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Beagá, 20 de outubro de 2003 d.C.
 

25 anos de bons filmes
No dia 15 de outubro, o Cine Humberto Mauro completou 25 anos sempre exibindo o que há de melhor na cinematografia nacional e mundial

Por Lulu Carabina
 

Reconhecido em Minas Gerais como centro de referência do cinema não-comercial, o Cine Humberto Mauro é reduto de cinéfilos e estudiosos. É o único espaço do gênero dedicado à formação de público através de mostras, festivais e lançamento de filmes, assim como de debates, palestras e seminários relacionados à produção cinematográfica mundial.

História

Inaugurado em 1978, o Cine Humberto Mauro é tradicionalmente o cinema de arte e circuito alternativo de Belo Horizonte, mantendo este perfil nestes vinte e cinco anos de atividade no Palácio das Artes.

A criação da Sala Humberto Mauro aconteceu com a intenção de consolidar uma programação alternativa: filmes em 16 milímetros, filmes em preto-e-branco, mostras de cinematecas e embaixadas ou filmes importantes que não teriam espaço para reapresentação no circuito comercial.

As atividades do Cine Humberto Mauro foram iniciadas, oficialmente, no dia 15 de outubro de 1978. Entretanto, cinco anos antes, a Turma do Cinema já fazia algumas exibições de filmes em 16 mm nas instalações do Palácio das Artes, levando os projetores e sentando-se no chão, o que já dava indícios de uma movimentação que mostrava a necessidade de um espaço próprio para cinema naquele local.

Nessa época, foi criado o Centro de Documentação Artística e Audiovisual, que pretendia ser um setor de documentação das atividades do Palácio. A Fundação Clóvis Salgado possuía um projetor de 16 milímetros e eram feitas sessões fechadas, numa sala pequena, com caráter didático. A lotação máxima da sala era de 40 pessoas.

Com a doação de um projetor de 35 milímetros pela Fiat, as sessões foram ampliadas e o Grande Teatro passou a ser o local de exibição dos filmes. As fitas eram exibidas aos sábados e domingos, às 16 horas, antes dos espetáculos principais. Mas como o espaço era grande, com 1500 lugares, e as sessões não passavam de 200 espectadores, o teatro oferecia uma sensação de vazio.

A solução encontrada foi a criação de uma sala própria, num espaço vazio da Galeria Genesco Murta.

Tudo começou com o Projeto Humberto Mauro

Dia 15 de outubro de 1978 foi inaugurada a nova sala de projeção de filmes e produtos audiovisuais do Palácio das Artes, iniciando também o Projeto Humberto Mauro - em referência ao diretor mineiro pioneiro da cinematografia brasileira.

O Projeto Humberto Mauro tinha duração prevista até 15 de dezembro daquele ano, apresentando filmes, seminários e conferências com a participação de vários críticos e representantes da Embrafilme.

A primeira programação da sala, que ficou em cartaz de 15 de outubro a 5 de novembro de 1978, apresentou uma retrospectiva de Humberto Mauro, com a apresentação de todos os seus longas-metragens e uma seleção de curtas, um festival de filmes da Cinédia e uma mostra de curtas brasileiros e mineiros daquele período.

Dez anos depois

Após dez anos de existência, a sala batizada com o nome do patrono do cinema no Brasil contava com uma série de elementos que faziam dela um espaço diferente: em primeiro lugar, o objetivo de consolidar uma programação alternativa, com filmes não exibidos em circuito comercial ou filmes relevantes que não teriam novamente espaço nas casas de exibição mais importantes.

Em segundo lugar, estava um engajamento direto com a produção cinematográfica de Minas: ali aconteceriam estréias de curtas e longas, debates sobre as questões relacionadas à produção de cinema, reabertura do Centro de Estudos Cinematográficos - CEC, comemorações e homenagens. Em terceiro lugar, ali estava uma das saídas para a pasmaceira cinematográfica em que se encontrava o nosso estado.

A Sala enfrentou diversas adversidades antes de se consolidar. Por um lado, anos de preconceito e discriminação por parte dos distribuidores; por outro, a própria dificuldade de administrar uma sala integrante do circuito alternativo: filmes que não chegavam a tempo para a exibição, latas que se extraviavam.

Debutando

Aos quinze anos, era inegável o vínculo entre a Sala Humberto Mauro e a produção de cinema em Minas. O curta-metragem mineiro viveu uma fase de outro no início dos anos 80. A Sala Humberto Mauro era o espaço natural para a apresentação de obras como Um sorriso, por favor, de Jose Sette de Barros, e João Rosa, de Helvécio Ratton.

De dezembro de 96 a junho de 97, a Sala Humberto Mauro esteve fechada para reformas. O espaço ganhou novos carpetes, nova iluminação, um moderno sistema de ar condicionado, melhorias na inclinação e recebeu novas poltronas. Inclusive, para maior conforto do público, teve sua capacidade diminuída de 164 para 158 lugares.

Curiosidades

Um caso engraçado aconteceu durante a projeção da fita polonesa Iluminação, de Krizyzstof Zanussi. Como o projecionista era novo e ainda não tinha noções de cinema, ele fez uma confusão com os rolos, exibindo novamente cenas que já tinham passado. Mas como o filme tratava de questões da memória, os espectadores nem perceberam e pensaram que as cenas repetidas representavam a volta da memória.

A censura

O Cine Humberto Mauro foi um foco de resistência contra a ditadura militar. Vários filmes proibidos pela censura eram exibidos clandestinamente no Palácio das Artes. Por exemplo, o censurado curta-metragem Leucemia, de Noilton de Almeida, foi cartaz de uma das mostras de inauguração da sala.

Teve uma censora que, durante uma retrospectiva do diretor alemão Fritz Lang, exigiu o certificado da censura do filme Metrópolis, dum tal de Dr. Mabuse. Para quem conhece a filmografia de Lang, sabe que a censora trocou alhos por bugalhos, misturando duas fitas distintas do cineasta - Metrópolis e O Testamento de Dr. Mabuse.

Uma mostra de filmes portugueses que tratavam da Revolução dos Cravos iria ser apresentada no Humberto Mauro. A mostra já tinha certificado de liberação da censura no Rio e em São Paulo. Mas quando chegou a BH, os censores mineiros vetaram todos os filmes.

Em outra oportunidade, uma viúva de general levantou-se no meio da sessão de Os Tecelões, filme da época pré-nazista, e disse para todo mundo ouvir que se tratava de uma fita comunista. A platéia reagiu chamando a mulher de louca, mas depois deste episódio as mostras da Sala Humberto Mauro passaram a contar com espiões da censura.

Outro caso engraçado aconteceu durante as sessões traduzidas de filmes alemães. O tradutor, que era de direita, via a mensagem subliminar das fitas e dava sua opinião para os espectadores.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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