| Posso dizer que, culturalmente falando,
2005 foi um ano memorável para mim. Assisti a grandes filmes,
conheci algumas HQs extraordinárias, vi um show inesquecível
e assisti a espetáculos teatrais surpreendentes. É,
foi muito bom...
Começando pelas artes cênicas, destaco dois trabalhos.
O primeiro é “Sonhos de Einstein”, do grupo carioca
Intrépida Trupe. O outro é “Quasi”, montagem
da paulista Companhia Incomodada.
O espetáculo da Intrépida Trupe é até
meio difícil de definir... Os integrantes da Intrépida
atuam, mas não são atores porque não é
teatro. Dançam, mas não são dançarinos
porque não é um espetáculo de dança.
Fazem circo, mas cada vez menos parece ser um espetáculo
circense. Na minha opinião, a melhor definição
para “Sonhos de Einstein” é uma performance multimídia.
Mas antes de falar da obra, vamos conhecer os criadores.

Uma turma sem medo
A Intrépida Trupe surgiu em julho de 1986, no México,
durante missão cultural brasileira na Copa do mundo. Formado
por ex-alunos da Escola Nacional de Circo e artistas vindos de grupos
de dança e teatro, desde a sua criação a companhia
inova misturando linguagens, estética, dramaturgia, movimentos
e usando aparelhos de engenharia circense específica.
Os espetáculos dessa Trupe são enérgicos
e plásticos mesclando circo, teatro e dança, incorporando
luz, música e efeitos especiais, produzindo uma linguagem
multimídia que procura ser, ao mesmo tempo, moderna e pop.

Já começando a festejar de seus 20 anos de existência,
a Intrépida Trupe saiu em turnê nacional com “Sonhos
de Einstein”: um espetáculo que une com números
aéreos de corda em giro, pêndulos, trapézios,
corda indiana e técnicas de ascensão vertical. E vou
confessar para vocês... o resultado é realmente impressionante.
O cientista que sonhava
“Sonhos de Einstein” é dirigido por Cláudio
Baltar, que também é integrante do grupo. O espetáculo
tem como referencia o livro “Sonhos de Einstein”, de
Alan Lightman que retrata a época em que o jovem Einstein,
obcecado pela questão do tempo, criava mundos imaginários.
“Imaginei ‘Sonhos de Einstein’ como um poema que
deve ser interpretado, saboreado e absorvido. É um espetáculo
de imagens e sensações. O sonho em si não é
mencionado, ele simplesmente acontece”, define Baltar.
O
diretor explica também que “o espetáculo é
a leitura de um grupo de atores-acrobatas que fala da física
através da ação física. Os textos surgem,
ora como música, ora em off, ou ditos pelos atores
e podem significar o desejo do conhecimento. Perguntas em busca
de uma resposta. Uma resposta que levará a outra pergunta
e assim por diante”.
Para completar a pesquisa sobre o tema, a companhia convidou o
professor doutor do Instituto de Física da UFRJ, Luiz Davidovitch,
para uma aula. Algumas de suas explicações podem ser
ouvidas ao longo do espetáculo.
Onde nenhuma trupe jamais esteve
Pêndulos, giros, cordas marinhas e espirais são o
ponto-de-partida dos movimentos de “Sonhos de Einstein”.
Tudo isso que exige, fisicamente, muito dos artistas, que utilizaram
variadas técnicas corporais para darem conta do recado: aschtanga-yoga,
pilates, musculação, dança, acrobacias de solo
e técnicas aéreas e de ascensão vertical. Não
é mole não!
Porque
que eu fiquei tão impressionada? Porque o público
assiste a tudo isso bem de perto, a gente fica acomodado nos módulos
de arquibancada de teatro e também em arquibancadas desenhadas
especialmente para o espetáculo, numa organização
espacial pensada para colocar o espectador dentro das cenas. E,
em alguns momentos, o coração quase sai pela boca...
Só vendo mesmo para compreender...
Quase uma relação
Já o espetáculo “Quasi”, da Companhia
Incomodada de Teatro, fugiu do comum e fácil caminho da comédia
e se encontra no limite entre o romance e o drama. A peça
que estreou em São Paulo em junho e esteve em BH no mês
de outubro, trata da relação entre os modernistas
Mário de Andrade e Anita Malfatti. Amor platônico ou
real? Esta conclusão vai depender do ponto de vista do espectador.

E foi isso que eu achei tão interessante nessa montagem,
já que ela não conta uma história que aconteceu,
mas que “quasi” foi realidade. De forma poética,
entre letras e tintas, entre olhares e escusas, entre toque e distância,
entre o som e o silêncio, a amizade entre Mário e Anita
que foi tão importante para ambos, profissional e pessoalmente
é retratada de uma maneira ao mesmo tempo sensível
e contundente.
O silêncio das intenções e o amor não
consumado entre os dois artistas é explorado de forma emocionante
por Chico Neto, ator e poeta que faz um Mário curioso, dissimulado
e cômico, e pela atriz e bailarina Vanessa Portugal, que encarna
Anita como uma mulher-menina, reflexo da dualidade de comportamento
que tanto aparece na obra da artista.
“Quasi” procura outras formas de expressar o que nunca
esteve claro, de demonstrar o que está implícito para
o escritor e a pintora. São silêncios, ações,
movimentos, falta de movimento, tudo isso para que o público
tenha essa sensação do “incompleto”. Por
isso, em alguns momentos, a montagem parece um pouco lenta, mas
para mim o ritmo até reforça essa permanente falta
que existe no relacionamento entre Mário e Anita.

O espetáculo começa pela exposição
de 1917, passa pela correspondência entre os dois, pelos encontros
e desencontros, pela pintura, pela escrita, pelas expectativas,
pelas frustrações. No fim, os personagens finalmente
se encontram, mas num outro plano.
Construindo uma realidade ficcional
A peça, baseada na correspondência de Mário
de Andrade para Anita Malfatti, é dirigida por Nany di Lima,
fundadora da Companhia Incomodada. “Pensamos como espectadores:
o que poderia ter acontecido entre esses dois? Uma amizade alicerçada
pelos estímulos do modernismo que, foi linha (ou entrelinha)
de uma relação baseada em paixões. Mas entre
Mário e Anita, quase ao contrário, existe apenas o
silêncio das intenções”, explica Nany.
“Quasi” é o primeiro texto teatral de Albano
Martins Ribeiro que havia trabalhado apenas no conto e na crônica,
com poucas passagens pela poesia e uma pelo vídeo, quando
ganhou o Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da
Cultura de São Paulo pela adaptação do poema
“Grandes são os Desertos”, de Fernando Pessoa.
Do livro Cartas a Anita Malfatti, organizado por Marta
Rosseti Batista em 1989, a Companhia tirou boa parte do material
para o espetáculo. Como a publicação só
reúne as cartas escritas por Mário para Anita, a diretora
Nany di Lima precisou buscar ajuda da família da artista
plástica para saber o outro lado da história.

As cartas de Anita Malfatti para Mário de Andrade, nunca
foram publicadas e estão atualmente arquivadas na USP. Curiosamente,
só no meio da primeira temporada da montagem, em São
Paulo, a companhia conseguiu ter acesso às cartas de Anita.
Nany confessa que ficou surpresa com o conteúdo das correspondências.
“A gente esperava que fossem cartas de um amor intenso, mas
a comunicação entre os dois era muito subliminar.
Anita cobrava muito do Mário uma postura em relação
ao que ela sentia, e o Mário nunca disse um não claro
e nem um sim claro. Acho que o medo dele de se afastar da obra da
Anita era tão grande que o Mário mantinha ela ligada
a ele nessa comunicação que está nas entrelinhas”.
Ah,
e antes que alguém pergunte, não é preciso
ser nenhum intelectual ou profundo conhecedor do Movimento Modernista
para entender o que se passa no palco de “Quasi”. Basta
perceber que às vezes nem todas as palavras ou todas as cores
são capazes de expressar o amor entre duas pessoas.
É isso aí!
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