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Beagá, 27 de setembro de 2004 d.C.
 

Ele vai deixar saudades... O adeus do Garoto Bombril

Por Lulu Carabina
 

Ele tem 1001 utilidades, é o mais querido da dona de casa e pode ser encontrado em todos os lares. Mas será que a gente conheceria e iria gostar tanto de uma simples palha de aço se ela não tivesse o mais famoso garoto propaganda da história da publicidade brasileira?

Carlos Moreno: a cara do Garoto Bombril

Uma das razões do longo sucesso da campanha da Bombril é o ator Carlos Moreno. Carlinhos tem uma formação multidisciplinar: é arquiteto, formado pela FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com mestrado em Graphic Design na Califórnia, EUA. E também ilustrador, programador visual, figurinista e cenógrafo.

Iniciou sua carreira de ator em São Paulo, como aluno de Naum Alves de Souza, conhecido nos meios teatrais por seu trabalho criativo e de grande efeito visual. Participou da formação do Pod Minoga, grupo de teatro experimental, onde teve oportunidade de desenvolver seu talento. Em 1971, o grupo se profissionalizou e criou a comédia musical Folias Bíblicas, um marco em sua carreira.

Oscar Caporalli, sócio de Andrés Bukowinski na produtora de comerciais ABA Produções Cinematográficas, assistiu a esse espetáculo. Impressionado com o ator, percebeu que havia encontrado em Carlos Moreno o tipo perfeito para o personagem que a agência DPZ procurava para a Bombril.

Na mesma noite agendou com Moreno o teste na produtora. Entre 40 concorrentes, Carlos Moreno foi o vencedor; dando inicio àquela que seria a mais longa carreira de um ator da publicidade brasileira.

Nasce o Garoto Bombril

A história começa em 1978, quando o personagem foi concebido por Washington Olivetto, redator, e Francesc Petit, diretor de arte, que formavam uma dupla de criação na DPZ.

O objetivo da campanha era divulgar, os novos produtos fabricados pela Bombril e associá-los a esponja de aço, carro-chefe da empresa. Sem concorrentes no mercado, a esponja BomBril, presente na televisão desde os anos 50, vendia milhões de unidades por ano.

Mas por determinações da política da empresa, a verba para aquela campanha era restrita. Além disso, comerciais de produtos de limpeza não eram considerados estimulantes do ponto de vista publicitário. Percebendo que as consumidoras também não gostavam desse tipo de comercial, machista e impositivo, Washington Olivetto e Francesc Petit criaram uma fórmula que brincava com o fato.

Um personagem frágil, de boas maneiras, porém humilde. Era um rapaz delicado, bem humano: um químico da própria empresa, tímido e desajeitado, constrangido por estar na televisão para falar à dona de casa sobre os novos produtos, que ele ajudou a fabricar. Muito educado, ele não atacava os concorrentes, mas deixava claro que o produto dele tinha sempre algo diferente.

Lembrando aqueles comerciais da década de 1950, quando ainda não havia o videoteipe, a ambientação tinha um toque de improviso, de “feito na hora”. A aparente falta de recursos cenográficos foi construída com equilíbrio para os roteiros, que se apoiavam na interpretação do ator. A logomarca enorme atrás, explorando o vermelho forte e as formas arredondadas, praticamente envolvia o personagem.

O lançamento da campanha foi um verdadeiro acontecimento. Urna pessoa normal, fora dos estereótipos da publicidade, estava na televisão: um anti-herói dos comerciais, cuja arma era o humor.

As vendas aumentaram, produtos da empresa tornaram-se líderes de mercado na categoria, ameaçando marcas tradicionais. Esses bons resultados encorajaram agência e anunciante a repetir a fórmula ano após ano. O personagem passou a ser o porta-voz da empresa, tornando-se indispensável na divulgação de qualquer produto de sua fabricação.

A campanha inovou a linguagem da publicidade, introduzindo a coloquialidade, que iria influenciar uma série de outros comerciais. Também quebrou padrões de comportamento masculino no universo televisivo, de mostrar explicitamente os produtos concorrentes, de utilizar capítulos e ganchos, elementos da teledramaturgia. E há ainda o ineditismo das “visitas” de outros personagens de comerciais, numa alegoria ao imaginário da publicidade televisiva.

O Garoto Bombril muda de casa

Em setembro de 1986, Washington Olivetto saiu da DPZ para fundar sua própria agência e levou a conta da Bombril. Garantiu, assim, a sobrevivência do personagem. A imagem inicial do técnico se diluiu totalmente. O que se manteve foi a simpatia, o jeito educado de passar as coisas, esse lado mais cordial.

O senso de oportunidade, presente em todas as campanhas, tornou o Garoto Bombril imperdível: planos econômicos, crises do país, eleições, filmes em cartaz na própria TV, comerciais de outros produtos, músicas de sucesso, tudo isso era comentado com leveza, com intimidade, com graça, em poucos segundos.

Sempre havia uma expectativa em torno de como seria o próximo comercial. Carregado de bom humor, o Garoto Bombril já incorporou o jogador Ronaldo, a Mona Lisa, padre Marcelo Rossi, Xuxa, entre tantos outros, sempre falando diretamente com as donas-de-casa.

A história da substituição do Garoto Bombril

Em 1981, foram realizados três filmes, como se fossem capítulos de uma história. No primeiro, o Garoto Bombril, muito triste, tirava o avental da companhia e se despedia da dona de casa explicando que havia perdido essa “boquinha” por fofoca e por acharem seu jeito “meio assim”, insinuando sutilmente um trejeito efeminado. No final, o cenário vazio e silencioso deixava uma forte carga dramática no ar.

Parte do público levou a sério e passou a congestionar as linhas telefônicas da empresa, a mandar cartas, algumas ameaçando boicote aos produtos caso ele não fosse recontratado. No mês seguinte, entrava no ar o segundo filme, mostrando um substituto mandão e antipático, que tentava fazer a propaganda, mas era vaiado e acabava saindo furioso.

Pouco tempo depois foi veiculado o último filme da série, com a volta do Garoto Bombril, muito feliz e agradecendo “à senhora que escreveu lá para a companhia. Porque emprego não está fácil hoje em dia”. Essa foi a campanha mais famosa e premiada do Garoto Bombril.

A despedida do Garoto Bombril

Depois de 26 anos de sucesso, o Garoto Bombril também alcançou “o direito à aposentadoria”. Tanto Carlos Moreno quanto Washington Olivetto queriam que o personagem saísse de cena ainda no auge.

Assim, em meio a uma grande expectativa, foi veiculado dia 22 de agosto o último comercial da Bombril estrelado pelo Garoto Bombril. E a sua despedida não foi diferente. Singelo, ele pede: “Toda vez que você usar um produto da Bombril você vai se lembrar de mim, promete?”. E para deixar a dona de casa despreocupada, explica: “Não se preocupem, fiz um bom pé-de-meia”.

O comercial de despedida foi gravado em clima de comoção, no dia 6 de agosto. Os atuais criadores das campanhas da marca, Washington Olivetto e Gabriel Zellmeister, da W/Brasil, estiveram no estúdio, assim como executivos do anunciante e, ao lado de Carlos Moreno e do diretor de todos os filmes do Garoto Bombril, Andres Bukowinsky, cortaram um bolo no qual se lia: “337 filmes - 26 anos” e brindaram com champanhe.

Mas substituir o Garoto Bombril não será uma tarefa fácil. Para isso, em sua nova campanha, a Bombril pretende se transformar na primeira marca brasileira a dar voz às minorias. Segundo a campanha “só a Bombril poderia fazer isso. Porque Bombril é a marca da maioria. E o que é a maioria, senão a soma de 1.001 minorias?”

Curiosidades Curiosas

Os primeiros comerciais não eram da esponja Bombril, mas dos produtos da companhia, como Bril, RID e Sapólio Radium. O sucesso foi tão grande que a participação do personagem acabou sendo ampliada para a esponja, carro chefe da empresa. Washington Olivetto cuidou do sucesso verbal do Garoto Bombril, Francesc Petit resolveu o visual.

“Saída” encontrada por Francesc Petit para o problema da altura do Carlinhos Moreno - ele era mais alto do que o desejado para cumprir a tarefa de dar vida a um herói tímido e cordial, o que era a proposta da campanha. Para resolver a questão, Petit inventou uma bancada mais alta que o normal, o que reduz Moreno a uma altura compatível com os atributos do personagem.

O sucesso nacional foi reconhecido mundialmente e em 1994 a campanha da Bombril foi incluída no Guinness Book - Livro dos Recordes como a série de publicidade mais longa do mundo.

Em 1997, o Garoto Bombril, que aparecia somente na telinha, ganhou também a mídia impressa.

Pouco depois de anunciar que deixaria as propagandas da Bombril, o ator Carlos Moreno recebeu uma proposta da Assolan, maior concorrente da marca, mas recusou. Para ele, a ética o impede de aceitar o trabalho.

O quê?!? Você não viu a última propaganda do Garoto Bombril? O vídeo está no site da W/Brasil.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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