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Beagá, 10 de maio de 2004 d.C.
 

O Charme do Cabeça de Bigorna

Por Katchiannya Cunha

 

Milhares são os desenhos animados estrelados por crianças que, juntamente com seus amigos mais próximos, vivem as mais incríveis aventuras. Como exemplos, podemos citar Os Anjinhos (Rugrats), Angela Anaconda, Doug, Punk-A Levada da Breca (derivado da série de tv), A Turminha da Sala 402, Sorriso Metálico, Rocket Power, Jimmy Neutron, só para citar alguns exemplos...

Mas realmente poucos são como Hey Arnold!, estrelado pelo “cabeça de bigorna” mais simpático do mundo dos cartoons.

Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar desse desenho, pois sou completamente apaixonada pela série e dificilmente conseguirei fazer um artigo isento de minha paixão.

Hey Arnold! é uma série animada criada por Craig Bartlett, que estreou na Nickelodeon norte-americana em 1996. No Brasil, ela chegou a passar na Globo pelas manhãs, no extinto programa infantil da Angélica. Mas quem tem tv a cabo pode ainda curti-lo na Nickelodeon. Nos Estados Unidos, além da série de TV, Hey Arnold! se tornou uma série em quadrinhos publicada pela Bongo Comics - mesma editora dos quadrinhos de Os Simpsons. Aliás, Craig Bartlett é cunhado de Matt Groening, o criador da família amarela. E na dublagem original, Dan Castellaneta, o Homer americano, dubla o avô de Arnold. Em 2002, Arnold estrelou um longa animado.

Hey Arnold! tem como personagem principal o Arnold do título, um garoto loirinho de nove anos criado pelos avós paternos. Os pais de Arnold, um arqueólogo e uma médica, desapareceram durante um vôo na América do Sul, quando realizavam uma missão humanitária. Hey Arnold! foi um dos primeiros desenhos da Nick americana a tratar do tema da morte, mesmo que de forma indireta, quando isso ainda era tabu na emissora.

Apesar de estar sempre pronto para ajudar seus amigos, através de conselhos ou de outras formas, Arnold não é aquele típico personagem irritantemente bonzinho, sabe-tudo e perfeito que geralmente estrelam esse tipo de desenho. Arnold possui vários defeitos. É capaz de cabular aulas para se divertir em um parque de diversões, pregar peças no primeiro de abril, marcar encontro com duas garotas diferentes no dia dos namorados e tirar sarro da cara do professor novato junto com os demais alunos. Enfim, Arnold não tem a profundidade de um pires como muitos personagens de produções infantis.

Juntamente com Arnold, os outros personagens que podem ser quase considerados como co-principais da série são Gerald, o melhor amigo de Arnold, e Helga G. Pataki.

Gerald tem uma família comum (pai, mãe, irmão mais velho e irmã caçula). Em um desenho mais tradicional, provavelmente ele seria o personagem principal. Mas aqui, ele se torna um divertido coadjuvante, com suas tiradas sarcásticas e piadas constantes. Gerald é o guardião das lendas urbanas do bairro. Quem quiser saber mais sobre qualquer história de fantasma ou bizarrice do gênero que tenha acontecido na região, basta perguntar a ele.

Já Helga Geraldine Pataki é a personificação da anti-heroína. Ela não é necessariamente bonita (está mais para um Patinho Feio que no futuro se revelará), não é popular, nem é um doce de garota. Helga é mandona, briguenta, sarcástica e falastrona. Mas ainda assim não há como não se apaixonar por Helga. Certamente é uma das personagens mais fascinantes da série (e minha favorita). Apesar de toda essa máscara de maldade, Helga tem um coração de ouro, que bate acelerado por Arnold. Mas como na realidade é tímida e insegura, Helga esconde sua paixão, destratando Arnold e chamando-o de cabeça de bigorna (football head no original, o pior de tudo é que esse é mesmo o formato exato da cabeça do Arnold!). Helga é uma das alunas mais inteligentes da escola, além de poetisa nata.

Mas afinal, o que diferencia Hey Arnold! das demais séries estreladas por crianças? Bem, muitas coisas... Hey Arnold! não é uma série infantil convencional... Aliás, convencional é tudo o que esse desenho não é.

Para começar, seu personagem principal não é membro de uma família tradicional (pai, mãe, irmãos, etc). O que já começa a denotar uma certa diferenciação dessa série para os demais desenhos do gênero. A família de Arnold é seus avós, Phil e Gertie, e os demais moradores da pensão Sunset Arms, de propriedade dos avós do cabeça de bigorna. O avô de Arnold é uma figura, adora inventar lorotas e contar vantagens dos seus feitos de juventude. A avó é completamente maluca, vive fantasiando a realidade, esquecendo coisas, mas quando é preciso, do seu modo completamente estranho, sabe dizer as coisas mais sensatas no mundo. Os pensionistas são: Ernie, um anão irritado especialista em demolições; o Sr. Hyunh, um refugiado vietnamita que veio para os Estado Unidos em busca de sua filha, enviada para a América ainda bebê durante a guerra; e o casal Oskar e Suzie. Oskar nunca trabalhou na vida. Jogador compulsivo, ele vive às custas de sua pobre esposa Suzie.

A “heroína” da série, Helga, também não possui uma família padrão, mas não no mesmo sentido do Arnold. Ela é a desmistificação da infância feliz em pessoa. Helga é a filha caçula de Bob e Miriam. Bob é um empresário do comércio de bips e celulares. Ganancioso e viciado em trabalho, ele passa pouco tempo com a família. Miriam é uma dona de casa desmotivada, que certamente sofre de algum tipo de depressão. A filha mais velha, Olga é a combinação ideal entre beleza e inteligência (e chatice). Estudante de faculdade, Olga nunca tirou menos que A na escola. Por mais que Helga seja inteligente e talentosa, nunca conseguiu sair da sombra de Olga. E sempre foi deixada para segundo plano. Por todos esses motivos, Helga é, de certo modo, uma menina abandonada à própria sorte. E muito de sua agressividade é reflexo de sua enorme carência. Não que os Pataki sejam pessoas ruins e tratem Helga mal intencionalmente, são apenas humanos, cheios de defeitos e problemas.

Também, diferentemente de outros desenhos, as personagens secundárias não são apenas acessórios dos personagens principais. Cada um dos colegas de escola de Arnold, por exemplo, possuí uma personalidade tão única e distinta que os torna tão interessantes como Arnold ou Helga. E são tantos que fica até difícil descreve-los aqui. Aliás, apesar de o desenho se chamar Hey Arnold!, muitos dos episódios são exatamente estrelados pelos amigos de Arnold. A grande maioria deles teve pelo menos um episódio de destaque durante as cinco temporadas do desenho.

Arnold também é um dos poucos desenhos infantis que nunca teve pudor de lidar com temas um pouco mais sérios e polêmicos (para os americanos e levando-se em conta seu público alvo) como morte, guerra do Vietnã, velhice, casamentos fracassados, Segunda Guerra Mundial, pobreza, psicoterapia, só para citar alguns. Sem falar de outros muito mais polêmicos, que ficam bem subentendidos nos episódios, mas que podem ser percebidos pelos telespectadores adultos mais atentos.

E apesar de seu anticonvencionalismo, Hey Arnold não beira ao bizarro, pois seu criador e realizadores tratam com respeito suas personagens, mesmo as mais esquisitas. Além disso, as situações são mostradas de um modo tão natural que não causam choque ou estranhamento nos telespectadores. Aliás, outra grande qualidade da série é um certo equilíbrio que ela mantém entre um realismo fantástico (especialmente nos episódios das lendas urbanas) e um certo naturalismo, quase como se um retrato da vida como ela é. Ou seja, sempre com um pezinho na fantasia e outro na realidade.

Sinceramente, é uma pena que essa série não tenha tido mais destaque na TV aberta como outras séries da Nickelodeon, do tipo Rugrats ou Bob Esponja. Mais triste ainda é saber que a série foi cancelada nos Estados Unidos, não por falta de audiência ou popularidade, mas por picuinhas jurídicas entre a Nickelodeon e o criador da série, Craig Bartlett.

Para quem não conhece Hey Arnold! vale muito a pena conferir o desenho. Afinal, esse é um dos desenhos mais inteligentes e divertidos da TV. Não se acanhe e assista um episódio na Nick. Para quem não tem TV por assinatura, o filme estrelado pelo cabeça de bigorna pode ser encontrado em algumas locadoras. Não é tão bacana quanto alguns episódios do seriado, mas é um bom ponto de partida.

Dicas de Sites:

www.hey-arnold.com/
www.tvtome.com/HeyArnold
www.geraldfield.com/unofficial
www.fan.valvigirl.net/heyarnold
www.pazsaz.com/arnold.html
www.nick.com/all_nick/movies/heyarnold
www.apple.com/trailers/paramount/hey_arnold.html
www.epguides.com/HeyArnold
www.brisco150.tripod.com/heyarnoldstuff
www.cartoontown.ca/heyarnold.htm
www.nick.com/all_nick/tv_shows/
shows.jhtml?propertyId=665
www.metacritic.com/film/titles/heyarnold
www.groups.msn.com/HeyArnoldSite
www.dir.yahoo.com/Entertainment/Television_Shows/
Animation/Hey_Arnold_
www.jumptheshark.com/h/heyarnold.htm
www.geocities.com/Hollywood/Boulevard/1012/
heyarnold.html

www.mrcranky.com/movies/heyarnoldthemovie.html

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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