| Chegou
há um tempinho nas telas do Brasil uma das adaptações
de quadrinhos mais bacanas já vistas fora do típico
circuito de super-heróis. Trata-se de Hellboy. O
personagem título é vivido por Ron Perlman - conhecido
por suas participações na telessérie A
Bela e a Fera e em filmes como O Nome da Rosa e Blade
II.
A história
começa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o monge feiticeiro
Grigori Rasputin (Karel Roden), antigo conselheiro do czar russo,
realizava um ritual pagão para trazer o inferno para a Terra
e assim garantir a vitória dos nazistas sobre os aliados.
Era auxiliado por sua amante Ilsa (Biddy Hodson) e pelo bizarro
assassino Kroenen (Ladislav Beran). Contudo, seus planos são
frustrados pela chegada de uma tropa de soldados americanos, acompanhados
pelo especialista em paranormalidade do governo, o professor Trevor
'Broom' Bruttenholm (John Hurt).
Embora
tenham derrotado Rasputin e as tropas nazistas, o portal para o
inferno ficou tempo demais aberto e algo veio de lá para
nosso mundo: um bebê demônio. Chamado de Hellboy pelos
soldados, o jovem demônio foi adotado pelo Prof. Broom, que
o criou como a um filho.
Assim,
longe da influência maligna dos nazistas ou de qualquer outro
que poderia incentivar o lado sombrio de Hellboy, ele cresceu para
se tornar agente do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, uma
agência secreta do governo criada para lidar com todo e qualquer
tipo de aberração, seja ela paranormal, extradimensional
ou mítica.
Mas
Hellboy não é o único agente do Bureau. Junto
a ele trabalham o tritão Abe Sapien (Doug Jones, voz de David
Hyde Pierce), Liz Sherman (Selma Blair) - uma pirocinética
(embora ela não goste do termo) por quem Hellboy é
apaixonado-, e John Myers (Rupert Evans), um agente do FBI recém
transferido para lá.
O trabalho
dos agentes se torna ainda mais complicado com o retorno de Rasputin,
que pretende retomar seus velhos e tenebrosos planos datados da
Segunda Guerra. Esse é, em suma, o enredo do filme lançado
nos cinemas. E é também, em parte, o enredo da primeira
minissérie estrelada por Hellboy em 1994, As Sementes
da Destruição, realizada em parceria por John
Byrne (diálogos) e Mike Mignola (criador da personagem).
Hellboy - Sementes da Destruição foi publicado
no Brasil pela Mythos Editora em 1998.
Hellboy
surgiu meio que por acaso na vida de Mignola. A primeira versão
da personagem foi feita pelo ilustrador para o folheto promocional
de uma convenção de quadrinhos em 1991. Reza a lenda
(que de lenda não te nada) que, depois disso, Mike ficou
meio obcecado pela criatura encapetada e vivia fazendo desenhos
dele para os fãs quando era abordado em convenções.
Em
94 a editora Dark Horse lançou um selo de quadrinhos autorais
com alguns dos mais renomados desenhistas e escritores da época,
como Frank Miller e John Byrne. Era o chamado selo Legend. Miller
criou Sin City, um de seus melhores trabalhos fora das
grandes editoras e que vai se tornar filme através das mãos
de Robert Rodriguez, de El Mariachi. Byrne lançou
o insosso Next Men. E Mignola transformou seu personagem
de folheto em uma série de HQ. Assim nascia efetivamente
Hellboy. Como Mignola não tinha muita experiência
como escritor, pediu a Byrne que o ajudasse com os diálogos
da primeira minissérie, até que adquirisse maior segurança
e pudesse escrever sozinho as séries futuras.
A
principal inspiração de Mignola para construir as
aventuras de Hellboy está nos excelentes contos de terror
de H.P.Lovecraft (1890-1937). Contudo, outras mitologias e lendas
são utilizadas como base para as aventuras do demônio
detetive.
Imaginem
uma mistura de Arquivo X com Indiana Jones simples, criativa,
misteriosa e muito, muito bem-humorada. Essa é a essência
de Hellboy. Mignola faz um trabalho competente e embasado,
mas sem aquele ar enfadonho e acadêmico que algumas publicações
baseadas em mitologias costumam ter.
E embora
Hellboy (personagem) seja um demônio, ele é extremamente
carismático. Não chega a ser um santo - nem poderia,
afinal é um demônio :o) -, mas é simpático
e divertido. É apenas um cara comum que tenta fazer seu trabalho
da melhor maneira que pode tentando não se grilar muito com
isso. Bem, é claro que tem o acréscimo de ele ser
vermelho, ter chifres (ainda que serrados), um rabo e um bocado
de gente no seu pé que deseja que Hellboy reassuma seu papel
de “besta do apocalipse no plano cósmico”.
Dentre
as revistas do selo Legend, Hellboy foi uma das que fez
menos sucesso no início, mas aos poucos foi conquistando
novos e dedicados fãs, a ponto de chegar a ser publicada
em diversos outros países como França, Espanha, Itália,
Alemanha, Rússia, Japão e, é claro, Brasil.
O sucesso
de Hellboy não se compara a de personagens clássicas
como Superman, Batman ou Homem-Aranha. Mas é preciso levar
em conta dois fatores. O primeiro é que, embora a Dark Horse
seja uma editora de destaque no mercado norte-americano, ela não
consegue enfrentar de igual para igual a DC ou a Marvel. O segundo
é que Hellboy tem apenas dez anos de existência, contra
os mais de 60 anos do Super e do Morcego, e os pouco mais de 30
do Cabeça de Teia. De qualquer maneira, a vendagem satisfatória
do título permitiu que a personagem continuasse a ser publicada
pela Dark Horse após o encerramento do selo Legend, no fim
dos anos 90.
O trabalho
de Mignola se destaca não apenas por suas histórias,
mas por aquilo que ele realmente faz de melhor: desenhar. Dono de
um traço pouco convencional, mas ainda assim marcante e forte,
Mignola se mostra como um artista cujo talento é questionado
por poucos. Infelizmente, nem tudo é perfeito. Mike tem um
certo defeitinho, é um tanto “lento” ao produzir,
o que faz com que as publicações do demônio
vermelho não sejam tão freqüentes como desejariam
os fãs.
Para
compensar essa lentidão, foram promovidos diversos crossovers
(encontros entre personagens de editoras e/ou séries diferentes)
entre a personagem do Hellboy e outros heróis, como Ghost,
Savage Dragon, Batman e Starman (todos publicados no Brasil). Também
surgiram algumas séries derivadas: Hellboy Jr.,
criado por Mignola e Bill Wray (que já trabalhou na Mad)
e contava as aventuras do Hellboy ainda bebê (mas não
fez muito sucesso); Hellboy Weird Tales, série em
que diversos artistas diferentes criavam suas próprias histórias
com a personagem - participaram da revista P. Craig Russel (Sandman),
Jim Starlin e Kia Asamiya (X-Men, Dark Angel,
Batman-Mangá); e uma série estrelada pelos
demais personagens do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, que
contou com a participação, em algumas edições,
de Geoff Johns (Flash), considerado por muitos como um
dos melhores escritores que passou pela DC Comics nos últimos
tempos.
Bem,
agora vou falar sobre o filme. Dirigido e roteirizado por Guillermo
Del Toro (Blade II e o fenomenal A Espinha do Diabo),
Hellboy (o filme) mostra uma coleção de acertos
poucas vezes vistas em uma adaptação de quadrinhos
(com exceção dos excelentes trabalhos realizados nas
cine-séries dos X-Men e do Homem-Aranha
e, é claro, em Hulk). O filme capta todo o clima
das séries de quadrinhos estreladas pelo demônio detetive.
É simples, inventivo e despretensioso como Hellboy sempre
se mostrou ser. Cinema pipoca de boa qualidade. Se alguém
for ao cinema esperando muito mais que isso, com certeza se decepcionará,
mas, entrando no clima do filme, a diversão é muito
mais do que garantida.
Tudo
isso se deve ao fato de Del Toro ser fã do trabalho de Mike
Mignola e tratar com o devido respeito a personagem que tinha em
mãos. Ao contrário de alguns diretores fãs
deslumbrados, que devido à inexperiência e ao desejo
de colocar todas as informações e impressões
pessoais sobre a personagem ao mesmo tempo na história do
filme (como por exemplo Mark Steven Johnson, o diretor de Demolidor),
Del Toro tinha a experiência e o bom senso ao seu lado. Sabiamente,
decidiu focar a história de Hellboy nos fatos apresentados
na primeira minissérie da personagem.
Ele
tinha outra vantagem: o próprio criador da série de
quadrinhos, Mike Mignola, participou ativamente do trabalho de pré-produção
- exigência do diretor ao estúdio Revolutions. Dá
para ver o dedinho (ou a mão inteira) de Mignola no designer
das personagens, cenários, figurinos, equipamento etc, durante
todo o filme. É quase como ver uma HQ do Hellboy transferida
literalmente para a tela grande.
Outro
grande achado do filme são seus atores - com uma ou outra
pequena exceção que não prejudica a película.
Com um elenco sem grandes estrelas, todos conseguem agradar em suas
personagens, criando um senso de equilíbrio raro nesse tipo
de produção - mesmo nos dois X-Men, por exemplo,
em que Hale Berry (Tempestade) e James Madsen (Ciclope) são
devorados pelas presenças de atores do calibre de Sir Iam
Mckellen (Magneto) ou Hugh Jackson (Wolverine). Isso não
acontecem de forma alguma em Hellboy, mesmo com a presença
de veteranos do calibre de John Hurt (O Homem Elefante
e 1984) no filme.
É
claro que o grande destaque do filme é Ron Perlman como Hellboy.
Ele consegue convencer tanto no papel de agente durão, como
no de filho desejoso de agradar o pai e no de um quase adolescente
apaixonado. Realmente muito bom para alguém que o estúdio
não queria no papel de modo algum. Se não fosse a
insistência de Del Toro e de Mignola, possivelmente Hellboy
teria sido vivido por alguém do “calibre” de
Vin Diesel. Sorte nossa que o estúdio cedeu.
Apesar
de Hellboy (o filme) não ter sido um explosivo sucesso
de bilheteria, o estúdio ficou tão animado com o resultado
que uma continuação já está sendo produzida,
com a dupla Del Toro e Mignola nos roteiros.
E se
vocês não conhecem esse excelente trabalho fora do
esquema de quadrinhos de super-heróis, o que estão
esperando? Vão ao cinema ver Hellboy e aproveitem
e comprem as revistas também. Duvido que irão se arrepender.
Agradecimentos
à Banca 9ª Arte
Av. Antônio Carlos, 6627
Campus UFMG (Pampulha - Portão 1)
Tel.: (31) 9652-4091.
Dicas
de revistas
Revistas
do Hellboy publicadas no Brasil:
Hellboy
- Sementes da Destruição (Mythos Editora, 1998)
Hellboy - O Despertar do Demonio (Mythos Editora, 1998)
Hellboy & Ghost (Mythos Editora, 1999)
Savage Dragon & Hellboy (Pandora, 2001)
Hellboy - O Gigante Infernal e Os Lobos de Santo Augusto
(Mythos Editora, 2001)
Hellboy, Batman e Starman (Mythos Editora, 2001)
Hellboy: A mão direita da perdição
(Mythos Editora, 2004)
Dicas
de sites:
www.hellboy.com/
www.spe.sony.com/movies/hellboy
www.superherohype.com/hellboy
www.empiremovies.com/movies/2004/hellboy.shtml
www.spe.sony.com/movies/hellboy/hellsite
www.comicshell.ubbi.com.br/
www.countingdown.com/movies/5142
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2095
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2094
http://www.omelete.com.br/cinema/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=2096
http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_news.asp?artigo=2098
www.universohq.com/quadrinhos/
review_hellboy_conqueror_worm04.cfm
www.universohq.com/quadrinhos/2004/
n05032004_01.cfm

Além
de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado
O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida,
fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.
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