| Nós mulheres não somos
muito chegadas a filmes de pancadaria e artes marciais. Kickboxer,
O Grande Dragão Branco e todas as variações
possíveis, desde que o Jean-Claude Van Damme esteja no elenco.
A exceção são os filmes com o Jackie Chan.
Mas aí passa a ser comédia e as lutas servem mais
para compor as cenas e a gente ver como o Jackie é legal.
Esse território parecia impenetrável, até
que Ang Lee apresentou para o mundo O Tigre e o Dragão.
Filosofia oriental, belíssimos figurinos e coreografias impressionantes.
Só que essa história de lutadores voando pelos telhados
ou em bambuzais não colou. Muita gente só achou o
filme exagerado e pronto.
Mas
como todo mestre do oriente, o Sr. Lee sabia o que estava fazendo.
Na realidade, ele estava experimentando e preparando o terreno para
uma nova geração de diretores chineses. E Zhang Yimou
é um desses novos caras.
Apesar de nunca ter praticado judô, ou karatê (sim,
isso é possível, já que nem todo brasileiro
nasceu com uma bola de futebol nos pés), Yimou é apaixonado
por novelas de artes marciais e sempre quis levar estas histórias
para as telas. Talvez por não ter crescido num tatame, o
diretor conseguiu o equilíbrio exato entre uma bela história,
personagens marcantes, uma fotografia lindíssima e, sim,
artes marciais. O resultado é pura poesia visual, a medida
exata entre sensibilidade e ação.
Herói

O filme é uma história mítica baseada em fatos
históricos. No século 3 a.C, na China ancestral, antes
do surgimento do primeiro imperador, a nação se dividia
em sete reinos. Qin, o implacável e tirânico soberano
da província do norte, sofre constantes ameaças e
tentativas de assassinato. O que mais o preocupa são os três
assassinos de elite contratados por seus adversários políticos.
Um dia, um humilde oficial de província, interpretado por
Jet Li (que parece uns 10 anos mais novo), chega ao palácio
do rei com provas de que derrotou os três mestres espadachins.
A
pedido do monarca, esse personagem, Sem Nome, conta como venceu
inimigos tão poderosos quanto Céu, Espada Quebrada
e Neve Que Voa (interpretados por Donnie Yuen, Tony Leung e Maggie
Cheung). O rei de Quin havia oferecido como recompensa riquezas
jamais imaginadas para aquele que conseguisse tal proeza. E assim,
o guerreiro começa a narrar suas batalhas, mostradas como
flashbacks. A cada nova história, Sem Nome ganha o direito
de se aproximar um pouco mais do soberano. Mas o rei suspeita do
relato e confronta as histórias que está ouvindo a
outras versões.
Cada versão é narrada de maneira diferente. Não
apenas do ponto de vista da cor, mas também da própria
encenação das lutas, que foram filmadas como se fossem
verdadeiras coreografias. O resultado é grandioso, especialmente
em dois combates de tirar o fôlego - a luta de Neve Que Voa
e Lua entre as folhas de outono e o outro, travado sobre as águas
de um lago.
Esteticamente,
as cenas são obras-primas. As locações são
espetaculares (algo como a Terra Média, digo, a Nova Zelândia).
Os confrontos acontecem em lagos, montanhas, florestas e desertos.
Em cada um desses lugares o vento, a água, o sol, as folhas
e as árvores interagem com a ação. Para completar
o clima mítico, esplêndidos figurinos e uma belíssima
trilha sonora.
Propaganda política?
Mesmo aqui, a polêmica não podia faltar. Alguns críticos
(metidos a inteligentes) juram que Herói é
propaganda, na verdade um filme pró-Pequim, porque parece
justificar o domínio totalitário de um regime brutal.
Mas Zhang Yimou já falou em várias entrevistas que
isso não tem nada a ver... Para ele, Herói
é uma mensagem de paz. Uma parábola conciliatória
que oferece redenção e uma opção: guerra
e violência ou paz e entendimento.
Os olhos são puxados, mas ele enxerga longe
Zhang
Yimou nasceu em 1951 e iniciou sua carreira cinematográfica
nos anos 80, como diretor de fotografia. Sua estréia na direção
foi em 1987 com Sorgo Vermelho. É representante
da chamada quinta geração do cinema chinês.
O diretor chinês coleciona prêmios. No Festival de
Veneza, ganhou o Leão de Prata por Lanternas Vermelhas,
em 1991; o Leão de Ouro em 1992, por A História
de Qiu-Ju, e novamente em 1999, por Nenhum a Menos.
Recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes
em 1994 por Tempos de Viver, e o grande prêmio técnico
em 1995 por Operação Xangai.
Curiosidades Curiosas

• Zhang Yimou dirigiu, escreveu e
produziu Herói, que foi lançado na China
em 2002.
• Os diálogos de Herói
seguem a gramática do chinês clássico, apesar
de serem pronunciados em mandarim.
• Jet Li teve seu cachê bastante
reduzido para poder participar do filme.

• O personagem do Rei de Quin foi
oferecido a Jackie Chan, que o recusou.
• A Miramax comprou os direitos de
exibição de Herói nos Estados Unidos
em 2002, logo após seu grande sucesso nos cinemas asiáticos.
Entretanto, o filme foi lançado nos cinemas americanos somente
em agosto de 2004.
• O lançamento de Herói
nos Estados Unidos teve a participação do diretor
Quentin Tarantino, que entrou em contato com os executivos da Miramax
para convencê-los a lançar o filme nos cinemas, sob
o slogan “apresentado por Quentin Tarantino”.

• Herói foi o filme
mais caro já produzido na China, até seu lançamento.
O orçamento do filme ficou em US$ 30 milhões.
• Os dois últimos filmes de
Yimou foram totalmente inspirados pelas novelas de artes marciais:
Herói concluído em 2002, e o seu último
filme, O Clã das Adagas Voadoras, lançado
na China em 2004.
Premiações
• Herói recebeu uma
indicação ao Oscar e ao Globo de Ouro como Melhor
Filme Estrangeiro.
• Ganhou o Prêmio Alfred Bauer,
no Festival de Berlim.

Bem, espero que o filme ainda esteja em cartaz para que vocês
possam apreciar e se divertir tanto quanto eu. Se não, assistam
O Clã das Adagas Voadoras e me contem, porque esse
eu não vi ainda...
É isso aí!
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