| Como
já havíamos comentado no artigo
anterior, para a sorte da sétima arte e a alegria dos
cinéfilos Stanley Kubrick precisou se mudar para a Inglaterra
(onde permaneceu até o fim de sua vida) para evitar a censura
e conseguir realizar seus filmes do jeito que queria. E o negócio
deu tão certo que foi após os anos 60 que o diretor
acabou realizando seus melhores filmes.
A
fase inglesa
A
parceira entre Stanley Kubrick e o produtor James B. Harris foi
retomada em 1962 para realizar Lolita, baseado no romance
do escritor russo Vladimir Nabokov. O filme, que causou enorme polêmica,
narra a paixão de um professor maduro por uma ninfeta extremamente
sensual. Realizado em preto-e-branco, o filme foi rodado já
na Inglaterra.
No
trabalho seguinte, o romantismo deu lugar uma crítica ácida
e devastadora à Guerra Fria em Doutor Fantástico
ou Como eu aprendi a não me preocupar e amar a bomba,
realizado em 1964. Peter Sellers, que havia trabalhado com Kubrick
em Lolita, faz aqui uma de suas mais geniais interpretações
de toda a sua carreira.
Dr.
Fantástico foi uma jogada muito arriscada para o diretor,
porque a ameaça nuclear não poderia ser considerada
tema para uma comédia. Apesar de o roteiro ter sido originalmente
escrito como um drama, Kubrick resolveu que todas aquelas idéias
eram muito engraçadas para serem levadas a sério.
O filme acabou se tornando um sucesso de público e crítica,
o que proporcionou a Kubrick uma liberdade financeira e artística
para realizar qualquer projeto que ele desejasse.
Isso
criou as condições para que o diretor realizasse sua
obra-prima, que revolucionou a ficção científica
e deu a ele seu único Oscar, por efeitos visuais. Em 2001
- Uma Odisséia no Espaço (1968), Kubrick sintetiza
milhões de anos na mitológica seqüência
do troglodita que joga um osso para o espaço e este se transforma
em nave espacial.
Para
construir sua visão do futuro, o diretor recrutou o trabalho
dos mais diversos especialistas, entre eles o co-roteirista Arthur
Clarke, autor do conto inspirador do filme (A Sentinela,
que por sua vez gerou um livro), e até técnicos da
NASA.
Em
1971, Kubrick adaptou outro romance polêmico: Laranja
Mecânica, do britânico Anthony Burgess. Ambientado
num futuro próximo, na Inglaterra, conta a história
de um bando de delinqüentes juvenis, liderados por Alex (Malcolm
MacDowell) e apaixonados pelo que chamam de ultraviolência.
Eles praticam todos os tipos de atrocidades depois de tomar uma
mistura de leite e drogas.
O
filme examina os processos de enquadramento forçado do indivíduo
em regras de conduta baseadas em princípios morais, religiosos
e éticos no mínimo discutíveis. Laranja
Mecânica foi um dos filmes mais polêmicos dos anos
70, tendo espalhado controvérsia em dezenas de países
em que foi exibido pela maneira com que eram mostradas as cenas
de violência e sexo.
Destaque
para a montagem que Kubrick fez neste filme, que é realmente
genial, com o incrível uso da música de Ludwig von
Beethoven, Edward Elgar e Rossini para criar uma espécie
de dança coreografada da violência, apresentada com
uma elegância de estilo poucas vezes vista no cinema.
Quatro
anos depois, Stanley Kubrick fez um relato cômico e sarcástico
do século 18. Barry Lyndon conta a história
de um soldado conquistador e aventureiro sem escrúpulos (Ryan
O’Neill), que é convocado para a guerra na Inglaterra.
Envolve-se em seguidas falcatruas, fugindo sempre dos maridos traídos
ou dos adversários de jogos em que perdeu dinheiro. Este
filme tem uma fotografia primorosa, principalmente nas cenas externas,
para as quais Kubrick recorreu novamente à NASA, de quem
encomendou um tipo de lente especial para que pudesse captar a luminosidade
que planejou.
Em 1980, Kubrick realizou “O Iluminado”,
baseado no livro The Shining, de Stephen King. O filme mostra um
escritor desconhecido (Jack Nicholson) que aceita o emprego de zelador
de um hotel nas montanhas fora de temporada. Completamente isolado
da civilização, o hotel passa a provocar alucinações
nele e em sua família. Além de materializar imagens
de pessoas que morreram dentro de seus quartos, o local desperta
impulsos homicidas.
O iluminado do título é o garoto (Danny
Lloyd), que possui poderes extra-sensoriais. O filme é um
dos melhores momentos da carreira de Nicholson, que nunca mais se
livrou dos maneirismos que criou para esse seu personagem.
E
novamente, a guerra
Depois,
uma pausa: em 1987, Stanley Kubrick realiza Nascido para Matar.
O roteiro, baseado no livro The Short Times, foi escrito
pelo próprio autor, Gustav Hasford, e por Stanley Kubrick.

O filme mostra a trajetória do soldado Joker,
desde o pesadelo do serviço militar, com o treinamento insano
comandado por um sargento obcecado pelo Corpo de Fuzileiros Navais,
até o horror da guerra do Vietnã.
Talvez
cansado de tudo, ou apenas em busca de uma nova boa história,
Kubrick fez com que o público precisasse aguardar longos
anos para ver seu novo filme. E o diretor novamente causou polêmica,
convidando o casal Tom Cruise e Nicole Kidman para contracenarem
em De Olhos Bem Fechados. Este seria o último filme
de Kubrick e foi finalizado após a sua morte.
Baseado
no romance de 1926 Traumnovelle, do dramaturgo vienense
Arthur Schnitzler, Eyes Wide Shut (expressão contraditória
que significa algo como “Olhos Arregaladamente Fechados”)
sofreu manipulação digital em 65 segundos para maquiar
as cenas de sexo e nudez mais ofensivas ao decoro americano. Assim,
o filme escapou da temível classificação NC-17,
que proíbe menores de 18 anos nos cinemas e poderia reduzir
em até 50% o faturamento, segundo cálculos dos executivos
de Hollywood.
Apesar
disso, o que permaneceu é que Kubrick era, enfim, um rebelde.
Fazia o filme que queria, do jeito que queria. Preferia não
filmar a filmar o que não lhe agradava, Preferia ser chamado
de imoral a ser chamado de omisso. Kubrick nunca fez um filme que
não dissesse alguma coisa. Seu discurso até podia
soar ambíguo, mas era sempre coerente. Sua morte foi uma
perda irreparável para o cinema mundial.
Curiosidades
•
Certa
vez, um grupo tentou exibir o filme Fear and Desire em
uma sala no Estados Unidos, mas foi proibido pelo próprio
diretor, que considerava sua estréia nos longas algo “constrangedor”,
“amador demais”.
•
Apesar
de fazer filmes com bitola 35mm (filme cinematográfico padrão),
iniciando o take das cenas, ao invés de fazer como a maioria
dos diretores e exclamar: “Luz, câmera, ação!”,
Kubrick gritava: “Luz, VÍDEO, ação!”.
•
Kubrick
foi chamado como segunda opção para dirigir Spartacus,
porque Kirk Douglas havia despedido o diretor Anthony Mann após
duas semanas de filmagens. Talvez seja por isso que o diretor não
considerava inteiramente seu este primeiro longa-metragem em cores
realizado por ele.
•
Depois
de informações de que Laranja Mecânica
havia sido inspirado em gangues que realmente existiram na Inglaterra,
Kubrick temeu por sua segurança. O diretor recolheu os filmes
da distribuidora e proibiu que fosse exibido na Grã-Bretanha
durante sua vida.
•
Antes
de filmar O Iluminado, Kubrick teve um convite para dirigir
a seqüência de O Exorcista.
•
Ao
filmar O Iluminado, Kubrick gastou cerca de 390 mil metros
de película (mais da metade da distância entre o Rio
de Janeiro e São Paulo) para um filme com 142 minutos de
duração (2.800 metros). Isto é, Kubrick utilizou
menos de 1% do material total filmado, realizando uma média
de 102 takes por plano do filme, enquanto que a média normal
é 10 takes por plano.
•
O
diretor não gostava de dar entrevistas nem de falar de seus
filmes, mas aparece no making of do filme O Iluminado feito
por sua filha Vivian.
Ficou
com vontade de conhecer a obra de Stanley Kubrick? Procure nas locadoras
a caixa de dvds que tem todos os filmes em cópias remasterizadas.
E não se preocupe, porque mesmo os trabalhos de Kubrick considerados
não tão bons estão muito acima da média
do que é visto e feito ultimamente no cinema.
É
isso aí!
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