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Beagá, 03 de maio de 2004 d.C.
 

A Vida de Brian: Jesus Cristo segundo Monty Python
Porque Mel Gibson não é criativo e nem sabe fazer polêmica

Por Lulu Carabina
 

“Uma estrela cadente cruza os céus do Oriente Médio, dirigindo três reis magos no rumo de seu esperado Messias, ao som de um coro de inspiração religiosa. Sempre guiados pela estrada, eles chegam a um casebre onde acaba de nascer um menino, que eles presenteiam como se fosse o Senhor”. Isso parece familiar para você? Alguém já te contou esta história antes? Entretanto, uma turma de ingleses pode tornar tudo bem mais divertido... Pois, na história que eles contam, esse recém-nascido chama-se Brian e sua mãe é interpretada por ninguém menos que Terry Jones, o diretor do filme. Jesus é apenas seu vizinho.

Este prólogo, que dura menos de cinco minutos do filme, condensa exemplarmente o humor do grupo britânico Monty Python: paródia (no caso, dos filmes bíblicos), iconoclastia e, sobretudo, nonsense.

O segundo filme do grupo mostra uma sátira anárquica sobre a visão de Hollywood em relação aos temas bíblicos e à religião. A Vida de Brian conta a história de um sujeito da Judéia que vive uma vida paralela a de Jesus Cristo.

Aos 33 anos, vivendo em Jerusalém, Brian Cohen acaba, acidentalmente, participando de inúmeras confusões. Militando na “Frente do Povo Judeu” (um dos inúmeros grupelhos que combatem o imperialismo romano) ou tentando convencer multidões crédulas de que não é o Messias que elas esperam, ele está sempre no lugar errado na hora errada.

As pessoas começam a pensar que ele é o salvador da humanidade e o seguem como um grande sábio. Só que ele não passa de um grande idiota que só quer se ver livre de toda aquela gente. Em suas peripécias, Brian acaba vivendo cenas bíblicas e tendo que enfrentar desafios semelhantes aos do Messias.

Tudo começa quando ele finge ser um pregador para fugir da guarda romana, mas suas pregações são levadas a sério e ele ganha uma horda de seguidores. Brian se mete em um monte de confusões ao ter suas tolas palavras entendidas como profecias e ser caçado pelos soldados romanos. No decorrer da narrativa, ele se depara com diversas figuras históricas e bíblicas satirizadas pelo filme.

A trajetória de Brian (ela mesma uma referência burlesca à volta de Cristo) é um prato cheio para o Monty Python destilar sua sátira não apenas à religião (judaica e cristã), mas também ao imperialismo, ao machismo e ao feminismo, sempre recorrendo às soluções mais inesperadas e até absurdas. O grupo (John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin e Graham Chapman) brilha em múltiplos papéis à medida que eles imitam a todos e a tudo: ex-leprosos, Pôncio Pilatos, profetas malucos, centuriões romanos e crucificados.

Politicamente incorreto ao extremo e um dos filmes mais divertidos do grupo, A Vida de Brian chegou a ser considerado uma blasfêmia, mas o bom senso e o bom humor foram mais fortes e o filme emplacou.

Agora, todos nós, pobres mortais, temos a oportunidade de alcançar a salvação, digo, assistir a esta obra prima do humor inglês, pois o filme foi relançado em cópia restaurada em DVD.

Por trás das câmeras

Anos antes de A Vida de Brian ser produzido, alguém perguntou a Eric Idle qual seria o próximo filme do Monty Python. Ele respondeu brincando: “Jesus Christ: Lust for Glory (ou “Jesus Cristo: Luxúria por glória”). Os comediantes do grupo começaram a gostar da idéia de uma comédia situada nesta época da história e uma cena imaginada envolvia Jesus, um exímio carpinteiro, frustrado ao tentar ser crucificado em uma cruz mal feita.

O título do filme acabou sofrendo diversas alterações antes do lançamento. Uma das opções consideradas foi exatamente Jesus Christ: Lust for Glory, mas os produtores acabaram votando contra este nome.

O filme foi financiado pela EMI originalmente, mas o estúdio decidiu se retirar do projeto por considerá-lo blasfemo. O Monty Python processou a EMI e resolveu o conflito fora do tribunal. Para sua realização, o filme foi então bancado através da Handmade Films, produtora que George Harrison criou especialmente para este fim.

Aliás, George Harrison decidiu se envolver com o projeto, pois acreditava que esta seria sua última chance de ver um filme do Monty Python. O músico faz inclusive uma ponta como Sr. Papadopolous, proprietário do “O Monte”, que aperta a mão de Brian e diz “Olá” com um sotaque bem característico de Liverpool.

Curiosidades Curiosas

Em comemoração aos 25 anos de A Vida de Brian (Monty Python's Life of Brian - 1979), a distribuidora Rainbow relançou o filme nos Estados Unidos. O plano foi contrapor a gozação do Monty Python à histeria que cerca o filme A Paixão de Cristo, do australiano Mel Gibson.

Seis membros do elenco (John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin e Graham Chapman) interpretaram cerca de 40 personagens.

A Vida de Brian foi lançado na Itália somente no início dos anos 90, sem ser mencionado que o filme foi feito em 1979. O sucesso de público foi tamanho que E Agora, Para Algo Completamente Diferente, que o Monty Python filmou em 1971, foi relançado nos cinemas.

A cena em que a “Frente Popular dos Judeus” vai atrás do grupo suicida contém mais imagens que não foram incluídas no filme. Outra cena parcialmente cortada é aquela em que a esposa de Pôncio Pilatos é seqüestrada e dá uma pancada na cabeça de Brian.

A Vida de Brian foi banido na Noruega porque autoridades o consideraram herege. Como conseqüência, o marketing do filme na Suécia passou a adotar a frase: “O filme que é tão engraçado que foi banido na Noruega!”.

Na Irlanda, A Vida de Brian ficou banido durante oito anos, também por acusação de blasfêmia.

O roteiro foi escrito no Caribe, onde os integrantes do Monty Python tinham amizade com vários artistas, entre eles Keith Moon, baterista da banda The Who. Mais tarde, quando foi lançado o livro baseado no filme, o roteiro completo foi incluído e dedicado a Moon, que morreu nesse meio tempo.

A cena em que Brian e os outros estão em suas cruzes foi filmada no início da manhã, quando estava muito frio. É por isso que podemos ver John Cleese vestindo roupas e os outros não.

John Cleese queria interpretar Brian, ansioso para fazer sua carreira crescer interpretando seu primeiro papel principal em um filme. O restante do Monty Python preferiu Graham Chapman para viver o personagem. Cleese logo concordou que Chapman era uma opção melhor e deixou o colega com o papel.

No final dos créditos, logo depois da marca de copyright, há uma recomendação: “Se você gostou deste filme, por que não vai assistir a A Noite?” - este longa, de 1961, foi dirigido pelo italiano Michelangelo Antonioni.

A Vida de Brian tinha originalmente mais de duas horas de duração, mas foi editado para reduzir o tempo depois de testes de projeção realizados com o público. Entre as cenas que foram cortadas estão uma seqüência de abertura em que três pastores vão ao nascimento de Brian e mais cenas com Rei Otto (algumas foram restauradas e incluídas no lançamento do filme em DVD).

Na próxima semana, vocês vão conhecer um pouco mais sobre o Monty Python, grupo inglês que revolucionou o humor no cinema e na televisão mundial. Isto sim deveria ser o típico humor inglês!

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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