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Beagá, 23 de agosto de 2004 d.C.
 

O Garoto do Inferno

Por Katchiannya Cunha

 

Chegou há um tempinho nas telas do Brasil uma das adaptações de quadrinhos mais bacanas já vistas fora do típico circuito de super-heróis. Trata-se de Hellboy. O personagem título é vivido por Ron Perlman - conhecido por suas participações na telessérie A Bela e a Fera e em filmes como O Nome da Rosa e Blade II.

A história começa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o monge feiticeiro Grigori Rasputin (Karel Roden), antigo conselheiro do czar russo, realizava um ritual pagão para trazer o inferno para a Terra e assim garantir a vitória dos nazistas sobre os aliados. Era auxiliado por sua amante Ilsa (Biddy Hodson) e pelo bizarro assassino Kroenen (Ladislav Beran). Contudo, seus planos são frustrados pela chegada de uma tropa de soldados americanos, acompanhados pelo especialista em paranormalidade do governo, o professor Trevor 'Broom' Bruttenholm (John Hurt).

Embora tenham derrotado Rasputin e as tropas nazistas, o portal para o inferno ficou tempo demais aberto e algo veio de lá para nosso mundo: um bebê demônio. Chamado de Hellboy pelos soldados, o jovem demônio foi adotado pelo Prof. Broom, que o criou como a um filho.

Assim, longe da influência maligna dos nazistas ou de qualquer outro que poderia incentivar o lado sombrio de Hellboy, ele cresceu para se tornar agente do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, uma agência secreta do governo criada para lidar com todo e qualquer tipo de aberração, seja ela paranormal, extradimensional ou mítica.

Mas Hellboy não é o único agente do Bureau. Junto a ele trabalham o tritão Abe Sapien (Doug Jones, voz de David Hyde Pierce), Liz Sherman (Selma Blair) - uma pirocinética (embora ela não goste do termo) por quem Hellboy é apaixonado-, e John Myers (Rupert Evans), um agente do FBI recém transferido para lá.

O trabalho dos agentes se torna ainda mais complicado com o retorno de Rasputin, que pretende retomar seus velhos e tenebrosos planos datados da Segunda Guerra. Esse é, em suma, o enredo do filme lançado nos cinemas. E é também, em parte, o enredo da primeira minissérie estrelada por Hellboy em 1994, As Sementes da Destruição, realizada em parceria por John Byrne (diálogos) e Mike Mignola (criador da personagem). Hellboy - Sementes da Destruição foi publicado no Brasil pela Mythos Editora em 1998.

Hellboy surgiu meio que por acaso na vida de Mignola. A primeira versão da personagem foi feita pelo ilustrador para o folheto promocional de uma convenção de quadrinhos em 1991. Reza a lenda (que de lenda não te nada) que, depois disso, Mike ficou meio obcecado pela criatura encapetada e vivia fazendo desenhos dele para os fãs quando era abordado em convenções.

Em 94 a editora Dark Horse lançou um selo de quadrinhos autorais com alguns dos mais renomados desenhistas e escritores da época, como Frank Miller e John Byrne. Era o chamado selo Legend. Miller criou Sin City, um de seus melhores trabalhos fora das grandes editoras e que vai se tornar filme através das mãos de Robert Rodriguez, de El Mariachi. Byrne lançou o insosso Next Men. E Mignola transformou seu personagem de folheto em uma série de HQ. Assim nascia efetivamente Hellboy. Como Mignola não tinha muita experiência como escritor, pediu a Byrne que o ajudasse com os diálogos da primeira minissérie, até que adquirisse maior segurança e pudesse escrever sozinho as séries futuras.

A principal inspiração de Mignola para construir as aventuras de Hellboy está nos excelentes contos de terror de H.P.Lovecraft (1890-1937). Contudo, outras mitologias e lendas são utilizadas como base para as aventuras do demônio detetive.

Imaginem uma mistura de Arquivo X com Indiana Jones simples, criativa, misteriosa e muito, muito bem-humorada. Essa é a essência de Hellboy. Mignola faz um trabalho competente e embasado, mas sem aquele ar enfadonho e acadêmico que algumas publicações baseadas em mitologias costumam ter.

E embora Hellboy (personagem) seja um demônio, ele é extremamente carismático. Não chega a ser um santo - nem poderia, afinal é um demônio :o) -, mas é simpático e divertido. É apenas um cara comum que tenta fazer seu trabalho da melhor maneira que pode tentando não se grilar muito com isso. Bem, é claro que tem o acréscimo de ele ser vermelho, ter chifres (ainda que serrados), um rabo e um bocado de gente no seu pé que deseja que Hellboy reassuma seu papel de “besta do apocalipse no plano cósmico”.

Dentre as revistas do selo Legend, Hellboy foi uma das que fez menos sucesso no início, mas aos poucos foi conquistando novos e dedicados fãs, a ponto de chegar a ser publicada em diversos outros países como França, Espanha, Itália, Alemanha, Rússia, Japão e, é claro, Brasil.

O sucesso de Hellboy não se compara a de personagens clássicas como Superman, Batman ou Homem-Aranha. Mas é preciso levar em conta dois fatores. O primeiro é que, embora a Dark Horse seja uma editora de destaque no mercado norte-americano, ela não consegue enfrentar de igual para igual a DC ou a Marvel. O segundo é que Hellboy tem apenas dez anos de existência, contra os mais de 60 anos do Super e do Morcego, e os pouco mais de 30 do Cabeça de Teia. De qualquer maneira, a vendagem satisfatória do título permitiu que a personagem continuasse a ser publicada pela Dark Horse após o encerramento do selo Legend, no fim dos anos 90.

O trabalho de Mignola se destaca não apenas por suas histórias, mas por aquilo que ele realmente faz de melhor: desenhar. Dono de um traço pouco convencional, mas ainda assim marcante e forte, Mignola se mostra como um artista cujo talento é questionado por poucos. Infelizmente, nem tudo é perfeito. Mike tem um certo defeitinho, é um tanto “lento” ao produzir, o que faz com que as publicações do demônio vermelho não sejam tão freqüentes como desejariam os fãs.

Para compensar essa lentidão, foram promovidos diversos crossovers (encontros entre personagens de editoras e/ou séries diferentes) entre a personagem do Hellboy e outros heróis, como Ghost, Savage Dragon, Batman e Starman (todos publicados no Brasil). Também surgiram algumas séries derivadas: Hellboy Jr., criado por Mignola e Bill Wray (que já trabalhou na Mad) e contava as aventuras do Hellboy ainda bebê (mas não fez muito sucesso); Hellboy Weird Tales, série em que diversos artistas diferentes criavam suas próprias histórias com a personagem - participaram da revista P. Craig Russel (Sandman), Jim Starlin e Kia Asamiya (X-Men, Dark Angel, Batman-Mangá); e uma série estrelada pelos demais personagens do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, que contou com a participação, em algumas edições, de Geoff Johns (Flash), considerado por muitos como um dos melhores escritores que passou pela DC Comics nos últimos tempos.

Bem, agora vou falar sobre o filme. Dirigido e roteirizado por Guillermo Del Toro (Blade II e o fenomenal A Espinha do Diabo), Hellboy (o filme) mostra uma coleção de acertos poucas vezes vistas em uma adaptação de quadrinhos (com exceção dos excelentes trabalhos realizados nas cine-séries dos X-Men e do Homem-Aranha e, é claro, em Hulk). O filme capta todo o clima das séries de quadrinhos estreladas pelo demônio detetive. É simples, inventivo e despretensioso como Hellboy sempre se mostrou ser. Cinema pipoca de boa qualidade. Se alguém for ao cinema esperando muito mais que isso, com certeza se decepcionará, mas, entrando no clima do filme, a diversão é muito mais do que garantida.

Tudo isso se deve ao fato de Del Toro ser fã do trabalho de Mike Mignola e tratar com o devido respeito a personagem que tinha em mãos. Ao contrário de alguns diretores fãs deslumbrados, que devido à inexperiência e ao desejo de colocar todas as informações e impressões pessoais sobre a personagem ao mesmo tempo na história do filme (como por exemplo Mark Steven Johnson, o diretor de Demolidor), Del Toro tinha a experiência e o bom senso ao seu lado. Sabiamente, decidiu focar a história de Hellboy nos fatos apresentados na primeira minissérie da personagem.

Ele tinha outra vantagem: o próprio criador da série de quadrinhos, Mike Mignola, participou ativamente do trabalho de pré-produção - exigência do diretor ao estúdio Revolutions. Dá para ver o dedinho (ou a mão inteira) de Mignola no designer das personagens, cenários, figurinos, equipamento etc, durante todo o filme. É quase como ver uma HQ do Hellboy transferida literalmente para a tela grande.

Outro grande achado do filme são seus atores - com uma ou outra pequena exceção que não prejudica a película. Com um elenco sem grandes estrelas, todos conseguem agradar em suas personagens, criando um senso de equilíbrio raro nesse tipo de produção - mesmo nos dois X-Men, por exemplo, em que Hale Berry (Tempestade) e James Madsen (Ciclope) são devorados pelas presenças de atores do calibre de Sir Iam Mckellen (Magneto) ou Hugh Jackson (Wolverine). Isso não acontecem de forma alguma em Hellboy, mesmo com a presença de veteranos do calibre de John Hurt (O Homem Elefante e 1984) no filme.

É claro que o grande destaque do filme é Ron Perlman como Hellboy. Ele consegue convencer tanto no papel de agente durão, como no de filho desejoso de agradar o pai e no de um quase adolescente apaixonado. Realmente muito bom para alguém que o estúdio não queria no papel de modo algum. Se não fosse a insistência de Del Toro e de Mignola, possivelmente Hellboy teria sido vivido por alguém do “calibre” de Vin Diesel. Sorte nossa que o estúdio cedeu.

Apesar de Hellboy (o filme) não ter sido um explosivo sucesso de bilheteria, o estúdio ficou tão animado com o resultado que uma continuação já está sendo produzida, com a dupla Del Toro e Mignola nos roteiros.

E se vocês não conhecem esse excelente trabalho fora do esquema de quadrinhos de super-heróis, o que estão esperando? Vão ao cinema ver Hellboy e aproveitem e comprem as revistas também. Duvido que irão se arrepender.

Agradecimentos à Banca 9ª Arte
Av. Antônio Carlos, 6627
Campus UFMG (Pampulha - Portão 1)
Tel.: (31) 9652-4091.

Dicas de revistas

Revistas do Hellboy publicadas no Brasil:

Hellboy - Sementes da Destruição (Mythos Editora, 1998)
Hellboy - O Despertar do Demonio (Mythos Editora, 1998)
Hellboy & Ghost (Mythos Editora, 1999)
Savage Dragon & Hellboy (Pandora, 2001)
Hellboy - O Gigante Infernal e Os Lobos de Santo Augusto (Mythos Editora, 2001)
Hellboy, Batman e Starman (Mythos Editora, 2001)
Hellboy: A mão direita da perdição (Mythos Editora, 2004)

Dicas de sites:

www.hellboy.com/
www.spe.sony.com/movies/hellboy
www.superherohype.com/hellboy
www.empiremovies.com/movies/2004/hellboy.shtml
www.spe.sony.com/movies/hellboy/hellsite
www.comicshell.ubbi.com.br/
www.countingdown.com/movies/5142
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2095
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2094
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2096
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_news.asp?artigo=2098
www.universohq.com/quadrinhos/
review_hellboy_conqueror_worm04.cfm
www.universohq.com/quadrinhos/2004/
n05032004_01.cfm

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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