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Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 

Lulu Carabina vai ao teatro...
...e fica satisfeita com o que vê

Por Lulu Carabina
 

Posso dizer que, culturalmente falando, 2005 foi um ano memorável para mim. Assisti a grandes filmes, conheci algumas HQs extraordinárias, vi um show inesquecível e assisti a espetáculos teatrais surpreendentes. É, foi muito bom...

Começando pelas artes cênicas, destaco dois trabalhos. O primeiro é “Sonhos de Einstein”, do grupo carioca Intrépida Trupe. O outro é “Quasi”, montagem da paulista Companhia Incomodada.

O espetáculo da Intrépida Trupe é até meio difícil de definir... Os integrantes da Intrépida atuam, mas não são atores porque não é teatro. Dançam, mas não são dançarinos porque não é um espetáculo de dança. Fazem circo, mas cada vez menos parece ser um espetáculo circense. Na minha opinião, a melhor definição para “Sonhos de Einstein” é uma performance multimídia. Mas antes de falar da obra, vamos conhecer os criadores.

Uma turma sem medo

A Intrépida Trupe surgiu em julho de 1986, no México, durante missão cultural brasileira na Copa do mundo. Formado por ex-alunos da Escola Nacional de Circo e artistas vindos de grupos de dança e teatro, desde a sua criação a companhia inova misturando linguagens, estética, dramaturgia, movimentos e usando aparelhos de engenharia circense específica.

Os espetáculos dessa Trupe são enérgicos e plásticos mesclando circo, teatro e dança, incorporando luz, música e efeitos especiais, produzindo uma linguagem multimídia que procura ser, ao mesmo tempo, moderna e pop.

Já começando a festejar de seus 20 anos de existência, a Intrépida Trupe saiu em turnê nacional com “Sonhos de Einstein”: um espetáculo que une com números aéreos de corda em giro, pêndulos, trapézios, corda indiana e técnicas de ascensão vertical. E vou confessar para vocês... o resultado é realmente impressionante.

O cientista que sonhava

“Sonhos de Einstein” é dirigido por Cláudio Baltar, que também é integrante do grupo. O espetáculo tem como referencia o livro “Sonhos de Einstein”, de Alan Lightman que retrata a época em que o jovem Einstein, obcecado pela questão do tempo, criava mundos imaginários. “Imaginei ‘Sonhos de Einstein’ como um poema que deve ser interpretado, saboreado e absorvido. É um espetáculo de imagens e sensações. O sonho em si não é mencionado, ele simplesmente acontece”, define Baltar.

O diretor explica também que “o espetáculo é a leitura de um grupo de atores-acrobatas que fala da física através da ação física. Os textos surgem, ora como música, ora em off, ou ditos pelos atores e podem significar o desejo do conhecimento. Perguntas em busca de uma resposta. Uma resposta que levará a outra pergunta e assim por diante”.

Para completar a pesquisa sobre o tema, a companhia convidou o professor doutor do Instituto de Física da UFRJ, Luiz Davidovitch, para uma aula. Algumas de suas explicações podem ser ouvidas ao longo do espetáculo.

Onde nenhuma trupe jamais esteve

Pêndulos, giros, cordas marinhas e espirais são o ponto-de-partida dos movimentos de “Sonhos de Einstein”. Tudo isso que exige, fisicamente, muito dos artistas, que utilizaram variadas técnicas corporais para darem conta do recado: aschtanga-yoga, pilates, musculação, dança, acrobacias de solo e técnicas aéreas e de ascensão vertical. Não é mole não!

Porque que eu fiquei tão impressionada? Porque o público assiste a tudo isso bem de perto, a gente fica acomodado nos módulos de arquibancada de teatro e também em arquibancadas desenhadas especialmente para o espetáculo, numa organização espacial pensada para colocar o espectador dentro das cenas. E, em alguns momentos, o coração quase sai pela boca... Só vendo mesmo para compreender...

Quase uma relação

Já o espetáculo “Quasi”, da Companhia Incomodada de Teatro, fugiu do comum e fácil caminho da comédia e se encontra no limite entre o romance e o drama. A peça que estreou em São Paulo em junho e esteve em BH no mês de outubro, trata da relação entre os modernistas Mário de Andrade e Anita Malfatti. Amor platônico ou real? Esta conclusão vai depender do ponto de vista do espectador.

E foi isso que eu achei tão interessante nessa montagem, já que ela não conta uma história que aconteceu, mas que “quasi” foi realidade. De forma poética, entre letras e tintas, entre olhares e escusas, entre toque e distância, entre o som e o silêncio, a amizade entre Mário e Anita que foi tão importante para ambos, profissional e pessoalmente é retratada de uma maneira ao mesmo tempo sensível e contundente.

O silêncio das intenções e o amor não consumado entre os dois artistas é explorado de forma emocionante por Chico Neto, ator e poeta que faz um Mário curioso, dissimulado e cômico, e pela atriz e bailarina Vanessa Portugal, que encarna Anita como uma mulher-menina, reflexo da dualidade de comportamento que tanto aparece na obra da artista.

“Quasi” procura outras formas de expressar o que nunca esteve claro, de demonstrar o que está implícito para o escritor e a pintora. São silêncios, ações, movimentos, falta de movimento, tudo isso para que o público tenha essa sensação do “incompleto”. Por isso, em alguns momentos, a montagem parece um pouco lenta, mas para mim o ritmo até reforça essa permanente falta que existe no relacionamento entre Mário e Anita.

O espetáculo começa pela exposição de 1917, passa pela correspondência entre os dois, pelos encontros e desencontros, pela pintura, pela escrita, pelas expectativas, pelas frustrações. No fim, os personagens finalmente se encontram, mas num outro plano.

Construindo uma realidade ficcional

A peça, baseada na correspondência de Mário de Andrade para Anita Malfatti, é dirigida por Nany di Lima, fundadora da Companhia Incomodada. “Pensamos como espectadores: o que poderia ter acontecido entre esses dois? Uma amizade alicerçada pelos estímulos do modernismo que, foi linha (ou entrelinha) de uma relação baseada em paixões. Mas entre Mário e Anita, quase ao contrário, existe apenas o silêncio das intenções”, explica Nany.

“Quasi” é o primeiro texto teatral de Albano Martins Ribeiro que havia trabalhado apenas no conto e na crônica, com poucas passagens pela poesia e uma pelo vídeo, quando ganhou o Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo pela adaptação do poema “Grandes são os Desertos”, de Fernando Pessoa.

Do livro Cartas a Anita Malfatti, organizado por Marta Rosseti Batista em 1989, a Companhia tirou boa parte do material para o espetáculo. Como a publicação só reúne as cartas escritas por Mário para Anita, a diretora Nany di Lima precisou buscar ajuda da família da artista plástica para saber o outro lado da história.

As cartas de Anita Malfatti para Mário de Andrade, nunca foram publicadas e estão atualmente arquivadas na USP. Curiosamente, só no meio da primeira temporada da montagem, em São Paulo, a companhia conseguiu ter acesso às cartas de Anita.

Nany confessa que ficou surpresa com o conteúdo das correspondências. “A gente esperava que fossem cartas de um amor intenso, mas a comunicação entre os dois era muito subliminar. Anita cobrava muito do Mário uma postura em relação ao que ela sentia, e o Mário nunca disse um não claro e nem um sim claro. Acho que o medo dele de se afastar da obra da Anita era tão grande que o Mário mantinha ela ligada a ele nessa comunicação que está nas entrelinhas”.

Ah, e antes que alguém pergunte, não é preciso ser nenhum intelectual ou profundo conhecedor do Movimento Modernista para entender o que se passa no palco de “Quasi”. Basta perceber que às vezes nem todas as palavras ou todas as cores são capazes de expressar o amor entre duas pessoas.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor) e Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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