|
Muitos
críticos e espectadores em geral proclamam a existência de um atual
modismo envolvendo histórias fantásticas e/ou de ficção científica,
caracterizado por uma enxurrada de filmes e livros do gênero, liderados
por O Senhor dos Anéis e Harry Potter no quesito
fantasia e no retorno de Star Wars e Matrix na área
da ficção científica.
Não
concordo totalmente que esse movimento seja um modismo: a fantasia
e a ficção (que não deixa de ser uma fantasia de tempos futuros
ou galáxias distantes) sempre estiveram e sempre estarão presentes
na vida e na cultura de todos os povos. Enquanto houver um sonhador,
uma história mágica será escrita e ouvida. Foi assim com os antigos
mitos e contos de fadas, e ainda hoje é assim com obras como as
citadas.
O que
ocorre é que, de tempos em tempos, essas obras se destacam mais
que o usual. E agora esse é um desses tempos de destaque.
E apesar
desse filão estar atualmente em evidência, poucas são as editoras
nacionais que investem nesta área e, quando investem, preferem importar
material (nem sempre de grande qualidade) a aproveitar o talento
de artistas locais. É claro que há exceções, como a série Angus
- O Primeiro Guerreiro, de Orlando Paes Filho, ou as séries
da Editora Trama, Holy Avenger e Victory, ou
Dungeons Crawlers, da Mythos.
Um
dos artistas nacionais que bravamente insiste em enveredar nesse
tipo de narrativa é Wagner Fernandes, veterano e talentoso
escritor das séries de ficção Space Warriors (publicada
pela Escala nos anos 90) e Os Filhos de Venn. Fernandes
nos concedeu uma entrevista exclusiva para falar um pouco sobre
si e seu trabalho, assim como sobre a situação dos autores de fantasia
e ficção no Brasil.
ABACAXI
ATÔMICO - Fale para a gente um pouco sobre você e o seu trabalho.
Wagner
Fernandes - Nasci em Guarulhos, SP, onde vivo até hoje. Trabalho
com desenho desde 1984 e comecei a lecionar em 1992. Atualmente
coordeno uma oficina de Histórias em Quadrinhos na Secretaria de
Cultura de minha cidade e faço trabalhos esporádicos de ilustração
eletrônica. Gosto de ensinar aos jovens um pouco do que aprendi.
Minha
paixão pela arte começou aos cinco anos quando conheci o Homem-Aranha.
Embora não soubesse ler na época, gostava de ver as figuras nos
quadrinhos. Minha mãe lia as histórias pra mim de vez em quando.
Acho que foi aí que as sementes do desenho e da leitura foram plantadas.
Depois disso não me lembro de um só momento na vida em que a
fantasia não estivesse presente.
Sempre
tive uma mente fértil para inventar histórias e criar personagens,
e os quadrinhos, filmes e livros - especialmente os de ficção científica
e aventura - contribuíram muito para alimentar minha imaginação.
Eu adorava aqueles velhos seriados com viagens no tempo e no espaço,
soldados e índios, mistério, monstros do espaço, vampiros, super-heróis…
Aos
oito anos de idade minha professora me presenteou com um livro chamado
"No país dos anões". Foi o primeiro livro que ganhei.
Perdi a conta de quantas vezes o li. Anos depois ganhei um novo
livro de outra professora que tirou meu nome no "amigo secreto".
Assim, aos 12 anos, com a mente cheia de aventuras fantásticas,
comecei a escrever, incentivado agora pelas professoras do ginásio.
E elas gostavam de minhas redações… Eu só odiava ter que lê-las
para a classe.
Eu amava escrever! Descobri que essa atividade poderia ser muito
prazerosa. Eu poderia CONTAR TODO TIPO DE HISTÓRIAS! Tornar reais
os meus sonhos (afinal, os sonhos são o material de que
se faz a vida!). Lembro-me de ter ganhado alguns concursos escolares
de redação e isso me animou ainda mais.
O interesse
pelo desenho surgiu no mesmo ano, influenciado pelos
GIBIS que eu colecionava desde os oito anos. Agora eu também queria
desenhar minhas próprias histórias; ter o meu próprio gibi; poder
dar VIDA às minhas criações. Foi assim que começou esse casamento
entre o desenho e a literatura.
O tempo
passou e meu pai, vendo que ficava muito tempo rabiscando, decidiu
matricular-me em uma escola de artes, onde freqüentei por três anos.
Aos poucos comecei a trabalhar para gráficas, estam-parias, jornais,
cada vez aprendendo algo novo e me aperfeiçoando mais. Em poucos
anos estava trabalhando numa editora - IBEP - onde conheci vários
desenhistas bons, que me ensinaram muito sobre a profissão de ilustrador
e produtor gráfico. Um desses desenhistas foi o Rodolfo Zalla, que
fazia as revistas Mestres do Terror e Calafrio. Isso foi
em 1989 e 1990.
Depois
que saí do IBEP, passei a trabalhar como ilustrador e diagramador
freelancer para a editora Caminho Suave, e mais tarde para
editoras católicas que publicam livros infantis, como a Paulinas,
a Paulus e a Ave-Maria. Foi uma temporada muito boa para mim.
Por
essa época (entre 1992 e 1997), eu estava dando aulas de Desenho
e Pintura e um dos alunos me apresentou a um vizinho seu que trabalhava
na editora Abril e era desenhista lá. O Paulo Borges fazia a
Revista dos Trapalhões e a Sérgio Mallandro, dentre
outras. Ele gostou de meus desenhos e ficou com o número do meu
telefone. Meses mais tarde me ligou oferecendo um trabalho freelance.
Era para desenhar a revista em quadrinhos STREET FIGHTER II,
da editora ESCALA.
AA
- Fale um pouco sobre a história da série de quadrinhos Space
Warriors e de sua derivada série de livros, Os Filhos de
Venn.
WF
- Space Warriors conta a história de um grupo de personagens
que está tentando fugir de KONTHARA, um mundo prestes a se
tornar palco de uma guerra entre duas raças: os VENÚSIOS
e os ZAROS. Konthara é uma das luas do planeta
VENUSY e é muito parecida com a Terra. Venusy é o 4o.
planeta em seu sistema estelar e os zaros (do 6o. planeta)
querem Konthara para eles - ou, pelo menos, o direito de
viverem ali. ZAR é um planeta gelado e tenebroso e é essa
a razão de os zaros desejarem ir para Konthara, que
é um mundo mais quente. Mas os colonos venúsios que vivem
em Konthara não querem a presença desses alienígenas, que
já estão entre eles há um século, e isso gera muita hostilidade
de ambas as partes.
No
meio desse conflito, estão os SPACE WARRIORS - deuses
para uns, demônios para outros. Eles foram aprisionados pelos invasores
e conseguiram escapar. Mas para sua infelicidade, possuem um tipo
de rastreador genético implantado em seus corpos e agora são perseguidos
por caçadores andróides chamados krylls, uma avançada arma
da tecnologia zara, muito poderosos.
Os
Space Warriors não só têm de enfrentá-los para sobreviverem,
como também a hostilidade das colônias kontharianas. Porém,
com a ajuda de uma jovem cientista eles acabam ganhando poderes
especiais e conseguem enfrentar esses andróides. Agora, precisam
sair de Konthara e descobrir como se livrar dos rastreadores,
pois se permanecerem com eles por muito tempo, morrerão!
Contudo,
para sair de Konthara, precisam da ajuda de um ex-general venúsio
que se rebelou contra o governo de Venusy… Conseguirão a ajuda dele?
Basicamente,
foi isso o que ocorreu na edição número 1 da Space Warriors.
A segunda edição conta o encontro deles com Aaran
(o general rebelde) e seus soldados. Juntos enfrentam um novo kryll,
ainda mais perigoso. Esta edição, apesar de ter sido produzida,
não foi publicada.
Em
OS FILHOS DE VENN voltamos quatro anos no tempo,
bem ANTES dos eventos apresentados em Space Warriors. Zaros
e colonos venúsios vivem em relativa paz em Konthara. Ocasionalmente
ocorrem algumas desavenças provocadas por grupos radicais, mas a
polícia e o exército conseguem manter a ordem.
Há
500 anos, o primeiro astronauta venúsio pisou em Konthara e descobriu
ali um novo mundo, exótico e com estranhas criaturas e povos bárbaros,
gigantes e árvores altíssimas. Mas Konthara guardava um terrível
segredo: espalhadas por sua superfície estavam milhares de cidades
cheias de construções fabulosas e gigantescas estátuas de homens,
mulheres e seres híbridos. A arquitetura nesses lugares era deslumbrante
e fascinava quem as contemplavam. Uma civilização fantástica havia
construído essas grandes metrópoles. Os venúsios jamais imaginaram
que ali poderia ter existido tal povo. Foi uma grande surpresa.
Mas…
havia um PROBLEMA. Essas cidades foram abandonadas há milhares de
anos. A maioria estava intacta, mas outras viraram ruínas; algumas
estavam sob a areia do deserto ou as águas do mar. Outras ainda
no meio das incontáveis e sombrias florestas ou entre as montanhas.
O que
teria acontecido aos habitantes? Por que desapareceram?
Estranhamente,
as cidades antigas não estavam vazias. Alguma coisa
vivia ali, agora!… Eram criaturas mutantes, monstruosas, de todos
os tipos e tamanhos, que atacavam e dilaceravam impiedosa-mente
quem ousasse entrar em seus domínios.
Esses
seres foram chamados de "DEMÔNIOS DAS RUÌNAS" e só a menção deles
já provocava arrepios nos colonos porque os "demônios", quando não
matavam suas vítimas, tornavam-nas como eles!… E ninguém queria
ser um "demônio das ruínas", por isso mantinham-se o mais afastados
possível das velhas cidades.
E é
justamente próximo a uma dessas cidades que a história tem início,
quando um grupo de arqueólogos examina as ruínas de um vilarejo.
Neste grupo está RAYNA-IV, uma estudante de 16 anos que acaba descobrindo
algo em uma velha construção. Em princípio, são apenas objetos comuns
do povo antigo, mas as coisas começam a se complicar quando são
roubados na mesma noite.
Uma
série de eventos começa a acontecer em torno da menina, que se vê
envolvida em uma trama milenar e em uma disputa entre forças misteriosas;
também é perseguida por alienígenas e estranhos personagens. Em
busca de respostas para descobrir o que são os objetos, ela acaba
descobrindo o que aconteceu ao povo antigo e se prende mais e mais
numa teia de mistérios e fatos surpreendentes.
A cada
página o véu do passado é aberto, e Rayna-Iv depara-se com uma nova
descoberta que a deixa de cabelos em pé. O que Rayna encontrou será
o elemento principal para o surgimento dos Space Warriors
no futuro… além de um terrível e poderoso ser.
Os
12 capítulos do livro foram divididos em quatro partes e têm como
elo esses objetos que escondem esses segredos. Rayna-Iv é a personagem
principal nos primeiros capítulos e no decorrer da história outros
se juntarão a ela. Passarão por vários cenários, desde cidades moderníssimas
com grandes edifícios e carros voadores a montanhas e florestas,
andando em cavalos e carros. Fugirão de caçadores de escravos e
saltarão de um imenso rochedo; lutarão com espadas, correrão de
dragões e gigantes, sobrevoarão cidades antigas… e até cairão em
uma delas, sendo perseguidos pelos "demônios das ruínas"!
Em
OS FILHOS DE VENN o leitor se sentirá como um turista viajando
para uma galáxia distantes e conhecerá povos muito parecidos com
os terráqueos mas que têm algumas particularidades: SÃO LONGEVOS
(podem viver por séculos e atingir a incrível idade de 600 anos!).
Esse fato - a LONGEVIDADE - também é um dos mistérios da história
investigados. Por que as pessoas podem viver tanto?
Os
Filhos de Venn é uma ficção científica de aventura em que
coloquei tudo o que mais me fascinava na adolescência: VIAGENS ESPACIAIS,
CIVILIZAÇÕES PERDIDAS, LÍNGUAS MISTERIOSAS, PERSONAGENS ENIGMÁTICOS,
SEITAS SECRETAS, POVOS DE OUTROS PLANETAS, HISTÓRIAS POLICIAIS,
UM CLIMA DE FAROESTE POR VEZES, PIRATAS, MITOLOGIA E SERES SUPERPODEROSOS…
Uma mistura explosiva!
AA
- Como surgiu a idéia para a série?
WF
- Em maio de 1992 desenhei uma HQ de ficção científica passada em
outro universo, a Galáxia de Kaar. A história chamava-se
"VÊNUS". Vênus é uma personagem que vi num sonho em fevereiro de
1983. Eu estava com quinze anos na época. Ela era uma moça alta
com longos cabelos brancos usando uma roupa azul e com superpoderes.
Desde que foi criada, apareceram várias versões dela: loira, morena,
ruiva; cabelos curtos. Até que em 1992 surgiu uma nova versão para
a personagem: agora eram quatro garotas adolescentes - a de cabelos
brancos, uma loira e duas morenas (irmãs gêmeas).
Elas
possuíam um gene especial que poderia conceder-lhes grandes poderes
desde que devidamente ativado. Uma experiência anterior causara
essa mutação em centenas de meninas. A idéia era criar um exército
de superseres para defender o planeta Venusy de invasores
alienígenas. Mas quando os líderes descobriram que apenas meninas
adolescentes possuíam o tal gene, mandaram cancelar o projeto.
Assim,
a doutora Dara-Evin (a moça de cabelos brancos) -
secretamente submeteu-se à experiência juntamente com Rayna-Iv
(a loira) e as gêmeas. Dessa forma, ganharam os superpoderes. Bem,
a história parou por aí porque eu não conseguia bolar uma seqüência
interessante.
Só
voltei à história em 1994, enquanto trabalhava na Street Fighter
II. Como a "moda" eram grupos de personagens que lutavam em
campeonatos, etc, preparei alguns roteiros no estilo e selecionei
12 personagens dos que eu havia criado desde 1983. Assim, surgiram
os SPACE WARRIORS (nota a semelhança com STREET FIGHTER??).
Na
primeira versão, eles eram guerreiros de diferentes mundos (Venusy,
Konthara, Thargon, Zar) que deveriam lutar
num torneio e o "ringue" eram planetas em várias partes da
Galáxia de Kaar. Cheguei até a desenhar algumas páginas
dessa série, mas achei muito boba e apelativa, além de muito parecida
com a Street Fighter que seu estava fazendo.
Eu
queria algo mais sério, mais próximo dos livros e filmes de aventura,
como aquelas boas e saudo-sas histórias dos X-MEN escritas
por Chris Claremont e ilustradas por John Byrne! Histórias onde
quem morria, morria mesmo!
Então
cortei alguns personagens e acrescentei outros, até que, finalmente,
cheguei à formação apresentada na SPACE WARRIORS: Dara-Evin,
Donar, Rayna-Iv, Gorbo,
Kaar, Nexor, Aaran, Laynna-Dorr,
Taynna-Dorr, Drenor e Djanni-Llor,
além de Hannis, que aparece apenas na edição número
2. Os leitores gostaram pois recebi centenas de cartas. E quando
saiu uma notinha da SPACE WARRIORS na revista WIZARD
número 8, ainda mais cartas recebi.
Foi
então que descobri que a história era boa, e decidi escrever um
livro sobre a série. A Regina (nota: uma amiga em comum e uma
talentosa escritora, graças a ela esta entrevista foi possível)
foi quem me "soprou nos ouvidos" essa idéia. Ela diz ser a fã número
1!
Em
1995, quando surgiu a idéia para o livro, eu já havia preparado
vários fragmentos de texto. Eram esboços de roteiros para HQs feitos
a lápis com histórias sobre as ruínas de Konthara e a lua de Thargon,
trechos de diálogos entre os personagens e até outros contos fantásticos
que escrevi entre 1987 e 1991 e que aproveitei também na composição
de OS FILHOS DE VENN. Na verdade, o livro é um grande caldeirão
onde joguei toda a experiência que acumulei no decorrer dos anos.
E o resultado ficou bom, modéstia à parte! Bem "temperado"!
AA
- Como surgiu a oportunidade de publicação pela editora Escala?
E por que a série não foi levada adiante?
WF
- Foi justamente aquele freelance que o Paulo Borges me
passou. Ele estava sem tempo de fazer o trabalho para a Escala devido
aos prazos na Abril, daí perguntou se eu queria pegar o serviço.
Aceitei, claro! Minha primeira revista em quadrinhos!! Era pra fazer
uma adaptação de STREET FIGHTER, que na época era uma febre
entre a garotada que curtia vídeo games. Os roteiros eram de Marcelo
Cassaro. Na época, a Escala estava dando os primeiros passos na
publicação de quadrinhos assim. Foi um sucesso. Depois da STREET
FIGHTER, o editor perguntou se eu queria ilustrar um outro título
dos games, o ETERNAL CHAMPIONS. Eu havia levado minha pasta
com o projeto da SPACE WARRIORS e mostrei para ele. Ele
quis saber se aqueles personagens eram meus e seu eu escrevia roteiros
também. Eu disse que sim. Então colocou o Eternal Champions
de lado e me mandou produzir a Space Warriors. Foi isso.
A
SPACE WARRIORS teve duas edições, mas só uma foi publicada.
O problema é que eu estava superatarefado ilustrando livros e dando
aulas e não tinha tempo para esse projeto. Ilustrar livros
rende mais e é mais rápido que fazer quadrinhos! Para não
ter que desistir da revista, chamei dois amigos para me ajudarem,
o Jean Okada (Jiso) e o Carlos Brandino. Eles estavam começando
também e foi um trampolim para se lançarem no mercado. Enquanto
o Carlos desenhava as páginas de HQ, o Jiso ilustrava as fichas
dos personagens. Escrevi os roteiros, projetei a capa e cuidei das
cores. No final de seis meses tínhamos a obra concluída. E a
Space Warriors chegou às bancas em novembro de 1995.
Mas
as obrigações nos afastaram da série e ela teve que ser abandonada.
E agora? O que fazer com uma história tão legal?… Então, veio a
idéia de fazer o LIVRO.

Na
próxima semana, a segunda e última parte
desta entrevista com Wagner Fernandes.
Para
conhecer mais sobre esse talentoso escritor e desenhista é só visitar
os seguintes sites:
www.spacewarriors.blogger.com.br
http://www.wagnerjfernandes.blogger.com.br
Para
entrar em contato com o autor é só mandar um e-mail para o seguinte
endereço: konthara@ibest.com.br

Além
de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado
O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida,
fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.
|