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Beagá, 18 de agosto de 2003 d.C.
 

A casa dos quadrinistas
Entrevista com DW

Por Katchiannya Cunha

 

Dizer o quanto é difícil ser quadrinista no Brasil (ou ser qualquer outro profissional diretamente envolvido com manifestações artísticas) é chover no molhado. Todo mundo sabe disso... Entretanto, alguns artistas com o traço mais "comercial" e voltados para determinado tipo de história (quadrinhos de super-herói e/ou mangá na maioria dos casos) conseguem a sorte grande e passam a publicar no exterior. Outros, voltados principalmente ao estilo humorístico, conseguem um lugar ao sol publicando tiras em jornais e revistas.

Mas existe toda uma grande categoria de artistas que não se encaixa em nenhuma das duas vertentes, cuja obra é caracterizada por um traço mais alternativo, pessoal, e muitas vezes mais experimental. Não está em discussão aqui qual tipo de quadrinista é melhor, são apenas estilos diferentes. Entretanto, exatamente por serem diferentes do estilo "comercial", torna-se mais difícil para que esses artistas consigam um modo de divulgar seu trabalho para o grande público. Alguns conseguem, através das leis de incentivo à cultura ou em coletâneas, publicar sua obra, como por exemplo o premiado Lelis e o seu Saino a Percurá, já comentado aqui no Kingdom Comics. A grande maioria, no entanto, precisa buscar formas alternativas de se expor.

Uma dessas grandes alternativas, sem dúvida, é a Internet. E um dos maiores exemplos desse tipo de proposta é o site Nona Arte, famoso por abrigar vários artistas nacionais e seus quadrinhos virtuais. Além de ser a casa desses artistas, na Nona Arte também é possível encontrar artigos e resenhas de quem realmente está imerso dentro do universo dos quadrinhos brasileiros, proporcionando-nos uma visão única do meio.



Entre os artistas que expõem seus trabalhos através da Nona Arte, temos DW, autor da ótima série Oficina do Diabo. Ele nos concedeu, com exclusividade, uma entrevista sobre este assunto.

Fale para gente um pouco sobre você e o seu trabalho.
Bem, falar sobre mim... eu faço quadrinhos há treze anos e os faço num estilo que eu classificaria como "esquisito". Comecei fazendo super-heróis até perceber que o que era mais divertido de bolar eram os diálogos e não a aventura, então resolvi fazer histórias de pessoas conversando, hehe.

Como surgiu a oportunidade de publicar seus trabalhos através do site da Nona Arte?
Na verdade não lembro se fui eu que me ofereci, ou se foi o André Diniz (editor da Nona Arte) que me convidou, a princípio eu ia colocar só a edição "Horas Mortas", mas logo sugeri essa coluna na qual publico atualmente.

O quanto a sua vida pessoal influencia nas histórias que você escreve e ilustra, e vice versa?
Bem, eu acho que aprendi a ver na vida que tudo que pode ser banal ou estranho, ou feio, irritante na vida real, na arte pode ser algo muito interessante. Tento fazer histórias que nem sempre critiquem, mas que às vezes somente mostrem uma situação absurda que eu tenha presenciado ou vivido e na vida real não adianta esperar o último capítulo da novela onde tudo será explicado. Essa parte da pergunta sobre o quanto meu trabalho influencia na minha vida é interessante, porque de vez em quando me empolgo tanto na minha pesquisa por histórias, situações, sensações que acabo ficando meio confuso sobre o que eu realmente penso de uma situação X. Porque adoro fazer personagens com quem eu não concordo e tentar justificar o ponto de vista deles.

Quais seriam as principais influencias no seu trabalho?
Puxa, são vários, sempre depende do que chega até mim, alguns que eu posso citar são Kafka, Clarice Lispector, Daniel Clowes, Adrian Tomine, Lourenço Mutarelli, David Lynch, Rafael Panke, Eder Rodrigues e Allan Ledo (esses três últimos aqui de Curitiba também), e um monte de bandas "alternativinhas" que eu adoro, só pra citar uns exemplos Radiohead, Placebo, Muse, Our Lady Peace, My Vitriol, dEUS, JJ72, Sinead O'Connor, entre milhões de outras. Além disso, adoro ler coisas ligadas a cientificismo e usar isso em sentido mais relacionado com pessoas.

Alguns esclarecimentos:

Kafka é o importante autor de obras como A Metamorfose e O Processo.
Clarice Lispector é uma das maiores escritoras brasileiras do século passado e escreveu, entre outras coisas, A Hora da Estrela (que virou filme) e Felicidade Clandestina.
Daniel Clowes é um quadrinista undeground americano, apontado por muitos como o sucessor de Robert Crumb, o papa do underground e criador de Fritz, the Cat. Clowes é o autor de Ghost World, cuja adaptação para o cinema foi indicada para o Oscar de melhor roteiro adaptado. O filme foi lançado aqui no Brasil com o nome de Mundo Cão.
Adrian Tomine também é um autor americano de quadrinhos alternativos. Sua história Dylan e Donovan sobre irmãs gêmeas de 20 anos, saiu aqui na coletânea Comic Book - O Novo Quadrinho Norte-Americano (que também tem uma história do Daniel Clowes).
Lourenço Mutarelli é um quadrinista brasileiro, autor de um forte e excelente trabalho que inclui o álbum Transubstanciação. Mais detalhes sobre ele é só ir ao site Catálogo Tonto.
David Lynch é o diretor norte-americano responsável por filmes fenomenais como Veludo Azul, Coração Selvagem e Cidade dos Sonhos.
Rafael Panke, Eder Rodrigues e Allan Ledo são autores paranaenses. Para conferir um conto do Rafael é só acessar o site A Arte da Palavra. Já indo ao site do DW, você pode conferir o fanzine Sangrando até Morrer, feito por Eder Rodrigues e Allan Ledo.

Como você percebe o mercado de quadrinhos nacional e a vida de quadrinista aqui no Brasil?
Não consigo ter grandes perspectivas quando vejo um dos maiores artistas do nosso tempo, Lourenço Mutarelli, praticamente desconhecido no próprio país. Eu espero estar errado, mas eu acho que o Brasil ainda vai ser um país sem cultura por muuuuuito tempo. Mas fazer o quê, talvez a arte só funcione quando é meio que ignorada, senão os egos se inflam e isso sempre muda os trabalhos. Bem, eu acho que melhor ser um artista sincero não pago que um medíocre com a camiseta da Rede Globo escrito "Paz".

O que você acha dessa proposta de utilizar a Internet como meio de divulgação de artistas nacionais através de quadrinhos virtuais?
Eu acho que é um ótimo meio de divulgação, só espero que não se resuma a publicações exclusivamente na Internet, porque eu espero viver pra ver meus quadrinhos publicados no papel, sem ter que me lamber pra ninguém, mudar meu trabalho pra agradar um público maior.

Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho de DW é só ir aos endereços abaixo:

http://www.nonaarte.com.br/dw.htm e http://www.dwzine.hpg.ig.com.br

Para acessar os demais trabalhos publicados pela Nona Arte é só ir até a página inicial do site (www.nonaarte.com.br).

Além de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida, fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.

 

 

 

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