe. Como nos quadrinhos, existe uma forte atração entre a Mulher Gato e o Batman (Michael Keaton), assim como entre seus alter-egos Selina Kyle e Bruce Wayne. A atuação de Michelle Pfeiffer é marcante e torna a Mulher Gato tão sexy, dual e carismática quanto à versão protagonizada por Newmar na série de TV. Ou talvez muito mais. Ela é certamente uma das poucas coisas que se salvam neste filme, do qual particularmente não gosto.

A versão Mulher Gato de Pfeiffer impressionou tanto que a personagem foi retratada loira no excelente desenho Batman The Animated Series (de Paul Dini e Bruce Timm), tal como a atriz, ao invés de morena, como nos quadrinhos. Somente depois de algumas temporadas é que a Mulher Gato passou a ter seu cabelo moreno clássico de volta. No desenho, a identidade de Selina como Mulher Gato é de conhecimento público e ela inclusive não é tão "vilã" como em suas outras versões, sendo até retratada como uma ativista de Direitos dos Animais. Na versão animada, ela era dublada por Adrienne Barbeau.

Enquanto isso, nos quadrinhos, a Mulher Gato começou a ganhar mais espaço dentro do universo do Morcego e passou a protagonizar sua própria revista. Escrita por Jo Duffy e desenhada por Jim Balent, a versão da Mulher Gato mostrada nessa série era muito mais aventuresca e bem humorada que a sombria versão recriada por Miller.

Recentemente, a série foi reformulada. Muitas das pontas soltas deixadas para trás, inclusive o passado de Selina Kyle como prostituta, foram retomadas e novamente explicadas. O uniforme da personagem mudou outra vez e a história enfatiza mais numa espécie de guerrilha urbana.

Loeb aproveitou bem essa "nova" Mulher Gato na sua mega saga Silêncio, publicada no Brasil pela Panini e desenhada por Jim Lee. Nela, Loeb tentou estreitar os laços entre a Mulher Gato e o Homem Morcego, tornando o romance entre os dois ainda mais explícito.

A verdadeira Mulher Gato sempre fascinou seus fãs não apenas por seu jeito sexy e um pouco selvagem, mas pela sua força, carisma e dualidade moral. Enfim, uma personagem intrigante e sedutora, muito diferente da pateta desmiolada representada por Halle Berry.

Por isso, recomendo a todos: PREFIRAM A ORIGINAL!!!

Dicas de Sites

www.super-highway.net/users/altoot
www.dccomics.com/features/catsite/catwoman.html
www.super-highway.net/users/altoot/catwmn02.html
www.rolandit.com/comics/comics.asp?SID=86
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn01.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn02.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn03.html
http://www.super-highway.net/users/altoot/catwmn04.html

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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