| Se costumamos dar maior valor para
tudo aquilo que conseguimos com esforço, Seu Jorge deve ser completamente
apaixonado pela vida e pela arte. A história da vida dele
já daria um filme. Quem diria que um cara brasileiro, negro
e pobre conseguiria reconhecimento até internacional?
Pois é, Jorge Mário da Silva nasceu em 8 de junho
de 70, primeiro filho de dona Sula e de seu Jorge, moradores de
uma casinha de um cômodo em Belford Roxo, bairro da Baixada
Fluminense.
Flamenguista, devoto de São Jorge e filho de Ogum, Jorge
cresceu protegido, ajudando a mãe a tomar conta dos três
irmãos mais novos. Aos 10 anos, começou em seu primeiro
ofício: borracheiro. Ganhava pouco, mas o suficiente para
ajudar em casa. E ainda sobrava um para pagar, do próprio
bolso, o bilhete do cinema.
Jorge teve muitas profissões. Além de borracheiro,
foi relojoeiro, marceneiro, office-boy, contínuo de banco.
Desde garoto, já prestava atenção ao samba
e apreciava ver o pai tocar percussão em orquestras de baile
de carnaval, de coreto de praça, de parque de diversão.
A escola da vida
Quando já começava a ganhar a vida cantando em bares
noturnos da zona norte carioca, uma tragédia mudou os rumos
de seu destino: Vitório, o irmão do meio, morreu
assassinado em uma chacina na padaria do bairro. A família
se desestruturou e Jorge foi parar na rua.
Vagou durante três anos nas ruas do Rio de Janeiro, como
um sem-teto. Em 1997, surgiu o convite do clarinetista Paulo Moura
para um teste numa peça musical e Jorge foi parar no grupo
de teatro “Tá na Rua”, de Amir Haddad.
A partir daí, ele encenou mais de 20 peças com a
companhia TUERJ (Teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
e aprendeu vários novos ofícios: expressão
corporal, cenografia, iluminação, cenotecnia e produção
musical. Ainda conseguiu um canto para dormir e multiplicou amizades:
integravam a companhia os atores Anselmo Vasconcellos, Antônio
Pedro e Scarlet Moon, entre outros.
A experiência teatral foi um trampolim para a criação
da banda Farofa Carioca, um combinado de samba, jongo, reggae,
funk, rap, circo e dança. Participavam dos shows atores,
bailarinos, trapezistas, malabaristas. O grupo cresceu e acabou
sendo escalado para o Free Jazz Festival, em 1998.
Com Gabriel Moura e Bertrand Doussain e os outros
cinco integrantes do Farofa, lançou em 1998 o Cd Moro no Brasil, no
Brasil, em Portugal e no Japão. Seu primeiro disco
solo é o elogiado Samba Esporte Fino, produzido
por Mario Caldato Jr., o mesmo dos Beastie Boys. Entre suas principais
influências estão Nelson Cavaquinho, Estação
Primeira de Mangueira, Romário, Stevie Wonder e Zeca Pagodinho
(entendeu porque ele está naquela propaganda de cerveja?).
Dos palcos para as telas
Já bastante conhecido em terras nacionais, Seu Jorge foi
escalado para fazer cinema. E não poderia ter começado
melhor: ele viveu Mané Galinha, um dos protagonistas de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.
Mas esse cara não para. Este ano foi chamado
pelo diretor Wes Anderson (de Os Excêntricos Tenenbaums) para participar
de The Life Aquatic, rodado na Itália. Seus companheiros
de elenco são Anjelica Huston, Bill Murray, Willem Dafoe,
Jeff Goldblum, Owen Wilson e Cate Blanchett. Seu Jorge ainda assina
a trilha sonora do filme.
Em The Life Aquatic, Seu Jorge é Dos Santos, um marinheiro
brasileiro a bordo de um navio ao estilo do Jacques Cousteau, capitaneado
por um idealista submarino (Bill Murray). O personagem fala inglês,
mas não muito. O negócio de Dos Santos, codinome
Pelé, é animar a vida marítima e tocar um
violão. Mais especificamente, canções de David
Bowie, da fase glam/glitter, com letras em português.
Esse multi-artista é considerado um dos novos expoentes
do samba-rock no Brasil e especialmente no exterior. Seu novo álbum, Cru,
foi concebido na França e lançado primeiro lá fora,
para depois chegar em terras brasileiras.
Se não tem cd, vai DVD mesmo
O DVD MTV Apresenta Seu Jorge é fruto tardio do disco de
estréia do carioca, Samba Esporte Fino. Gravado
no primeiro semestre de 2004 no Hotel Unique, em São Paulo, o show é uma
verdadeira aula de suingue. Zeca Pagodinho é um dos artistas
lembrados na apresentação, numa espécie de “roda-de-samba-pout-pourri”,
apenas para cavaquinho e percussão.
Após a “pequena reunião”, baixo, bateria
e guitarra voltam com tudo para trazer o agito do samba-rock de
volta ao palco. Uma banda de primeira e a participação
de Paula Lima em duas músicas completam o show.
O DVD ainda traz uma entrevista exclusiva com Seu
Jorge, os bastidores do show e dois clipes - “Carolina”, em ritmo de gafieira,
e “Tive razão”, filmado na Itália e com
participações dos atores Willem Dafoe e Bill Murray.
Curiosidades Curiosas
• Seu
Jorge aprendeu música como corneteiro do Exército.
• Seu
Jorge é quem produz seus clipes e
CDs
• O
apelido, “Seu Jorge”, ele ganhou
do amigo Marcelo Yuka, baterista do grupo O Rappa.
• Compôs para as trilhas sonoras dos longa-metragens Amores
Possíveis, de Sandra Werneck, e A Partilha, de Daniel Filho.
• Por
falta de espaço na apertada agenda,
Seu Jorge teve que recusar o convite para interpretar Madame
Satã no filme
sobre o legendário travesti e bandido carioca.
• Seu
Jorge é casado e tem uma filha, chamada
Flor de Maria.
• Dudu
Nobre é seu primo por parte de mãe.
É isso aí! |