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Beagá, 22 de março de 2004 d.C.
 

A.I. para mim não conta!
De Lolita a De olhos bem fechados: mais da obra do genial Stanley Kubrick

Por Lulu Carabina
 

Como já havíamos comentado no artigo anterior, para a sorte da sétima arte e a alegria dos cinéfilos Stanley Kubrick precisou se mudar para a Inglaterra (onde permaneceu até o fim de sua vida) para evitar a censura e conseguir realizar seus filmes do jeito que queria. E o negócio deu tão certo que foi após os anos 60 que o diretor acabou realizando seus melhores filmes.

A fase inglesa

A parceira entre Stanley Kubrick e o produtor James B. Harris foi retomada em 1962 para realizar Lolita, baseado no romance do escritor russo Vladimir Nabokov. O filme, que causou enorme polêmica, narra a paixão de um professor maduro por uma ninfeta extremamente sensual. Realizado em preto-e-branco, o filme foi rodado já na Inglaterra.

No trabalho seguinte, o romantismo deu lugar uma crítica ácida e devastadora à Guerra Fria em Doutor Fantástico ou Como eu aprendi a não me preocupar e amar a bomba, realizado em 1964. Peter Sellers, que havia trabalhado com Kubrick em Lolita, faz aqui uma de suas mais geniais interpretações de toda a sua carreira.

Dr. Fantástico foi uma jogada muito arriscada para o diretor, porque a ameaça nuclear não poderia ser considerada tema para uma comédia. Apesar de o roteiro ter sido originalmente escrito como um drama, Kubrick resolveu que todas aquelas idéias eram muito engraçadas para serem levadas a sério. O filme acabou se tornando um sucesso de público e crítica, o que proporcionou a Kubrick uma liberdade financeira e artística para realizar qualquer projeto que ele desejasse.

Isso criou as condições para que o diretor realizasse sua obra-prima, que revolucionou a ficção científica e deu a ele seu único Oscar, por efeitos visuais. Em 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), Kubrick sintetiza milhões de anos na mitológica seqüência do troglodita que joga um osso para o espaço e este se transforma em nave espacial.

Para construir sua visão do futuro, o diretor recrutou o trabalho dos mais diversos especialistas, entre eles o co-roteirista Arthur Clarke, autor do conto inspirador do filme (A Sentinela, que por sua vez gerou um livro), e até técnicos da NASA.

Em 1971, Kubrick adaptou outro romance polêmico: Laranja Mecânica, do britânico Anthony Burgess. Ambientado num futuro próximo, na Inglaterra, conta a história de um bando de delinqüentes juvenis, liderados por Alex (Malcolm MacDowell) e apaixonados pelo que chamam de ultraviolência. Eles praticam todos os tipos de atrocidades depois de tomar uma mistura de leite e drogas.

O filme examina os processos de enquadramento forçado do indivíduo em regras de conduta baseadas em princípios morais, religiosos e éticos no mínimo discutíveis. Laranja Mecânica foi um dos filmes mais polêmicos dos anos 70, tendo espalhado controvérsia em dezenas de países em que foi exibido pela maneira com que eram mostradas as cenas de violência e sexo.

Destaque para a montagem que Kubrick fez neste filme, que é realmente genial, com o incrível uso da música de Ludwig von Beethoven, Edward Elgar e Rossini para criar uma espécie de dança coreografada da violência, apresentada com uma elegância de estilo poucas vezes vista no cinema.

Quatro anos depois, Stanley Kubrick fez um relato cômico e sarcástico do século 18. Barry Lyndon conta a história de um soldado conquistador e aventureiro sem escrúpulos (Ryan O’Neill), que é convocado para a guerra na Inglaterra. Envolve-se em seguidas falcatruas, fugindo sempre dos maridos traídos ou dos adversários de jogos em que perdeu dinheiro. Este filme tem uma fotografia primorosa, principalmente nas cenas externas, para as quais Kubrick recorreu novamente à NASA, de quem encomendou um tipo de lente especial para que pudesse captar a luminosidade que planejou.

Em 1980, Kubrick realizou “O Iluminado”, baseado no livro The Shining, de Stephen King. O filme mostra um escritor desconhecido (Jack Nicholson) que aceita o emprego de zelador de um hotel nas montanhas fora de temporada. Completamente isolado da civilização, o hotel passa a provocar alucinações nele e em sua família. Além de materializar imagens de pessoas que morreram dentro de seus quartos, o local desperta impulsos homicidas.

O iluminado do título é o garoto (Danny Lloyd), que possui poderes extra-sensoriais. O filme é um dos melhores momentos da carreira de Nicholson, que nunca mais se livrou dos maneirismos que criou para esse seu personagem.

E novamente, a guerra

Depois, uma pausa: em 1987, Stanley Kubrick realiza Nascido para Matar. O roteiro, baseado no livro The Short Times, foi escrito pelo próprio autor, Gustav Hasford, e por Stanley Kubrick.

O filme mostra a trajetória do soldado Joker, desde o pesadelo do serviço militar, com o treinamento insano comandado por um sargento obcecado pelo Corpo de Fuzileiros Navais, até o horror da guerra do Vietnã.

Talvez cansado de tudo, ou apenas em busca de uma nova boa história, Kubrick fez com que o público precisasse aguardar longos anos para ver seu novo filme. E o diretor novamente causou polêmica, convidando o casal Tom Cruise e Nicole Kidman para contracenarem em De Olhos Bem Fechados. Este seria o último filme de Kubrick e foi finalizado após a sua morte.

Baseado no romance de 1926 Traumnovelle, do dramaturgo vienense Arthur Schnitzler, Eyes Wide Shut (expressão contraditória que significa algo como “Olhos Arregaladamente Fechados”) sofreu manipulação digital em 65 segundos para maquiar as cenas de sexo e nudez mais ofensivas ao decoro americano. Assim, o filme escapou da temível classificação NC-17, que proíbe menores de 18 anos nos cinemas e poderia reduzir em até 50% o faturamento, segundo cálculos dos executivos de Hollywood.

Apesar disso, o que permaneceu é que Kubrick era, enfim, um rebelde. Fazia o filme que queria, do jeito que queria. Preferia não filmar a filmar o que não lhe agradava, Preferia ser chamado de imoral a ser chamado de omisso. Kubrick nunca fez um filme que não dissesse alguma coisa. Seu discurso até podia soar ambíguo, mas era sempre coerente. Sua morte foi uma perda irreparável para o cinema mundial.

Curiosidades

Certa vez, um grupo tentou exibir o filme Fear and Desire em uma sala no Estados Unidos, mas foi proibido pelo próprio diretor, que considerava sua estréia nos longas algo “constrangedor”, “amador demais”.

Apesar de fazer filmes com bitola 35mm (filme cinematográfico padrão), iniciando o take das cenas, ao invés de fazer como a maioria dos diretores e exclamar: “Luz, câmera, ação!”, Kubrick gritava: “Luz, VÍDEO, ação!”.

Kubrick foi chamado como segunda opção para dirigir Spartacus, porque Kirk Douglas havia despedido o diretor Anthony Mann após duas semanas de filmagens. Talvez seja por isso que o diretor não considerava inteiramente seu este primeiro longa-metragem em cores realizado por ele.

Depois de informações de que Laranja Mecânica havia sido inspirado em gangues que realmente existiram na Inglaterra, Kubrick temeu por sua segurança. O diretor recolheu os filmes da distribuidora e proibiu que fosse exibido na Grã-Bretanha durante sua vida.

Antes de filmar O Iluminado, Kubrick teve um convite para dirigir a seqüência de O Exorcista.

Ao filmar O Iluminado, Kubrick gastou cerca de 390 mil metros de película (mais da metade da distância entre o Rio de Janeiro e São Paulo) para um filme com 142 minutos de duração (2.800 metros). Isto é, Kubrick utilizou menos de 1% do material total filmado, realizando uma média de 102 takes por plano do filme, enquanto que a média normal é 10 takes por plano.

O diretor não gostava de dar entrevistas nem de falar de seus filmes, mas aparece no making of do filme O Iluminado feito por sua filha Vivian.

Ficou com vontade de conhecer a obra de Stanley Kubrick? Procure nas locadoras a caixa de dvds que tem todos os filmes em cópias remasterizadas. E não se preocupe, porque mesmo os trabalhos de Kubrick considerados não tão bons estão muito acima da média do que é visto e feito ultimamente no cinema.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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