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Beagá, 28 de junho de 2004 d.C.
 

Mais que uma Inteligência Artificial

Por Katchiannya Cunha

 

O Cartoon Network trouxe mais uma interessante novidade para sua grade de programação. Trata-se da nova série estrelada por Astro Boy, personagem originalmente criado por Osamu Tesuka.

Tesuka é o responsável por tornar os quadrinhos japoneses o que são hoje. Pioneiro na área, foi ele quem definiu os elementos fundamentais do mangá: os desenhos estilizados, a narrativa cinematográfica, e é claro, os famosos olhos grandes, inspirados no tradicional teatro de máscaras japonês, o Kabuki. Tesuka foi um dos mais produtivos artistas nipônicos: auxiliado por vários assistentes, ele produzia cerca de 300 páginas de quadrinhos por mês para várias revistas, chegando a produzir 150 mil páginas durante toda sua carreira, além de criar mais de 500 obras.

Alguns de seus personagens são conhecidos aqui no Brasil pelo pessoal “das antigas”, como Jungle Tatei e Ribon no Kishi, mais conhecidos como Kimba, o Leão Branco, e A Princesa e o Cavaleiro, criados nos anos 50 e transformados em desenho na década de 60, além de outros, como o divertido Dom Drácula (alguém se lembra dele no Clube da Criança, da extinta Rede Manchete?). Não é à toa que Tesuka é conhecido pelos seus conterrâneos como “Manga no Kamisama”, ou “o deus do mangá”.

Astro Boy tem um papel muito importante na trajetória de Tesuka e na história dos quadrinhos e desenhos japoneses. Publicado na revista Shonen Magazine, entre 1963 e 1968, além de se tornar um estrondoso sucesso editorial, Astro Boy também foi um dos primeiros desenhos animados da TV japonesa, inaugurando a longa e sólida tradição de se transformar revistas de sucesso em animes quase simultaneamente ao seu lançamento. O primeiro desenho do Astro Boy, feito em preto e branco, foi exibido no Japão de 1963 a 1966, contando ao todo com 193 episódios em preto e branco. Em 1964 foi realizado um longa-metragem de animação para o cinema e diversas séries live-action (com atores). E todo esse alarde em relação a essa animação não se restringiu à Terra do Sol Nascente. Astro Boy foi exportado para outros países, como os Estados Unidos, repetindo sua trajetória de sucesso nos lugares em que passou. Infelizmente, Astro Boy não chegou a ser exibido no Brasil. Muitas foram as imitações do pequeno herói robótico, incluindo uma criada pelo próprio Tesuka: Jetter Mars ou O Menino Biônico, como ficou conhecido por aqui. Na década de 80, uma segunda série animada, agora colorida, foi lançada, contando com 52 episódios.

O desenho exibido atualmente no Cartoon Network, de segunda a sexta às 16:30 hs, é a terceira versão da história. Essa nova série é uma parceria da Tezuka Productions e Sony Pictures Entertainment. Um de seus principais roteiristas é Sadayuki Murai, que trabalhou em um dos mais interessantes animes já exibido na tv brasileira: Cowboy Bebop (Locomotion).

Os criadores desta nova série utilizaram como base a história criada por Tesuka há mais de 30 anos, mas não pretendem seguir rigidamente o que foi visto no mangá original, nem no anime dos anos 60. Pretendem explorar e explicitar os aspectos mais dramáticos da saga do pequeno robô e expandir suas aventuras, criando sagas completamente novas. Utilizando técnicas que combinam acetato e retoques feitos em computador, seus realizadores também procuram dar um ar nostálgico, retrô e saudosista ao desenho, apesar de aparentemente se tratar de uma aventura essencialmente futurista.

A história de Astro Boy lembra muito um dos últimos sucessos cinematográficos de Steven Spielberg: Inteligência Artificial. No ano de 2030, um cientista decide criar um menino-robô feito à imagem e semelhança de seu filho, que morrera algum tempo antes, em um acidente de carro. Em princípio, tudo saí às mil maravilhas e a empreitada é um sucesso. É criado, assim, o Astro Boy ou Tetsuwan Atomu - “Poderoso Átomo”, no original. Tendo um reator nuclear dentro de seu corpo como fonte de energia (vamos lembrar que a história original foi criada nos anos 60, quando a energia atômica era tida como a energia do futuro e principal alternativa aos derivados do petróleo), Astro Boy possuía extraordinários poderes, como superforça e capacidade de voar. Contudo, o cientista percebe o grande erro que cometera ao tentar desafiar a ordem natural da vida e conclui que, apesar da semelhança física, o pequeno robô nunca poderia substituir seu falecido filho. E daí comete um erro ainda maior, na minha opinião: irresponsavelmente, abandona o poderoso e inocente robô à própria sorte. Contudo, o destino sorri para Astro, que é encontrado por outro cientista e adotado por ele. Seu novo “pai” lhe ensina o que é certo e errado, fazendo com que o menino-máquina entenda a velha e conhecida lição de que com grandes poderes também vem grandes responsabilidades. Sendo assim, Astro Boy passa a dedicar sua vida (ou sei lá como chamamos a existência de um robô...) a ajudar a humanidade.

A série, que foi lançada no Japão em abril de 2003 e nos Estados Unidos em janeiro deste ano, terá inicialmente 25 episódios. Aparentemente, o desenho vem sendo um sucesso estrondoso. Diversos produtos licenciados já foram lançados, incluindo quatro milhões de trading cards colecionáveis.

Tal retorno acabou por estimular a Sony a desenvolver um longa-metragem animando com a personagem, totalmente desenvolvido através de computação gráfica. Para comandar essa empreitada foi escolhido um dos maiores e mais importantes nomes na área de desenhos animados da atualidade: Genndy Tartakovsky.

Tartakovsky é o criador de uma das mais divertidas séries animadas dos últimos tempos: O Laboratório de Dexter, que conta as aventuras do menino gênio Dexter e sua irmã Dee-dee. Recheado de referências da cultura pop, inclusive de animes e seriados live action japoneses, O Laboratório de Dexter é um sucesso inquestionável.

Tartakovsky também conseguiu a proeza de fazer na TV o que George Lucas não consegue fazer no cinema: transformar a nova saga de Star Wars em algo quase tão empolgante e fascinante quanta a original, com a minissérie animada Star Wars - Guerras Clônicas.

E se tudo isso não bastasse, Genndy também é o criador de Samurai Jack, um dos mais revolucionários desenhos da atualidade. Em Samurai Jack o herói é filho de um poderoso senhor feudal japonês, preso em um futuro distante pelo maligno Abu. Agora, Jack procura um portal para voltar no tempo e "desfazer o futuro que é Abu". Samurai Jack também possui uma influência japonesa (mais especificamente dos animes) na sua estruturação e animação, mas vai muito, muito além disso. A animação é primorosa, são traços estilizados associados a movimentos perfeitos, feitos no geral com animação tradicional, mas com um ou outro pequeno detalhe em computação gráfica. Os roteiros são eficientes, alguns fenomenais, mas a principal qualidade do desenho vem da perfeita conjugação entre animação e sonoplastia.

Com um currículo desses, não dá nem para duvidar que o longa-metragem do Astro Boy dirigido por Genndy Tartakovsky vai ser um dos melhores longas animados dos próximos anos. Sem falar que, sendo o próprio Genndy fã de animações japonesas, os fãs do pequeno robô podem ficar tranqüilos, pois o pai do Dexter certamente saberá respeitar a obra original.

O longa será co-produzido por Don Murphy (Do Inferno), ao lado de Lisa Henson e Kristine Belson (ambas da Jim Henson Pictures). O roteiro foi escrito por Todd Alcott (Formiguinhaz) e Ken Kaufman (Cowboys do Espaço). Ainda não há data de lançamento prevista.

E se isso tudo não fosse o suficiente para garantir a invasão do pequeno robô, corre a boca pequena o boato de que a editora Conrad estaria negociando a publicação dos mangás originais de Astro Boy no Brasil. Ainda não é nada oficial, mas não custa nada torcermos para que este clássico e histórico mangá chegue a nossas terras.

Por enquanto, resta-nos apenas curtir suas aventuras na TV, e esperar.

Agradecimentos:
Menina Enciclopédia, pela dica;
Banca 9ª Arte
Av. Antônio Carlos, 6627
Campus UFMG (Pampulha, Portão 1)
Tel.: (31) 9652-4091.

Dicas de sites:

www.alphalink.com.au/~roglen/astroboy.htm
www.absoluteanime.com/astro_boy
www.cartoontown.ca/astroboy.htm
en.tezuka.co.jp/manga/sakuhin/m025/m025_01.html
www.astro-boy.net/
www.animewebpage.hpg.ig.com.br/animes/astroboy.htm
www.animenewsnetwork.com/encyclopedia/
anime.php?id=422

www.astroboy-online.com/history.php
www.abc-kid.com/astroboy
http://www.omelete.com.br/tv/news/
base_para_news.asp?artigo=9078

http://www.omelete.com.br/cinema/news/
base_para_news.asp?artigo=9127

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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