| Se você tem entre 20 e trinta
e poucos anos, você já ouviu falar do Nirvana e já
achou que camisas de flanela eram o máximo. Hoje em dia,
os adolescentes acham que Seattle é uma cidade qualquer e
mal sabem a letra de “Smells Like Teen Spirit”.
Mas
não podemos negar: se não fosse pelo Nirvana e todas
as outras bandas que vieram na sua cola, talvez o rock and roll
hoje seria algo mais farofa. Parece que foi ontem, ou semana passada,
mas há 10 anos o líder do Nirvana resolveu dar cabo
da própria vida.
Todo
fim tem um começo
Kurt Donald Cobain era filho de um mecânico
e uma secretária. O casal se separou quando o garoto tinha
sete anos. Devido à sua hiper-atividade, Kurt precisou tomar
sedativos durante a infância. O menino morou com vários
parentes até sua adolescência, que foi dividida entre
discos dos Beatles, de heavy metal e punk rock.
A primeira banda de Kurt Cobain atendia pelo nome
de Fecal Matter e tinha, além de Kurt nos vocais e guitarra,
Dale Crover (ex-Melvins) na bateria e Greg Hokanson no baixo. O
Fecal Matter durou pouco: foi o tempo de gravar uma demo com três
sons e fazer alguns shows abrindo para o Melvins.
Logo
depois, Kurt reuniu-se com Chris Novoselic, que ele conhecia da
época de escola, para formar um novo grupo. Pelas baquetas,
passaram vários bateristas, mas o que ficou mais tempo foi
Aaron Burckhard. O trio mudou de nome várias vezes: começou
com Skid Row, virou Bliss, depois Windowpane, Ted Ed Fred e, finalmente,
Nirvana. Kurt já tinha um repertório pronto e a banda
passou a fazer vários shows.
No início de 1986, o cenário musical
de Seattle ainda não se destacava e a sua única grande
contribuição para o mundo do rock havia sido a figura
de Jimi Hendrix. Em 11 de junho daquele ano, o Nirvana lançou
seu single “Lovebuzz”, cover de uma banda pop alemã.
Nesse lançamento, o Nirvana era formado por Kurt Cobain (guitarra,
vocais), Chris Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria). O single
foi um sucesso e o Nirvana passou a fazer turnês por clubes
alternativos.
O
som anticomercial da banda foi muito bem aceito. Com isso, o Nirvana
começou a trabalhar em seu primeiro álbum - Bleach.
Devido ao ritmo alucinante de shows, as músicas e letras
eram terminadas ou mesmo compostas poucos minutos antes da gravação.
A produção se encarregava de tornar o som mais aceitável
e comercial.
Já com um contrato com a Sub Pop (selo de
música alternativa de Seattle que lançou várias
bandas punks e as primeiras bandas da cena grunge), o Nirvana saiu
em uma extensa turnê de divulgação pelos Estados
Unidos. Por cada cidade que passavam o número de pessoas
aumentava, e a fama da banda começava a chegar antes dela
com a divulgação em rádios alternativas.
Ao
final da turnê gravaram um disco de pequena duração
chamado Blew, lançado apenas nos Estados Unidos.
A convite da banda revelação de Seattle na época,
Tad, o Nirvana os acompanhou como banda de abertura em uma turnê
pela Europa. Em um dos shows, chamaram a atenção de
um executivo da gravadora Geffen.
Apesar
das ligações afetivas com a Sub Pop, o Nirvana não
podia negar um contrato com uma gravadora maior. Além do
mais, o preço pago pela Geffen à Sub Pop pela rescisão
do contrato do Nirvana era suficiente para tirar a gravadora do
buraco.
Nesse ínterim, o baterista Chad Channing
saiu de vez da banda por diferenças musicais. No período
de 86 a 90, o Nirvana teve cinco bateristas diferentes. Mas as baquetas
seriam finalmente conquistadas por David Grohl. Ainda em 1990, Kurt
conheceu Courtney Love, depois de tocar em Portland, no estado de
Oregon.
Nevermind
e a onda grunge
O
disco ficou pronto na metade de 1991, mas a gravadora só
o lançou no dia 24 de setembro. A tiragem inicial de oito
mil cópias para a Inglaterra e 40 mil para os Estados Unidos
esgotou em poucos dias. Um mês depois do lançamento
o grupo ganhava o disco de ouro.
No final de 1991, o Nirvana partiu para uma turnê
na Europa, marcada por problemas de saúde de Kurt. Ele se
queixava de dores de estômago fortíssimas e dizia que
se drogava pra aliviar o sofrimento.
Do dia para a noite o disco pula para o topo das
paradas, mesmo sem divulgação em rádios ou
MTV. Em menos de um mês a banda sai do quase anonimato e passa
a ter de escolher as entrevistas e programas de TV de que vai participar.
De repente, o som de Seattle, juntamente com o visual
clássico dos jovens da cidade, com bermudas e camisas de
flanela, estava na moda. Desde os Sex Pistols o underground não
vendia tanto. Apesar de terem se tornado milionários instantaneamente,
a banda continuava quebrando os mesmos equipamentos baratos em seus
shows.
O sucesso do Nirvana de imediato alavancou a carreira
de dezenas de bandas da cidade de Seattle, como Melvins, Tad, Mudhoney
(que mais tarde viria a dar origem ao Pearl Jam) e Soundgarden.
Embora não houvesse uma identidade musical entre elas, durante
dois anos foram poucos os novos grupos a explodirem sem usar bermudas
e camisas de flanela.
Entretanto,
com Nevermind o Nirvana também ficou completamente
exposto à mídia. O clipe “Smells Like Teen Spirit”
tocava repetidamente na MTV e foi considerado o porta-voz de uma
geração adolescente. Logo depois vieram “Come
As You Are”, “In Bloom” e o hino “Lithium”.
Tudo
que sobe, desce
Em
1992, em meio às imensas turnês e devido à falta
de tempo para lançar material inédito, a gravadora
lança Incesticide, uma coletânea de gravações
inéditas, lados B, demos ou faixas raras lançadas
em coletâneas. Naquele mesmo ano, Kurt se casa com Courtney
Love no Havaí. Ela usou um vestido antigo que pertenceu à
atriz Frances Farmer e ele, um pijama.
Mas Nirvana já estava em sua fase terminal.
Kurt sofria terrivelmente de problemas estomacais e se drogava cada
vez mais. Naquele período, aconteceram as apresentações
no Brasil. No camarim, o músico ficava num canto, tendo náuseas
e vômitos.
Em
1993 é lançado In Utero. A banda parecia
estar numa encruzilhada. Era praticamente impossível repetir
o sucesso de Nevermind. Em maio, Kurt quase morreu de overdose.
Um mês depois, a polícia teve que intervir numa briga
entre Kurt e Courtney e achou três armas na casa onde moravam.
Numa manhã, no final de julho, outra overdose de Kurt.
No fim, Kurt Cobain acabou se tornando o que mais
odiava, um ídolo pop. Em suas letras eram descobertos muito
mais significados e poesia do que ele próprio supunha. Kurt
sentia-se roubado de sua rebeldia, tomada e vendida pela mídia.
Era o começo de 1994 e Kurt procurava, aos
poucos, anunciar o fim do Nirvana, dizendo que os três tinham
idéias musicais que não poderiam expressar na banda
e estavam cansados daquele tipo de som.
Os fãs perceberam que o fim estava próximo
quando Kurt entrou em coma em Roma, após misturar champanhe
com barbitúricos. No dia 18 de março, em casa, Kurt
se trancou no quarto com uma arma e a polícia teve de tirá-lo
à força. Ao mesmo tempo, Courtney ia agilizando a
papelada do divórcio.

Quando
Kurt foi internado numa clínica de desintoxicação,
a banda precisou cancelar a turnê européia. No começo
de abril, a mãe de Kurt procurou a polícia, preocupada
com o sumiço do filho. Na sexta-feira, dia 8, o corpo foi
encontrado num quartinho sobre a garagem de sua casa. Cobain, de
27 anos, havia se matado com um tiro na cabeça e decretado
o fim de uma das bandas mais importantes dos anos 90.
Rock
and Roll is not dead!
Durante meses o mundo do rock lamentou. Kurt Cobain
foi aclamado como símbolo de seu tempo e considerado o John
Lennon de sua geração. Kurt e o Nirvana revitalizaram
o mundo do rock e colocaram-no de volta no caminho certo quando
ele mais precisava.
Em um tempo no qual todas as bandas pareciam estar
se tornando sintéticas, artificiais e pouco originais, os
esforços de Kurt Cobain nos ajudaram a lembrar como o rock’n’roll
deveria ser. Seus versos introspectivos e muito pessoais convenceram
um gasto cenário do rock a acreditar novamente em si mesmo.
Em
novembro de 94 foi lançado o Unplugged da MTV americana.
Unplugged In New York é o último projeto
de Kurt, um show ensaiado exaustivamente nos últimos dias
de sua produção.
Curiosidades
curiosas
•
No
disco Bleach, o nome do guitarrista e vocalista da banda
constava no encarte como Kurdt Kobain. O outro guitarrista citado
no encarte era Jason Everman, que não tocou no disco. Seu
nome apareceu por ter financiado a gravação, que custara
pouco mais de 600 dólares.
•
Kurt
Cobain compôs a canção “Smells Like Teen
Spirit” depois que uma amiga escreveu em uma parede “Kurt
smells like teen spirit”. O músico achou que a frase
queria dizer apenas que ele seria capaz de promover uma rebelião
juvenil. Na verdade, a garota achou que Kurt tinha o cheiro de um
desodorante chamado Teen Spirit.
•
Depois
de ser muito pressionado, Kurt admitiu ter copiado a linha de baixo
da música “Come As You Are” de uma canção
do grupo pós-punk Killing Joke.
•
Cobain
possuía uma coleção de armas e adorava tirar
fotos apontando-as para sua cabeça.
•
O
título original do disco In Utero era I Hate
Myself And I Want To Die, mas por pressões da gravadora
o nome foi mudado.
É
isso aí!
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