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Beagá, 20 de dezembro de 2004 d.C.
 

Seu Jorge é o Cara
Pouca gente já viu o show dele, achar o cd é quase um milagre, mas este é um dos melhores artistas da atualidade

Por Lulu Carabina
 

Se costumamos dar maior valor para tudo aquilo que conseguimos com esforço, Seu Jorge deve ser completamente apaixonado pela vida e pela arte. A história da vida dele já daria um filme. Quem diria que um cara brasileiro, negro e pobre conseguiria reconhecimento até internacional?

Pois é, Jorge Mário da Silva nasceu em 8 de junho de 70, primeiro filho de dona Sula e de seu Jorge, moradores de uma casinha de um cômodo em Belford Roxo, bairro da Baixada Fluminense.

Flamenguista, devoto de São Jorge e filho de Ogum, Jorge cresceu protegido, ajudando a mãe a tomar conta dos três irmãos mais novos. Aos 10 anos, começou em seu primeiro ofício: borracheiro. Ganhava pouco, mas o suficiente para ajudar em casa. E ainda sobrava um para pagar, do próprio bolso, o bilhete do cinema.

Jorge teve muitas profissões. Além de borracheiro, foi relojoeiro, marceneiro, office-boy, contínuo de banco. Desde garoto, já prestava atenção ao samba e apreciava ver o pai tocar percussão em orquestras de baile de carnaval, de coreto de praça, de parque de diversão.

A escola da vida

Quando já começava a ganhar a vida cantando em bares noturnos da zona norte carioca, uma tragédia mudou os rumos de seu destino: Vitório, o irmão do meio, morreu assassinado em uma chacina na padaria do bairro. A família se desestruturou e Jorge foi parar na rua.

Vagou durante três anos nas ruas do Rio de Janeiro, como um sem-teto. Em 1997, surgiu o convite do clarinetista Paulo Moura para um teste numa peça musical e Jorge foi parar no grupo de teatro “Tá na Rua”, de Amir Haddad.

A partir daí, ele encenou mais de 20 peças com a companhia TUERJ (Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e aprendeu vários novos ofícios: expressão corporal, cenografia, iluminação, cenotecnia e produção musical. Ainda conseguiu um canto para dormir e multiplicou amizades: integravam a companhia os atores Anselmo Vasconcellos, Antônio Pedro e Scarlet Moon, entre outros.

A experiência teatral foi um trampolim para a criação da banda Farofa Carioca, um combinado de samba, jongo, reggae, funk, rap, circo e dança. Participavam dos shows atores, bailarinos, trapezistas, malabaristas. O grupo cresceu e acabou sendo escalado para o Free Jazz Festival, em 1998.

Com Gabriel Moura e Bertrand Doussain e os outros cinco integrantes do Farofa, lançou em 1998 o Cd Moro no Brasil, no Brasil, em Portugal e no Japão. Seu primeiro disco solo é o elogiado Samba Esporte Fino, produzido por Mario Caldato Jr., o mesmo dos Beastie Boys. Entre suas principais influências estão Nelson Cavaquinho, Estação Primeira de Mangueira, Romário, Stevie Wonder e Zeca Pagodinho (entendeu porque ele está naquela propaganda de cerveja?).

Dos palcos para as telas

Já bastante conhecido em terras nacionais, Seu Jorge foi escalado para fazer cinema. E não poderia ter começado melhor: ele viveu Mané Galinha, um dos protagonistas de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.

Mas esse cara não para. Este ano foi chamado pelo diretor Wes Anderson (de Os Excêntricos Tenenbaums) para participar de The Life Aquatic, rodado na Itália. Seus companheiros de elenco são Anjelica Huston, Bill Murray, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Owen Wilson e Cate Blanchett. Seu Jorge ainda assina a trilha sonora do filme.

Em The Life Aquatic, Seu Jorge é Dos Santos, um marinheiro brasileiro a bordo de um navio ao estilo do Jacques Cousteau, capitaneado por um idealista submarino (Bill Murray). O personagem fala inglês, mas não muito. O negócio de Dos Santos, codinome Pelé, é animar a vida marítima e tocar um violão. Mais especificamente, canções de David Bowie, da fase glam/glitter, com letras em português.

Esse multi-artista é considerado um dos novos expoentes do samba-rock no Brasil e especialmente no exterior. Seu novo álbum, Cru, foi concebido na França e lançado primeiro lá fora, para depois chegar em terras brasileiras.

Se não tem cd, vai DVD mesmo

O DVD MTV Apresenta Seu Jorge é fruto tardio do disco de estréia do carioca, Samba Esporte Fino. Gravado no primeiro semestre de 2004 no Hotel Unique, em São Paulo, o show é uma verdadeira aula de suingue. Zeca Pagodinho é um dos artistas lembrados na apresentação, numa espécie de “roda-de-samba-pout-pourri”, apenas para cavaquinho e percussão.

Após a “pequena reunião”, baixo, bateria e guitarra voltam com tudo para trazer o agito do samba-rock de volta ao palco. Uma banda de primeira e a participação de Paula Lima em duas músicas completam o show.

O DVD ainda traz uma entrevista exclusiva com Seu Jorge, os bastidores do show e dois clipes - “Carolina”, em ritmo de gafieira, e “Tive razão”, filmado na Itália e com participações dos atores Willem Dafoe e Bill Murray.

Curiosidades Curiosas

Seu Jorge aprendeu música como corneteiro do Exército.

Seu Jorge é quem produz seus clipes e CDs

O apelido, “Seu Jorge”, ele ganhou do amigo Marcelo Yuka, baterista do grupo O Rappa.

Compôs para as trilhas sonoras dos longa-metragens Amores Possíveis, de Sandra Werneck, e A Partilha, de Daniel Filho.

Por falta de espaço na apertada agenda, Seu Jorge teve que recusar o convite para interpretar Madame Satã no filme sobre o legendário travesti e bandido carioca.

Seu Jorge é casado e tem uma filha, chamada Flor de Maria.

Dudu Nobre é seu primo por parte de mãe.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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