| Ele tem 1001 utilidades, é
o mais querido da dona de casa e pode ser encontrado em todos os
lares. Mas será que a gente conheceria e iria gostar tanto
de uma simples palha de aço se ela não tivesse o mais
famoso garoto propaganda da história da publicidade brasileira?
Carlos
Moreno: a cara do Garoto Bombril
Uma
das razões do longo sucesso da campanha da Bombril é
o ator Carlos Moreno. Carlinhos tem uma formação multidisciplinar:
é arquiteto, formado pela FAU - Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com mestrado em
Graphic Design na Califórnia, EUA. E também ilustrador,
programador visual, figurinista e cenógrafo.
Iniciou
sua carreira de ator em São Paulo, como aluno de Naum Alves
de Souza, conhecido nos meios teatrais por seu trabalho criativo
e de grande efeito visual. Participou da formação
do Pod Minoga, grupo de teatro experimental, onde teve oportunidade
de desenvolver seu talento. Em 1971, o grupo se profissionalizou
e criou a comédia musical Folias Bíblicas,
um marco em sua carreira.
Oscar Caporalli, sócio de Andrés Bukowinski
na produtora de comerciais ABA Produções Cinematográficas,
assistiu a esse espetáculo. Impressionado com o ator, percebeu
que havia encontrado em Carlos Moreno o tipo perfeito para o personagem
que a agência DPZ procurava para a Bombril.
Na mesma noite agendou com Moreno o teste na produtora.
Entre 40 concorrentes, Carlos Moreno foi o vencedor; dando inicio
àquela que seria a mais longa carreira de um ator da publicidade
brasileira.
Nasce
o Garoto Bombril

A história
começa em 1978, quando o personagem foi concebido por Washington
Olivetto, redator, e Francesc Petit, diretor de arte, que formavam
uma dupla de criação na DPZ.
O objetivo da campanha era divulgar, os novos produtos
fabricados pela Bombril e associá-los a esponja de aço,
carro-chefe da empresa. Sem concorrentes no mercado, a esponja BomBril,
presente na televisão desde os anos 50, vendia milhões
de unidades por ano.
Mas por determinações da política
da empresa, a verba para aquela campanha era restrita. Além
disso, comerciais de produtos de limpeza não eram considerados
estimulantes do ponto de vista publicitário. Percebendo que
as consumidoras também não gostavam desse tipo de
comercial, machista e impositivo, Washington Olivetto e Francesc
Petit criaram uma fórmula que brincava com o fato.
Um
personagem frágil, de boas maneiras, porém humilde.
Era um rapaz delicado, bem humano: um químico da própria
empresa, tímido e desajeitado, constrangido por estar na
televisão para falar à dona de casa sobre os novos
produtos, que ele ajudou a fabricar. Muito educado, ele não
atacava os concorrentes, mas deixava claro que o produto dele tinha
sempre algo diferente.
Lembrando aqueles comerciais da década de
1950, quando ainda não havia o videoteipe, a ambientação
tinha um toque de improviso, de “feito na hora”. A aparente
falta de recursos cenográficos foi construída com
equilíbrio para os roteiros, que se apoiavam na interpretação
do ator. A logomarca enorme atrás, explorando o vermelho
forte e as formas arredondadas, praticamente envolvia o personagem.
O lançamento
da campanha foi um verdadeiro acontecimento. Urna pessoa normal,
fora dos estereótipos da publicidade, estava na televisão:
um anti-herói dos comerciais, cuja arma era o humor.
As vendas aumentaram, produtos da empresa tornaram-se
líderes de mercado na categoria, ameaçando marcas
tradicionais. Esses bons resultados encorajaram agência e
anunciante a repetir a fórmula ano após ano. O personagem
passou a ser o porta-voz da empresa, tornando-se indispensável
na divulgação de qualquer produto de sua fabricação.
A campanha
inovou a linguagem da publicidade, introduzindo a coloquialidade,
que iria influenciar uma série de outros comerciais. Também
quebrou padrões de comportamento masculino no universo televisivo,
de mostrar
explicitamente os produtos concorrentes, de utilizar capítulos
e ganchos, elementos da teledramaturgia. E há ainda o ineditismo
das “visitas” de outros personagens de comerciais, numa
alegoria ao imaginário da publicidade televisiva.
O
Garoto Bombril muda de casa
Em setembro de 1986, Washington Olivetto saiu da
DPZ para fundar sua própria agência e levou a conta
da Bombril. Garantiu, assim, a sobrevivência do personagem.
A imagem inicial do técnico se diluiu totalmente. O que se
manteve foi a simpatia, o jeito educado de passar as coisas, esse
lado mais cordial.
O senso de oportunidade, presente em todas as campanhas,
tornou o Garoto Bombril imperdível: planos econômicos,
crises do país, eleições, filmes em cartaz
na própria TV, comerciais de outros produtos, músicas
de sucesso, tudo isso era comentado com leveza, com intimidade,
com graça, em poucos segundos.
Sempre
havia uma expectativa em torno de como seria o próximo comercial.
Carregado de bom humor, o Garoto Bombril já incorporou o
jogador Ronaldo, a Mona Lisa, padre Marcelo Rossi, Xuxa, entre tantos
outros, sempre falando diretamente com as donas-de-casa.
A
história da substituição do Garoto Bombril
Em
1981, foram realizados três filmes, como se fossem capítulos
de uma história. No primeiro, o Garoto Bombril, muito triste,
tirava o avental da companhia e se despedia da dona de casa explicando
que havia perdido essa “boquinha” por fofoca e por acharem
seu jeito “meio assim”, insinuando sutilmente um trejeito
efeminado. No final, o cenário vazio e silencioso deixava
uma forte carga dramática no ar.
Parte do público levou a sério e passou
a congestionar as linhas telefônicas da empresa, a mandar
cartas, algumas ameaçando boicote aos produtos caso ele não
fosse recontratado. No mês seguinte, entrava no ar o segundo
filme, mostrando um substituto mandão e antipático,
que tentava fazer a propaganda, mas era vaiado e acabava saindo
furioso.
Pouco tempo depois foi veiculado o último
filme da série, com a volta do Garoto Bombril, muito feliz
e agradecendo “à senhora que escreveu lá para
a companhia. Porque emprego não está fácil
hoje em dia”. Essa foi a campanha mais famosa e premiada do
Garoto Bombril.
A
despedida do Garoto Bombril
Depois de 26 anos de sucesso, o Garoto Bombril também
alcançou “o direito à aposentadoria”.
Tanto Carlos Moreno quanto Washington Olivetto queriam que o personagem
saísse de cena ainda no auge.
Assim, em meio a uma grande expectativa, foi veiculado
dia 22 de agosto o último comercial da Bombril estrelado
pelo Garoto Bombril. E a sua despedida não foi diferente.
Singelo, ele pede: “Toda vez que você usar um produto
da Bombril você vai se lembrar de mim, promete?”. E
para deixar a dona de casa despreocupada, explica: “Não
se preocupem, fiz um bom pé-de-meia”.
O
comercial de despedida foi gravado em clima de comoção,
no dia 6 de agosto. Os atuais criadores das campanhas da marca,
Washington Olivetto e Gabriel Zellmeister, da W/Brasil, estiveram
no estúdio, assim como executivos do anunciante e, ao lado
de Carlos Moreno e do diretor de todos os filmes do Garoto Bombril,
Andres Bukowinsky, cortaram um bolo no qual se lia: “337 filmes
- 26 anos” e brindaram com champanhe.
Mas substituir o Garoto Bombril não será
uma tarefa fácil. Para isso, em sua nova campanha, a Bombril
pretende se transformar na primeira marca brasileira a dar voz às
minorias. Segundo a campanha “só a Bombril poderia
fazer isso. Porque Bombril é a marca da maioria. E o que
é a maioria, senão a soma de 1.001 minorias?”
Curiosidades
Curiosas
•
Os
primeiros comerciais não eram da esponja Bombril, mas dos
produtos da companhia, como Bril, RID e Sapólio Radium. O
sucesso foi tão grande que a participação do
personagem acabou sendo ampliada para a esponja, carro chefe da
empresa. Washington Olivetto cuidou do sucesso verbal do Garoto
Bombril, Francesc Petit resolveu o visual.
•
“Saída”
encontrada por Francesc Petit para o problema da altura do Carlinhos
Moreno - ele era mais alto do que o desejado para cumprir a tarefa
de dar vida a um herói tímido e cordial, o que era
a proposta da campanha. Para resolver a questão, Petit inventou
uma bancada mais alta que o normal, o que reduz Moreno a uma altura
compatível com os atributos do personagem.
•
O
sucesso nacional foi reconhecido mundialmente e em 1994 a campanha
da Bombril foi incluída no Guinness Book - Livro dos Recordes
como a série de publicidade mais longa do mundo.
•
Em
1997, o Garoto Bombril, que aparecia somente na telinha, ganhou
também a mídia impressa.
•
Pouco
depois de anunciar que deixaria as propagandas da Bombril, o ator
Carlos Moreno recebeu uma proposta da Assolan, maior concorrente
da marca, mas recusou. Para ele, a ética o impede de aceitar
o trabalho.

O quê?!? Você não viu a última
propaganda do Garoto Bombril? O vídeo
está no site da W/Brasil.
É isso aí!
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