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Ontem
assisti ao filme A Liga Extraordinária. A idéia até que era
boa. Fazer um filme baseado nos quadrinhos do genial Alan Moore.
A estória
da revista, cujo título original é The League of Extraordinary
Gentlemen, se passa em maio de 1898, em Dover, Inglaterra. Cumprindo
ordens do misterioso M, o agente secreto Campion Bond convoca a
Srta. Wilhelmina Murray para uma estranha missão. No passado, quando
ainda era casada e usava o sobrenome Harker, Mina foi seduzida por
um enigmático conde vindo da misteriosa Transilvânia e escapou por
pouco de um destino pior do que a morte em suas mãos. Isso resultou
no seu divórcio e a transformou numa mulher não muito bem vista
na conservadora sociedade britânica. Por esses e outros misteriosos
motivos, Mina Murray é a mulher ideal para levar adiante a tarefa
que lhe é confiada: reunir um grupo de homens, cavalheiros extraordinários,
para formar uma equipe de agentes secretos a serviço do império
britânico. Os cavalheiros, espalhados pelos quatro cantos do mundo,
são:
Capitão
Nemo - Bravo revolucionário indiano e comandante do submarino
Nautilus, que tantos problemas causou à Inglaterra e à França.
Allan
Quatermain - Grande aventureiro no passado, hoje amargurado,
viciado em ópio, já não é mais nem sombra do herói que um dia foi.
Hawley
Griffin - Um homem que usou em si próprio uma fórmula que o
tornou invisível.
Dr.
Henry Jekyll - Brilhante médico, há anos é considerado morto.
Ele compartilha uma estranha existência com o monstruoso Edward
Hyde.

Os
principais personagens são retirados de grandes obras da literatura.
Veja: Mina Murray, Drácula, de Bram Stoker; Capitão Nemo,
20.000 Mil Léguas Submarinas e A Ilha Misteriosa,
de Júlio Verne; Alan Quatermain, As Minas do Rei Salomão
e outras obras de H. Rider Haggard; Hawley Griffin, O Homem Invisível,
de H. G. Wells; Dr. Henry Jekyll/Edward Hyde, O Médico e o Monstro,
de Robert Louis Stevenson. Além destes, podemos também ver o policial
Auguste Dupin, de Os Assassinatos da Rua Morgue e A Carta
Roubada, de Edgar Alan Poe, e a Pollyana de Eleanor H.
Porter.
O sempre
talentoso Alan Moore nos traz uma história recheada de referências,
tendo como base os grandes clássicos da literatura universal. A
caracterização de época, bem como dos personagens, é ótima. Destaque
para a detalhada arte de Kevin O'Neill, que cai como uma luva.
O único
senão é a falta de um texto explicativo, comentando as referências
presentes na obra, e também contando um pouco sobre os personagens,
para aqueles que não conhecem a origem dos mesmos, ou os livros
de onde eles surgiram. Mas isso só seria possível se houvesse mais
páginas na revista, o que certamente a encareceria.
Falando
em referências, elas dão um charme todo especial à história. Se
você quiser saber delas com detalhes, em português, visite o
site brasileiro dedicado a Alan Moore.

Ah,
tá. O filme!
Como
estava dizendo, a idéia até que era boa, já que os quadrinhos são
excelentes e, de uma maneira geral, boas obras literárias proporcionam
bons filmes, como O Senhor dos Anéis, 2001 - Uma Odisséia
no Espaço, Minority Report, os filmes do Kenneth Branagh
baseados nas obras de Shakespeare, só para citar alguns.
Mas
A Liga Extraordinária não deu certo. O pessoal errou a mão
com força...
O diretor
Stephen Norrington não conseguiu repetir em A Liga... o mesmo
trabalho bem feito que realizou em Blade. Para começar, ele
viu a base do gibi ser esquartejada pelos executivos norte-americanos,
num ilógico entra-e-sai de personagens.
Em
seguida, conheceu a gana centralizadora de Sean Connery, astro e
produtor da película. Norrington teve que aceitar a intrusão de
Connery até na sala de edição. Para completar, durante as filmagens
em Praga, as tempestades que castigaram a República Tcheca em 2002
inundaram estruturas e sets, provocando prejuízos estimados em sete
milhões de dólares.
Já
o filme não passa de uma ação entre amigos, cheio de uma correria
desenfreada, num ritmo de cortes quase irritante. Isso sem falar
nas distorções. O Capitão Nemo, que é de ascendência indiana, arrisca
chutes de alguma luta oriental não identificada. O Homem Invisível
some e reaparece sem explicações.
Na
HQ, Mina Harker é tida como a líder e seus poderes vampíricos não
são demonstrados e é ela (não Quartermain) quem reúne os outros
extraordinários membros da Liga. Nos quadrinhos, Dorian Gray só
existe num quadro na sala de M. No filme, ele surge ao lado de um
Tom Sawyer adolescente, incluído na última hora pelos produtores,
que temiam uma recusa dos americanos diante de super-heróis unicamente
ingleses. Entretanto, na história original de Mark Twain,
Sawyer é apenas um adolescente, além do fato do livro ser muito
anterior aos outros heróis da trama.
Mas
o filme seria até razoável se os problemas se limitassem apenas
a isso. Entretanto, a película traz um vilão sem expressão (o que
é um dos maiores problemas que qualquer história pode ter) e deixa
o miolo sem identidade. Para completar, o visual é débil, com elementos
digitalizados muito artificiais.
Os
bons destaques, como a ótima interpretação de Stuart Townsend como
o esnobe Dorian Gray, se perdem diante de tantas falhas. Um grande
desperdício. É uma pena...
Se
depois de tudo isso você ainda quiser ver o filme, pode ter uma
amostra no site http://www.apple.com/trailers/fox/lxg/clips/,
que disponibilizou vários mini-trailers dos personagens do filme
A Liga Extraordinária.
Caso
você tenha a capacidade de desligar o seu cérebro, não tiver lido
a revistinha e nem conhecer a maior parte dos personagens, você
até pode se divertir. Compre um grande balde de pipocas ou salgadinhos
e relaxe na poltrona.
É isso
aí!
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