q
Página principal de O Balaio
Adicione o ABACAXI ATÔMICO aos seus Favoritos. Faça do ABACAXI ATÔMICO a sua página inicial. Cadastre-se!
Mande o seu recado!
Beagá, 22 de março de 2004 d.C.
 

Velhas sensações despertadas

Por Katchiannya Cunha

 

A proposta do Kingdom Comics sempre foi comentar e trazer o que há de mais interessante no mundo dos quadrinhos, sejam quadrinhos alternativos ou comerciais, ou até mesmo sobre adaptações cinematográficas de HQs. Talvez por isso vocês estejam estranhando um pouco a temática deste texto. Afinal, Coraline não é uma revista em quadrinhos, nem mesmo uma graphic novel. É, na verdade, um livro infantil. Sim, é um livro infantil, mas foi realizado por dois fantásticos artistas que se firmaram inicialmente no mundo dos quadrinhos antes de flertarem com outras mídias. Estou falando dos excepcionais Neil Gaiman e Dave Mckean. E, sendo assim, não poderia deixar que esse livro passasse em brancas nuvens por aqui.

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, no qual ele traçava um paralelo entre a brincadeira infantil da dança das cadeiras e o massacre de São Valentino cometido por Al Capone. Essa foi a primeira vez em que ele e Dave McKean trabalharam juntos.

Graças a essa obra, ele e McKean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra - que está sendo relançada no Brasil. Essa minissérie falava sobre uma obscura super-heroína da editora e possibilitou que eles alcançassem vôos maiores. Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman e de Hellblazer, também realizou o especial Asilo Arkhan, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman.

Sandman, que é considerada como a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, e foi, juntamente com o Monstro do Pântano de Alan Moore, um dos catalisadores que possibilitou a criação da linha de quadrinhos adultos da DC: a Vertigo. Além de Sandman, Gaiman também escreveu para os quadrinhos: Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer), Miraclemen, Angela, algumas minisséries estreladas pelos Perpétuos (personagens de Sandman), entre outras coisas. Atualmente, está escrevendo seu primeiro trabalho para a Marvel Comics, chamado 1602, que traz as personagens da editora retratadas como se tivessem existido 400 anos atrás.

Mas Gaiman não se contentou em escrever apenas para os quadrinhos. Graças ao seu talento, se saiu bem em praticamente tudo o que fez. Ele já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (o premiado Deuses Americanos e o divertido Belas Maldições, que deve virar filme pelas mãos de Terry Gilliam), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (The day I swapped my dad for 2 goldfishes e Wolves in the Walls), além de um trabalho para o rádio. Também ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner, World Fantasy Award, Brain Stocker Award, American Library Association's Alex Award e o Nebula.

Como já disse, a parceria entre Gaiman e McKean é antiga e começou em Violent Cases. Mais que parceiros profissionais, Gaiman e McKean se tornaram grandes amigos e juntos realizaram Mr. Punch, The day I swapped my dad for 2 goldfishes, Sandman (a série) e Sandman Noites sem Fim (McKean era o capista), Wolves in the Walls, entre outros. Atualmente trabalham juntos em Mirror Mask, um filme ao estilo de Labirinto, clássico dos anos 80, em que Gaiman é o roteirista e McKean é o diretor, além de ser também responsável pelo designer das personagens e cenários. E há, é claro, Coraline.

Coraline é uma obra especial para Gaiman. Ele começou a escrevê-la cerca de 10 anos atrás para sua filha mais velha, Holly. No livro, somos apresentados a Coraline Jones, uma garotinha que vive em uma velha mansão com seus pais. Como muitas casas antigas da Inglaterra, o casarão onde Coraline vive foi dividido em pequenos apartamentos. Em um deles moram as senhoritas Forcible e Spink, duas velhinhas simpáticas que já foram atrizes de teatro. No sótão vive um estranho senhor que diz treinar uma banda de música composta por ratos brancos.

Coraline é uma menina comum, um pouco mimada (não gosta de experimentar comidas diferentes), e que detesta que falem o seu nome errado ou que não prestem atenção no que ela diz (o que acontece praticamente o tempo todo, pois os adultos insistem em chamá-la de Caroline). Mas, antes de tudo, Coraline é uma exploradora.

Em um dia de chuva, sem nada para fazer, seu pai sugere que ela explore o apartamento, anotando, entre outras coisas, o número de portas da casa. Coraline descobre que, das 14 portas do apartamento, uma não se abre. Depois que sua mãe abre a porta com uma velha chave negra, primeiro a menina acredita que a porta dá apenas em uma parede de tijolos.

Mas, ao destrancar a porta, a mãe de Coraline abriu passagem para um mal antigo, que está atrás da menina. Certa noite, Coraline abre novamente a porta, que agora revela um longo corredor. Do outro lado, ela encontra uma outra versão de sua casa, com uma outra mãe, um outro pai, outros vizinhos, praticamente tudo igual, tirando o fato de que lá todos sabem o seu nome, tudo é como ela mais gosta e as pessoas que ela conhece têm reluzentes botões negros no lugar dos olhos(!?).

Como diz o velho ditado, quando a esmola é muita, o santo desconfia. As coisas não são o que parecem e Coraline vai passar por grandes apertos para sair daquele lugar, contando apenas com sua coragem, sua habilidade de exploradora e a ajuda de um gato preto.

O livro traz de volta elementos clássicos da literatura infantil inglesa, presente em obras de autores como Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos) ou C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia) ou J.M. Barrie (Peter Pan). Tem em comum com esses trabalhos o tema da criança que, através de um portal (um buraco ou um espelho no caso de Alice, um guarda-roupa nas Crônicas de Nárnia) ou de um artefato mágico (o pó mágico de Peter Pan), encontra um lugar mágico e fantástico, a princípio bastante agradável, mas que se revela cheio de segredos sombrios e obscuros - especialmente no caso de Alice e Peter Pan.

Gaiman não é como muitos autores atuais, que pintam em suas obras um mundo politicamente correto, florido e cor-de-rosa. Os tons empregados em Coraline são negros e cinzentos. Há passagens que certamente nos fazem estremecer de medo, mas também não faziam isso os velhos contos infantis de outrora? Lembro-me muito bem do meu horror ao saber que, na história do Pequeno Polegar, o gigante decapitou suas sete filhas achando que era o Polegar e seus irmãos, e ainda assim eu adorava essa história. Ler Coraline me trouxe essa velha sensação perdida em minha infância, um misto de medo e atração. Por isso, só posso brindar à ousadia de Gaiman.

Com seu texto inteligente, ágil e envolvente, Gaiman não subestima a capacidade dos seus leitores infantis, criando uma obra que pode ser apreciada prazerosamente por platéias de qualquer idade.

Quanto às ilustrações de Dave McKean, não poderia deixar de dizer que elas foram uma agradável surpresa. Como assim? Bem, apesar de conhecer a obra desse artista há anos, a maior parte de seu trabalho que eu conhecia era feito através das técnicas de pintura ou uma mescla entre pintura e fotografia. Em Coraline, McKean trabalha basicamente com desenhos em preto, cinza e branco, feitos em nanquim e tinta, se eu não me engano. Fiquei surpresa exatamente por ele dominar tão bem técnicas tão distintas e ainda colocar sua marca pessoal nas obras. Você vê uma capa de Sandman ou uma página de Orquídea Negra, e depois olha uma ilustração de Coraline, sabe imediatamente que é Dave McKean, e o melhor, adora o que vê. É difícil encontrar um pintor que também seja um excelente desenhista. Em termos de comparação, Bill Sienkiewicz (Elektra Assassina), por exemplo, é um pintor e ilustrador fenomenal, mas seu trabalho como desenhista e arte-finalista não me agradam nem um pouco. Cada vez mais me torno mais fã do trabalho de McKean.

Os desenhos em Coraline conseguem passar simultaneamente o clima de conto infantil e de história de terror que os textos de Gaiman demandam. Também gostaria de cumprimentar a tradutora do livro, Regina de Barros Carvalho, pelo excelente trabalho feito, ao respeitar a obra original e, ao contrário de certos tradutores, não ficar trocando nomes próprios de personagens ou abrasileirando coisas que não tem a mínima necessidade de serem abrasileiradas, dada a universalidade do tema.

Enfim, Coraline é um livro para ser lido e relido diversas vezes, sejam vocês adultos ou crianças, fãs de quadrinhos ou não. Se nenhum dos motivos que eu dei for suficiente para te convencerem disso, basta lembrar que Coraline é na verdade um conto de fadas e, colocando aqui uma citação feita por Gaiman na introdução do livro, vocês não poderiam achar motivo maior, afinal:

“Contos de Fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos. (G. K. Chesterton)”

(Agradecimentos à Carolina Garcia)

Dicas de sites:

http://www.mousecircus.com/flash/coraline.html
Site oficial do livro

http://www.rocco.com.br/colecoes/jovens_leitores.asp
Site da editora Rocco, que publicou o livro no Brasil

http://www.omelete.com.br/quadrinhos/artigos/
base_para_artigos.asp?artigo=265

Artigo sobre o autor do livro, Neil Gaiman

www.sonharnet.blogger.com.br/
http://fabricadequadrinhos.virgula.terra.com.br/
http://www.garotasquedizemni.com/archives/000057.php
http://virgulina.bookcrossing.com/journal/827617
http://www.universohq.com/quadrinhos/2003/
n17112003_01.cfm
Resenhas em português sobre Coraline

www.harpercollins.com/catalog/
book_xml.asp?isbn=0380977788

www.rhzine.com/archives/000271.php
www.greenmanreview.com/coraline.htm
www.csmonitor.com/2002/1031/p20s01-bogn.html
www.strangehorizon.com/2002/20020701/coraline.shtml
http://www.books.guardian.co.uk/reviews/
childrenandteens/0,6121,783536,00.html
www.boondocksnet.com/cgi-perl/
apfh-item_id-0380807343-search_type-
AsinSearch-locale-us.html
www.usatoday.com/life/books/2002/07-16-gaiman.htm
Resenhas em inglês sobre Coraline.

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

©Todos os direitos reservados
Melhor visualizado com Internet Explorer em 800X600

 
ÚLTIMAS MATÉRIAS
Realmente, o melhor da Disney
Retorno à década perdida (parte 2)
Retorno à década perdida (parte 1)
Criando novos mundos (parte 2)
Criando novos mundos (parte 1)
Confira textos mais antigos...