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Beagá, 22 de setembro de 2003 d.C.
 
Uma liga "extra ordinária"
Pegaram uma história em quadrinhos sensacional e a transformaram num filme meia boca
Por Lulu Carabina
 

Ontem assisti ao filme A Liga Extraordinária. A idéia até que era boa. Fazer um filme baseado nos quadrinhos do genial Alan Moore.

A estória da revista, cujo título original é The League of Extraordinary Gentlemen, se passa em maio de 1898, em Dover, Inglaterra. Cumprindo ordens do misterioso M, o agente secreto Campion Bond convoca a Srta. Wilhelmina Murray para uma estranha missão. No passado, quando ainda era casada e usava o sobrenome Harker, Mina foi seduzida por um enigmático conde vindo da misteriosa Transilvânia e escapou por pouco de um destino pior do que a morte em suas mãos. Isso resultou no seu divórcio e a transformou numa mulher não muito bem vista na conservadora sociedade britânica. Por esses e outros misteriosos motivos, Mina Murray é a mulher ideal para levar adiante a tarefa que lhe é confiada: reunir um grupo de homens, cavalheiros extraordinários, para formar uma equipe de agentes secretos a serviço do império britânico. Os cavalheiros, espalhados pelos quatro cantos do mundo, são:

Capitão Nemo - Bravo revolucionário indiano e comandante do submarino Nautilus, que tantos problemas causou à Inglaterra e à França.

Allan Quatermain - Grande aventureiro no passado, hoje amargurado, viciado em ópio, já não é mais nem sombra do herói que um dia foi.

Hawley Griffin - Um homem que usou em si próprio uma fórmula que o tornou invisível.

Dr. Henry Jekyll - Brilhante médico, há anos é considerado morto. Ele compartilha uma estranha existência com o monstruoso Edward Hyde.

Os principais personagens são retirados de grandes obras da literatura. Veja: Mina Murray, Drácula, de Bram Stoker; Capitão Nemo, 20.000 Mil Léguas Submarinas e A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne; Alan Quatermain, As Minas do Rei Salomão e outras obras de H. Rider Haggard; Hawley Griffin, O Homem Invisível, de H. G. Wells; Dr. Henry Jekyll/Edward Hyde, O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Além destes, podemos também ver o policial Auguste Dupin, de Os Assassinatos da Rua Morgue e A Carta Roubada, de Edgar Alan Poe, e a Pollyana de Eleanor H. Porter.

O sempre talentoso Alan Moore nos traz uma história recheada de referências, tendo como base os grandes clássicos da literatura universal. A caracterização de época, bem como dos personagens, é ótima. Destaque para a detalhada arte de Kevin O'Neill, que cai como uma luva.

O único senão é a falta de um texto explicativo, comentando as referências presentes na obra, e também contando um pouco sobre os personagens, para aqueles que não conhecem a origem dos mesmos, ou os livros de onde eles surgiram. Mas isso só seria possível se houvesse mais páginas na revista, o que certamente a encareceria.

Falando em referências, elas dão um charme todo especial à história. Se você quiser saber delas com detalhes, em português, visite o site brasileiro dedicado a Alan Moore.

Ah, tá. O filme!

Como estava dizendo, a idéia até que era boa, já que os quadrinhos são excelentes e, de uma maneira geral, boas obras literárias proporcionam bons filmes, como O Senhor dos Anéis, 2001 - Uma Odisséia no Espaço, Minority Report, os filmes do Kenneth Branagh baseados nas obras de Shakespeare, só para citar alguns.

Mas A Liga Extraordinária não deu certo. O pessoal errou a mão com força...

O diretor Stephen Norrington não conseguiu repetir em A Liga... o mesmo trabalho bem feito que realizou em Blade. Para começar, ele viu a base do gibi ser esquartejada pelos executivos norte-americanos, num ilógico entra-e-sai de personagens.

Em seguida, conheceu a gana centralizadora de Sean Connery, astro e produtor da película. Norrington teve que aceitar a intrusão de Connery até na sala de edição. Para completar, durante as filmagens em Praga, as tempestades que castigaram a República Tcheca em 2002 inundaram estruturas e sets, provocando prejuízos estimados em sete milhões de dólares.

Já o filme não passa de uma ação entre amigos, cheio de uma correria desenfreada, num ritmo de cortes quase irritante. Isso sem falar nas distorções. O Capitão Nemo, que é de ascendência indiana, arrisca chutes de alguma luta oriental não identificada. O Homem Invisível some e reaparece sem explicações.

Na HQ, Mina Harker é tida como a líder e seus poderes vampíricos não são demonstrados e é ela (não Quartermain) quem reúne os outros extraordinários membros da Liga. Nos quadrinhos, Dorian Gray só existe num quadro na sala de M. No filme, ele surge ao lado de um Tom Sawyer adolescente, incluído na última hora pelos produtores, que temiam uma recusa dos americanos diante de super-heróis unicamente ingleses. Entretanto, na história original de Mark Twain, Sawyer é apenas um adolescente, além do fato do livro ser muito anterior aos outros heróis da trama.

Mas o filme seria até razoável se os problemas se limitassem apenas a isso. Entretanto, a película traz um vilão sem expressão (o que é um dos maiores problemas que qualquer história pode ter) e deixa o miolo sem identidade. Para completar, o visual é débil, com elementos digitalizados muito artificiais.

Os bons destaques, como a ótima interpretação de Stuart Townsend como o esnobe Dorian Gray, se perdem diante de tantas falhas. Um grande desperdício. É uma pena...

Se depois de tudo isso você ainda quiser ver o filme, pode ter uma amostra no site http://www.apple.com/trailers/fox/lxg/clips/, que disponibilizou vários mini-trailers dos personagens do filme A Liga Extraordinária.

Caso você tenha a capacidade de desligar o seu cérebro, não tiver lido a revistinha e nem conhecer a maior parte dos personagens, você até pode se divertir. Compre um grande balde de pipocas ou salgadinhos e relaxe na poltrona.

É isso aí!

 
Lulu Carabina é jornalista (adora provocar o editor), estudante de Relações Públicas, pode ser vista subindo em muros e paredões de rocha e costuma matar orcs feios e sujos nos fins de semana. Se você quer praticar RPG com ela, mande um e-mail para lulucarabina@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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