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Beagá, 11 de abril de 2005 d.C.
 

A história do caranguejo com cérebro
Ele chamava Chico, era nordestino e salvou nosso país do marasmo musical

Por Lulu Carabina
 

Eu não conheço o nordeste do Brasil. Não gosto de praia, mas tenho uma vontade danada de conhecer Pernambuco, principalmente as cidades de Olinda e Recife. Sei que as duas fervem. Uma mistura de cultura popular, história e modernidade parecem compor a atmosfera da região.

E uma das pessoas que conseguiram apresentar toda essa riqueza para o Brasil e para o mundo foi, sem dúvida, Chico Science. Como poucos, Chico conseguiu misturar guitarras elétricas com as tradições e raízes regionais. E a música brasileira nunca mais foi a mesma...

Chico Science nasceu Francisco de Assis França, no dia 13 de março de 1966, no bairro do Rio Doce, em Olinda. Já garoto, Chico buscava ganhar uns trocados durante o dia fazendo “bicos” na vizinhança. Com o dinheiro ele freqüentava bailes funks nos finais de semana. Seus ídolos eram James Brown, Sugar Hill Gang, Kurtis Blown, Grand Master Flash entre outros grandes nomes da Black Music.

No início dos anos 80, Chico participava de alguns grupos de dança e hip hop em Pernambuco. Integrou, no final da década, algumas bandas de música como Orla Orbe e Loustal, inspiradas na música soul, no funk e no hip hop.

Mas a mistura que iria revolucionar a música brasileira começou a tomar forma em 1991, quando Science entrou em contato com o bloco afro Lamento Negro, de Peixinhos, subúrbio de Olinda. O som que surgiu deste encontro era uma fusão com os ritmos nordestinos, principalmente o maracatu.

Impressionado com a energia daquela batida, Chico resolveu experimentar. Todo o poder da percussão, misturado aos ritmos regionais mais uma batida de black music. Para deixar essa receita em ponto de bala, Science chamou o guitarrista Lúcio e o baixista Alexandre, que haviam tocado com ele na banda Loustal. E assim surgiu uma das bandas mais legais e criativas da história deste país: Chico Science e Nação Zumbi.

A banda fez várias apresentações em Recife, Olinda, divulgando o estilo musical batizado de mangue beat. Em 1993, Chico Science e Nação Zumbi fazem shows em São Paulo e Belo Horizonte, conquistando o público e a mídia. De volta ao nordeste, o grupo apresentou-se em Recife e Olinda e iniciou o Movimento Mangue Beat, com a divulgação do manifesto “Caranguejos com Cérebro”.

Movimento Mangue Beat

Uma antena parabólica enterrada na lama era o símbolo do manifesto escrito por Fred 04, líder do Mundo Livre S/A e Renato L, publicado na imprensa pernambucana em 1992. “Caranguejos com Cérebro” apresenta para o Brasil a figura dos “mangueboys” - indivíduos interessados em quadrinhos, TV interativa, antipsiquiatria, Bezerra da Silva, hip hop, música de rua, sexo não-virtual, conflitos étnicos.

A proposta dos integrantes do Movimento Mangue Beat - Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cascabulho, Mestre Ambrósio, Sheik Tosado, Jorge Cabeleira e o Dia Que Seremos Todos Inúteis - era fundir ritmos e gêneros musicais como o maracatu, o côco, a ciranda, a embolada e o caboclinho, com o rap, o rock alternativo e a nova música eletrônica.

Quando Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S/A foram lançados por gravadoras com distribuição nacional, rapidamente o movimento atingiu o resto do país.

Da Lama aos céus

O primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, Da Lama ao Caos, projetou a banda nacionalmente e eles acabaram gravando um disco pela Sony. Com o segundo, Afrociberdelia, o grupo excursionou pela Europa e Estados Unidos, com grande sucesso de público e crítica. Foi também nesse período que Chico Science gravou com Fred Zero Quatro, Stella Campos e outros artistas pernambucanos a trilha sonora do filme Baile Perfumado.

Mas a incrível trajetória do cantor e compositor foi interrompida tragicamente, em 1997. Chico Science morreu em um desastre de automóvel, no dia 02 de fevereiro, em Olinda.

Entretanto, o show tinha que continuar. Por isso, os rapazes da Nação Zumbi juntaram forças e deram a volta por cima e lançaram um CD duplo em 1998, depois da morte do líder, com músicas novas e versões ao vivo remixadas por DJs. Ainda bem... Já havíamos ficado órfãos, mas não ficamos totalmente desamparados!

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor) e Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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