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Beagá, 25 de abril de 2005 d.C.
 

Eu vi no cinema, gostei e recomendo!!!
Herói - ou como fazer um filme de arte usando artes marciais

Por Lulu Carabina
 

Nós mulheres não somos muito chegadas a filmes de pancadaria e artes marciais. Kickboxer, O Grande Dragão Branco e todas as variações possíveis, desde que o Jean-Claude Van Damme esteja no elenco. A exceção são os filmes com o Jackie Chan. Mas aí passa a ser comédia e as lutas servem mais para compor as cenas e a gente ver como o Jackie é legal.

Esse território parecia impenetrável, até que Ang Lee apresentou para o mundo O Tigre e o Dragão. Filosofia oriental, belíssimos figurinos e coreografias impressionantes. Só que essa história de lutadores voando pelos telhados ou em bambuzais não colou. Muita gente só achou o filme exagerado e pronto.

Mas como todo mestre do oriente, o Sr. Lee sabia o que estava fazendo. Na realidade, ele estava experimentando e preparando o terreno para uma nova geração de diretores chineses. E Zhang Yimou é um desses novos caras.

Apesar de nunca ter praticado judô, ou karatê (sim, isso é possível, já que nem todo brasileiro nasceu com uma bola de futebol nos pés), Yimou é apaixonado por novelas de artes marciais e sempre quis levar estas histórias para as telas. Talvez por não ter crescido num tatame, o diretor conseguiu o equilíbrio exato entre uma bela história, personagens marcantes, uma fotografia lindíssima e, sim, artes marciais. O resultado é pura poesia visual, a medida exata entre sensibilidade e ação.

Herói

O filme é uma história mítica baseada em fatos históricos. No século 3 a.C, na China ancestral, antes do surgimento do primeiro imperador, a nação se dividia em sete reinos. Qin, o implacável e tirânico soberano da província do norte, sofre constantes ameaças e tentativas de assassinato. O que mais o preocupa são os três assassinos de elite contratados por seus adversários políticos.

Um dia, um humilde oficial de província, interpretado por Jet Li (que parece uns 10 anos mais novo), chega ao palácio do rei com provas de que derrotou os três mestres espadachins.

A pedido do monarca, esse personagem, Sem Nome, conta como venceu inimigos tão poderosos quanto Céu, Espada Quebrada e Neve Que Voa (interpretados por Donnie Yuen, Tony Leung e Maggie Cheung). O rei de Quin havia oferecido como recompensa riquezas jamais imaginadas para aquele que conseguisse tal proeza. E assim, o guerreiro começa a narrar suas batalhas, mostradas como flashbacks. A cada nova história, Sem Nome ganha o direito de se aproximar um pouco mais do soberano. Mas o rei suspeita do relato e confronta as histórias que está ouvindo a outras versões.

Cada versão é narrada de maneira diferente. Não apenas do ponto de vista da cor, mas também da própria encenação das lutas, que foram filmadas como se fossem verdadeiras coreografias. O resultado é grandioso, especialmente em dois combates de tirar o fôlego - a luta de Neve Que Voa e Lua entre as folhas de outono e o outro, travado sobre as águas de um lago.

Esteticamente, as cenas são obras-primas. As locações são espetaculares (algo como a Terra Média, digo, a Nova Zelândia). Os confrontos acontecem em lagos, montanhas, florestas e desertos. Em cada um desses lugares o vento, a água, o sol, as folhas e as árvores interagem com a ação. Para completar o clima mítico, esplêndidos figurinos e uma belíssima trilha sonora.

Propaganda política?

Mesmo aqui, a polêmica não podia faltar. Alguns críticos (metidos a inteligentes) juram que Herói é propaganda, na verdade um filme pró-Pequim, porque parece justificar o domínio totalitário de um regime brutal.

Mas Zhang Yimou já falou em várias entrevistas que isso não tem nada a ver... Para ele, Herói é uma mensagem de paz. Uma parábola conciliatória que oferece redenção e uma opção: guerra e violência ou paz e entendimento.

Os olhos são puxados, mas ele enxerga longe

Zhang Yimou nasceu em 1951 e iniciou sua carreira cinematográfica nos anos 80, como diretor de fotografia. Sua estréia na direção foi em 1987 com Sorgo Vermelho. É representante da chamada quinta geração do cinema chinês.

O diretor chinês coleciona prêmios. No Festival de Veneza, ganhou o Leão de Prata por Lanternas Vermelhas, em 1991; o Leão de Ouro em 1992, por A História de Qiu-Ju, e novamente em 1999, por Nenhum a Menos. Recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 1994 por Tempos de Viver, e o grande prêmio técnico em 1995 por Operação Xangai.

Curiosidades Curiosas

Zhang Yimou dirigiu, escreveu e produziu Herói, que foi lançado na China em 2002.

Os diálogos de Herói seguem a gramática do chinês clássico, apesar de serem pronunciados em mandarim.

Jet Li teve seu cachê bastante reduzido para poder participar do filme.

O personagem do Rei de Quin foi oferecido a Jackie Chan, que o recusou.

A Miramax comprou os direitos de exibição de Herói nos Estados Unidos em 2002, logo após seu grande sucesso nos cinemas asiáticos. Entretanto, o filme foi lançado nos cinemas americanos somente em agosto de 2004.

O lançamento de Herói nos Estados Unidos teve a participação do diretor Quentin Tarantino, que entrou em contato com os executivos da Miramax para convencê-los a lançar o filme nos cinemas, sob o slogan “apresentado por Quentin Tarantino”.

Herói foi o filme mais caro já produzido na China, até seu lançamento. O orçamento do filme ficou em US$ 30 milhões.

Os dois últimos filmes de Yimou foram totalmente inspirados pelas novelas de artes marciais: Herói concluído em 2002, e o seu último filme, O Clã das Adagas Voadoras, lançado na China em 2004.

Premiações

Herói recebeu uma indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro.

Ganhou o Prêmio Alfred Bauer, no Festival de Berlim.

Bem, espero que o filme ainda esteja em cartaz para que vocês possam apreciar e se divertir tanto quanto eu. Se não, assistam O Clã das Adagas Voadoras e me contem, porque esse eu não vi ainda...

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor) e Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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