|
Como
prometemos, vai aí a segunda e última parte de nossa
conversa com Wagner Fernandes, quadrinista e escritor das
séries Space Warriors e Os Filhos de Venn.
A primeira parte foi publicada na semana passada. Se você
ainda não leu, clique aqui e
confira!

ABACAXI
ATÔMICO - O quanto a sua vida e gosto pessoal influenciam nas histórias
que você escreve e ilustra, e vice versa?
Wagner
Fernandes - Ah, muito. Sempre fui fascinado por História da humanidade,
enigmas, charadas, civilizações antigas, mitologia, religião e uso
isso em meus textos. O livro também é uma homenagem às coisas que
eu gostava e tem um pouco de cada uma delas: ARQUIVO X,
INDIANA JONES, PLANETA DOS MACACOS, STAR TREK,
X-MEN, SHERLOCK HOLMES… Veja só isso: no final do
capítulo 1º, um homem está no espaço-porto de Gorat, a capital de
KONTHARA. Ele então se dirige a um dos guichês, o 221-B. Ora, 221-B
é o número do endereço de Sherlock Holmes na Baker Street! E quando
Rayna-Iv procura por um número de apartamento ela passa por um corredor
e vê as placas nas portas com "1983, 1984, 1985, 1986… 1987". Estes
foram os anos em que criei os personagens! Há coisas assim em algumas
partes do livro.
Também
sou um cara bem minucioso. Gosto de filmes e quando assisto um costumo
observar detalhes de luz, sombra, enquadramento, ângulo de câmera,
a trilha sonora, o suspense, as expressões faciais e de corpo, além
do próprio enredo, claro. Como desenhista, me interesso pelos mínimos
detalhes e, obviamente, utilizo isso enquanto escrevo. Quando uma
cena me chama a atenção e percebo que posso usá-la nos textos, procuro
descrevê-las em palavras até que cause o impacto que desejo.
Às
vezes coloco uma música para dar "aquela" inspiração em determinadas
cenas. Isso é legal e realmente funciona. De fato, sempre imaginei
OS FILHOS DE VENN como um FILME. Parece que "VEJO"
as cenas, as tomadas, ouço a trilha sonora…
Gosto
muito de música clássica e trilhas sonoras de filmes. Há momentos
em que violinos, flautas, oboés e outros instrumentos surgem na
história como pano de fundo, dando um clima todo especial. Florestas,
montanhas, rios, cavalos e belas paisagens também me atraem e há
muitos deles na aventura.
AA
- Quais são as suas principais influências como artista?
WF
- Quadrinhos da MARVEL publicados no Brasil nos anos 80, principalmente
aqueles desenhados por John Byrne e John Buscema. Também estudei
a arte de Boris Vallejo. Meus quadrinhos favoritos eram X-MEN,
Homem-Aranha e Conan. Como eu não tinha muita grana,
esses eram os quadrinhos que eu mais tinha acesso. Depois conheci
a arte de Moebius, Heavy Metal, Asterix e
vários outros.
Sendo
um artista comercial, não tenho um "estilo" definido. Tudo depende
do tipo de trabalho que me é proposto. Assim, em determinada obra
faço um estilo infantil; em outra, algo mais realista. Isso é bom
porque experimento várias especialidades e técnicas. Posso utilizar
apenas o grafite ou o nanquim; outras vezes, a tinta óleo ou acrílica.
Às vezes uso o ecoline, o guache ou o lápis de cor. Atualmente trabalho
mais com o Photoshop. Os recursos são variados e freqüentemente
faço combinações desses estilos e técnicas.
AA
- Quais seriam as principais diferenças entre escrever livros ou
escrever quadrinhos? O processo é o mesmo, ou um é mais trabalhoso
que o outro?
WF
- A linguagem dos quadrinhos é mais sintetizada e econômica, de
fácil absorção. Como o foco está no VISUAL, o impacto fica
justamente nas imagens e é por isso que os textos nos balões são
curtos. HQ é feita para ser uma leitura rápida. Resumindo, as FIGURAS
é que narram a história, tendo os balões geralmente como complemento.
Às vezes não é necessário sequer texto ou balões em uma HQ. A imagem
por si só já é suficiente. Claro… há algumas exceções, mas, em geral
é isso.
Escrever
um livro, no entanto, é mais complicado mesmo. Você não trabalha
com imagens, mas com PALAVRAS. O impacto das cenas está na
maneira como elas são descritas e utilizadas. Ao ler o texto, o
leitor deve ser levado a sentir o que os personagens estão
sentindo, caso contrário, não terão nenhum "envolvimento" com eles
e o texto torna-se apenas mera descrição fria de alguma coisa, sem
contribuir em nada para a vida de quem o lê.
O leitor
precisa se sentir como participante da aventura, como se
fosse um amigo e companheiro dos personagens, um cúmplice
na aventura e não um observador qualquer. E conseguir esse "efeito"
exige MUITO do autor!!! As palavras têm que atingir a emoção e até
a razão de modo a fazer com que a pessoa aprecie a narrativa e deseje
mais!
Escrever
um livro, tecnicamente exige ler e reler o texto centenas de
vezes, corrigir, acrescentar trechos e cortar aqueles que são repetitivos
(ainda que otimamente escritos); consultar a Gramática e livros
e revistas que contenham algum assunto relativo à história, ter
o dicionário SEMPRE à mão, observar as pessoas e o comportamento
delas para compor personagens convincentes e ter muita, mas muita
PACIÊNCIA!!!
Desde
que iniciei o projeto de OS FILHOS DE VENN, em 1996, tenho
sempre feito alterações aqui e ali. Muitas vezes me canso da história
e a deixo de lado por semanas, às vezes meses. Então, quando retorno
ao trabalho acabo descobrindo novos detalhes que passaram despercebidos
anteriormente e faço as devidas alterações. Assim, a obra vai ganhando
corpo, ficando mais perto da perfeição. Um amigo me disse que "enquanto
a obra está nas mãos do artista nunca será concluída". E isso é
um fato.
Escrever
quadrinhos é mais simples (embora não menos complicado em alguns
casos). É preciso descrever as cenas e as falas dos personagens,
as tomadas e ângulos, cores (se houver) e o resto fica por conta
do desenhista com sua arte - que pode ser muito trabalhosa também!
AA
- Como você percebe o mercado de quadrinhos nacional e a vida de
quadrinista aqui no Brasil? Você acha que muita coisa mudou desde
que você publicou o primeiro número de Space Warriors?
WF
- O mercado melhorou consideravelmente de 1995 pra cá. Temos mais
títulos de autores brasileiros e isso é bom porque mostramos nossa
arte. Apesar do apoio de editoras como Escala, Via Lettera e outras,
acho que quem faz quadrinhos -salvo raras exceções - tem muita dificuldade
para viver DE QUADRINHOS no Brasil. O trabalho exige muito tempo
e a remuneração é insuficiente para cobrir as despesas e o tempo
dedicado a esta profissão. Por isso muitos migram para a publicidade
ou outro setor das artes gráficas.
Claro,
a PAIXÃO pelos quadrinhos mantém muitos na luta, o que é bom! (Enquanto
outras pessoas não dependerem deles pra viver, tudo bem!). Vejo
que aos poucos estamos derrubando barreiras e ganhando mais espaço,
apesar de o artista de HQ e desenho em geral ser visto com certo
preconceito ainda. Mas as escolas já não vêem os gibis como prejudiciais
aos alunos, como ocorria anos atrás; ao contrário, são ótimas auxiliares
no aprendizado e a maioria dos livros mostram cenas de quadrinhos.
Também
tenho visto vários desenhistas aparecendo na mídia e falando da
profissão. No meu caso, por exemplo, consegui lecionar em oficinas
culturais de HQ onde ensino um pouco do que sei. Em minha época
de adolescente isso era inimaginável.
Ao meu ver, estamos estabelecendo nossos "postos avançados" nesta
"guerra" para a valorização dessa arte maravilhosa. Que cada um
defenda bem seu posto, mas sempre unindo forças aos companheiros
de luta!
AA
- As dificuldades de um escritor de fantasia no Brasil são as mesmas
de um quadrinista, ou trabalhar com quadrinhos é mais complicado?
WF
- Antes de responder a sua pergunta quero comentar algo. Ultimamente
tem-se falado do crescimento e do incentivo à leitura em nosso país,
especialmente entre os jovens. Recentemente, vi uma notícia fabulosa
mostrando uma idéia de muito bom gosto. As pessoas deixavam livros
em locais públicos (metrô, praças, avenidas) para que outras os
pegassem. Uma idéia maravilhosa e que deveria ser posta em prática
com maior freqüência! Uma jovem estudante deu uma entrevista dizendo
que adorou a idéia e que seria ótimo se houvessem mais livros de
aventura voltados para jovens. Ela gostou de Harry Potter
e O Senhor dos Anéis e queria saber por que no Brasil não
se existiam histórias assim.
A idéia
de deixar livros em locais públicos é fantástica e a declaração
da garota tem fundamento. Isso é bom para os escritores e para a
população em geral. Sobre sua pergunta, acho que fazer quadrinhos
é mais vantajoso.
Primeiro:
porque a tiragem é maior, a distribuição é melhor, ficam em local
(bancas) de fácil acesso a estudantes e assim mais perto dos jovens.
Segundo: qualquer tema é publicável em HQs. Histórias excelentes
e até muita porcaria. Já um livro de fantasia tem que enfrentar
barreiras tremendas para chegar nas mãos dos jovens. Inicialmente,
o preconceito das editoras com o tema - AVENTURA, FICÇÃO CIENTÍFICA.
Em seguida, o autor ser desconhecido do público. Tem que "ter nome"
para ter uma chance de publicar algo... E, finalmente, há o problema
da distribuição do livro nas livrarias do país. Por isso, mesmo
que um livro legal seja publicado, muitas vezes você não o encontrará
na livraria de sua cidade!!!
Acredito
que existam muitos autores brasileiros que só precisam de pessoas
(lê-se "editores") de mente aberta e sem preconceito que valorizem
o trabalho dessa gente.
Note
isso: vemos hoje no cinema muitos filmes derivados dos quadrinhos
ou que tenham elementos derivados das HQs (superseres, ficção, aventura)
como X-MEN, DEMOLIDOR, MATRIX, HOMEM-ARANHA…
Sucessos absolutos de bilheteria em todo o mundo. E para quem são
dirigidos? JOVENS! Vemos livros de FANTASIA que se tornaram sucesso
editorial (e posteriormente cinematográficos): HARRY POTTER
e O SENHOR DOS ANÉIS - voltados para quem? JOVENS!
Ora!
Os editores brasileiros não percebem isso? Será que é só a indústria
do cinema que descobriu que os jovens gostam de FANTASIA, AVENTURA
e FICÇÃO CIENTÍFICA, SUPER-HERÓIS? Será que ninguém aqui percebe
que o que faz sucesso nas telas surgiu do que era considerado algo
marginalizado como livros de fantasia e quadrinhos? E se fazem tanto
sucesso e arrecadam milhões de dólares, POR QUE NÃO INVESTIR EM
AUTORES DE FANTASIA?! Onde estão os livros para jovens? (refiro-me
a livros de ficção e fantasia). Além de alguns da linha de paradidáticos,
posso contar nos dedos (de uma mão!) os que conheço!!! Por que as
editoras brasileiras têm tanto receio desses novos autores, que
cresceram vendo seriados de aventura e lendo GIBIS de super-heróis?
Será
que, só porque somos brasileiros, não podemos escrever histórias
interessantes ou o que é bom e lucrativo? Com isso estão querendo
dizer que somos um bando de incompetentes? Que brasileiro não é
capaz de escrever ficção? Sabe, certa vez estive numa editora (não
vou dizer o nome porque sou uma pessoa educada!) e mostrei meu trabalho.
Quando a mulher viu que eu escrevia ficção, simplesmente riu da
cara como se fosse algum absurdo!!! Polidamente, me despedi e saí
de lá.
Essa
é uma questão séria e que merece ser discutida em nossos sites,
fanzines, revistas e reuniões de escritores. Não podemos deixar-nos
ser ridicularizados! Autores de fantasia e ficção, UNI-VOS!
AA
- O que você acha dessa proposta de utilizar a Internet como meio
de divulgação de artistas nacionais através de quadrinhos virtuais
ou de páginas pessoais?
WF
- Foi a melhor coisa que já inventaram! Como um jovem lá do subúrbio
poderia mostrar suas criações a pessoas de outras cidades ou estados?
Isso é uma revolução! Como EU poderia estar dando estas respostas
a você se não fosse pela internet? Estou em Guarulhos e você em…
Onde é que você está, hein? Rsrsrs.
Mas,
sim, A internet é um meio de transmitir IDÉIAS. Um veículo dos mais
importantes na atualidade. Através dela posso colocar outras pessoas
dentro do universo que existe em minha imaginação, unicamente em
minha imaginação. Já pensou? Mundos inteiros existindo na mente
de um homem? Às vezes me sinto na obrigação de contar aos outros
sobre este universo, como se eu fosse o único astronauta a estar
lá e ter visto coisas fantásticas que não podem ser guardadas só
para mim. É co-mo no filme CONTATO, com Jodie Foster. Tudo o que
ela viu e contemplou com tanta admiração mudou sua vida porque sentiu
que PRECISAVA contar aos outros. É assim que eu me sinto. Talvez
eu nem esteja tão empolgado em ser "mais um autor de fantasia" quanto
estou para mostrar este mundo que tenho dentro da cabeça.
São
coisas de artista…

Para
conhecer mais sobre esse talentoso escritor e desenhista é só visitar
os seguintes sites:
http://www.spacewarriors.blogger.com.br
http://www.wagnerjfernandes.blogger.com.br
Para
entrar em contato com o autor é só mandar um e-mail para o seguinte
endereço: konthara@ibest.com.br
Além
de Space Warriors e Os Filhos de Venn, outros trabalhos
interessantes de Wagner Fernandes são:
Novas
Idéias - Editora do Brasil: 1991; O Livrinho das Perguntas
- Edições Paulinas: 1994; Street Fighter II - Escala: 1994;
Um Chulé Sem Pés - Paulus: 1995; Quinze Anos, Tempo de
Menina Mulher - Ave-Maria: 1996; Todos Têm Algum Valor
- Ave-Maria: 1997.

Além
de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado
O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida,
fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.
|