| Eu
não vi o filme Constantine. E nem pretendo. Nem
que fosse para falar mal. É porque este inglês canalha
é um dos meus personagens em quadrinhos favoritos e achei
uma tremenda sacanagem essa adaptação mal e porca
que fizeram da história dele. Como protesto, levarei todos
vocês para uma viagem insólita e horripilante pelo
(sub)mundo onde vive o Hellblazer. Preparem-se, pois o
inferno é uma das principais paradas...
Biografia de John Constantine
Vindo de uma família da classe operária
de Liverpool, John Constantine nasce em 10 de maio de 1953, por
Thomas e Mary Anne Constantine. Durante o nascimento, os médicos
descobriram uma segunda criança estrangulada no útero.
John havia estrangulado seu irmão gêmeo. Sua mãe
acabou morrendo no parto. Seu pai então assumiu a responsabilidade
por ele, apesar de odiá-lo por suas duas perdas.
Aos
17 anos, mudara-se para Londres. Passou toda a década de
70 aprendendo as artes arcanas com um grupo de dedicados ao misticismo.
Depois de assistir aos Sex Pistols no Roxy Club de Londres, John
formou sua própria banda, a Membrana Mucosa, junto com seu
amigo de infância Gary Lester. Eles tocaram a primeira vez
no Casanova Club, em Newcastle.No ano seguinte, John passou por
uma experiência que deixaria marcas para o resto de sua vida:
um desastroso ritual de magia negra no qual enfrentou o demônio
Nergal, que destruiu todos os seus amigos e acidentalmente mandou
a garota Astra Logue para o inferno. O que restou depois disso tudo
foi somente o braço da menina. Levado quase à loucura
pela experiência, John foi internado em Ravenscar, um hospital
para os perigosamente perturbados, onde ele intermitentemente passou
os próximos dois anos.
Em 1985, John encontra o Monstro do Pântano
pela primeira vez em Louisiana (quando a Crise das Infinitas Terras
alcançara o seu clímax). Sua função
foi ensinar ao Monstro do Pântano todo o potencial de seus
poderes - regenerar-se a partir de qualquer pedaço de folha,
por exemplo -, preparando-o para as crises que o aguardavam. A namorada
de John, Emma, acabou sendo morta em Nova York pelo Invunche - um
serviçal da Brujeria. A guerra contra a Brujeria continuou,
o que resultou na morte dos amigos de Constantine Ben Cox, Frank
North, Judith e Anne-Marie.
Depois
disso, o Hellblazer já conseguiu a cura para um câncer
nos pulmões; desafiou os três lordes do inferno; conheceu
versões macabras de contos de fada; viveu por um tempo com
uma turma new age nas florestas inglesas; levou o fora de uma namorada
e vagou por uns tempos nas ruas como bêbado e indigente; envolveu-se
em tramas com Rei Artur; teve até alguns poucos e breves
romances.
Ele também passou uma temporada nos Estados
Unidos, onde aprendeu um pouco sobre a vida numa prisão de
segurança máxima, depois viajou pelo coração
da América e conheceu tudo o que esse país tem de
bizarro. De volta à Inglaterra, colocou-se diante de novos
inimigos e ameaças reais, até o ponto atual, onde
acabou de fazer uma nova visita indesejada ao Inferno e testemunhou
uma visão alternativa de sua vida. Nas últimas histórias,
estão de volta a família de Constantine - sua irmã
e sobrinha, e vários amigos desaparecidos, que passam a sofrer
ameaças nas mãos de seus inimigos.
“Vamos desenhar o Sting!”
Em
junho de 1985, há quase vinte anos, na edição
37 de The Saga of Swamp Thing (Monstro do Pântano),
apareceu um mago loiro, enigmático, desafiador, intrometido,
manipulador e detestável: John Constantine. Segundo o quadrinista
inglês Alan Moore, o personagem surgiu da vontade dos desenhistas
Steve Bissette e John Totleben de desenharem o cantor Sting - na
época, vocalista da banda The Police.
Naquele tempo, Moore, Bissette e Totleben trocavam
correspondências e idéias e resolveram juntar o visual
do cantor com histórias de psicopatas e coisas do tipo. Sobrou
a Moore dar um sentido ao fato de Sting perambular pelos pântanos.
Sua vontade era de se entranhar no universo de personagens místicas
do universo DC. Por isso, fez de John Constantine uma figura que,
apesar de recém-criada, tinha uma longa e misteriosa história,
que já o havia colocado em contato com todos os magos e figuras
sobrenaturais da DC.
O
sucesso foi tamanho que não demorou a DC apostar em mais
publicações de temática adulta e criar um título
mensal sobre John Constantine, em janeiro de 1988: Hellblazer.
O primeiro time criativo do título foi Jamie
Delano e John Ridgway. Delano tinha um texto lírico e imaginação
fértil o suficiente para abastecer o clima de terror e suspense
que a série precisava. Já o ilustrador John Ridgway
tinha como característica desenhos mais elaborados, com muitas
hachuras e grande uso de sombras. Delano construiu a origem de Constantine
e sedimentou a personagem.
Garth
Ennis, segundo escritor regular da série, é o responsável
pela fase de maior sucesso da revista. A grande habilidade de Ennis
era sua maneira de escrever personagens e relações
plausíveis. Foi durante a fase de Ennis que Hellblazer
começou a fazer parte da linha Vertigo, criada pela DC em
1993 para englobar todos seus títulos de temática
adulta. Foi ao entrar na fase Vertigo que Ennis começou a
colaboração com o desenhista Steve Dillon.
O australiano Paul Jenkins foi o terceiro escritor.
Apesar do trabalho do desenhista Sean Phillips durante esta fase,
foi o período de menor sucesso do título.
Seguindo a fila, temos Warren Ellis. O escritor
fez o público e a crítica redescobrirem Hellblazer
ao longo de dez edições onde trazia de volta o clima
de suspense perdido com os anos. Ellis, porém, decidiu abandonar
o cargo quando uma de suas edições foi censurada pela
DC e não chegou às bancas.
A
história chamava-se "Shoot" e tratava de tiroteios
em escolas norte-americanas, logo após o massacre da escola
Columbine, no Colorado. Tendo sabido do assassinato em massa, a
DC tentou fazer mudanças na história, mas Warren Ellis
declarou que as mudanças pedidas criariam uma história
que ele nunca assinaria como criador. A editora decidiu não
lançar o episódio. Decepcionado, Ellis deixou o título.
Para substituí-lo às pressas, foi
chamado Brian Azzarello. Ao seu lado, um também novo desenhista,
Marcelo Frusin. Azzarello, o primeiro norte-americano a escrever
Hellblazer, levou John Constantine para os Estados Unidos.
O atual contador das histórias de John Constantine
é Mike Carey, que trouxe o mago de volta para o velho mundo.
Os desenhos escuros do argentino Leonardo Manco lembram a fase inicial
de Hellblazer, de Delano e Ridgway.
O drama das bancas tupiniquins
No Brasil, o mago inglês viveu uma verdadeira
peregrinação... de editoras. Apesar de nos Estados
Unidos Hellblazer ser o título mais antigo e regular
da linha Vertigo, John Constantine teve uma história editorial
bastante conturbada em nosso país. Hellblazer passou
pela Abril, pela Tudo em Quadrinhos, pela Metal Pesado, pela Atitude,
pela Fractal e morreu no ano passado, com a falência da Brainstore.
Apresentado
aos leitores brasileiros nos formatinhos da Abril como personagem
coadjuvante do Monstro do Pântano, Constantine começou
a ter suas aventuras-solo publicadas nessa mesma revista. Entretanto,
a seqüência de publicação acabou se tornando
um verdadeiro “samba do crioulo doido”. As seis histórias
iniciais foram publicadas em Monstro do Pântano até
o título ser cancelado. A veiculação do número
6 americano antes do 5 foi apenas uma pequena amostra do que ainda
estava por vir.
Em 1995, a intenção era fazer de John
Constantine o carro-chefe da revista Vertigo quando a Abril
lançou o título. As outras personagens alternariam
sua publicação, mas Hellblazer deveria estar
presente todos os meses.
Porém, Constantine não deu as caras
já na sexta edição. Na última hora,
várias histórias do mago inglês, que já
estavam traduzidas, foram retiradas por ordem da diretoria da Abril,
e substituídas por Tim Hunter e Os Livros de Magia.
Reza a lenda que isso aconteceu por causa do conteúdo das
narrativas, considerado muito violento. As histórias de John
voltaram a ser publicadas na edição 8, mas várias
revistas americanas haviam sido saltadas.
Com
o cancelamento da revista Vertigo, Hellblazer
ficou esquecido por um tempo até ter suas histórias
retomadas pela Metal Pesado Editora, em novembro de 1997. Mas, como
numa espécie de maldição, as coisas não
melhoraram. A seqüência incerta de publicação
parecia ser um reflexo da verdadeira “metamorfose ambulante”
da editora, que virou Tudo em Quadrinhos, meses antes de se aliar
à Fractal, que criou a Atitude e acabou por cancelar todos
os seus títulos.
Desde
maio de 2000, a Brainstore passou a editar o personagem, prometendo
pôr ordem na casa e continuar a publicar as histórias
de uma maneira menos confusa. Entretanto, mais uma vez nós,
pobres leitores, morremos na praia: a Brainstore quebrou e ficamos
todos órfãos novamente.
Curiosidades Curiosas
•
Na
verdade, John Constantine já havia aparecido em um quadro
da Swamp Thing #25, perto de uma vítima abarrotada
em um espadarte.
•
A
Metal Pesado, TEQ, Fractal e Atitude, em geral, sempre foram a mesma
editora só mudaram de nome e sócios.
•
Hellblazer
seria originalmente chamado de "Hellraiser", o que se
parecia mais com o personagem. Infelizmente, o lançamento
do projeto de Clive Barker com o mesmo nome estragou os planos da
DC. Hellblazer foi o melhor título que o pessoal da DC pôde
pensar para substituir o original antes do título ser publicado.
•
Alan
Moore diz ter encontrado John Constantine pessoalmente numa lanchonete
pouco tempo depois de ter começado a escrever sobre ele.
Embora o escritor não dê muitos detalhes e até
ache difícil que alguém acredite nessa história,
afirma que foi uma das experiências mais estranhas. Ele conta
ainda que Jamie Delano, primeiro roteirista de Hellblazer,
também teve um encontro parecido.
Depois
de tudo isso, alguém espera realmente que eu desperdice meu
tempo precioso assistindo um filme que tenta me convencer que o
Keanu “Neo” Reeves pode personificar John Constantine
no cinema? Acho que ele comeu pílulas coloridas demais...
É
isso aí!
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