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Beagá, 26 de abril de 2004 d.C.
 

Em busca do nirvana?
Há dez anos, Kurt Cobain desistiu da vida

Por Lulu Carabina
 

Se você tem entre 20 e trinta e poucos anos, você já ouviu falar do Nirvana e já achou que camisas de flanela eram o máximo. Hoje em dia, os adolescentes acham que Seattle é uma cidade qualquer e mal sabem a letra de “Smells Like Teen Spirit”.

Mas não podemos negar: se não fosse pelo Nirvana e todas as outras bandas que vieram na sua cola, talvez o rock and roll hoje seria algo mais farofa. Parece que foi ontem, ou semana passada, mas há 10 anos o líder do Nirvana resolveu dar cabo da própria vida.

Todo fim tem um começo

Kurt Donald Cobain era filho de um mecânico e uma secretária. O casal se separou quando o garoto tinha sete anos. Devido à sua hiper-atividade, Kurt precisou tomar sedativos durante a infância. O menino morou com vários parentes até sua adolescência, que foi dividida entre discos dos Beatles, de heavy metal e punk rock.

A primeira banda de Kurt Cobain atendia pelo nome de Fecal Matter e tinha, além de Kurt nos vocais e guitarra, Dale Crover (ex-Melvins) na bateria e Greg Hokanson no baixo. O Fecal Matter durou pouco: foi o tempo de gravar uma demo com três sons e fazer alguns shows abrindo para o Melvins.

Logo depois, Kurt reuniu-se com Chris Novoselic, que ele conhecia da época de escola, para formar um novo grupo. Pelas baquetas, passaram vários bateristas, mas o que ficou mais tempo foi Aaron Burckhard. O trio mudou de nome várias vezes: começou com Skid Row, virou Bliss, depois Windowpane, Ted Ed Fred e, finalmente, Nirvana. Kurt já tinha um repertório pronto e a banda passou a fazer vários shows.

No início de 1986, o cenário musical de Seattle ainda não se destacava e a sua única grande contribuição para o mundo do rock havia sido a figura de Jimi Hendrix. Em 11 de junho daquele ano, o Nirvana lançou seu single “Lovebuzz”, cover de uma banda pop alemã. Nesse lançamento, o Nirvana era formado por Kurt Cobain (guitarra, vocais), Chris Novoselic (baixo) e Chad Channing (bateria). O single foi um sucesso e o Nirvana passou a fazer turnês por clubes alternativos.

O som anticomercial da banda foi muito bem aceito. Com isso, o Nirvana começou a trabalhar em seu primeiro álbum - Bleach. Devido ao ritmo alucinante de shows, as músicas e letras eram terminadas ou mesmo compostas poucos minutos antes da gravação. A produção se encarregava de tornar o som mais aceitável e comercial.

Já com um contrato com a Sub Pop (selo de música alternativa de Seattle que lançou várias bandas punks e as primeiras bandas da cena grunge), o Nirvana saiu em uma extensa turnê de divulgação pelos Estados Unidos. Por cada cidade que passavam o número de pessoas aumentava, e a fama da banda começava a chegar antes dela com a divulgação em rádios alternativas.

Ao final da turnê gravaram um disco de pequena duração chamado Blew, lançado apenas nos Estados Unidos. A convite da banda revelação de Seattle na época, Tad, o Nirvana os acompanhou como banda de abertura em uma turnê pela Europa. Em um dos shows, chamaram a atenção de um executivo da gravadora Geffen.

Apesar das ligações afetivas com a Sub Pop, o Nirvana não podia negar um contrato com uma gravadora maior. Além do mais, o preço pago pela Geffen à Sub Pop pela rescisão do contrato do Nirvana era suficiente para tirar a gravadora do buraco.

Nesse ínterim, o baterista Chad Channing saiu de vez da banda por diferenças musicais. No período de 86 a 90, o Nirvana teve cinco bateristas diferentes. Mas as baquetas seriam finalmente conquistadas por David Grohl. Ainda em 1990, Kurt conheceu Courtney Love, depois de tocar em Portland, no estado de Oregon.

Nevermind e a onda grunge

O disco ficou pronto na metade de 1991, mas a gravadora só o lançou no dia 24 de setembro. A tiragem inicial de oito mil cópias para a Inglaterra e 40 mil para os Estados Unidos esgotou em poucos dias. Um mês depois do lançamento o grupo ganhava o disco de ouro.

No final de 1991, o Nirvana partiu para uma turnê na Europa, marcada por problemas de saúde de Kurt. Ele se queixava de dores de estômago fortíssimas e dizia que se drogava pra aliviar o sofrimento.

Do dia para a noite o disco pula para o topo das paradas, mesmo sem divulgação em rádios ou MTV. Em menos de um mês a banda sai do quase anonimato e passa a ter de escolher as entrevistas e programas de TV de que vai participar.

De repente, o som de Seattle, juntamente com o visual clássico dos jovens da cidade, com bermudas e camisas de flanela, estava na moda. Desde os Sex Pistols o underground não vendia tanto. Apesar de terem se tornado milionários instantaneamente, a banda continuava quebrando os mesmos equipamentos baratos em seus shows.

O sucesso do Nirvana de imediato alavancou a carreira de dezenas de bandas da cidade de Seattle, como Melvins, Tad, Mudhoney (que mais tarde viria a dar origem ao Pearl Jam) e Soundgarden. Embora não houvesse uma identidade musical entre elas, durante dois anos foram poucos os novos grupos a explodirem sem usar bermudas e camisas de flanela.

Entretanto, com Nevermind o Nirvana também ficou completamente exposto à mídia. O clipe “Smells Like Teen Spirit” tocava repetidamente na MTV e foi considerado o porta-voz de uma geração adolescente. Logo depois vieram “Come As You Are”, “In Bloom” e o hino “Lithium”.

Tudo que sobe, desce

Em 1992, em meio às imensas turnês e devido à falta de tempo para lançar material inédito, a gravadora lança Incesticide, uma coletânea de gravações inéditas, lados B, demos ou faixas raras lançadas em coletâneas. Naquele mesmo ano, Kurt se casa com Courtney Love no Havaí. Ela usou um vestido antigo que pertenceu à atriz Frances Farmer e ele, um pijama.

Mas Nirvana já estava em sua fase terminal. Kurt sofria terrivelmente de problemas estomacais e se drogava cada vez mais. Naquele período, aconteceram as apresentações no Brasil. No camarim, o músico ficava num canto, tendo náuseas e vômitos.

Em 1993 é lançado In Utero. A banda parecia estar numa encruzilhada. Era praticamente impossível repetir o sucesso de Nevermind. Em maio, Kurt quase morreu de overdose. Um mês depois, a polícia teve que intervir numa briga entre Kurt e Courtney e achou três armas na casa onde moravam. Numa manhã, no final de julho, outra overdose de Kurt.

No fim, Kurt Cobain acabou se tornando o que mais odiava, um ídolo pop. Em suas letras eram descobertos muito mais significados e poesia do que ele próprio supunha. Kurt sentia-se roubado de sua rebeldia, tomada e vendida pela mídia.

Era o começo de 1994 e Kurt procurava, aos poucos, anunciar o fim do Nirvana, dizendo que os três tinham idéias musicais que não poderiam expressar na banda e estavam cansados daquele tipo de som.

Os fãs perceberam que o fim estava próximo quando Kurt entrou em coma em Roma, após misturar champanhe com barbitúricos. No dia 18 de março, em casa, Kurt se trancou no quarto com uma arma e a polícia teve de tirá-lo à força. Ao mesmo tempo, Courtney ia agilizando a papelada do divórcio.

Quando Kurt foi internado numa clínica de desintoxicação, a banda precisou cancelar a turnê européia. No começo de abril, a mãe de Kurt procurou a polícia, preocupada com o sumiço do filho. Na sexta-feira, dia 8, o corpo foi encontrado num quartinho sobre a garagem de sua casa. Cobain, de 27 anos, havia se matado com um tiro na cabeça e decretado o fim de uma das bandas mais importantes dos anos 90.

Rock and Roll is not dead!

Durante meses o mundo do rock lamentou. Kurt Cobain foi aclamado como símbolo de seu tempo e considerado o John Lennon de sua geração. Kurt e o Nirvana revitalizaram o mundo do rock e colocaram-no de volta no caminho certo quando ele mais precisava.

Em um tempo no qual todas as bandas pareciam estar se tornando sintéticas, artificiais e pouco originais, os esforços de Kurt Cobain nos ajudaram a lembrar como o rock’n’roll deveria ser. Seus versos introspectivos e muito pessoais convenceram um gasto cenário do rock a acreditar novamente em si mesmo.

Em novembro de 94 foi lançado o Unplugged da MTV americana. Unplugged In New York é o último projeto de Kurt, um show ensaiado exaustivamente nos últimos dias de sua produção.

Curiosidades curiosas

No disco Bleach, o nome do guitarrista e vocalista da banda constava no encarte como Kurdt Kobain. O outro guitarrista citado no encarte era Jason Everman, que não tocou no disco. Seu nome apareceu por ter financiado a gravação, que custara pouco mais de 600 dólares.

Kurt Cobain compôs a canção “Smells Like Teen Spirit” depois que uma amiga escreveu em uma parede “Kurt smells like teen spirit”. O músico achou que a frase queria dizer apenas que ele seria capaz de promover uma rebelião juvenil. Na verdade, a garota achou que Kurt tinha o cheiro de um desodorante chamado Teen Spirit.

Depois de ser muito pressionado, Kurt admitiu ter copiado a linha de baixo da música “Come As You Are” de uma canção do grupo pós-punk Killing Joke.

Cobain possuía uma coleção de armas e adorava tirar fotos apontando-as para sua cabeça.

O título original do disco In Utero era I Hate Myself And I Want To Die, mas por pressões da gravadora o nome foi mudado.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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