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Beagá, 24 de novembro de 2003 d.C.
 

Criando novos mundos (parte 2)

Por Katchiannya Cunha

 

Como prometemos, vai aí a segunda e última parte de nossa conversa com Wagner Fernandes, quadrinista e escritor das séries Space Warriors e Os Filhos de Venn. A primeira parte foi publicada na semana passada. Se você ainda não leu, clique aqui e confira!

ABACAXI ATÔMICO - O quanto a sua vida e gosto pessoal influenciam nas histórias que você escreve e ilustra, e vice versa?

Wagner Fernandes - Ah, muito. Sempre fui fascinado por História da humanidade, enigmas, charadas, civilizações antigas, mitologia, religião e uso isso em meus textos. O livro também é uma homenagem às coisas que eu gostava e tem um pouco de cada uma delas: ARQUIVO X, INDIANA JONES, PLANETA DOS MACACOS, STAR TREK, X-MEN, SHERLOCK HOLMES… Veja só isso: no final do capítulo 1º, um homem está no espaço-porto de Gorat, a capital de KONTHARA. Ele então se dirige a um dos guichês, o 221-B. Ora, 221-B é o número do endereço de Sherlock Holmes na Baker Street! E quando Rayna-Iv procura por um número de apartamento ela passa por um corredor e vê as placas nas portas com "1983, 1984, 1985, 1986… 1987". Estes foram os anos em que criei os personagens! Há coisas assim em algumas partes do livro.

Também sou um cara bem minucioso. Gosto de filmes e quando assisto um costumo observar detalhes de luz, sombra, enquadramento, ângulo de câmera, a trilha sonora, o suspense, as expressões faciais e de corpo, além do próprio enredo, claro. Como desenhista, me interesso pelos mínimos detalhes e, obviamente, utilizo isso enquanto escrevo. Quando uma cena me chama a atenção e percebo que posso usá-la nos textos, procuro descrevê-las em palavras até que cause o impacto que desejo.

Às vezes coloco uma música para dar "aquela" inspiração em determinadas cenas. Isso é legal e realmente funciona. De fato, sempre imaginei OS FILHOS DE VENN como um FILME. Parece que "VEJO" as cenas, as tomadas, ouço a trilha sonora…

Gosto muito de música clássica e trilhas sonoras de filmes. Há momentos em que violinos, flautas, oboés e outros instrumentos surgem na história como pano de fundo, dando um clima todo especial. Florestas, montanhas, rios, cavalos e belas paisagens também me atraem e há muitos deles na aventura.

AA - Quais são as suas principais influências como artista?

WF - Quadrinhos da MARVEL publicados no Brasil nos anos 80, principalmente aqueles desenhados por John Byrne e John Buscema. Também estudei a arte de Boris Vallejo. Meus quadrinhos favoritos eram X-MEN, Homem-Aranha e Conan. Como eu não tinha muita grana, esses eram os quadrinhos que eu mais tinha acesso. Depois conheci a arte de Moebius, Heavy Metal, Asterix e vários outros.

Sendo um artista comercial, não tenho um "estilo" definido. Tudo depende do tipo de trabalho que me é proposto. Assim, em determinada obra faço um estilo infantil; em outra, algo mais realista. Isso é bom porque experimento várias especialidades e técnicas. Posso utilizar apenas o grafite ou o nanquim; outras vezes, a tinta óleo ou acrílica. Às vezes uso o ecoline, o guache ou o lápis de cor. Atualmente trabalho mais com o Photoshop. Os recursos são variados e freqüentemente faço combinações desses estilos e técnicas.

AA - Quais seriam as principais diferenças entre escrever livros ou escrever quadrinhos? O processo é o mesmo, ou um é mais trabalhoso que o outro?

WF - A linguagem dos quadrinhos é mais sintetizada e econômica, de fácil absorção. Como o foco está no VISUAL, o impacto fica justamente nas imagens e é por isso que os textos nos balões são curtos. HQ é feita para ser uma leitura rápida. Resumindo, as FIGURAS é que narram a história, tendo os balões geralmente como complemento. Às vezes não é necessário sequer texto ou balões em uma HQ. A imagem por si só já é suficiente. Claro… há algumas exceções, mas, em geral é isso.

Escrever um livro, no entanto, é mais complicado mesmo. Você não trabalha com imagens, mas com PALAVRAS. O impacto das cenas está na maneira como elas são descritas e utilizadas. Ao ler o texto, o leitor deve ser levado a sentir o que os personagens estão sentindo, caso contrário, não terão nenhum "envolvimento" com eles e o texto torna-se apenas mera descrição fria de alguma coisa, sem contribuir em nada para a vida de quem o lê.

O leitor precisa se sentir como participante da aventura, como se fosse um amigo e companheiro dos personagens, um cúmplice na aventura e não um observador qualquer. E conseguir esse "efeito" exige MUITO do autor!!! As palavras têm que atingir a emoção e até a razão de modo a fazer com que a pessoa aprecie a narrativa e deseje mais!

Escrever um livro, tecnicamente exige ler e reler o texto centenas de vezes, corrigir, acrescentar trechos e cortar aqueles que são repetitivos (ainda que otimamente escritos); consultar a Gramática e livros e revistas que contenham algum assunto relativo à história, ter o dicionário SEMPRE à mão, observar as pessoas e o comportamento delas para compor personagens convincentes e ter muita, mas muita PACIÊNCIA!!!

Desde que iniciei o projeto de OS FILHOS DE VENN, em 1996, tenho sempre feito alterações aqui e ali. Muitas vezes me canso da história e a deixo de lado por semanas, às vezes meses. Então, quando retorno ao trabalho acabo descobrindo novos detalhes que passaram despercebidos anteriormente e faço as devidas alterações. Assim, a obra vai ganhando corpo, ficando mais perto da perfeição. Um amigo me disse que "enquanto a obra está nas mãos do artista nunca será concluída". E isso é um fato.

Escrever quadrinhos é mais simples (embora não menos complicado em alguns casos). É preciso descrever as cenas e as falas dos personagens, as tomadas e ângulos, cores (se houver) e o resto fica por conta do desenhista com sua arte - que pode ser muito trabalhosa também!

AA - Como você percebe o mercado de quadrinhos nacional e a vida de quadrinista aqui no Brasil? Você acha que muita coisa mudou desde que você publicou o primeiro número de Space Warriors?

WF - O mercado melhorou consideravelmente de 1995 pra cá. Temos mais títulos de autores brasileiros e isso é bom porque mostramos nossa arte. Apesar do apoio de editoras como Escala, Via Lettera e outras, acho que quem faz quadrinhos -salvo raras exceções - tem muita dificuldade para viver DE QUADRINHOS no Brasil. O trabalho exige muito tempo e a remuneração é insuficiente para cobrir as despesas e o tempo dedicado a esta profissão. Por isso muitos migram para a publicidade ou outro setor das artes gráficas.

Claro, a PAIXÃO pelos quadrinhos mantém muitos na luta, o que é bom! (Enquanto outras pessoas não dependerem deles pra viver, tudo bem!). Vejo que aos poucos estamos derrubando barreiras e ganhando mais espaço, apesar de o artista de HQ e desenho em geral ser visto com certo preconceito ainda. Mas as escolas já não vêem os gibis como prejudiciais aos alunos, como ocorria anos atrás; ao contrário, são ótimas auxiliares no aprendizado e a maioria dos livros mostram cenas de quadrinhos.

Também tenho visto vários desenhistas aparecendo na mídia e falando da profissão. No meu caso, por exemplo, consegui lecionar em oficinas culturais de HQ onde ensino um pouco do que sei. Em minha época de adolescente isso era inimaginável. 
Ao meu ver, estamos estabelecendo nossos "postos avançados" nesta "guerra" para a valorização dessa arte maravilhosa. Que cada um defenda bem seu posto, mas sempre unindo forças aos companheiros de luta!

AA - As dificuldades de um escritor de fantasia no Brasil são as mesmas de um quadrinista, ou trabalhar com quadrinhos é mais complicado?

WF - Antes de responder a sua pergunta quero comentar algo. Ultimamente tem-se falado do crescimento e do incentivo à leitura em nosso país, especialmente entre os jovens. Recentemente, vi uma notícia fabulosa mostrando uma idéia de muito bom gosto. As pessoas deixavam livros em locais públicos (metrô, praças, avenidas) para que outras os pegassem. Uma idéia maravilhosa e que deveria ser posta em prática com maior freqüência! Uma jovem estudante deu uma entrevista dizendo que adorou a idéia e que seria ótimo se houvessem mais livros de aventura voltados para jovens. Ela gostou de Harry Potter e O Senhor dos Anéis e queria saber por que no Brasil não se existiam histórias assim.

A idéia de deixar livros em locais públicos é fantástica e a declaração da garota tem fundamento. Isso é bom para os escritores e para a população em geral. Sobre sua pergunta, acho que fazer quadrinhos é mais vantajoso.

Primeiro: porque a tiragem é maior, a distribuição é melhor, ficam em local (bancas) de fácil acesso a estudantes e assim mais perto dos jovens. Segundo: qualquer tema é publicável em HQs. Histórias excelentes e até muita porcaria. Já um livro de fantasia tem que enfrentar barreiras tremendas para chegar nas mãos dos jovens. Inicialmente, o preconceito das editoras com o tema - AVENTURA, FICÇÃO CIENTÍFICA. Em seguida, o autor ser desconhecido do público. Tem que "ter nome" para ter uma chance de publicar algo... E, finalmente, há o problema da distribuição do livro nas livrarias do país. Por isso, mesmo que um livro legal seja publicado, muitas vezes você não o encontrará na livraria de sua cidade!!!

Acredito que existam muitos autores brasileiros que só precisam de pessoas (lê-se "editores") de mente aberta e sem preconceito que valorizem o trabalho dessa gente.

Note isso: vemos hoje no cinema muitos filmes derivados dos quadrinhos ou que tenham elementos derivados das HQs (superseres, ficção, aventura) como X-MEN, DEMOLIDOR, MATRIX, HOMEM-ARANHA… Sucessos absolutos de bilheteria em todo o mundo. E para quem são dirigidos? JOVENS! Vemos livros de FANTASIA que se tornaram sucesso editorial (e posteriormente cinematográficos): HARRY POTTER e O SENHOR DOS ANÉIS - voltados para quem? JOVENS!

Ora! Os editores brasileiros não percebem isso? Será que é só a indústria do cinema que descobriu que os jovens gostam de FANTASIA, AVENTURA e FICÇÃO CIENTÍFICA, SUPER-HERÓIS? Será que ninguém aqui percebe que o que faz sucesso nas telas surgiu do que era considerado algo marginalizado como livros de fantasia e quadrinhos? E se fazem tanto sucesso e arrecadam milhões de dólares, POR QUE NÃO INVESTIR EM AUTORES DE FANTASIA?! Onde estão os livros para jovens? (refiro-me a livros de ficção e fantasia). Além de alguns da linha de paradidáticos, posso contar nos dedos (de uma mão!) os que conheço!!! Por que as editoras brasileiras têm tanto receio desses novos autores, que cresceram vendo seriados de aventura e lendo GIBIS de super-heróis?

Será que, só porque somos brasileiros, não podemos escrever histórias interessantes ou o que é bom e lucrativo? Com isso estão querendo dizer que somos um bando de incompetentes? Que brasileiro não é capaz de escrever ficção? Sabe, certa vez estive numa editora (não vou dizer o nome porque sou uma pessoa educada!) e mostrei meu trabalho. Quando a mulher viu que eu escrevia ficção, simplesmente riu da cara como se fosse algum absurdo!!! Polidamente, me despedi e saí de lá.

Essa é uma questão séria e que merece ser discutida em nossos sites, fanzines, revistas e reuniões de escritores. Não podemos deixar-nos ser ridicularizados! Autores de fantasia e ficção, UNI-VOS!

AA - O que você acha dessa proposta de utilizar a Internet como meio de divulgação de artistas nacionais através de quadrinhos virtuais ou de páginas pessoais?

WF - Foi a melhor coisa que já inventaram! Como um jovem lá do subúrbio poderia mostrar suas criações a pessoas de outras cidades ou estados? Isso é uma revolução! Como EU poderia estar dando estas respostas a você se não fosse pela internet? Estou em Guarulhos e você em… Onde é que você está, hein? Rsrsrs.

Mas, sim, A internet é um meio de transmitir IDÉIAS. Um veículo dos mais importantes na atualidade. Através dela posso colocar outras pessoas dentro do universo que existe em minha imaginação, unicamente em minha imaginação. Já pensou? Mundos inteiros existindo na mente de um homem? Às vezes me sinto na obrigação de contar aos outros sobre este universo, como se eu fosse o único astronauta a estar lá e ter visto coisas fantásticas que não podem ser guardadas só para mim. É co-mo no filme CONTATO, com Jodie Foster. Tudo o que ela viu e contemplou com tanta admiração mudou sua vida porque sentiu que PRECISAVA contar aos outros. É assim que eu me sinto. Talvez eu nem esteja tão empolgado em ser "mais um autor de fantasia" quanto estou para mostrar este mundo que tenho dentro da cabeça.

São coisas de artista…

Para conhecer mais sobre esse talentoso escritor e desenhista é só visitar os seguintes sites:

http://www.spacewarriors.blogger.com.br
http://www.wagnerjfernandes.blogger.com.br

Para entrar em contato com o autor é só mandar um e-mail para o seguinte endereço: konthara@ibest.com.br

Além de Space Warriors e Os Filhos de Venn, outros trabalhos interessantes de Wagner Fernandes são:

Novas Idéias - Editora do Brasil: 1991; O Livrinho das Perguntas - Edições Paulinas: 1994; Street Fighter II - Escala: 1994; Um Chulé Sem Pés - Paulus: 1995; Quinze Anos, Tempo de Menina Mulher - Ave-Maria: 1996; Todos Têm Algum Valor - Ave-Maria: 1997.

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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