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Beagá, 23 de agosto de 2004 d.C.
 

Michael Moore: o agitador
Você já tinha assistido um documentário no cinema antes de Tiros em Columbine?

Por Lulu Carabina
 

Michael Moore nasceu em 23 de abril de 1954, numa família de classe média na cidade de Flint, no Estado de Michigan, Estados Unidos. A cidade vivia em função de fábricas da General Motors (onde seu pai trabalhava), que fecharam as portas na década de 80 para cortar gastos. Abandonada e com cerca de 30 mil trabalhadores demitidos, a cidade virou sinônimo de decadência e chegou a ser citada na lista dos piores locais para se viver no país.

Adolescente rebelde na época em que Flint virou uma cidade-fantasma, Michael Moore virou porta-voz dos trabalhadores quando criou o jornal independente Flint Voice, que mais tarde se transformaria no Michigan Voice.

Pouco depois, com uma câmera na mão e muito atrevimento, o cineasta passou três anos tentando entrevistar Roger Smith, o presidente da GM e responsável pela saída da companhia da cidade. Ele perseguiu o executivo em Detroit, em festas e reuniões, para tentar tirar satisfações, mas nunca conseguiu arrancar dele uma palavra. O resultado de sua busca foi o documentário Roger e Eu, de 1989, que teve orçamento de US$ 250 mil. O dinheiro veio de bingos organizados na casa do cineasta. O filme se tornou o documentário mais lucrativo até então.

A próxima investida de Moore foi o programa TV Nation, no qual fez críticas sociais em forma de entretenimento durante dois anos. O show chegou a contratar um ex-agente da KGB para se certificar que Nixon realmente estava morto, além de outras façanhas.

Em 95 Moore produz seu primeiro filme de ficção, que inicialmente seria distribuído por um grande estúdio. Operação Canadá (Canadian Bacon, 1995) foi lançado mesmo depois que o estúdio desistiu do projeto. O filme conta a história de um presidente dos Estados Unidos que precisa de popularidade após a Guerra Fria. Os assessores acabam inventando que o Canadá pretende invadir o país, mas a mentira foge do controle e um xerife americano, interpretado por John Candy, comanda um destacamento que tenta ocupar o país vizinho. O ator morreu durante as filmagens e, por este motivo, o longa sofreu alterações.

O primeiro livro do cineasta foi Downsize This! (Enxugue Isso, 1996), que buscava razões para entender porque grandes corporações americanas faziam um movimento de migração nos anos 90. As empresas estavam se mudando para países de terceiro mundo e, segundo Moore, transformando os Estados Unidos numa nação de desempregados. E, mais uma vez com seu ar arrogante, ele saiu em defesa dos trabalhadores e confrontou as grandes corporações.

O livro inspirou o segundo documentário, The Big One (1997). Ao contrário de Roger e Eu, desta vez ele conseguiu uma entrevista com o CEO na Nike. O longa rendeu também mais uma série de tevê, chamada The Awful Truth - título que pode ser traduzido como "A Terrível Verdade", de 1999.

Exército de um homem só

Michael Moore deu seu passo decisivo contra o governo dos Estados Unidos com Tiros em Columbine, o primeiro documentário a concorrer à Palma de Ouro em Cannes depois de 46 anos.

O longa foi vencedor de diversos prêmios internacionais, como o César (França) de melhor filme estrangeiro. Novamente com a câmera na mão e sem pedir licença, o polêmico cineasta investiga a fascinação dos americanos por armas de fogo e mostra a facilidade em se adquirir rifles, pistolas e revólveres. Sobreviventes do massacre de Columbine - quando dois estudantes armados invadiram uma escola e atiraram indiscriminadamente - também participam do longa. Neste filme, Moore utilizou sua carteirinha de membro da National Rifle Association (Associação Nacional de Rifles) para conseguir uma entrevista com o ator Charlton Reston, que já foi presidente da entidade.

Na cerimônia de entrega do Oscar 2003, o gorducho, desconhecido para a maioria dos brasileiros, sobe ao palco para receber o prêmio de melhor documentário e pisa no calo de Bush. No inflamado discurso ao vivo, o vencedor afirmou que o presidente estava levando o país a uma guerra contra o Iraque por motivos fictícios.

Michael Moore: o escritor

Sem abandonar o tom de sátira em suas críticas e constantemente acusado de tentar se auto-promover, em 2001 o cineasta continuou desafiando George W. Bush no livro Stupid White Man - Uma Nação de Idiotas (Stupid White Men... and Other Sorry Excuses for the State of the Nation). Nele, Moore relata a corrupção no governo americano, além de se aprofundar na análise da eleição de 2000, na qual Bush foi eleito - segundo uma versão defendida por muitos - devido a uma fraude na contagem dos votos na Flórida, estado governado por seu irmão, Jeb. O título vendeu mais de três milhões de cópias em todo o mundo e foi traduzido para 24 idiomas.

Em 2004 Moore aumenta sua lista de desafetos ao lançar outro best-seller: Cara, Cadê Meu País (Dude, Where is My Country?), no qual aborda questões que novamente colocam em dúvida a honestidade da administração do presidente republicano. Ele também acusa o clã Bush de ter relações com a família real saudita e ainda acusa a imprensa americana de omissão.

Com o objetivo de impedir a reeleição de Bush e furar a conspiração da qual a grande imprensa americana faz parte contra as perguntas embaraçosas, Moore faz também sete inquietantes questões ao presidente norte-americano. Ele acredita que encontrar as respostas é a única solução para peneirar as mentiras sobre os ataques de 11 de setembro e a guerra no Iraque.

O cineasta afirma que, para acabar com o terrorismo, é preciso antes que as nações hegemônicas deixem de bombardear os outros povos, propõe uma campanha a favor do pensamento e comportamento progressistas na América e, entre outras coisas, diz que Tom Hanks ou Oprah Winfrey seriam boas opções contra Bush para a presidência dos EUA.

A edição brasileira do livro, lançado no Brasil pela W11 Editores, tem um prólogo exclusivo escrito pelo autor. Na mensagem especial aos brasileiros, ele diz: “A coisa mais assustadora a nosso respeito é que não sabemos nada a respeito de vocês”.

Fahrenheit 9/11

Para os integrantes da Casa Branca, bem que Michael Moore pode ser visto como um elemento perigoso. Porque ele é o homem que está tentando derrubar o presidente. Começando pela Flórida e dando várias voltas até o Iraque, o novo filme de Moore, Fahrenheit 9/11, humilha, condena e brutalmente desfaz do Presidente e de seus assessores diretos. No filme, Moore se posiciona veementemente contra a atual política do governo norte-americano, comandando por George W. Bush.

O longa é uma crítica mordaz à forma como o governo norte-americano conduziu a investigação sobre os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e manipulou a opinião pública do país para gerar uma onda de medo com o objetivo de ter apoio para seus planos de guerra contra o Iraque.

Principal opositor da era Bush, Moore enfrentou dificuldades para lançar o filme nos EUA. O grupo Disney, que comanda o estúdio Miramax, negou-se a distribuí-lo. Um estúdio independente do Canadá, o Lions Gate Films, acabou assumindo a distribuição do longa-metragem nos Estados Unidos e saiu no lucro: o documentário arrecadou 23,9 milhões de dólares apenas no final de semana de estréia.

Você quer ter Fahrenheit 9/11 no seu computador?

O diretor norte-americano Michael Moore liberou o download de Fahrenheit 9/11 via programas para trocar arquivos pela internet, como o Kazaa, Morpheus e eDonkey. As distribuidoras de Fahrenheit 9/11 - o primeiro documentário a liderar a bilheteria nos Estados Unidos - parecem aceitar o ponto de vista de Moore: até o momento, elas não tomaram providências para impedir os downloads.

O sucesso de Fahrenheit 9/11 tem facilitado a vida do cineasta Michael Moore para a realização do seu próximo filme. Com o título se tornando o primeiro documentário a ultrapassar a marca dos US$ 100 milhões de faturamento, Moore espera abrir caminho para arrecadar dinheiro para Sicko, sua crítica às organizações de saúde privadas dos EUA. Ele não quer dar detalhes, mas fala que o financiamento para a próxima película virá graças a Fahrenheit 9/11, que custou “somente” US$ 6 milhões.

Sites do cara:

http://www.michaelmoore.com
http://www.michaelmoore.com.br

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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