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Dizer
o quanto é difícil ser quadrinista no Brasil (ou ser qualquer outro
profissional diretamente envolvido com manifestações artísticas)
é chover no molhado. Todo mundo sabe disso... Entretanto, alguns
artistas com o traço mais "comercial" e voltados para determinado
tipo de história (quadrinhos de super-herói e/ou mangá na maioria
dos casos) conseguem a sorte grande e passam a publicar no exterior.
Outros, voltados principalmente ao estilo humorístico, conseguem
um lugar ao sol publicando tiras em jornais e revistas.
Mas
existe toda uma grande categoria de artistas que não se encaixa
em nenhuma das duas vertentes, cuja obra é caracterizada por um
traço mais alternativo, pessoal, e muitas vezes mais experimental.
Não está em discussão aqui qual tipo de quadrinista é melhor, são
apenas estilos diferentes. Entretanto, exatamente por serem diferentes
do estilo "comercial", torna-se mais difícil para que esses artistas
consigam um modo de divulgar seu trabalho para o grande público.
Alguns conseguem, através das leis de incentivo à cultura ou em
coletâneas, publicar sua obra, como por exemplo o premiado Lelis
e o seu Saino a Percurá, já comentado aqui no Kingdom
Comics. A grande maioria, no entanto, precisa buscar formas
alternativas de se expor.
Uma
dessas grandes alternativas, sem dúvida, é a Internet. E um dos
maiores exemplos desse tipo de proposta é o site Nona
Arte, famoso por abrigar vários artistas nacionais e seus
quadrinhos virtuais. Além de ser a casa desses artistas, na Nona
Arte também é possível encontrar artigos e resenhas de quem realmente
está imerso dentro do universo dos quadrinhos brasileiros, proporcionando-nos
uma visão única do meio.

Entre os artistas que expõem seus trabalhos através da Nona Arte,
temos DW, autor da ótima série Oficina do Diabo. Ele nos
concedeu, com exclusividade, uma entrevista sobre este assunto.
Fale
para gente um pouco sobre você e o seu trabalho.
Bem, falar sobre mim... eu faço quadrinhos há treze anos e os faço
num estilo que eu classificaria como "esquisito". Comecei fazendo
super-heróis até perceber que o que era mais divertido de bolar
eram os diálogos e não a aventura, então resolvi fazer histórias
de pessoas conversando, hehe.
Como
surgiu a oportunidade de publicar seus trabalhos através do site
da Nona Arte?
Na verdade não lembro se fui eu que me ofereci, ou se foi o André
Diniz (editor da Nona Arte) que me convidou, a princípio
eu ia colocar só a edição "Horas Mortas", mas logo sugeri essa coluna
na qual publico atualmente.
O
quanto a sua vida pessoal influencia nas histórias que você escreve
e ilustra, e vice versa?
Bem, eu acho que aprendi a ver na vida que tudo que pode ser banal
ou estranho, ou feio, irritante na vida real, na arte pode ser algo
muito interessante. Tento fazer histórias que nem sempre critiquem,
mas que às vezes somente mostrem uma situação absurda que eu tenha
presenciado ou vivido e na vida real não adianta esperar o último
capítulo da novela onde tudo será explicado. Essa parte da pergunta
sobre o quanto meu trabalho influencia na minha vida é interessante,
porque de vez em quando me empolgo tanto na minha pesquisa por histórias,
situações, sensações que acabo ficando meio confuso sobre o que
eu realmente penso de uma situação X. Porque adoro fazer personagens
com quem eu não concordo e tentar justificar o ponto de vista deles.
Quais
seriam as principais influencias no seu trabalho?
Puxa, são vários, sempre depende do que chega até mim, alguns que
eu posso citar são Kafka, Clarice Lispector, Daniel
Clowes, Adrian Tomine, Lourenço Mutarelli, David
Lynch, Rafael Panke, Eder Rodrigues e Allan
Ledo (esses três últimos aqui de Curitiba também), e um monte
de bandas "alternativinhas" que eu adoro, só pra citar uns exemplos
Radiohead, Placebo, Muse, Our Lady Peace,
My Vitriol, dEUS, JJ72, Sinead O'Connor,
entre milhões de outras. Além disso, adoro ler coisas ligadas a
cientificismo e usar isso em sentido mais relacionado com pessoas.
Alguns
esclarecimentos:
Kafka
é o importante autor de obras como A Metamorfose e O
Processo.
Clarice
Lispector é uma das maiores escritoras brasileiras do século
passado e escreveu, entre outras coisas, A Hora da Estrela
(que virou filme) e Felicidade Clandestina.
Daniel
Clowes é um quadrinista undeground americano, apontado por muitos
como o sucessor de Robert Crumb, o papa do underground e
criador de Fritz, the Cat. Clowes é o autor de Ghost
World, cuja adaptação para o cinema foi indicada para o Oscar
de melhor roteiro adaptado. O filme foi lançado aqui no Brasil com
o nome de Mundo Cão.
Adrian
Tomine também é um autor americano de quadrinhos alternativos.
Sua história Dylan e Donovan sobre irmãs gêmeas de 20 anos,
saiu aqui na coletânea Comic Book - O Novo Quadrinho Norte-Americano
(que também tem uma história do Daniel Clowes).
Lourenço
Mutarelli é um quadrinista brasileiro, autor de um forte e excelente
trabalho que inclui o álbum Transubstanciação. Mais detalhes
sobre ele é só ir ao site Catálogo
Tonto.
David
Lynch é o diretor norte-americano responsável por filmes fenomenais
como Veludo Azul, Coração Selvagem e Cidade dos
Sonhos.
Rafael
Panke, Eder Rodrigues e Allan Ledo são autores
paranaenses. Para conferir um conto do Rafael é só acessar o site
A
Arte da Palavra. Já indo ao site do DW, você pode conferir
o fanzine Sangrando
até Morrer, feito por Eder Rodrigues e Allan Ledo.
Como
você percebe o mercado de quadrinhos nacional e a vida de quadrinista
aqui no Brasil?
Não consigo ter grandes perspectivas quando vejo um dos maiores
artistas do nosso tempo, Lourenço Mutarelli, praticamente desconhecido
no próprio país. Eu espero estar errado, mas eu acho que o Brasil
ainda vai ser um país sem cultura por muuuuuito tempo. Mas fazer
o quê, talvez a arte só funcione quando é meio que ignorada, senão
os egos se inflam e isso sempre muda os trabalhos. Bem, eu acho
que melhor ser um artista sincero não pago que um medíocre com a
camiseta da Rede Globo escrito "Paz".
O
que você acha dessa proposta de utilizar a Internet como meio de
divulgação de artistas nacionais através de quadrinhos virtuais?
Eu acho que é um ótimo meio de divulgação, só espero que não se
resuma a publicações exclusivamente na Internet, porque eu espero
viver pra ver meus quadrinhos publicados no papel, sem ter que me
lamber pra ninguém, mudar meu trabalho pra agradar um público maior.
Quem
quiser conhecer um pouco mais do trabalho de DW é só ir aos endereços
abaixo:
http://www.nonaarte.com.br/dw.htm
e http://www.dwzine.hpg.ig.com.br
   
Para
acessar os demais trabalhos publicados pela Nona Arte é só
ir até a página inicial do site (www.nonaarte.com.br).

Além
de escrever para o Abacaxi, estou com um blog sobre quadrinhos chamado
O Som de Suas Asas. Quem quiser passar lá para dar uma conferida,
fique à vontade! Endereço: www.osomdesuasasas.blogger.com.br.
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