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Sei
que já tem algum tempinho que o filme do Demolidor já estreou, mas
eu não poderia deixar de comenta-lo aqui no Abacaxi. Para quem não
o conhece nem dos quadrinhos nem do filme que está nos cinemas,
vale colocar aqui um pequeno relato de sua trajetória. Este personagem,
também conhecido como o Homem sem Medo, foi criado em 1964 por Stan
Lee (roteiro) e Bill Everett (desenhos) e já trazia na sua composição
uma característica singular: era (e é) cego.
Não
que um personagem cego fosse novidade no mundo dos quadrinhos: o
doutor Meia-Noite (Doctor Midnight), um herói da Era de Ouro, era
cego; entretanto, podia enxergar durante a noite com o auxilio de
óculos especiais. Já Matt Murdock, o alter ego do Demolidor, não
se utiliza desse tipo de artefato para lutar contra o crime. Na
realidade, apesar de ser cego, ele "enxerga" as coisas ao seu redor
através de uma espécie de radar, como o dos morcegos, além de ter
todos os outros sentidos ampliados devido a um produto químico que
atingiu seu rosto enquanto tentava salvar um velho cego de ser atropelado.
Matt
foi criado pelo pai, um boxeador chamado Jack Murdock, cujo maior
desejo era que seu filho se tornasse "alguém importante, não um
lutador" como ele. Obedecendo aos sonhos do pai, Matt se formou
em Direito, mas treinava boxe escondido. Tudo ia bem até que seu
pai foi assassinado e ele resolveu assumir a identidade do Demolidor
(como foi revisto recentemente na minissérie Demolidor Amarelo).
Apesar
de ser um herói do segundo escalão da Marvel, não tão popular quanto
o Homem-Aranha e os X-Men por exemplo, ele é um dos personagens
mais importantes da editora. Talvez exatamente por ser do segundo
escalão ele pôde alcançar essa importância. Afinal de contas, com
o Demolidor foi possível fazer um tratamento mais adulto de um super-herói,
especialmente durante a fase escrita por Frank Miller, o que acabaria
por repercutir nas histórias mais comerciais.
Durante
a fase de Miller, não apenas somos apresentados a novas e importantes
personagens como a ninja Elektra, antiga paixão do herói, ou a irmã
Maggie, que na realidade é a mãe de Matt que ele acreditava estar
morta. Também estão presentes temas polêmicos, como prostituição
e drogas, principalmente através da figura de Karen Page - que já
tinha sido secretária no escritório de advocacia de Matt e seu amigo
Fog Nelson, além de namorada do herói. Karen havia largado o emprego
de secretária para tentar a carreira de atriz, mas acabou de tornando
atriz pornô, prostituta e usuária de drogas. Recentemente, o cineasta
Kevin Smith escreveu um consagrado arco de histórias para a personagem
homenageando a fase de Miller, no qual Karen Page, já "regenerada",
acaba sendo assassinada por um dos inimigos do Demolidor, o Mercenário.
O
mais importante inimigo do Demolidor é o Rei do Crime, o maior gângster
de Nova York, que originalmente era um vilão de terceira nas revistas
do Aranha na década de 70. Outra figura importante é o jornalista
Ben Urich, que descobriu a identidade secreta do herói, mas mesmo
assim, resolveu não divulga-la e se tornou amigo de Matt.
Depois
de estarmos situados, vamos falar sobre o filme. Confesso abertamente
que estava com muito medo de assisti-lo, por vários motivos. O primeiro
é que ele sem dúvida me pareceu em princípio ter sido feito para
aproveitar essa onda de sucessos de filmes de super-heróis, conquistada
graças aos triunfos de X-Men e, principalmente, Homem-Aranha.
Ademais, sendo o Demolidor um personagem tão complexo e cheio de
nuances, o perigo do filme não fazer jus a ele era muito grande.
E o pior de tudo, a escolha do protagonista. Gosto muito do Ben
Afleck, especialmente de suas participações nos filmes do Kevin
Smith, mas devo reconhecer que ele possui certas limitações como
ator. Enfim, minhas expectativas sobre o filme eram as piores possíveis.
Mesmo
assim, na cara e na coragem, resolvi enfrentar o medo e encarar
a película. E, para a minha surpresa, acabei gostando. Ele não é
tão bom quanto o filme do Homem-Aranha - na minha opinião,
apesar de alguns tropeções, uma das melhores adaptações de um super-herói
de HQ já feita para o cinema; mas não é tão ruim quanto Batman
e Robin (que ainda causa pesadelos nos fãs do Morcego). Concluindo,
é um bom filme, que satisfaz na sua função de divertimento descompromissado.
Se
ele faz jus ao herói dos quadrinhos? Não, não faz. Matt Murdock
é bem mais fascinante nas HQs, mas deve-se reconhecer que os responsáveis
pelo filme bem que tentaram se aproximar e serem fiéis ao Demolidor
das revistas. Tudo o que caracteriza Murdock nas HQs está ali na
tela: seu lado advogado, super-herói, e até mesmo a fé católica.
E se Ben Afleck possui limites dramáticos, bem que ele tenta supera-los
em sua atuação. Ainda não acho que ele é o Matt Murdock perfeito,
mas seu esforço é louvável, e ele consegue tornar a personagem bastante
humana e verossímil (talvez o fato de Afleck ser superfã do Demolidor
tenha ajudado um pouco).
A história
do herói no filme é um pouco diferente da dos quadrinhos, apesar
dos elementos serem basicamente os mesmos. Matt foi criado pelo
pai, um pugilista decadente. Entretanto, seu pai se envolve com
o crime e Matt, após testemunhar um serviço que o pai realizava,
sofre um acidente nas docas envolvendo um produto químico que o
deixa cego, mas lhe amplia os poderes. Daí o pai de Matt resolve
deixar a vida bandida para voltar a lutar, mas é morto quando Matt
ainda é criança (nas HQs ele já é adulto quando o pai é assassinado),
ao descobrir que suas brigas são arranjadas e se recusar a perder.
Anos
mais tarde, Matt (Afleck) se torna um advogado e, junto com seu
amigo Foggy Nelson (Jon Favreau), abre um escritório que tem o propósito
de auxiliar clientes inocentes. A justiça que Matt não faz na corte,
ele faz à noite como vigilante. Certo dia, ele conhece a jovem Elektra
Natchios (Jennifer Garner - estrela do seriado Alias), e
numa das cenas mais improváveis do filme, embora muito divertida,
lutam em um playground (improvável porque ele não está vestido de
Demolidor, e é um pouco difícil de acreditar que um herói daria
tanta "manota" em relação à sua identidade secreta).
Elektra
é filha de um magnata grego e foi treinada desde criança nas mais
diversas artes marciais. Acontece que seu pai é um associado do
Rei do Crime (Michael Clark Duncan) que começa a dar dor de cabeça
ao chefão. Este
resolve, então, assassinar pai e a filha. Para isso, contrata o
Mercenário (Colin Farrell), um assassino capaz de transformar qualquer
coisa (qualquer coisa mesmo) em uma arma mortal, desde um clipe
de papel até um amendoim. Soma-se a isso o jornalista Ben Urich
(Joe Pantoliano), que anda investigando tanto as atuações do Demolidor
quanto as ações criminosas do Rei. Como vida de herói não é fácil,
Elektra e Matt se apaixonam mas, por um erro de perspectiva, ela
acaba acreditando que o Demolidor é responsável pela morte de seu
pai, e parte para a vingança, sem saber que seu amado e o vigilante
são a mesma pessoa.
Apesar
da grande diferença de suas origens nos quadrinhos e no filme, uma
vez que nas revistas o pai de Elektra é um diplomata grego assassinado
em um atentado terrorista quando Elektra e Matt ainda estavam na
faculdade, a personagem está bem caracterizada psicologicamente.
Gardner está muito bem no papel, especialmente nas cenas de ação,
se mostrando até mais preparada que o protagonista. O uniforme também
é diferente do original das revistas, mas foi incorporado à versão
Ultimate da personagem, e é bem legal.
Outro
grande destaque do filme é Collin Farrell como Mercenário. Com uma
atuação propositalmente exagerada, suas aparições são extremamente
divertidas, apesar de ele ser um assassino frio (mas nem um pouco
calculista). Destaque para a cena pós-créditos, muito divertida.
Já Michael Clark Duncan está muito mais que perfeito como o Rei
do Crime, e é de se lamentar que ele apareça tão pouco na história,
que se concentra mais em Elektra e Matt. Só abrindo um parêntesis,
existe uma certa relação entre ele e o herói neste filme que não
existe nas revistas e nos lembra os idos de 1989 e o primeiro filme
do Batman, na relação do herói com o Curinga.
De
pontos positivos do filme, vale destacar as mais diversas citações,
como nomes de personagens baseados em roteiristas e desenhistas
da Marvel relacionados ao herói ou à história da empresa: Bendis
(de Brian Michael Bendis, atual roteirista do herói), Miller (de
Frank Miller, já citado aqui), Mack (de David Mack, roteirista,
desenhista e capista do herói em fase recente) e John Romita (importante
desenhista da Marvel da década de 70) são lutadores enfrentados
pelo pai de Matt; Quesada, um bandido, é o nome do editor chefe
da Marvel; Jack Kirby, um legista, veio do mais importante desenhista
da editora e da indústria dos quadrinhos desde os anos 40. Já o
sr. Lee, cliente de Matt "bom e sem muito dinheiro que só paga em
peixes", vem do rico e bem sucedido Stan Lee, criador do herói.
Outras
importantes citações dizem respeito às histórias do herói, como
um personagem chamá-lo de demônio guardião, que é o nome do arco
de histórias escrito por Kevin Smith, ou o curto aparecimento de
Karen Page, a secretária que se tornou sua namorada, ou a namorada
da secretária eletrônica, Heather, que é o nome de uma importante
namorada do Demolidor, cujo suicídio causou grande impacto no herói
nos quadrinhos. Algumas cenas parecem decalcadas dos gibis, como
por exemplo o ataque do Mercenário à Elektra - parecia até que eu
estava vendo um quadro do Miller em tela grande.
Algumas
pontas também merecem destaques. Em especial, os "pais" do herói
que se fizeram presentes: Stan Lee, como um homem impedido de ser
atropelado pelo Matt ainda garoto, Frank Miller, morto pelo Mercenário
com uma caneta, e Kevin Smith, como o legista Jack Kirby. As cenas
de luta são bem legais, apesar de às vezes lembrarem um pouco algumas
seqüências do Aranha ou o jeito Matrix de ser que vem vigorando
no cinema nos últimos anos. Mas realmente fenomenal foi o efeito
utilizado para a "visão" do herói.
De
pontos negativos, dá para citar o uniforme do herói, que deixou
a desejar, há momentos em que é cintilante demais e aquele DD em
alto relevo (de "Daredevil", o nome original do herói)
é bem breguinha. Não pára de chover em Nova York, achei até que
o filme se passava em Londres, depois de ver tanta água. :o) Não
acho que é preciso tanta chuva para criar um clima sombrio. Além
disso, há clichês aos montes no filme, especialmente nos diálogos,
recheados de frases de efeito.
E há
duas cenas de matar de tristeza qualquer fã do herói. Uma é a sua
entrada em um bar. Parecia mais o Justiceiro em ação (Frank Castle,
outro herói da Marvel, meio psicótico e mais hardcore) que o Demolidor.
E, sacrilégio mor, Matt Murdock deixando um homem morrer nos trilhos
do metrô, mesmo sendo o cara um bandido. Matt é católico, e exatamente
por isso prega a compaixão e o valor da vida. Quem conhece o herói
nas revistas sabe muito bem que ele nunca deixaria aquele homem
morrer, e que é justamente por defender a vida que ele e o Justiceiro
vivem tendo certas discussões éticas quando se encontram.
Talvez
grande parte desses defeitos do filme sejam culpa do diretor pois,
apesar de ser um grande fã do Demolidor, Mark Steven Johnson só
havia dirigido um filme antes: Pequeno Milagre (Simon
Birch, 1998). Apesar de suas boas intenções, talvez a inexperiência
tenha prevalecido. O filme pelo menos serve para apresentar um dos
mais fascinantes personagens da Marvel ao grande público. Aos fãs,
resta o consolo de saber que seu herói não foi maculado, e também
a esperança de que Demolidor 2 e Elektra (continuações deste
filme) consigam finalmente alcançar a grandeza dessas personagens
- ainda mais se forem realmente verdadeiros os boatos de que a seqüência
será baseada na Queda de Murdock, de Miller, ou no Demônio
Guardião, de Smith, considerados dois dos melhores arcos de
histórias do herói.
Dicas
de sites:
http://www.omelete.com.br/demolidor.asp
- com uma seção completa dedicada ao filme e à personagem :perfil,
biografia, principais sagas, etc.
http://www.heroi.com.br/filmes/ler.asp?id=54543
- também com uma seção completa sobre o filme e o herói, desde a
origem até a fase atual nas HQs, passando por suas aparições em
outras mídias.
www.marvelcomics.com
- editora responsável pela publicação do herói nos Estados Unidos.
www.panini.com.br
- editora responsável pela publicação do herói no Brasil.
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