| Eu não conheço o nordeste
do Brasil. Não gosto de praia, mas tenho uma vontade danada
de conhecer Pernambuco, principalmente as cidades de Olinda e Recife.
Sei que as duas fervem. Uma mistura de cultura popular, história
e modernidade parecem compor a atmosfera da região.
E uma das pessoas que conseguiram apresentar toda essa riqueza
para o Brasil e para o mundo foi, sem dúvida, Chico Science.
Como poucos, Chico conseguiu misturar guitarras elétricas
com as tradições e raízes regionais. E a música
brasileira nunca mais foi a mesma...

Chico Science nasceu Francisco de Assis França, no dia 13
de março de 1966, no bairro do Rio Doce, em Olinda. Já
garoto, Chico buscava ganhar uns trocados durante o dia fazendo
“bicos” na vizinhança. Com o dinheiro ele freqüentava
bailes funks nos finais de semana. Seus ídolos eram James
Brown, Sugar Hill Gang, Kurtis Blown, Grand Master Flash entre outros
grandes nomes da Black Music.
No
início dos anos 80, Chico participava de alguns grupos de
dança e hip hop em Pernambuco. Integrou, no final da década,
algumas bandas de música como Orla Orbe e Loustal, inspiradas
na música soul, no funk e no hip hop.
Mas a mistura que iria revolucionar a música brasileira
começou a tomar forma em 1991, quando Science entrou em contato
com o bloco afro Lamento Negro, de Peixinhos, subúrbio de
Olinda. O som que surgiu deste encontro era uma fusão com
os ritmos nordestinos, principalmente o maracatu.
Impressionado
com a energia daquela batida, Chico resolveu experimentar. Todo
o poder da percussão, misturado aos ritmos regionais mais
uma batida de black music. Para deixar essa receita em ponto de
bala, Science chamou o guitarrista Lúcio e o baixista Alexandre,
que haviam tocado com ele na banda Loustal. E assim surgiu uma das
bandas mais legais e criativas da história deste país:
Chico Science e Nação Zumbi.
A banda fez várias apresentações em Recife,
Olinda, divulgando o estilo musical batizado de mangue beat. Em
1993, Chico Science e Nação Zumbi fazem shows em São
Paulo e Belo Horizonte, conquistando o público e a mídia.
De volta ao nordeste, o grupo apresentou-se em Recife e Olinda e
iniciou o Movimento Mangue Beat, com a divulgação
do manifesto “Caranguejos com Cérebro”.

Movimento Mangue Beat
Uma antena parabólica enterrada na lama era o símbolo
do manifesto escrito por Fred 04, líder do Mundo Livre S/A
e Renato L, publicado na imprensa pernambucana em 1992. “Caranguejos
com Cérebro” apresenta para o Brasil a figura dos “mangueboys”
- indivíduos interessados em quadrinhos, TV interativa, antipsiquiatria,
Bezerra da Silva, hip hop, música de rua, sexo não-virtual,
conflitos étnicos.
A
proposta dos integrantes do Movimento Mangue Beat - Chico Science
& Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cascabulho, Mestre
Ambrósio, Sheik Tosado, Jorge Cabeleira e o Dia Que Seremos
Todos Inúteis - era fundir ritmos e gêneros musicais
como o maracatu, o côco, a ciranda, a embolada e o caboclinho,
com o rap, o rock alternativo e a nova música eletrônica.
Quando Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre
S/A foram lançados por gravadoras com distribuição
nacional, rapidamente o movimento atingiu o resto do país.
Da Lama aos céus
O
primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da
Lama ao Caos, projetou a banda nacionalmente e eles acabaram
gravando um disco pela Sony. Com o segundo, Afrociberdelia,
o grupo excursionou pela Europa e Estados Unidos, com grande sucesso
de público e crítica. Foi também nesse período
que Chico Science gravou com Fred Zero Quatro, Stella Campos e outros
artistas pernambucanos a trilha sonora do filme Baile Perfumado.
Mas
a incrível trajetória do cantor e compositor foi interrompida
tragicamente, em 1997. Chico Science morreu em um desastre de automóvel,
no dia 02 de fevereiro, em Olinda.
Entretanto,
o show tinha que continuar. Por isso, os rapazes da Nação
Zumbi juntaram forças e deram a volta por cima e lançaram
um CD duplo em 1998, depois da morte do líder, com músicas
novas e versões ao vivo remixadas por DJs. Ainda bem... Já
havíamos ficado órfãos, mas não ficamos
totalmente desamparados!
É isso aí! |